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	<title>Jornal Já - Porto Alegre, Rio Grande do Sul &#187; Coberturas Especiais</title>
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		<title>Ela foi queimada viva</title>
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		<pubDate>Tue, 11 May 2010 15:50:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>redacao</dc:creator>
				<category><![CDATA[1.Posicionamento]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capa 2]]></category>
		<category><![CDATA[Cidadania]]></category>
		<category><![CDATA[Coberturas Especiais]]></category>
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		<category><![CDATA[crime passional]]></category>

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		<description><![CDATA[A prisão do empresário Luiz Henrique Sanfelice, na Espanha, rende muitas manchetes. Mas o crime que ele cometeu há mais de cinco anos está quase esquecido. O crime foi contado em detalhes numa reportagem de Renan Antunes de Oliveira, publicada no jornal JÁ, em julho de 2005, antes da fuga de Sanfelice para a Europa. Vale a pena ler de novo.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Andréa amava Luiz Henrique<br />
que amava sua mulher Beatriz Helena<br />
que amava vários homens,<br />
entre eles Nelson,<br />
que era casado com uma mulher<br />
que não sabia nada da história.<br />
Essa teia de amor e traições acabou mal:<br />
Andréa foi drogada e sodomizada,<br />
Beatriz Helena foi queimada viva,<br />
Luiz Henrique está na cadeia<br />
e a mulher de Nelson pediu o divórcio depois<br />
que todos os rolos do marido foram expostos<br />
na 1ª Vara Criminal de Novo Hamburgo.</em></p>
<p><strong>Renan Antunes de Oliveira</strong></p>
<p>Não há poesia no drama do assassinato da jornalista Beatriz Helena de Oliveira Rodrigues, 42. O crime chocou o Rio Grande pela crueldade. Entre todos os dias foi se dar justo no dos Namorados. E entre tantos lugares possíveis se deu num chamado Santuário das Mães, só para lembrar que Beatriz deixou órfão um menino de quatro anos, inocente criatura.</p>
<p>Tudo aconteceu num sábado de tempo bom, depois de dias de chuva. Beatriz tomou o café com a família no que parecia ser a santa paz de um lar feliz.</p>
<p>Ela saiu de carro pouco depois das 9 para ir num caixa eletrônico no centro de NH. Sua imagem aparece gravada pelas câmeras do banco sacando dinheiro às 9h22 – depois disso Beatriz desapareceu.<br />
De início as autoridades apostaram que seria um seqüestro-relâmpago, mas o sumiço dela se tornaria o maior caso policial da cidade em décadas.</p>
<p>Beatriz foi encontrada morta um dia depois, o domingo 13 de junho. Ainda estava presa pelo cinto de segurança no banco do carona de seu Renault Mègane. Tão carbonizada que acabou reduzida de 65 para 40 quilos, mesmo com o peso do cinto, fivelas e molas do banco, grudados nela pelo fogo.</p>
<p>O inquérito policial concluiu pelo suspeito número um em crimes assim: o marido, o empresário Luiz Henrique Sanfelice, 39. Ele a teria matado de forma premeditada, por motivos passionais e por dinheiro. Sanfelice jura inocência. Está preso aguardando julgamento, ainda sem data marcada.</p>
<p>Na versão da polícia, o marido fez um seguro de 350 mil pela morte da mulher, meses antes. Na semana do crime escolheu o local, um matagal no caminho do Santuário das Mães, perto de casa e de seu escritório, calculando o tempo necessário para matá-la, queimá-la e fugir sem ser visto.</p>
<p>Com o plano pronto, ele teria escolhido a hora final apenas na véspera, encontrando a oportunidade depois de grampear uma conversa telefônica da mulher para o amante, o empresário Nelson R., no qual os dois combinavam um encontro para o sábado de manhã.  Matando-a durante a hora combinada, Sanfelice jogaria a suspeita do crime nas costas do amante.</p>
<p>Todo plano foi feito com antecedência e por escrito – estava num computador portátil, mais tarde apreendido e examinado por peritos policiais. Se foi Sanfelice mesmo, rastro maior não poderia ter deixado. A defesa dele acusa a polícia de ter inserido o plano no computador, sugerindo a existência de um fantástico complô para incriminá-lo.<br />
Para produzir sua teoria a polícia contou ainda com a ajuda do melhor amigo de Beatriz, um empresário cinqüentão – logo depois da morte ele entregou às autoridades uma coleção de videos pornôs que Sanfelice gravara com a amante Andréa e prostitutas, abrindo uma janela para compreensão do inferno que era a vida conjugal do casal. As fitas estavam guardadas em seu poder a pedido de Beatriz, para serem usadas em caso de divórcio.</p>
<p>Logo a polícia descobriu que Beatriz e o marido eram infiéis um ao outro. Na conservadora Novo Hamburgo, mantinham um casamento de fachada, mas tumultuado – discutiam o divórcio enquanto faziam terapia de casal.</p>
<p>Sanfelice mantinha sua amante Andréa de casa montada. Beatriz trocava amantes com freqüência. O último era Nelson, 40, casado. Este, quando flagrado no centro da trama, disse à polícia o clássico “éramos apenas bons amigos”.</p>
<p>Sanfelice disse que só soube depois de preso que a mulher tivera vários amantes – negativa que a polícia acha que é só para desmontar a tese do crime passional. O marido afirma que um dos amantes seria o verdadeiro assassino. Seu advogado prometeu para 16 de setembro “surpreendentes revelações” que o inocentariam, mas a data passou e o anúncio foi adiado.</p>
<p>A vida do casal no centro do drama está sendo exposta sem nenhum pudor nas audiências preliminares da Justiça.</p>
<p>Parentes, amigos, empregados e até desconhecidos distantes estão desfilando pela 1ª Vara Criminal de NH para contar os detalhes sujos do casamento. Vale tudo para a juíza Lúcia Camerini entender melhor o caso que está julgando, até o tititi do cabeleireiro da morta.</p>
<p>Uma cunhada buscou do fundo do baú o primeiro romance de Beatriz, com um tal Edwino: “Quando se conheceram ele já era casado e com filhos. Ela esperava que ele deixasse a família”.</p>
<p>Por alguns anos Beatriz manteve o romance com Edwino conformada com a clandestinidade, até conhecer Sanfelice. “Ela viu nele o que procurava, um pai para ter um filho”, garante a cunhada – mas houve quem dissesse que filhos ela não queria.</p>
<p>O fato é que Beatriz e Sanfelice se casaram e ela teve um filho – já tem gente na família querendo fazer o DNA do garoto. Poucos na família da mulher sabiam de seus romances extraconjugais. “Beatriz era independente, culta, viajada, fazia o que queria e não deixava ninguém se meter na vida dela”, conta um irmão.</p>
<p>Beatriz conheceu Sanfelice em 1992, quando os dois trabalharam juntos na na Associação Comercial e Industrial de Novo Hamburgo (ACI). Ela, que começara como jovem estudante de Jornalismo estagiária, já estava chefiando o departamento de comunicação. Ele, três anos mais novo, era oficce boy.</p>
<p>Bem-sucedida, Beatriz deu um passo além da ACI e abriu uma empresa de assessoria para várias empresas calçadistas, crescendo bastante.<br />
O romance com Edwino é que não avançava. Quando chegou perto dos 30, Beatriz sentiu cair aquela ficha clássica: a de que ele jamais trocaria a família por ela.</p>
<p>Foi aí que Sanfelice apareceu na foto. Um amigo testemunhou o início do romance e notou a diferença de idade: “Ele parecia bem mais moço do que ela (tinha 3 anos menos). Eu acho que se aproximou por ambição, porque ele queria subir na vida e ela daria uma ótima escada”.</p>
<p>Seja como for, o romance parecia florescer. Sanfelice subiu na carreira e passou a cuidar do caixa da ACI. Um diretor lembra que “no turno dele, sempre faltava dinheiro. Como ele repunha, nada foi provado. Mas a política da casa era não discutir para não ter publicidade ruim. Assim, discretamente, nós o demitimos”.</p>
<p>Beatriz ficou do lado dele. Algum tempo depois Sanfelice se formou. Ela então abriu uma empresa em sociedade com o futuro marido e os dois prosperaram.</p>
<p>“Quando ela decidiu que ia se casar, a família aceitou, mas eu nunca me dei bem com ele”, conta um irmão. “Acho que foi uma coisa intuitiva, eu não gostava da ambição dele. O Luiz era um pelado, sempre sonhando com grandes negócios e querendo aparecer muito”.<br />
Sanfelice não era propriamente um pelado. Seu pai é um comerciante bem de vida, dono de um posto de gasolina na BR 116 que é uma mina de dinheiro.</p>
<p>Antes e depois de trabalhar na ACI Sanfelice esteve com o pai no posto. Algumas desavenças os afastaram – mas na hora em que o filho foi acusado de assassinato o pai reapareceu, bancou despesas de advogado, defendeu o filho com unhas e dentes.</p>
<p>Em diferentes momentos de seus negócios com Beatriz, Sanfelice se deu bem, ganhando bastante dinheiro. Era um hábil vendedor. Negociava lotes de calçados para exportação.</p>
<p>Se o casal ganhava bem, gastava melhor ainda. Eles desfrutaram o sucesso: entre 1996 e 2002 visitaram a Europa e as Bahamas. Cada um mantinha relacionamentos paralelos. Beatriz era mais discreta. Amigos e conhecidos fofocavam muito, mas todos os relatos sugerem que Sanfelice vivia no mundo dos cornos – aquele no qual o sujeito apronta, mas acredita que a mulher fica quietinha em casa.</p>
<p>No início da década, o setor calçadista foi atingido por uma crise. Com Beatriz dedicada mais ao filho, a renda do casal diminuiu – e os conflitos começaram a aparecer.</p>
<p>“Luiz não tinha os valores familiares fortes como os nossos”, diz um irmão de Beatriz. “Ele gostava de dinheiro, de aparecer, de viajar, de festas, vivia noutra onda”.</p>
<p>O irmão avalia que Sanfelice “era traumatizado pelo divórcio dos pais”, ocorrido quando ele era criança. “Só quando casou é que reviu a mãe, e isso por insistência da Beatriz, que quis conhecê-la”.</p>
<p align="center"><img src="http://www.jornalja.com.br/ktml2/images/uploads/reportagem/beatriz2.gif?0.8963625296461805" border="0" alt="" width="150" height="127" /></p>
