Boicote à Escola Argentina começou há 20 anos
Naira Hofmeister
Depois de 68 anos instalada em sedes nos bairros Independência e Bom Fim, a relação da Escola Argentina com o bairro chega ao fim quando a casa da Rua Garibaldi será entregue ao proprietário, dia 31. O diretor-geral da SEC, Ervino Deon, antecipa que quando reabrir, a escola estará longe do centro. “Não há porque manter um vínculo meramente sentimental com o bairro. A Lomba do Pinheiro e a Restinga precisam muito mais”, defende Ervino.
Foram quatro sedes diferentes nos últimos 20 anos, vai e vem invariavelmente acompanhado da promessa da construção da sede definitiva.
Vasculhando os documentos arquivados na escola o que mais se encontra são solicitações de ex-diretores para que seja tomada uma providência definitiva. Cartas endereçadas à Alceu Colares, Olívio Dutra e até à primeira dama Rosane Collor de Melo. “Nossa escola luta há muito para conseguir um prédio onde possa se instalar definitivamente”, está escrito.
“Duvido”, contesta Yvone. Razões não faltam. Entre as inúmeras atas de reuniões com autoridades, realizadas para solucionar definitivamente o problema, uma é emblemática. “Solicitou a comunidade um compromisso por escrito do governador, quanto à construção do novo prédio, ao que respondeu a sra. delegada Iara Wortmann, que não havia necessidade pois todos os compromissos assumidos pelo governo forma mantidos e cumpridos”.
Uma escola errante
Nos últimos vinte anos a escola teve quatro endereços diferentes. Fundada em 25 de setembro de 1940, ocupou um casarão na Independência, que foi cedido em 1984 para a Fundação Nacional Pró-Memória. O contrato de dez anos foi feito em troca das reformas que a casa necessitava.“Não havia nenhuma condição de permanecermos lá: estava tomado de cupins”, relata a ex-diretora Yvone. Além da praga de insetos que corroíam a madeira da escola, em 1981 um temporal provocou a interdição do prédio.
A imponente construção da Independência carrega o nome da escola até hoje. Era um ambiente pomposo que pode ser visto nas fotos da época. “Tinnha lindos vitrais e uma mobília maravilhosa”, lembra Yvone.
A diretora aposentada conta que as professoras não tinham mesa, pois o espaço não comportava. “O prédio era tão pequeno que a biblioteca teve que ser instalada numa outra casa, na Vasco da Gama”, lembra.
Seria uma solução provisória, por apenas seis meses, mas durante nove anos a escola funcionou ali. Em 1990, o proprietário pediu que a SEC entregasse o prédio. O governo não estava pagando o aluguel. “Fomos ameaçados de despejo”, relata a diretora aposentada.
Novamente sem abrigo, a escola chegou a funcionar durante o “turno intermediário” do Anne Frank. As aulas começavam às 11h e terminava às 14h. “Foi um caos! As crianças não tinham como ir e voltar do colégio pois os pais estavam trabalhando”.
A casa da Garibaldi que desocupa agora foi alugada em 1991, mas a medida não impediu o desmonte de turmas da escola. Quando foi impedida de abrir suas portas no início do ano letivo de 2008, contava 160 matrículas entre a 1ª e a 4ª série e tinha 13 professores. Antes de 1981, quando ainda funcionava no prédio da Independência, eram 800 alunos e 63 mestres.
Essa matéria foi publicada na segunda edição de março do jornal JÁ Bom Fim/Moinhos que está circulando nos 10 bairros da região central de Porto Alegre.


