1/07/05
O tempo passa e, com ele, as nossas melhores vontades. Na curva dos sessenta anos, me esforço para evitar o perigo das derrapagens físicas e psíquicas e vou me afastando aos poucos de hábitos que me pareciam definitivos.
Um deles é o de caminhar sem rumo definido pelas ruas do Centro, onde, ao longo dos anos, construí minha geografia sentimental. Ainda me arrisco ao enfrentamento da aventura das ruas, das praças e das calçadas, porque sempre há um ou outro compromisso agendado na que deveria ser a região mais nobre e valorizada da Capital.
Sempre, porém, com o olhar atento e o corpo em vigília para repelir os golpes dos batedores de carteira e me desviar do enxame de camelôs que atravancam suas tralhas nas calçadas em atitude desafiadora, considerando-se os donos do Centro por força de um mandamento legal pessoalíssimo.
Mas há outro fato que aos poucos vai matando minha relação amorosa com o centro da cidade. São as pichações indiscriminadas, que maculam a fisionomia do Centro com o mau gosto e o analfabetismo impune dos seus garranchos.
É quase impossível localizar um prédio, um viaduto, um monumento de praça imunes à ofensiva geral dos vândalos, que esgrimem seus recalques e frustrações com sinais delirantes. A ação dos pichadores do viaduto Otávio Rocha, na avenida Borges de Medeiros, é um caso típico da boçalidade galopante e impune que se apossou do espaço outrora respeitado do centro da cidade.
Malucos de todos os calibres exaram, nos paredões do viaduto, sentenças agressivas condenando pessoas ou chamando a atenção para temas da sua agenda lunática. Incrivelmente, se vê, também, desenhos de razoáveis proporções, subindo as paredes do velho e indefeso viaduto.
Seus atores autores agem com absoluta tranquilidade, amparados pela inação da autoridade policial, a indiferença das pessoas de bem e o não-importismo olímpico dos administradores da urbe, castigada na carne da sua altivez e do seu amor-próprio.
O aumento contínuo das pichações, a impunidade dos seus autores, a tolerância com que a sociedade assiste ao movimento de suas mãos criminosas, aumentam o peso da minha tristeza. E farão com que desista, de vez, da convivência com o Centro da minha cidade adotiva que, um dia, já foi bonita, bem cuidada e se entregava à contemplação do meu olhar cúmplice e orgulhoso.


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