<p align="center"><span style="font-size: xx-small; color: #333333;">Laços de família: com abraço apertado pai apóia Sanfelice</span></p>
<p>Um cunhado que estava no casamento lembra de uma chorosa dona Mari de Los Angeles tentando reaproximar-se de um filho “frio e distante”. A sogra ficou na casa da mãe de Beatriz, dona Gessi. As duas conversaram bastante. Mari começou pelas banalidades, contando que tem origem espanhola, que cresceu no Paraguai, que vive no Rio de Janeiro. De repente, surpreendeu a família contando uma história saída do inferno de Sanfelice. “Ela nos contou que ele sofreu abuso sexual por um parente quando era criança”, revela um cunhado.</p>
<p>O depoimento de dona Mari foi uma das dicas que levou a polícia, mais tarde, a estabelecer sua teoria de que Sanfelice matou Beatriz. Um perfil psicológico dele foi então produzido na delegacia de NH, com os policiais entrando na seara de Freud:  “Concluímos que ele era mulherengo, machista, sádico, incapaz de amar”, disse um delegado.</p>
<p>No depoimento que deu à Justiça, em julho, Sanfelice jurou que amava a mulher. Naquela audiência ele se apresentou em público pela primeira vez desde que tinha sido acusado. Veio bem barbeado, paletó de lã elegante, aparentando calma. Deu um longo e apertado abraço no pai – o único da platéia a seu favor.</p>
<p>O promotor Eugênio Amorim começou o interrogatório, acusando-o de matar Beatriz “por motivo torpe e com emprego de fogo”, na “pretensão de assenhorar-se do sentimento alheio” – linguajar jurídico para ciúmes. “Eu não mataria a mãe do meu filho”, rebateu Sanfelice, com firmeza.<br />
O marido acusado encarou a juíza, jornalistas, oficiais de justiça, policiais, o pai, parentes da morta e se disse um homem de família, um administrador bem-sucedido, um devoto de Padre Reus e um inimigo da violência – ilustrou este ponto contando que se sentiu mal quando viu cenas do filme de guerra “O Resgate do Soldado Ryan”.</p>
<p>Testemunhas o contradisseram em tudo. Uma cunhada disse que ele era desligado da família: “Ele nunca quis um filho, obrigou Beatriz a fazer dois abortos. Sempre estava preocupado primeiro com o dinheiro. Como na terceira gravidez ela decidiu bancar tudo e seguir adiante até sozinha, só aí ele concordou”.</p>
<p>Andréa, a amante, revelou outro lado da personalidade dele. Exibiu à polícia um video no qual está sendo sodomizada por Sanfelice. Ela não lembrava do acontecido. Como na fita ela parecia passiva demais, a conclusão dos peritos é que ele a dopou com Dormonid, um remédio que entorpece e causa amnésia. A fita confirmaria o parecer psico-policial de “machista sádico”. No fim, até a dedicação dele a Padre Réus foi questionada.</p>
<p>Os videos de orgias de Sanfelice pegaram mal para ele no tribunal. Quem os entregou à polícia foi o Melhor Amigo de Beatriz – ela os tinha encontrado e queria destruí-los, mas o Amigo sugeriu que guardassem para usá-los na ação de divórcio.</p>
<p>Na mesma audiência o promotor perguntou a Sanfelice sobre a possibilidade do divórcio – mas a resposta dele foi um categórico não. E novamente surgiram testemunhas para contradizê-lo. Segundo a família dela, o divórcio estava nos planos de Beatriz, que só não tomava a iniciativa para não desagradar a mãe, muito carola.</p>
<p>O promotor então atacou baseado no testemunho da irmã e confidente da morta: disse que sabia que o divórcio era iminente porque o casamento estava em ruínas, que tinha provas de que Beatriz e Sanfelice não transavam desde 2002 – e mais segredos de alcova se derramaram no tribunal.</p>
<p>Sanfelice reagiu com calma. Jurou que o casamento ia bem. “Passamos maus momentos, mas estávamos nos reconciliando”, garantiu. E deu detalhes íntimos daquela que teria sido a última hora dele com Beatriz: “Nós acordamos tarde no dia dos Namorados, perto das oito. Eu lhe dei flores. Ficamos na cama, fazendo amor. Depois tomamos café e ficamos mais um pouco deitados, com nosso filho no meio” – pintou um retrato de felicidade conjugal totálica.</p>
<p><span style="color: #cc3300;"><strong>Se foi uma manhã de amor ou o prelúdio do crime só os jurados é que vão decidir. </strong></span></p>
<p>O que a polícia apurou é que Beatriz levantou, banhou-se e deu um telefonema do celular para Nelson, às 9h18. Em 1 minuto e 58 segundos de conversa ela disse que o marido queria lhe fazer uma surpresa e que portanto não poderia ir ao encontro marcado – Nelson foi quem passou à polícia o teor do telefonema.</p>
<p>A polícia garante que àquela altura os amantes não sabiam que Sanfelice tinha grampeado o celular dela, em gravação feita na sexta por um detetive particular. A surpresa seria a cilada mortal. Beatriz saiu de casa e quatro minutos depois foi enquadrada pela câmara de vigilância do Banco do Brasil, sacando dinheiro no caixa eletrônico – sua última imagem viva.</p>
<p>Sanfelice disse que deixou a mulher no banco e foi para casa a pé, parando numa fruteira e na videolocadora – mas caiu em várias contradições, demais para quem teria planejado tudo em detalhes.<br />
Mais tarde, ele foi à polícia queixar-se do desaparecimento dela, supostamente preocupado porque ela não teria voltado para o almoço – coisa que os policiais garantem que era uma farsa ensaiada. Uma testemunha viu o carro incendiando no matagal do Santuário das Mães às 9h40.</p>
<p>Este horário foi determinado pela polícia como o da morte. Do matagal até a casa de Sanfelice dá uma caminhada de menos de 30 minutos. E ele ficou 45 minutos sem ser visto por ninguém, exatamente das 9h30, quando esteve na locadora, até entrar em casa e ser visto pela empregada, às 10h15.</p>
<p>O advogado dele disse que naqueles 45 minutos Sanfelice estava no centro, entre a locadora, a fruteira e a casa. Como NH tem um sistema de vigilância por câmeras no centro, o advogado pediu que suas fitas fossem examinadas, na busca de um álibi.</p>
<p>A policia examinou as fitas na primeira semana. Ele não aparecia nas gravações. Como as câmeras são de uma empresa privada, as fitas daquele sábado foram depois apagadas.</p>
<p>Agora, a defesa alega que a polícia apagou os videos para prejudicar seu cliente: a tese é que se tais fitas existissem, ele apareceria nelas. Como no caso do computador, a defesa sugere que a polícia apagou tudo, só para prejudicá-lo.</p>
<p>Se ninguém o viu nos primeiros 45 minutos depois do crime, todos o viram depois, reforçando as suspeitas de que alguma coisa acontecera. A empregada foi a primeira, cravando a chegada dele nas 10h15.</p>
<p>Outra testemunha foi a irmã da morta, Juliana, que tinha ido na casa buscar um edredon: “Eu o encontrei na frente do prédio por acaso. Estava com roupas imundas e um jeito alucinado, quase não me reconheceu, quando me viu entrou correndo e foi tomar banho”.</p>
<p>Os dois encontros, com Juliana e com a empregada, serviram para a polícia estabelecer que Sanfelice tomou dois banhos. Um antes de sair de casa perto das nove, e outro depois das onze, após o encontro com Juliana. No segundo, todas as roupas que vestia no encontro com a cunhada sumiram. A polícia acredita que fossem as que ele estaria usando no crime, possivelmente com manchas incriminadoras.</p>
<p>A polícia formulou o cenário plausível do fim: Sanfelice de alguma forma administrou Dormonid, o mesmo remédio que usara para drogar Andréa, cujos efeitos levam cerca de 30 minutos para aparecer. Encontrou-a na saída do banco, dirigiu o carro até o Santuário – chegaram ládf dentro do tempo do remédio fazer efeito, ela já estaria grogue, sem condições de reagir.</p>
<p>Sanfelice então teria jogado o combustível diretamente sobre o corpo e atiçado as chamas com um pedaço de eucalipto. Serviço feito, ele teria dado uma pequena corrida pela trilha do matagal para chegar em casa, procurando forjar um álibi.</p>
<p>Na hora do almoço, claro, nada de Beatriz chegar. Aí Luiz Henrique Sanfelice fez uma pergunta banal para a empregada, mas cuja resposta ele bem poderia saber: “A Beatriz já ligou? Por que será que ela está atrasada?”</p>
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		<title>Jovens, pobres e malditos</title>
		<link>http://www.jornalja.com.br/2009/06/11/jovens-pobres-e-malditos/</link>
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		<pubDate>Thu, 11 Jun 2009 17:41:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paula</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dona Suzana disse que o neto avisou um dia antes de morrer que todos os problemas acabariam no feriado do Dia do Trabalho:  “Acho que ele sabia o que aconteceria”, conta ela, sem derrubar uma lágrima sequer pelo menino que criou.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Relato de uma perseguição policial tecnicamente perfeita</strong></p>
<p>Dona Suzana disse que o neto avisou um dia antes de morrer que todos os problemas acabariam no feriado do Dia do Trabalho:  “Acho que ele sabia o que aconteceria”, conta ela, sem derrubar uma lágrima sequer pelo menino que criou.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Maicon morreu mesmo no dia anunciado, primeiro de maio. Sexta, perto das duas da tarde. Sua morte virou notícia destacada na Zero Hora do sábado 2, véspera do dia em que faria 19 anos. O texto da reportagem reproduzia as informações oficiais do b-ó , como se diz para “boletim de ocorrência”, o registro obrigatório de incidentes policiais.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Resumo: “Um jovem e uma adolescente morreram durante perseguição na Cidade Baixa. A dupla bateu num ônibus quando tentava fugir de motociclistas da Brigada Militar (a PM gaúcha) numa moto roubada”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><img class="alignnone size-medium wp-image-5108" title="dsc021351" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/06/dsc021351-300x225.jpg" alt="dsc021351" width="300" height="225" /></p>
