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Setembro 26th, 2009 Posted in Cultura, Notícias Tags: , ,

A construção do mito

Por Cleber Dioni Tentardini

Prudêncio concentrou o espírito, como encordoando o raciocínio, e falou, e falaram os demais, refletindo Bento Gonçalves, mas sem chegar a conclusões; porque não podiam percebê-lo em sua eminência heróica. Tinham-no em distância, como elevado a uma sagração lendária. Buscavam traze-lo à interpretação do homem entre os homens comuns, e viam-no afastar-se, como se o horizonte lhe interceptasse a visão, ao procurarem apanhar a enorme figura farroupilha.

Esse trecho do romance Visão do Pampa, de Rivadavia Severo, escrito nos anos 30 do século passado e lançado recentemente pela JÁ Editores, em edição ampliada, ilustra como o general Bento Gonçalves, líder dos Farrapos, foi lançado à condição de maior herói riograndense.

Quando se diz que o gaúcho é brasileiro por opção, é fundamental que se retorne um século e meio no tempo. Em 1816, em meio à Guerra na Cisplatina, há um jovem soldado, de família abastada, que propõe um sistema de defesa móvel ao largo do rio Jaguarão para lutar em defesa do território disputado por espanhóis e portugueses. Logo esses corpos de voluntários são reconhecidos como de utilidade pelos chefes militares e as tropas são reforçadas. No comando, o capitão Bento Gonçalves da Silva.

Foi ele quem permaneceu com mais força no imaginário popular, símbolo da bravura e generosidade do gaúcho, ainda que esse perfil venha sendo forjado desde muito tempo antes dos farroupilhas tentarem tomar conta do Rio Grande.

Porque não foi só o gaúcho, como dizem, que nasceu para a guerra. No período monárquico, da chegada ao país da família real de D. João VI, em 1808, até a proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a história registra 38 guerras. As revoluções sacudiram o país no período regencial, tendo ocorrido repetidas revoltas em Pernambuco, Bahia e Alagoas, além da Guerra dos Farrapos, que durou quase uma década. A Sabinada, na Bahia, em 1837, liderada pelo jornalista maçom Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, dono do Novo Diário da Bahia, propagandista liberal que emprestou seu nome ao movimento e que, antes, havia ajudado Bento Gonçalves a fugir do Forte do Mar. Outra revolta, a Balaiada, ocorreu no Maranhão, de 1838 a 1840, tendo como líderes Raimundo Gomes, Manuel Francisco, um comerciante apelidado de Balaio, e Cosme, chefe dos escravos rebelados. Também registraram-se as revoluções liberais de São Paulo e Minas Gerais, em 1842 e outros levantes no Rio de Janeiro, Alagoas e Ceará.

A questão é que o gaúcho sempre esteve no lugar certo e na hora certa, para servir aos interesses da coroa portuguesa, mesmo depois de 1822. São Pedro do Rio Grande do Sul era considerado o celeiro do Brasil, e ainda o seria por muitos anos. Dessa província principalmente é que o império brasileiro se abastecia de soldados e munições. E Bento Gonçalves foi um dos seus melhores oficiais, condecorado por atos de bravura e vitórias memoráveis em frentes de batalhas.

Mas também foi o herói dos gaúchos na Revolução Farroupilha, como o descreveram e lhe renderam homenagens escritores e historiadores. O maior caudilho do Rio Grande, proprietário de grandes extensões de terra e de dezenas de escravos, a exemplo de seus colegas de farda e de revolução, também era um homem simples e generoso. E que não pensou duas vezes em abandonar o conforto do lar, pondo em risco sua vida e a de sua família, para liderar uma revolta armada contra o governo provincial, subordinado ao central.

Consta que Bento Gonçalves decidiu invadir Porto Alegre apenas para pressionar o Império a realizar mudanças políticas e econômicas, incluindo a nomeação de um novo presidente da Província, com a saída de Fernandes Braga, e a adoção de medidas menos onerosas aos comerciantes e ruralistas locais. E que não queria a separação do Rio Grande do resto do país, até porque era simpatizante da monarquia. Mas, é difícil de acreditar que o Comandante Superior da Guarda Nacional na Província de São Pedro do Rio Grande do Sul não tivesse medido as consequências da revolução. Ou jamais imaginou que isso acabaria em guerra? Até que ponto se deixou influenciar pelos seus irmãos maçons, rebeldes como ele? E qual foi o papel dos revolucionários italianos?