<p><em>Maicon, numa cela da Febem<br />
</em></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O jovem era Maicon Gerônimo Cruz Teixeira de Ávila, lavador de carros<strong>,</strong> jornaleiro, pé rapado. A adolescente, Fabiana Bitencourt, 17 anos, de Livramento, filha de uruguaios. Faxineira, de mãe faxineira, neta de faxineira, grávida de quatro meses.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Os perseguidores eram dois PMs do 9º Batalhão, de Porto Alegre.  Quando iniciaram a perseguição eles ainda não sabiam que a moto era roubada e muito menos que Maicon tivesse o que a Polícia Civil depois divulgaria como sendo uma “extensa ficha criminal”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Foi um alívio para os PMs a revelação da ficha. Sem ela, eles teriam de alguma forma provocado a morte de dois inocentes – a conta fica em apenas um inocente porque Fabiana tinha 17 e ficha limpa. Ela (foto abaixo) estava na carona na hora errada:  é provável que não tenha tido tempo de descer.</p>
<p class="MsoNormal"><img class="alignnone size-full wp-image-5117" title="fabi" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/06/fabi.jpg" alt="fabi" width="336" height="448" /></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A imediata revelação da ficha de Maicon pela polícia não o torna um criminoso, como parece. Tratavam-se de infrações cometidas quando menor de idade – portanto, deveriam ter sido mantidas com o sigilo determinado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Por que perseguir até a morte dois suspeitos ? As ações da Brigada foram corretas? Para responder estas perguntas a Polícia Civil abriu o inquérito de praxe. Se foi rápida na cortesia profissional de revelar a ficha criminal do guri, está lenta em apurar sua morte: passados 40 dias o inquérito ainda estava parado.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A única versão do incidente é a da Brigada Militar. Por ela, os soldados Junior Rabelo e Kenni tentaram abordar Maicon na esquina da avenida Borges com a Riachuelo, no Centro da capital. Maicon dirigia uma Honda Twister amarela 250 cilindradas, com Fabiana na garupa. Os PMs usavam motos menos potentes, duas Yamaha 225 cilindradas.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Os PMs alegam que notaram que a placa da Honda estava dobrada, coisa que fazem criminosos para impedir a identificação das roubadas – embora a maioria não o faça porque ao dobrá-la apenas levanta suspeitas mais facilmente.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Os soldados afirmam que quando deram ao motoqueiro “voz de abordagem” – seja lá o que for este comando verbal &#8211; Maicon teria arrancado em disparada.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Não se sabe qual dos PMs chamou o número 190 para verificar se a placa era de um veículo roubado, mesmo porque a tal placa estaria dobrada. Nem quando eles chamaram: se antes da abordagem ou depois que a moto disparou. O fato: quando Maicon arrancou, os PMs saíram atrás no pega pega.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">“A Brigada existe para coibir delitos”, justificou o major Gelson Guarda, do 9º BPM, que minutos mais tarde seria acionado por rádio e também participaria da caçada mortal. “Se há um delito em andamento, e no caso era uma moto roubada, é obrigação da PM tentar restituir o bem para seu dono. E quem foge, é porque tem algo errado, é porque teme”.<span> </span></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O jornal Diário Gaúcho relata o incidente exibindo uma ilustração com um PM de arma na mão no momento da abordagem – se tal arma foi sacada, já daria motivo para qualquer um fugir, culpado ou inocente. Só no ano passado, 168 pessoas se queixaram à Corregedoria da Brigada de abordagens violentas de PMs contra jovens pobres na periferia.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O major Gelson não vê importância na forma da abordagem: “A perseguição foi uma operação policial tecnicamente perfeita”. Ele disse que “várias viaturas espalhadas pelo centro foram acionadas para “acompanhamento” – por alguma razão, o major não queria que a reportagem usasse a palavra “perseguição”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Mais do major Gelson: “Não tem como perseguir de outra forma, não há como fazer alguém que está fugindo da polícia parar, a não ser atirando, derrubando da moto, e isso nós não fizemos. A gente não atira, não derruba”. Na tese dele, “Maicon provocou a própria morte e a da menina na garupa”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A perseguição que começou perto das duas da tarde na Borges acabou quase 15 minutos depois na esquina da José do Patrocínio com Joaquim Nabuco. A moto bateu num ônibus da linha Cruzeiro.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O motorista Otoniel Araújo conta que estava saindo da parada, na segunda marcha, quando ouviu o estrondo: “Eu nem quis saber e nem quero saber quem era o menino. Ele tinha roubado a moto. Então morreu alguém que só fazia mal para os outros” – como fica óbvio, Otoniel não teve nenhuma problema de consciência porque deu entrevista depois de ser informado pela polícia que Maicon seria do mal.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Maicon morreu na hora. Fabiana foi socorrida pelos PMs que a perseguiam. Recolhida pelo SAMU, foi levada pro HPS, inconsciente desde a queda. Morreu às 16h05, com fraturas na coluna cervical e na bacia. Os médicos constataram gravidez e a morte do feto.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Aos médicos, a polícia, ainda sem identificar Fabiana, disse que a adolescente seria uma<span> </span>mulher assaltante. Uma assistente social do HPS repassou a informação à família de Fabiana. A mãe protestou, reclamando mais da insensibilidade do que da acusação falsa, mas a assistente firmou posição pró-polícia: “Tem mãe que é cega”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A moto foi mesmo roubada. Na noite de 28 de abril, em Ipanema. “Eu a comprei para minha filha”, diz o dono, o barbeiro Arno Manfroi, 62 anos. “Dois homens a renderam quando ela chegava da faculdade” – o capacete da filha foi encontrado com Maicon.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O barbeiro contou que por três dias chegou “a desejar a morte dos ladrões, mas quando soube do acidente fiquei com pena”. Uma moto vale duas vidas ? Seu Arno pensa um pouco. Em seguida, reage indignado: “Pensando bem, a gente não pode ter pena. Fiquei com 18 prestações para pagar, quase 12 mil”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><strong>Um pouco de Maicon e Fabiana,</strong><strong> além do boletim de ocorrência</strong></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Maicon era filho do romance de dois adolescentes.  Pai e mãe não viveram juntos, nem com ele. Foi criado pela avó materna num bairro barra pesada.</p>
<p class="MsoNormal">No geral era um cara pra cima, mas nos últimos tempos andava com o papo de ser amaldiçoado e que iria morrer cedo.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Seus azares começaram quando largou o colégio na sexta série.  Na era da Internet, ele só era bom em cuidar de bicicletas.  Autodidata, estava estudando mecânica de motos &#8211; ao que tudo indica, nas motos de outros.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Tinha três fotos conhecidas. Numa, de roupinha amarela, é um bebê loiro e gordinho. Nas outras duas já estava interno na Febem.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Ele foi parar lá aos 16, depois que participou de um assalto com um bandido adulto. O homem pegou cadeia. Ele passou dois anos internado, saiu em novembro, em liberdade assistida.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Maicon só conheceu o pai em fevereiro. Seu Flávio é empregado de um lavajato lá perto do Hospital Conceição. Disse que antes não tinha podido falar com o menino porque a família da mãe não gostava dele – talvez porque a única coisa que deu pra Maicon em vida foi, como admitiu, um pacote de fraldas e um creme para assaduras, isto em 1991.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Apesar de uma vida separados, pai e filho estavam começando a se dar bem. O pai lhe deu trabalho, mas Maicon parece que não gostava do batente. Ficava olhando seu Flávio lavar os carros e não atinava nem em passar uma água com a mangueira.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Maicon trabalhou algumas semanas como jornaleiro, vendendo Zero Hora. Com o dinheiro obtido nas vendas comprou uma casa no Jardim Ipê. A avó não é boba e logo intuiu que ele estava roubando – drogas ele usava desde os 14.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">A partir de então, cada vez que o neto entrava em casa ela o revistava: “Ele ficou intratável, dizia que já era um homem e não queria mais dar satisfações”, diz a senhora, resignada.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Ninguém da família sabia direito o que ele fazia, mas uma pista está numa frase dele mesmo: “Quando eu saio pra fazer as minhas tretas posso não voltar”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O intratável e cada vez mais desregrado Maicon tinha um primo trabalhador, Rudinho,18 anos, porteiro de um edifício na Independência. Os dois cresceram na mesma rua, mas tomaram rumos diferentes na adolescência: “Ele tinha a turma dele, eu a minha”, disse Rudinho, demonstrando desprezo.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Enquanto Maicon foi para a Febem, Rudinho vivia o melhor dos mundos &#8211; levou para morar com ele uma menina que tinha largado a sétima série, de apenas 16 anos: Fabiana.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">No ano passado Fabiana engravidou, mas perdeu o bebê. Depois disto,  as coisas entre eles desandaram. Ela se queixava para as irmãs que ele trabalhava muito, que estava sempre cansado. Rudinho era de ficar em casa – ela, de sair à noite.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-5106" title="5" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/06/5.jpg" alt="5" width="400" height="300" /></p>
<p><em>Rudinho, Fabiana, a irmã Fiama e um amigo de Rivera</em></p>
<p class="MsoNormal">Dos tempos bons ela guardou uma foto onde aparece com Rudinho, a irmã Fiama e um amigo de Rivera. Quando Maicon saiu da Febem, no final do ano passado, Fabiana começou a sair com ele.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Pouco depois do Carnaval Fabiana deixou a casa de Rudinho. Foi pra mãe, numa pensão fuleira na avenida Salgado Filho. Dona Mariela<strong>,</strong> faxineira do Unibanco, a acolheu no quarto já dividido com as irmãs Vitória, bebê, Mariele, 11, e Fiama,16.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">No dia da morte de Fabiana, as irmãs experimentaram blusas, tentaram diferentes maquiagens. Estavam se divertindo. Em momentos assim a mãe sempre ironizava delas: “Vocês são as legítimas PPs”. Patricinhas pobres.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Às duas da tarde as três irmãs estavam de saída da pensão para o show do Padre Marcelo na Praia de Belas quando tocou o celular de Fabiana. Sabe-se agora que era Maicon. “Vão na frente que eu alcanço vocês lá”, disse, sem saber que sua vida já estava amaldiçoada.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">“Eu olhei pela janela e vi o carinha na moto, mas não sabia quem era”, conta dona Mariela. “Perguntei, a Fabi disse pra mim não me preocupar e saiu voando”. Vestia calça jeans, blusa verde listrada, tênis Fila e prendia o cabelo com uma pequena piranha rosa. A mãe ainda viu a menina colocar um capacete preto antes de partir em direção à avenida Borges.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Minutos depois, na Borges, se deu a abordagem da moto pelos brigadianos.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Enquanto isto, Fiama e Mariele caminharam até a Praia de Belas. Quando o Skank começou a tocar elas decidiram ir embora: “Não gosto do rock deles”, resumiu Mariele.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">“Liguei pra Fabiana pra avisá-la”, lembra Fiama. Um dos PMs que tinha feito a perseguição atendeu o celular. Eram quase três e meia da tarde. O soldado fez várias perguntas. Queria identificar Fabiana – sinal que então a polícia soube quem era a moça na garupa da “moto roubada” por aquele bandidinho de “extensa ficha criminal”.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">O PM avisou Fiama que Fabiana tinha sido levada pro HPS. Lá, a assistente social insensível deu pra família aquela versão policial de que Fabiana era cúmplice de Maicon em assaltos, acrescentando ofensa à dor.</p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal"><img class="alignnone size-full wp-image-5110" title="4" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/06/4.jpg" alt="4" width="400" height="300" /></p>
<p><em>Na pensão: Fiama, Mirele com Vitória, uma vizinha e dona Mariela</em></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Fiama queria ver a irmã acidentada. Uma médica pediu que descrevesse a roupa, pra saber se era a mesma pessoa que ela atendera. Fiama tinha o figurino patricinha pobre na ponta da língua: calça jeans, blusa verde, tênis Fila, piranha rosa. A resposta foi em tom delicado: “Ela já não está entre nós, seu coraçãozinho parou de bater”.</p>
<p class="MsoNormal">Por <strong>Renan Antunes de Oliveira</strong></p>
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">
<p class="MsoNormal">Com <strong>Ana Lúcia Mohr</strong>, <strong>Carlos Matsubara</strong>, <strong>Daniela de Bem</strong> e <strong>Paula Bianchi</strong></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Giovani quer largar o crack</title>
		<link>http://www.jornalja.com.br/2009/04/09/giovani-quer-largar-o-crack/</link>
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		<pubDate>Thu, 09 Apr 2009 20:30:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>renan</dc:creator>
				<category><![CDATA[1.Posicionamento]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Capa 2]]></category>
		<category><![CDATA[Coberturas Especiais]]></category>
		<category><![CDATA[Geral]]></category>
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		<category><![CDATA[moradores de rua]]></category>
		<category><![CDATA[Renan Antunes de Oliveira]]></category>

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		<description><![CDATA[Quase toda vez que entro apressado no Jornal Já tomo cuidado para não pisar em meu amigo Giovani de Souza Pereira, um self made mendigo de 22 anos, podre de drogado. Gio é morador de rua. Há quase 10 fixou residência na nossa, a Augusto Pestana. Nos dias de bom tempo ele puxa seus roncos estirado na frente do portão da redação.Por alguma razão, prefere o lado ímpar da Augusto. Já deve ter dormido em cada centímetro de chão desde a esquina da avenida Venâncio Aires até o JJ, no número 133 da Augusto.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por <strong>Renan Antunes de Oliveira</strong></p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/giovani_site.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3937" title="giovani_site" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/giovani_site.jpg" alt="" width="450" height="338" /></a></p>
<p>Quase toda vez que entro apressado no Jornal Já tomo cuidado para não pisar em meu amigo Giovani de Souza Pereira, um self made mendigo de 22 anos, podre de drogado.</p>
<p>Gio é morador de rua. Há quase 10 fixou residência na nossa, a Augusto Pestana. Nos dias de bom tempo ele puxa seus roncos estirado na frente do portão da redação. Por alguma razão, prefere o lado ímpar da Augusto. Já deve ter dormido em cada centímetro de chão desde a esquina da avenida Venâncio Aires até o JJ, no número 133 da Augusto.</p>
<p>A gente nota que ele dorme melhor quando o sol está alto. Sabemos que no nosso pedaço ele também se sente mais seguro. Os vizinhos não se atreveriam a chutá-lo, coisa que acontece quando vai dormir sob alguma marquise e é despertado por seguranças de lojas.</p>
<p>Aconhegadinho em algum farrapo Gio ronrona enquanto se recupera das noitadas de crack e das baladas de maloqueiros &#8211; adiante eu conto como é intensa a vida social dos sem teto.</p>
<p>Ele é a pessoa mais conhecida do quarteirão. Não sei quem são meus vizinhos, eles não sabem quem sou eu, mas todos conhecemos Giovani – de uma certa forma, ele nos une.</p>
<p>Gio é um amigo que posso chamar de meu desde 2003. Isto porque quando eu entrei no JJ ele já era um veterano da casa – quero dizer, do lado de fora da casa.</p>
<p>Pouco antes da minha estréia nas páginas ele fazia por aqui um bico de entregador. Pena, tivemos que demiti-lo porque nossa contratação informal virou um problema trabalhista: seriamos multados por explorar trabalho infantil.</p>
<p>A idéia de dar trabalho pra ajudar Gio foi do Mariano, filho do patrão. Ele teve pena, queria tirar o menino da rua e das drogas. Mariano agora anda na Alemanha. Casou, tem uma filha pequena, tá lá cuidando dela – mas nosso Gio, adulto, continua na calçada.</p>
<p>Todos nós que ficamos temos boas intenções com ele. Todos nos compadecemos. Todos tentamos ajudar, de uma forma ou outra.</p>
<p>Anos atrás, uma senhora lá do fim da rua notou que ele andava meio abatido – era uma gonorréia, que ela se prontificou a tratar com antibióticos.</p>
<p>Um senhor notou um inchaço na boca e o levou ao dentista. Alguma coisa foi feita e hoje nada está doendo – o problema mais visível é a sujeira amarela e a falta do canino esquerdo. Tá partido ao meio. Foi quebrado a socos por um motorista de táxi do ponto do HPS. Normalmente o pessoal ali gosta dele, mas naquele dia alguns estavam furiosos porque acharam – erradamente – que ele tinha roubado o rádio de um carro.</p>
<p>No JJ tivemos vários debates de como ajudá-lo. Cada nova estagiária se comove ao vê-lo na calçada. De tanto vê-lo, elas se acostumam. Depois, acabam pulando por cima dele pra poder entrar – hay que perder a ternura e endurecer, senão ninguém entra na redação.</p>
<p>Todo novo repórter passa pela fase de pensar em entrevistá-lo, depois desiste – eles querem alguma coisa mais longe, mais aventurosa, menos doméstica.</p>
<p>Com o passar dos anos eu andei viajando. Passei um ano nos States. Morei meses no Rio, fui pra Amazônia, pra Curitiba, pra Sampa. Cada vez que voltava ao JJ tinha notícias de Gio. Ele estava por ali, todo dia, sempre dormindo na calçada.</p>
<p>Concluímos que ajudar Giovani seria tarefa pros órgãos assistenciais do governo. Telefonamos até pra caixa prego, sem sucesso. Procuramos burocratas de três partidos diferentes, nos níveis municipal, estadual, federal – por telefone é mais difícil conseguir alguma coisa do governo do que pedir qualquer coisa nos 0800 das multinacionais de telefonia celular.</p>
<p>Sugerimos as igrejas católica e evangélica. E fomos até na sinagoga da rua Henrique Dias. Neca, Gio firme na miséria, drogado e sujo, dormindo na calçada.</p>
<p>Giovani parece ter sido um predestinado pra viver nas sarjetas, com vocação revelada cedo. Do pai ele nada lembra, nem o nome, só sabe que morreu. Era bugre. O filho herdou as feições, cor e tamanho. Até fazer oito vivia com a mãe numa casinha na Lomba do Pinheiro. Foi tirado da escola por ela “porque ele só ia lá para comer a merenda”.</p>
<p>Mãe e filho passavam o dia esmolando no Centro. Ele abria e fechava portas de táxis na frente do Guaspari – mas as gorjetas iam todas pra mamãe. “Ela não me dava dinheiro pra jogar fliperama”, conta ele, ainda parecendo revoltado. Fugiu dela e esmolou pra si mesmo.</p>