Se foi a partir dos Farrapos que se criou a imagem do gaúcho contestador, Bento foi a expressão máxima dessa figura, que liderou uma revolução contra a espoliação e a insensibilidade. Embora os farroupilhas contassem em suas fileiras com destacados políticos e militares de outros estados e países, como os mineiros Domingos José de Almeida, José Pinheiro de Ulhoa Cintra e Marciano Pereira Ribeiro, os cariocas João Manuel de Lima e Silva e José Mariano de Mattos, o padre pernambucano Inácio Francisco Xavier dos Santos, vigário da República, e muitos outros oficiais, soldados ou apenas simpatizantes portugueses, italianos e norte-americanos, eram os estancieiros, gaúchos em sua maioria, que sofriam com a avalanche de impostos.

A sobrecarga tarifária fez com que o charque produzido no Sul, um dos produtos mais consumidos no país, ficasse mais caro que o de los hermanos, que não era taxado. O brasileiro passou a comer a carne salgada do Uruguai e da Argentina. Taxar os produtos importados foi uma das reivindicações não atendidas pelos charqueadores gaúchos. Outro imposto, que ajudaria a manter a recém criada força policial da província – que deu origem a Brigada Militar -, soou como um afronte ao mando de campo dos estancieiros, que possuíam pequenos exércitos particulares. Das estâncias à província, o que estava em jogo era a autonomia rio-grandense. Fala-se também que os oficiais militares no Sul estavam sendo submetidos a humilhações.

Os discursos dos deputados liberais na recém inaugurada Assembléia Provincial, muitos deles formatados nas lojas maçônicas disfarçadas de gabinetes de leitura, levaram Bento Gonçalves a ter de dar explicações inclusive na Corte do Rio de Janeiro, onde se vivia o período regencial. Os monarquistas o acusavam de conspirador e separatista. Para os liberais exaltados, isso soaria como um elogio, mas não para um oficial graduado como Bento que, mesmo depois do 20 de setembro, finalizava seus manifestos saudando “o nosso jovem monarca constitucional!”, o Pedro II, com apenas 10 anos. Ou essa demonstração de respeito ao futuro imperador não passava de uma farsa, para ganhar tempo e o apoio dos rio-grandenses? Muitos historiadores dizem que Bento queria a permanência do regime monárquico.

O valor à palavra empenhada e a generosidade são outros atributos do gaúcho que remontam ao chamado Decênio Heróico, particularmente a Bento Gonçalves. Em vários casos com certo exagero. A promessa de liberdade feita aos escravos negros que lutassem nas colunas farrapas, embora não tenha sido cumprida, passou à história como um marco na luta pela abolição da escravatura.

Pelo menos ao tratar da paz com o Império, Bento Gonçalves conseguiu que o barão de Caxias aceitasse as exigências da República Riograndense, relativas aos revolucionários negros. Consta que ele afirmou : “se o tratado de paz não assegurar a alforria dos ex-escravos revolucionários, continuaremos a guerra, para que não voltem aos grilhões os negros que há tantos anos lutam pela liberdade da América”. Mas o general farrapo não conseguiu evitar a Surpresa de Porongos, até porque já não estava mais no comando.

Para minimizar, talvez, as deficiências de Bento Gonçalves como estrategista, os escritores capricharam em realçar o seu lado humanitário, não só na questão relativa aos negros, mas também durante os combates. Como o ocorrido em São José do Norte, quando, “Bento fez o raro sacrifício de renunciar a vitória, colocando seu coração de brasileiro acima dos interesses da estratégia e da política”, escreveu Arthur Ferreira Filho. Diz-se que diante da proposta de Garibaldi de incendiar alguns quarteirões para dominar o quartel, o general recusou, mandando um recado ao revolucionário italiano: “Diga o major Garibaldi que, por esse preço, com o sacrifício de tantas famílias, não quero a rendição da praça!”.

O coronel Ferreira Filho considerou Bento o herói máximo do RS “por ser entre os rio-grandenses o que melhor encarnou as virtudes e os defeitos de sua gente (…) uma figura de romance, um personagem sem contrastes que brilhava como sol (…) por sua capacidade militar, bravura e tenacidade na luta.”

O escritor cita episódios da revolução para demonstrar a generosidade de Bento com seus companheiros e, até mesmo, com os soldados inimigos. Destaca, por exemplo, a ocasião em que o general se viu obrigado a apelar para um oficial legalista com quem se batera há pouco, para que lhe fornecesse alguns medicamentos a fim de tratar inúmeros farrapos feridos. E diante do pronto atendimento em socorro, Bento retribuiu mandando libertar todos os prisioneiros em seu poder.