<p>Foi pouco antes de fazer nove que ele começou sua carreira de self made mendigo. A primeira noite ao relento foi na Praça XV. Era frio, ele estava só de calça e camisa.</p>
<p>Nas drogas ele começou aos 11, cheirando solvente, o chamado loló. Foi uma fase difícil, porque sua turma de cheiradores de loló era perigosa – uns roubam dos outros para comprar a droga.</p>
<p>Um dia apareceu alguém do Conselho Tutelar e ele foi levado para o abrigo Miguel Dario, na Serraria. Fugiu de lá semanas depois. Uma vez a Brigada o pegou nas ruas e o mandou para outro abrigo, na Miguel Tostes. Fugiu em oito dias. Desde 1999 adotou e foi adotado pela vizinhança da Augusto Pestana. Às vezes, rola pela Redenção.</p>
<p>Depois da Era do Loló veio o Tempo da Maconha. Fumava todo dia. Pra comprar, fazia bico de flanelinha. Uma vez ele e uns amigos roubaram um depósito da UFRGS. Ele pegou uma TV, mas não conseguiu vendê-la porque foi preso antes.</p>
<p>Não puxou cana. Ganhou “liberdade assistida”, um privilégio para menores concedido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A assistente social do seu caso era dona Érica, ou “tia Érica’, como ele diz.</p>
<p>A prisão lhe rendeu uma ficha na polícia. É seu único documento. Cada vez que é pego num arrastão da Brigada diz o nome. Os brigadianos que por acaso ainda não o conheçam consultam seus computadores, encontrando sua ficha de ladrão em liberdade assistida.</p>
<p>O pessoal da lancheria do Marino não deixa mais ele assistir lá dentro os jogos do Inter, por causa do cheiro de suas roupas e porque supeitam que foi ele que arrombou as grades e roubou cigarros, tempos atrás.</p>
<p>Ele vive num prende e solta. Uma vez reclamou da brutalidade policial, mas aí levou uma coronhada forte no olho esquerdo que quase o perdeu. Estava tão sujo que nem o HPS quis tratá-lo. Foi consertado no postão da Vila Cruzeiro.</p>
<p>O máximo de grana que conseguiu juntar na vida foram 200 reais, na vez em que cuidou do estacionamento de uma churrascaria. Desde os 16, tudo o que ganha ele gasta com crack, a droga da hora, do mês, do ano, da vida dele – tem dias em que está um farrapo que mal pode andar.</p>
<p>Nos últimos tempos os moradores da rua notam que ele anda cada vez mais drogado, mais esfarrapado, mais imundo – tem gente apostando que qualquer dia morre de overdose.</p>
<p>Mas nem tudo está perdido. Saibam todos que ele tem planos de parar com as drogas.</p>
<p>Na terça 31 de março eu o chamei pra esta entrevista. Ele mandou dizer pelo lavador de carros que só viria se ganhasse um troco. Queria 10. Pro crack. Apareceu às 3 da tarde. Foi só entrar na sala pra gente sentir aquela murrinha.</p>
<p>Ele estava falante. Contou que passou a noite transando com uma moça conhecida como Mãe, moradora de rua como ele. O romance foi ali perto do Hospital de Clínicas e ele garante que usou camisinha: “Uma tia me ensinou a usar, tenho que me cuidar”.</p>
<p>Alguém duvidou deste cuidado, lembrando que corre a lenda de que ele é pai solteiro de uma menininha &#8211; ninguém nunca viu nem sabe quem é a mãe nem onde anda tal filha.</p>
<p>Ele insistiu que sim, usa camisinha. Afirmou que até os gays que o procuram para programas no Parque da Redenção exigem isso. Não, ele não se considera um michê, não como aqueles da Avenida José Bonifácio. Se diz autônomo. E que cobra 20 reais por sessão, depois das 10 da noite, nos matinhos do parque – a grana é pra comprar crack.</p>
<p>Ele tem um sonho na vida: ser eletricista. Fez um serviços para um tal Paulinho da Farmácia. Segurava a escada. O cara também deixou ele apertar alguns parafusos em tomadas – foi o suficiente para ele tomar gosto pela elétrica.</p>
<p>Uma tia – tias são assistentes sociais e/ou alguma mulher que o ajude – se prontificou a levá-lo pruma clínica de desintoxicação qualquer dia destes.</p>
<p>Ele disse que pode ser, porque está cansado da vida que leva. Anda pensando em procurar tratamento médico. Está convencido que pode sair da droga quando quiser. E que durante o tratamento vai aprender a ser &#8230;eletricista: “Na clínica ensinam alguma coisa pra gente”.</p>
<p>Gio ainda acredita em si mesmo: “Não quero ser conhecido como o Giovani velho, drogado, rabugento, fedorento”.</p>
<p>Se votasse ? “Não votaria em ninguém”. Tem uma pequena divergência com dona Yeda, a quem cita nominalmente. Ele acha que ela botou policiamento demais contra os pobres: “A gente fica um montão de tempo preso no 9º (Batalhão da PM) levando porrada até um tenente sentir bondade e mandar a gente embora”. Magnânimo, ele pede moleza “não para mim, mas para o bem da cidade”.</p>
<p>Gio aceita tirar fotos no meio da rua. Não, ele não espera nada do pessoal do JJ. Nem do governo. Repete que qualquer dia vai pegar nojo da vida de drogado. E então, mudar.</p>
<p>Pede cinco reais, pro ajudar na dose de crack.</p>
<p>Fim da entrevista. São quatro da tarde. E lá vai Giovani às ruas, sujo e esfarrapado, só com cinco no bolso, mas cheio de confiança, repetindo a única lição que aprendeu nas calçadas: “Eu mesmo tenho que fazer por mim”.</p>
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		<title>O crime da rua Venezuela</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Apr 2009 16:06:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>renan</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<img class="thumbesq" title="rua-venezuela" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/rua-venezuela.jpg" alt="" width="150" height="112" />
As três últimas casas antes da rua virar mato são de madeira, pintadas de azul, verde e branco. Na azul, com uma roseira carregada de flores vermelhas, morava Viviane, 14 anos. Na verde vive Tati, 13. A branca é de Clairton, 17, primo de Viviane, apaixonado por Tati. O ódio entre as meninas adolescentes foi maior do que aquele pequeno pedaço do mundo e transbordou em tragédia.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por <strong>Renan Antunes de Oliveira</strong></p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/rua-venezuela.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3834" title="rua-venezuela" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/rua-venezuela.jpg" alt="" width="450" height="299" /></a><br />
<a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/rua-venezuela-21.jpg"><br />
</a></p>
<p>As três últimas casas antes da rua virar mato são de madeira, pintadas de azul, verde e branco. Na azul, com uma roseira carregada de flores vermelhas, morava Viviane, 14 anos. Na verde vive Tati, 13. A branca é de Clairton, 17, primo de Viviane, apaixonado por Tati. O ódio entre as meninas adolescentes foi maior do que aquele pequeno pedaço do mundo e transbordou em tragédia.</p>
<p>A rua Venezuela é um beco sem saída às margens da BR116. Está quase sempre deserta. Seu João e dona Jovenilda, avós de Viviane e tios de Clairton, passam horas na calçada da casa azul, sob uns pés de cinamomo, tomando chimarrão. Nas conversas, quase sempre lembram da tragédia mais improvável já acontecida na pacata cidade de Ivoti, no Vale dos Sinos.</p>
<p>Aconteceu em dezembro, na noite do dia 18: Clairton matou Viviane a pedido de Tati.</p>
<p>Olhando para trás é fácil entender o crime – Tati, por todos os relatos, apesar de quase criança, tinha inveja de Viviane, adolescente com corpo e aparência de bem mais velha. Difícil é compreender como este sentimento comum deu em morte com gente tão moça.</p>
<p>Viviane reagia com zombaria à inveja da vizinha. A rivalidade das duas foi testemunhada por todos que as conheceram. Começou nos primeiros anos de escola delas, no tempo em que a rua ainda não tinha sido calçada com paralelepípedos.</p>
<p>Muitas vezes Viviane teve que voltar para casa quando estava a caminho do colégio porque Tati jogava barro nela. Viviane xingava a rival de bobinha – mas também revidava com crueldade calculada, dizendo que o pai dela era um bêbado, o que afetava muito Tati.</p>
<p>Viviane era fruto de um romance adolescente do pai. Ele morreu afogado no rio dos Sinos quando ela tinha 7. A mãe sumiu e deixou a menina com os avós. Ela tinha liberdade total na casa azul com roseira. Os velhos lhe davam tudo o que precisava e bastante conforto.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/viviane.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-3830" title="viviane" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/viviane.jpg" alt="" width="300" height="431" /></a></p>
<p>Tati vivia num ambiente opressivo e repressivo. O pai bebum só a deixava ir à escola e à igreja evangélica. Soube-se depois do crime que Tati tinha sido estuprada aos 10 anos, por outro vizinho – o que a ruazinha tem de calma e florida parece ter de ruim.</p>
<p>A rivalidade entre as meninas foi ignorada por pais e professores. Todos achando que tudo ia passar quando elas crescessem.</p>
<p>Não foi assim. Lá por maio do ano passado, Clairton, um grandalhão desengonçado com quase 100 quilos, motoqueiro sem carteira, drop out da escola e drogado, notou Tati já mais crescidinha. E passou a fazer investidas – queria transar com ela de qualquer jeito.</p>
<p>A mensagem foi passada pelo irmão de Tati. Mas ela tinha aquele problema: depois do estupro, os pais não a deixavam mais sair de casa desacompanhada.</p>
<p>Prisioneira da casa verde, Tati via todos os dias Viviane passar pela frente da sua e ir para a casa branca de Clairton. Os primos eram amigos e confidentes. O rapaz morava no porão da casa, onde seus pais tinham feito um quartão com tv e computador, pra ele curtir seus amigos e drogas longe da família. Viviane tinha trânsito livre na toca.</p>
<p>Quem conheceu bem todos eles garante que os primos nunca transaram. O primeiro de Viviane foi Juarez, um vendedor da Liquigás, 10 anos mais velho – e por isso, o principal suspeito da polícia quando ela foi encontrada estuprada, estrangulada e morta no matagal às margens da rodovia BR 116, apenas 100 metros distante da casa branca.</p>
<p>Tati começou a ser cortejada por Clairton à moda antiga, por carta. Bilhetes em folhas de caderno escolar, trocados de mão por amigas comuns.</p>
<p>Foram estas cartas que esclarecem o crime. Em vários trechos estão as pirações de Tati, seu ódio contra a vizinha, o pedido para matá-la e a oferta irrecusável: se Clairton matasse Viviane, ela, Tati, transaria com ele.</p>
<p>Clairton respondeu cedendo à oferta: “Capaz que eu não deixaria tu fazer aquilo com a Vivi, pra mim tanto faz”, escreveu, sendo “aquilo” o matar a própria prima.</p>
<p>“Eu não sei de onde saiu tanta frieza, não consigo aceitar que tenha sido ele”, diz dona Jovenilda, inconformada com a dupla perda – depois do crime, nunca mais falou com o irmão, pai de Clairton.</p>
<p>Por alguma razão qualquer as cartas acabaram nas mãos de uma amiga de Tati. Quando o caso deu na TV ela as mostrou pros pais, que por sua vez as levaram aos pais de Tati. Eles, mesmo horrorizados ao perceberem o que a filha tinha escrito, ainda tiveram coragem de ir à polícia e entregar tudo, 12 dias depois da morte de Viviane.</p>
<p>As cartas mostram que Clairton se tornou cada vez mais participante na trama macabra de Tati: “Por mim, que se f&#8230; a Viviane, pode encher ela de bala”. Os dois passaram até a planejar um segundo crime: matar o estuprador de Tati, jamais identificado.</p>
<p>Clairton foi preso em 11 de janeiro, mas nunca confessou o crime. Até o final de março, ele continuava negando.</p>
<p>A polícia suspeita que ele teve cúmplices, três carinhas maiores de idade, marginais da pesada pra quem ele teria pedido ajuda – mas que agora teme delatar porque seria como pedir para ser morto.</p>
<p>As investigações continuam no mesmo ritmo lento da cidade. A polícia identificou um trecho das cartas onde Clairton diz que botou “200 reais na mão de um ‘louco’ (que tinha pedido 400), mas ele disse que tinha uma proposta melhor pra me fazer”, tipo de papo de um contrato para matar Viviane.</p>
<p>Na noite em que a matariam, Viviane foi vista pela última vez pelos avós em companhia do primo, mas eles nada suspeitaram.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/mae-copia_2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3892" title="mae-copia_2" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/mae-copia_2.jpg" alt="" width="450" height="276" /></a></p>
<p>Eram sete da noite. “Entrei em casa e vi que ela tinha tomado banho e saído limpinha e bem vestidinha”, conta dona Jovenilda. Na calçada, vó e neta conversaram sob os cinamomos. Viviane usava tamancos de salto alto, saiu pipocando pelo calçamento irregular, aos pulos pelos 50 metros da casa azul até a branca, passado pela verde onde, é bem possível, Tati espreitava na janela.</p>
<p>“Quando começou a novela das 9 e ela não voltou, eu liguei. Ela me disse que estava baixando músicas pelo celular do Clairton”, ainda lembra a vó. A velha senhora foi então até o porão do sobrinho, espiou por uma fresta, nada viu de suspeito, bateu na porta e perguntou pra Clairton por Viviane: “Tia, Ela foi embora faz tempo”, mentiu, com calma.</p>
<p>Na manhã seguinte, angustiada, dona Jovenilda foi na casa de Juarez. Ela não estava lá. Ele jurou que a respeitava muito e que estaria esperando que Viviane completasse 18 anos para ficar com ela – uma mentira que a avó dispensou, porque sabia de tudo: “Se ela quisesse ficar com ele eu deixaria, ela não precisaria mentir, nem fugir”.</p>
<p>Se não estava com Juarez, tentaram a casa da mãe, mas ela dificilmente passaria por lá. Então só restava a polícia. Dia 19 de dezembro, manhã de sexta. Na delegacia, disseram pra vovó que “uma menina na idade dela faz coisas que nem o diabo acredita”, avisando que buscas só iniciariam 72 horas depois.</p>
<p>A juíza Célia Lobanowisky acreditou nas coisas que a polícia diz que Tati e Clairton fizeram, mandando os dois para a Febem, ela em Nova Hamburgo, ele na da Porto Alegre.</p>
<p>No início de abril ela preparava a sentença sigilosa para puni-los. É uma tarefa inútil, já que pelo Estatuto da Criança e do Adolescente os dois não podem ser presos. Suas fotos e seus nomes sequer podem ser publicados, o caso corre em segredo de Justiça.</p>
<p>Em juízo, Tati negou ter mandado matar Viviane. Disse que Clairton a interpretou mal e que fez tudo por conta própria – descontada a possibilidade dele ter agenciado o crime com aqueles carinhas pra quem ofereceu os 200 reais.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/viviane-graminha-no-cemiterio2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3893" title="viviane-graminha-no-cemiterio2" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/04/viviane-graminha-no-cemiterio2.jpg" alt="" width="450" height="299" /></a></p>
<p>Quem quer que tenha matado Viviane foi bem cruel. Não se sabe os detalhes, nem quando e se ela percebeu que iria morrer, mas sabe-se o resultado da ação do matador/matadores.</p>
<p>Do porão da casa de Clairton ela foi levada por uma picada no matagal dos fundos da casa para perto de um tronco de guarapuvu, cerca de 100 metros distante.</p>
<p>Seu corpo foi encontrado apenas na manhã de 23 de dezembro, o quinto dia do desaparecimento, sem que a polícia tivesse organizado nenhuma busca. Foram outros irmãos e sobrinhos de dona Jovenilda e seu João que combinaram, na noite do dia 22, começar a procurar perto de casa.</p>
<p>Quem se ofereceu pra ajudar ? Clairton solícito com os tios.</p>
<p>“Eu sai procurando pelo lado do muro (de uma empresa de lacticínios) e fui indo pra baixo”, conta o avô. “Clairton me apontou uma árvore lá longe (o tronco seco do garapuvu) e me disse pra ir praquele lado, eu nem imaginei nada”.</p>
<p>Seu João, falando sob os cinamomos, chora quando lembra a cena final: “Eu dei uns passos perto de um córrego e vi um vulto no chão, gritei ‘ai está ela’ e sai correndo, porque tudo se escureceu na minha vista”.</p>
<p>E lá estava a menina mais bonita da rua Venezuela: morta, deitada de costas, sobre os braços amarrados pra trás por um fio elétrico, com um saco plástico enfiado na cabeça e um pano cobrindo o rosto.</p>
<p>Os legistas confirmaram que ela foi estuprada e morta por estrangulamento e asfixia. O assassino ou assassinos tentaram encobrir o crime queimando seu tórax, mas apenas chamuscaram o corpo.</p>
<p>O cadáver ficou exposto aos vizinhos por quatro horas, que fizeram cortejos para vê-la. Dona Jovenilda fez questão de ir ver o cadáver. Chocada, não quis que tirassem o pano do rosto – sob o qual, soube-se depois, estavam dentes quebrados. Ela disse que reconheceu a neta por um piercing que usava no umbigo: “Era a minha Vivi”.</p>
<p><em>Fotos de Thiago Picolli</em></p>
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		<title>Pietro Albuquerque: vida e morte do guri que virou lei</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Mar 2009 14:25:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>renan</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<img class="thumbesq" title="beijo_da_pintura" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/beijo_da_pintura.jpg" alt="" width="150" height="112" />Anote o nome: Pietro. Pietro Albuquerque. Com certeza você ainda vai ouvir falar deste jovem classe média alta da Zona Sul. Morto de leucemia
mielóide poucos dias antes de fazer 20 anos, ele já tem um lugar na história:  em sua homenagem a Câmara Federal aprovou a “Lei Pietro”.]]></description>
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<p><strong>Por Renan Antunes de Oliveira *</strong></p>
<p>Anote o nome: Pietro. Pietro Albuquerque. Com certeza você ainda vai ouvir falar deste jovem classe média alta da Zona Sul. Morto de leucemia mielóide poucos dias antes de fazer 20 anos, ele já tem um lugar na história: em sua homenagem a Câmara Federal aprovou a “Lei Pietro”.</p>
<p>A proposta foi do pai dele, o deputado federal do PSB gaúcho Beto Albuquerque, apresentada em dezembro de 2007, logo depois do filho ter sido diagnosticado com a doença – o pai deputado sentiu as dificuldades do brasileiro comum para tratar leucemia pelo SUS.</p>
<p>A lei designa de 14 a 21 de dezembro “Semana de Mobilização Nacional para Doação de Medula Óssea” – como transplante é a única chance de cura, a lei transformou a dor da família Albuquerque em esperança para milhares de pessoas na mesma situação.</p>
<p>O projeto se arrastou um ano na Câmara – ao mesmo tempo a doença ia consumindo Pietro. Para tratar-se, ele recorreu a bancos de doadores em Paris e Nova York. Um dia depois de sua morte, em 3 de fevereiro, os parlamentares se deram conta do drama do colega e aprovaram a lei.</p>
<p>O mérito da proposta é mobilizar a sociedade para conseguir doadores no país: “Se meu pai não fizer mais nada no mandato, já terá feito muita coisa por muita gente”, diz Rafael, publicitário, 23 anos, irmão de Pietro.</p>
<p>É um elogio ao pai, mas também um fato: segundo estatísticas do Ministério da Saúde, todo ano quase 10 mil pessoas contraem leucemia. O Brasil tem 300 mil doadores cadastrados. É pouco: cada doente tem só uma chance em 100 mil para encontrar alguém compatível.<br />
 <br />
Entre os vários tipos da doença, a mielóide é a mais difícil de curar, mata oito de cada 10 pacientes. Na maioria das vezes ataca homens adultos, dos 50 pra cima, embora tenha acertado Pietro na flor da juventude, aos 18.</p>
<p>Em 14 meses de luta contra a doença, ele usou todo arsenal médico disponível. Era beneficiário da mãe no plano de saúde do Banco do Brasil e se tratou no melhor hospital brasileiro, o das Clínicas, em São Paulo.</p>
<p>Foi preciso mudar de cidade porque não havia leito do SUS para pacientes da doença na base eleitoral do deputado: “Porto Alegre só tem sete ou oito leitos especiais para essa doença. Tentei outros lugares públicos mais próximos, mas também não consegui lugar para ele”, disse Beto – e se foi difícil para um dos líderes do governo, imagine-se para o cidadão comum.</p>