Outro exemplo é quando Bento impõe a Caxias como condição para o acerto de paz, entre outras coisas, que o Império readmitisse os oficiais farroupilhas nos postos em que se encontravam à serviço da República Rio-grandense. Embora muitos deles, a essa altura da revolução, estivessem em franca oposição ao líder farrapo, inclusive o acusando de assassinato.

Assim como Ferreira Filho, o coronel Cláudio Moreira Bento, presidente da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e do Instituto de História e Tradições RS, acredita que a Revolução Farroupilha, a República Rio-Grandense e seu presidente exerceram grande influência sobre o marechal Deodoro da Fonseca na presidência da Republica. Segundo o coronel, Bento Gonçalves foi um grande estudioso de História Militar Romana e da Revolução Francesa, “circunstâncias que compensavam não haver cursado a Academia Real Militar de Largo de São Francisco, no Rio de Janeiro.”

Bento Gonçalves, um herói intocável, é o que parece. Ainda hoje a reação é imediata ao mínimo sinal de inconformismo com o perfil e as atitudes atribuídas ao general. O historiador Tau Golin ousou publicar um livro com o título Bento Gonçalves – o herói ladrão, e não ficou uma linha de sua obra sem resposta. A principal crítica é que Golin descontextualizou as atividades de Bento Gonçalves como estancieiro, ao chamá-lo de contrabandista e proprietário de escravos. Foi considerado um erro grave, porque Bento manteve por um bom tempo criações de gado nos dois lados da fronteira, como na época em que morou na estância Leonche, em Cerro Largo, no Uruguai. E como produtor de charque, a mão de obra disponível e barata era a escrava; sendo que o trabalho dos imigrantes assalariados só foi utilizado em larga escala tempos depois.

Golin criticou a ligação de Bento Gonçalves com as oligarquias e afirmou que ele não fez jus ao título de herói popular, “como um personagem para ser cultuado pelo povo rio-grandense”, porque as suas ações apenas procuraram preservar os seus privilégios e os de outros latifundiários. “Como conseqüência de seu projeto de sociedade, a partir de um liberalismo farroupilha antagônico à democracia, alienou o povo material e espiritualmente, submetendo-o à exploração e ao espólio”, disse Golin. E citou Moacyr Flores, historiador e professor da PUC gaúcha, para classificar o líder farrapo como simpatizante do absolutismo monáquico. “Nunca foi republicano, segundo Moacyr Flores, “e deixou de ser liberal ao assumir a presidência sem convocar ou permitir que reunisse a assembléia constituinte e legislativa.”

Historiadores disseram que Bento não foi herói nem vilão, apenas um homem de seu tempo. O escritor Fernando Sampaio foi mais longe. Publicou o livro Bento Gonçalves: Mito e História, onde detona Tau Golin: “sacrificou o bom senso, a lógica e a própria realidade, ao fazer citações fora do contexto, omitir fatos e manipular informações”. Diz que os livros nunca negaram que Bento fosse de família abastada e que o movimento farrapo tenha sido uma revolta de uma parcela dos latifundiários e charqueadores, mas ressalta que a revolução contou com a adesão do povo da campanha. É certo que as fileiras farrapas foram formadas pela peonada, embora ela deva ter sido praticamente forçada a lutar por não ter outra alternativa que lhe garantisse a sobrevivência. Por mais antagônico que isso pareça, como toda a guerra em nome da paz.

Sobre o contrabando de gado, Sampaio alega que essa prática era uma “atividade social revolucionária, para fugir dos impostos”. “Era uma forma de satisfação de consumo, em geral abafado pela atividade arrecadadora e também repressiva de Portugal; uma atitude que passou a ser protegida entre os nacionais, ou entre a elite dominante local contra a autoridade colonial e estrangeira”, destaca o escritor.

Bento Gonçalves exerceu sua liderança com bravura e, mesmo quando desafiado, depois de ter sua honra ofendida, mostrou compaixão ao não matar em duelo seu primo Onofre Pires, deixando-o ferido no campo. Também mostrou lealdade aos seus comandados quando estes pediram-no que os protegesse de um capitão legalista, das tropas do temido Pedro Moringue. Na primeira oportunidade, lançou-se contra o mulato Isaías Grande, deixando-o inútil para os próximos combates. Assim narram os livros, ainda que não se saiba se os episódios ocorreram realmente como descritos muitos anos depois.