<p>Pietro teve apoio de pai, mãe, irmãos, madrasta, avós. Teve todo dinheiro necessário para todas as despesas. Fez quimioterapia e radioterapia. Foi mantido em quartos isolados para evitar contaminação. Tentou até o transplante de cordão umbilical, a última moda em soluções mágicas.</p>
<p>Quando nem os bancos de medula no exterior ajudaram, os médicos tentaram transplante de medula com material doado pela mãe. Esta cartada final da medicina também não funcionou.</p>
<p>Por todos os relatos, o Pietro que se foi era um cara na dele, muito tranqüilo. Nasceu em Passo Fundo, veio pequeno para Porto Alegre. Gostava de garotas, de ler, de música, de Floripa, de cinema, do Colorado, do gato Tinkleydison.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro5.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3653" title="pietro5" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro5.jpg" alt="" width="450" height="338" /></a></p>
<p>Olhando para trás, ele parecia saber que estava marcado para morrer cedo. Aos 16, publicou um livro com título premonitório: “Dias Contados”.</p>
<p>A obra saiu durante a Jornada Nacional de Literatura da Universidade de Passo Fundo. No texto de apresentação a professora Tânia Rosing escreveu que “Pietro de Albuquerque terá longa vida como escritor” – ela não teve a menor intuição do que estava por vir.</p>
<p>O livro é muito bom, ainda mais considerando que foi escrito quando o guri tinha 15. E são 296 páginas – uma façanha nestes tempos em que adolês falam por email e torpedos.</p>
<p>“Dias Contados” é sobre o cotidiano de quatro personagens meio autobiográficos: Yuri, Caíque, Cecília e Priscila. Seriam ele mesmo, seu irmão e duas primas. O irmão diz que muito do que está escrito é da vivência, “ele era muito observador”, mas que também há coisas inventadas porque “ele era muito criativo”.</p>
<p>No texto, o personagem Yuri se descreve como “um garoto bem sociável, nada tímido, mas também não muito extrovertido. Ao mesmo tempo em que gosta de dar uns beijos sem importância, é muito romântico”.</p>
<p>Pietro balançou um pouco, lá pelos 10 anos, quando os pais se divorciaram. “Foi surpreendente, inesperado, pois para todo mundo parecia um conto de fadas”, diz Rafael. “Pietro ficou muito pra dentro”, dando no ponto em que o brother se tornou introvertido.</p>
<p>Os dois ficaram vivendo com a mãe, dona Débora. Logo estabeleceram uma rotina sem o pai, que só viam nos fins de semana e datas especiais – o deputado, sempre ocupado em Brasília, casou de novo e tem mais uma filha, Nina, pequena.</p>
<p>Muitas das estrepolias contadas no livro foram a maneira que Pietro encontrou para lidar com a separação. A primeira frase: “O menino era muito parecido com o pai, embora tivesse alguns traços da mãe”.</p>
<p>Quando fala dele, o pai tenta não se emocionar muito: “O Pietro era um menino muito envolvido com a cultura”, disse, em entrevista, algumas semanas depois da morte.</p>
<p>Ele lia Josué Guimarães, Érico Veríssimo, Machado de Assis, Lima Barreto, Umberto Eco. “Eram autores que ele tinha que ler para o vestibular, mas que acabou gostando e indo adiante”, conta Rafael.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro2.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3655" title="pietro2" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro2.jpg" alt="" width="450" height="338" /></a><br />
<strong>Beto e Pietro: nos bons tempos.</strong></p>
<p>O deputado agora está lendo o segundo livro do filho, “Quem tem coragem”, uma obra inédita que Pietro escreveu no hospital e deixou na memória de seu notebook. O texto tem uma leve marca da tragédia que se aproximava:</p>
<p><em>Agora, ele já podia comemorar aliviado o seu feito. Havia completado a sua missão. Havia terminado o que antes não havia conseguido. Restava-lhe esperar. Esperar por um juízo. Nunca fora de acreditar em destino, mas talvez os acontecimentos mais primordiais de sua vida o fizessem repensar. Era até irônico. Mais atrás, às suas costas, quatro homens de arma em punho vinham na sua direção sedentos por vingança. “Achar vai ser fácil, o difícil é conseguir sair”. E riu, preferindo nem olhar para o que lhe aguardava. E tirou do bolso o seu amuleto. Coragem, rapaz, coragem.</em></p>
<p>Até ser diagnosticado com a doença, Pietro vinha se dando bem na vida. Fotos mostram que ele não era de se botar fora. Não tinha namorada, mas era um “ficante” que “honrava as tradições” – é a linguagem de Rafael para descrever o irmão namorador.</p>
<p>Pietro queria ser escritor e roteirista de cinema. Já doente, passou no vestibular para cinema na federal de Santa Catarina.</p>
<p>Outra paixão era a praia do Campeche, em Floripa, onde vivem as duas primas do livro. Ia seguido pra lá. No álbum da família ele aparece em fotos na praia, saudável, sorridente, como se nada pudesse lhe acontecer.</p>
<p>Pietro não era do tipo consumista – seus gastos quase nunca eram maiores do que a pensão de 200 reais que recebia do pai. O programa preferido era ver filmes com a mãe e o irmão. O último foi Na Natureza Selvagem, a história amarga de um jovem andarilho americano morto no Alasca.</p>
<p>Ele queria muito viajar. Tinha ido pra Disney quando pequeno, conhecia um pouco Uruguai, Paraguai e Argentina, mas sonhava com lugares exóticos. Um plano maluco era mudar-se para Valetta ou Birkirkara, cidades de Malta, uma ilha do Mediterrâneo.</p>
<p>Parece 100 por cento garantido que ele planejava mesmo mudar-se para lá quando desse, tanto que o projeto estava no Orkut dele – e se está no Orkut é pra valer.</p>
<p>Outros sonhos ? Andar de trenó. Abrir uma padaria em sociedade com a prima Yve – ela também adoradora de Malta, país cuja característica mais notável foi ter sido cristianizado por São Paulo em pessoa.</p>
<p>Pietro acreditava em Deus, mas a última vez que pisou numa igreja foi na primeira comunhão, lá pelos 10 anos. Não acreditava em política. “Acho que é porque sempre vivemos com a política na família, ele acabou indiferente”, conta Rafael &#8211; um tio deles, Francisco Turra, também é deputado federal e cordial adversário do pai.</p>
<p>No Orkut ele se definia como quem “narra a vida na terceira pessoa”, além de ouvinte da banda Coldplay. Fotografava a si mesmo nas situações mais hilárias, como se dando um tiro imaginário quando rodou no vestiba da URGS.</p>
<p>Já minado pela doença, mantinha o bom humor na web, onde tinha 454 amigos. Estava ligado na comunidade “Doe Medula Óssea”. Na parte onde os internautas buscam namoradas ele só pedia como companheira ideal “uma medula nova bem fresquinha”.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro3.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3657" title="pietro3" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro3.jpg" alt="" width="450" height="338" /></a></p>
<p>A medula dele deixou de produzir sangue normal em algum momento no final de 2007. Os primeiros sintomas foram tonturas e náuseas. Um dia ele desmaiou durante uma aula no cursinho Unificado. No Hospital Mãe de Deus, os médicos diagnosticaram uma anemia profunda e pediram mais exames – em poucos dias a terrível doença foi descoberta.</p>
<p>A mãe estava com ele na hora do diagnóstico e foi sua enfermeira até o fim: “Os dois eram muito apegados, ficaram mais ainda”, lembra Rafael.</p>
<p>Dali pra frente a rotina da família virou de pernas para o ar. Pietro começou a fazer quimioterapia. Um mês no hospital, uma semana em casa. Em maio, depois de quatro meses de quimio, a traiçoeira doença parecia ter desaparecido: “Pensamos que ele se enquadraria entre os que conseguem se dar bem apenas com tratamento”, conta o pai – agora o deputado dedicava todos os fins de semana para estar junto com o filho.</p>
<p>A pequena melhora deu esperanças à família. Beto comemorou levando Pietro para Gramado e Canela, dias de brincadeiras com Nina. Ele ainda teve condições de ir pra Maceió com a mãe.</p>
<p>Em junho, o drama recomeçou. Ele começou a sentir-se mal outra vez. Testes confirmaram o pior. Foi aí que médicos e família começaram a procurar um doador de medula compatível – não adianta ser da família, tem muito a ver com o tipo de sangue e outras variáveis. Basta ver que o irmão era 80% compatível, mas ao mesmo tempo não era melhor do que os 65% de compatibilidade da mãe.</p>
<p>O transplante só é solução se é encontrado um doador cedo. Pietro demorou 10 meses para o primeiro e 13 para o segundo, quando então já estava muito debilitado. O que faltou ? Justamente pessoas cadastradas como doadoras.</p>
<p>Até no exterior, a busca por um doador compatível foi infrutífera – isto que o banco americano de medula tem 15 milhões de doadores. Em agosto, os médicos tentaram a nova técnica de usar cordões umbilicais.</p>
<p>Eles encontraram um na França e outro nos Estados Unidos. Sangue 80% compatível com o de Pietro. Mas era puro risco: até ali, só 500 transplantes assim tinham feitos no mundo. Por questões burocráticas, o transplante de cordão demorou até novembro, o que não ocorreria se o país tivesse um bom banco do material – como Pietro já tava mal, piorou mais.</p>
<p>O ano em São Paulo foi duro também para a família, mas ela se uniu em torno dele. Rafael conta que houve “entrega total de todo mundo. Ninguém media esforços. O pai era bom na tomada de decisões sob pressão. Cada um tinha um papel diferente. A mãe sempre dormia com o Pietro no hospital&#8221;.</p>
<p>Rafael ainda encontra tempo para dizer que a doença o fez descobrir de novo o pai em Beto: “Me reaproximei dele, fiquei com uma admiração imensa por quem ele é, pelo que ele fez”.</p>
<p>Os médicos iam fazendo o que podiam por Pietro. Rafa acha que “a medicina em São Paulo está cinco anos na frente de Porto Alegre em agilidade e remédios”, mas ela não faz milagres.</p>