Certo mesmo é que Bento Gonçalves deixou muitos admiradores e contribuiu definitivamente para o perfil estilizado do gaúcho. Já se passaram quatro a seis gerações e ainda uma boa parte de cada uma das manifestações culturais do Estado lembra o chamado Decênio Heróico: música, literatura, arte, dança, eventos folclóricos e cívicos, inclusive em todas as solenidades oficiais do Estado, quando é desfraldada a bandeira gaúcha, que teve origem no pavilhão farroupilha, e ao som do Hino Rio-grandense, composto pelo maestro Joaquim Medanha a mando dos farrapos.

O 20 de setembro virou a data mais importante para uma parcela dos cerca de 11 milhões de habitantes do Rio Grande, dividido hoje em 497 municípios. Muito mais que o dia da independência do Brasil. É quando os mais de 2 mil Centros de Tradições Gaúchas, espalhados por diversos países, festejam os feitos e os personagens de 35. Nos desfiles, o destaque é sempre a figura de Bento Gonçalves, hoje patrono do Regimento de Cavalaria da Brigada Militar, o corpo policial que o general combateu na sua origem.

A fusão da saga farroupilha com a cultura regional se deu nesse momento, quando Paixão Côrtes e amigos como Ciro Dutra Ferreira, Barbosa Lessa, Fernando Machado Viana, Glauco Saraiva e Orlando Degrazia decidiram criar rituais para homenagear os revolucionários do 20 de setembro de 1835. Iniciaram pela chama crioula, acesa a partir de uma centelha da chama da pátria. Em 1948, fundaram o primeiro centro de tradições do Estado, o CTG 35. Hoje calcula-se que existam em torno de 5 mil desses centros. A partir daí, começaram as pesquisas para definir o que era e o que não era da tradição gaúcha, recebendo mais tarde a denominação de folclore. O movimento ganhou projeção nacional e internacional, a partir de 1953, quando foi fundado o grupo de dança Tropeiros da Tradição, que chegou a fazer turnês por países europeus, acompanhado do conjunto Os Gaudérios. Em 1958, a cidade que tanto relutou em assumir a sua identidade regional, finalmente se rendeu à tradição gaúcha, quando é instalada no Largo do Bombeiro, perto do aeroporto Salgado Filho, a estátua do Laçador, de autoria de Antônio Caringi, cujo modelo foi Paixão Côrtes. Agora, já está em outro local, ali perto. O monumento é considerado hoje o símbolo de Porto Alegre e dos gaúchos.

Um fato intrigante é que não se tem registro do uso da palavra gaúcho na época dos farrapos. Sabe-se que o termo tinha um sentido pejorativo no Uruguai, mas no Brasil, quem nascia no Rio Grande era rio-grandense, de uma ou outra facção. Haviam os ‘pelegos’ e os caramurus, como eram popularmente chamados os legalistas, e os farrapos ou farroupilhas, assim denominados os opositores do regime monárquico.

A mudança de conotação do termo gaúcho ocorreu nas quatro últimas décadas do século 19, durante as campanhas republicana e abolicionista, recebendo forte influência do que era produzido na Sociedade do Partenon Literário de Porto Alegre. A pesquisadora Daysi Lange Albeche diz que foi a partir de 1877, na obra Os Farrapos, de Oliveira Belo, que o gaúcho aparece pela primeira vez na literatura como símbolo rio-grandense. Em seu livro, Imagens do Gaúcho, ela cita alguns exemplos dessa produção literária mitificadora nas obras de Apolinário Porto Alegre, onde o autor destaca a força física e moral dos homens livres do campo, em contraste com a vida degradante de quem vive nas cidades. “Essa mitificação do gaúcho passou a ser muito intensa no período da República Velha no Rio Grande do Sul”, afirma.

A partir das últimas décadas, o gaúcho e seus costumes ganharam grande notoriedade, principalmente através da música e do cinema. Na minissérie A Casa das Sete Mulheres, apresentada pela Rede Globo, os personagens da Revolução Farroupilha ganharam rostos conhecidos. Talvez o menos famoso tenha sido justamente o que interpretou Bento Gonçalves, o ator gaúcho Werner Schünemann, que já havia incorporado outro herói farrapo em Netto perde sua alma, de Tabajara Ruas. Excetuando alguns erros históricos, a minissérie inspirada no livro homônimo de Letícia Wierzchowski, teve boa repercussão por popularizar uma passagem histórica da qual os gaúchos sempre tiveram orgulho de terem seus antepassados como protagonistas, mas que o restante da população conhecia muito superficialmente. É o mito do gaúcho que optou ser brasileiro, e que continua sendo passado de geração em geração, através da epopéia farroupilha e das façanhas do general Bento Gonçalves da Silva. (SEGUE)

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One Response to “A construção do mito”

  1. precisa colocar mais fotos nessas matérias, cleber!!!!

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