<p>O transplante de material genético obtido dos cordões umbilicais do exterior pareceu dar certo. A medula pegou no tranco. Chegou a produzir sangue saudável, mas isto durou pouco. Pietro ganhou uma quase alta em São Paulo. Passava algumas horas por dia no ambulatório do HC e o resto do tempo num flat com a família – era o máximo possível de normalidade.</p>
<p>Exatos 85 dias depois, justo no Natal, a doença voltou. A tentativa seguinte foi o transplante de medula da mãe – a segunda chance para dona Débora Gelatti lhe dar a vida.</p>
<p>Para fazê-lo, é necessário que o paciente passe por pesadas sessões de quimioterapia e radioterapia – isto rala o corpo, com o objetivo de zerar a imunidade para não rejeitar o material doado.</p>
<p>Pietro enfrentou esta barra, mas foi para o transplante nas últimas energias. A operação caiu no dia 6 de janeiro, aniversário de Beto – se alguma coisa isto significa, que outros busquem o sentido: medula da mãe, no dia do pai.</p>
<p>O deputado apelou até para seu santo de devoção: “Se desse certo, nós iríamos visitar a terra de São Francisco, na Itália”.</p>
<p>Dali pra frente o quadro se complicou de vez. Ele teve uma sinusite que virou pneumonia, que virou infecção pulmonar, que virou Síndrome de Angústia Respiratória de Adulto, tudo isso em 16 dias após o transplante.</p>
<p>Nesta etapa ele já estava todo ligado em tubos e diferentes aparelhos. “Apesar de tudo, Pietro sempre foi muito confiante. O cara estava a fim de viver. Quando a gente falava o que estava fazendo, ele só dizia ‘beleza, vamos tentar’”.</p>
<p>E aí, entre 22 de janeiro a 3 de fevereiro foi só sofrimento. Pietro caiu na inconsciência, da qual não mais voltaria. Fazia gestos de sim com a cabeça, apertava a mão do interlocutor, mas já era pura agonia. Beto resume tudo: “Pietro foi um guerreiro”.</p>
<p>Na tarde do dia 3 os médicos avisaram a família que o menino deles estava em seus últimos momentos – ele morreria horas depois, mansamente, na madrugada. “Ali choramos tudo o que tínhamos, eu, meu pai e minha mãe”, lembra Rafael, agora tranqüilo. Um padre esteve no quarto e lhe deu a extrema-unção.</p>
<p>Recuperado e também sereno, o deputado diz que o filho lhe deixou uma tarefa: “Quero evitar que outros pais passem o que eu passei”.</p>
<p>Pietro foi enterrado no Jardim da Paz. Presentes, 17 deputados, o presidente da Câmara Michel Temer e o ministro das Relações Institucionais José Múcio, representando o presidente Lula.</p>
<p>A família retomou sua rotina. Na casa da Zona Sul, nada de culto a Pietro. Seu computador e a TV ainda estavam no mesmo lugar no início de março, mês em que ele faria 20 anos, mas as roupas já foram doadas para os pobres. A cama estava feita, embaixo escondia-se o gato Tinkleydison.</p>
<p>Fotos dele continuam nas paredes. Sobre a mesa, dois recuerdos do Pietro que se foi. Uma engraçada caneca imitando seio feminino. E um pequeno jipe feito com massa de modelar, envernizado e colorido, com pranchas de surf na capota – tipo coisa sonhada para seus dias na ilha de Malta.<br />
<a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro6.jpg"><img class="alignnone size-full wp-image-3658" title="pietro6" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/pietro6.jpg" alt="" width="450" height="324" /></a><strong>*Com reportagem de Daiane Menezes</strong></p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/2009/03/27/servico-como-e-onde-doar-medula/">SAIBA COMO E ONDE DOAR A MEDULA ÓSSEA</a></p>
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		<title>Na balada da morte</title>
		<link>http://www.jornalja.com.br/2005/03/08/na-balada-da-morte/</link>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2005 17:50:27 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Polícia]]></category>
		<category><![CDATA[Renan Antunes de Oliveira]]></category>

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		<description><![CDATA[Ainda não caiu a ficha do paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 32 anos, nem a do carioca Marco Archer Cardoso Moreira, 43, os dois brasileiros condenados à morte na Indonésia por tráfico de cocaína. Na quinta-feira 17, Marco perdeu o último apelo à Suprema Corte, dependendo agora de um improvável perdão presidencial para ser beneficiado com prisão perpétua. Na segunda 21 o presidente Lula pediu ao seu colega indonésio clemência em favor do condenado.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Renan Antunes de Oliveira, Enviado especial do Jornal JÁ a Jacarta</strong></p>
<p>Entrevistas exclusivas na cadeia com os brasileiros condenados à morte na Indonésia</p>
<p>Ainda não caiu a ficha do paranaense Rodrigo Muxfeldt Gularte, 32 anos, nem a do carioca Marco Archer Cardoso Moreira, 43, os dois brasileiros condenados à morte na Indonésia por tráfico de cocaína. Na quinta-feira 17, Marco perdeu o último apelo à Suprema Corte, dependendo agora de um improvável perdão presidencial para ser beneficiado com prisão perpétua. Na segunda 21 o presidente Lula pediu ao seu colega indonésio clemência em favor do condenado.</p>
<p>Durante quatro dias de entrevistas na cadeia de Tangerang, entre a quarta-feira 9 e o sábado 12, eles deram muitas gargalhadas relembrando suas aventuras. Os dois não estavam nem aí para a possibilidade de enfrentar o Criador, via pelotão de fuzilamento, ou passar o resto de suas vidas presos nos cafundós da Ásia. Se sentem como se tudo fosse apenas uma bad trip.</p>
<p>Eles confessaram ser traficantes tarimbados. E demonstraram, sim, algum arrependimento, mas só por ter embalado mal a droga que levavam em seus equipamentos esportivos, permitindo a descoberta pela polícia. Ela pegou Rodrigo com seis quilos escondidos em suas pranchas de surf, em 2004. E Marco com 15 na sua asa delta, em 2003.</p>
<p>Os dois homens que hoje dividem a mesma cadeia chegaram lá por trajetórias diferentes no mundo das drogas. Rodrigo foi mais usuário do que traficante, começou cheirando solvente aos 13 anos. Marco entrou no tráfico aos 17, já no topo da pirâmide, diretamente com os cartéis colombianos. Ambos fizeram várias viagens bem-sucedidas para muitos países, antes de se danarem no aeroporto da capital Jacarta, portão de entrada para se chegar na ilha de Bali, o paraíso dos pirados.</p>
<p>Os dois faziam parte de gangues diferentes. Na cadeia, formaram um laço instantâneo. Ficaram amigos ao ponto de dividir prato e colher. Suas afinidades: não terminaram os estudos, jamais trabalharam, sempre foram sustentados por outros, exploraram as famílias, viveram só pras baladas.</p>
<p><strong>Proteção materna</strong></p>
<p>As mães deles – mulheres sofridas, esperançosas e guerreiras – estão em campanha pela liberdade dos “garotos”, como elas e parte da imprensa tratam os dois barbados. Depois de gastarem os tubos com eles, estão raspando os cofres para resgatá-los. Na falta de uma boa causa além do incondicional amor de mãe, usam a bandeira do repúdio à pena de morte, de forte apelo na fatia esclarecida da humanidade.</p>
<p>Dona Clarisse, de Rodrigo, mobiliza o Itamaraty para proteger o seu. Dona Carolina, de Marco, obteve da Câmara de Deputados o envio de um apelo de clemência ao parlamento indonésio. A proposta, do deputado Fernando Gabeira, foi aprovada em plenário com apenas um voto contra, do deputado Jair Bolsonaro, um ex-militar linha-dura que há décadas luta pela adoção da pena de morte no Brasil.</p>
<p>Os diplomatas brasileiros em Jacarta trabalham nos bastidores para reverter as sentenças. Estão confiantes que vai dar certo. Notam a moleza do sistema porque só um traficante foi executado até hoje, dos 30 condenados sob as duras leis antidrogas indonésias de 2000. Era um indiano pobretão.</p>
<p>Pela expectativa otimista deles será possível reduzir a pena de Rodrigo para prisão perpétua, em segunda instância, negociando em dinheiro uma redução maior ainda na terceira, para 20 anos, com soltura em sete, talvez 10 – é sabido que o Judiciário indonésio adota uma regra não-escrita de trocar tempo de encarceramento por uma pena pecunária.</p>
<p>Eles admitem que no caso de Marco, já sentenciado em última instância, vai ser mais difícil. Será preciso om perdão presidencial apenas para reduzir de pena de morte para prisão perpétua, e depois negociar a saída. É que ele se tornou uma causa célebre porque fugiu do aeroporto quando foi descoberto com a droga, protagonizando uma caçada policial acompanhada em rede nacional de tevê.</p>
<p>Os custos para dar jeitinho nas sentenças e as despesas para manter os dois em celas cinco estrelas podem chegar a quase 200 mil dólares por cabeça. Dona Clarisse tem até mais para salvar Rodrigo; dona Carolina anda passando o chapéu. O desenrosco deve ser demorado: na melhor das hipóteses seus garotos voltariam pra casa entrados em anos, um quarentão, outro cinqüentão.</p>
<p>Agora o quadro sinistro: o fuzilamento do indiano pobretão, ocorrido em fevereiro, sinaliza uma mudança perigosa para os sonhos de liberdade dos brasileiros – a de que só dinheiro já não adianta mais.</p>
<p>É que a execução saiu por insistência do general durão Togar Sianipar, chefe da agência antidrogas deles. O homem está ‘‘hukuman berta bagi pembana narkotik’’. É isso mesmo: punindo severamente o narcotráfico.</p>
<p>Togar prometeu livrar a Indonésia das drogas até 2015, combatendo também a corrupção do sistema judicial – fechando o balcão de negócios a diplomatas e criminosos. Togar foi quem mandou pintar aquele aviso do hukuman em letras garrafais no aeroporto de Jacarta. Seu plano é simples e brutal: fuzilar os traficantes que pisarem no país.</p>
<p><strong>&#8220;Morte aos cristãos&#8221;</strong></p>
<p>O povão muçulmano o apóia. No tribunal, durante o primeiro julgamento de Rodrigo, em fevereiro, a platéia pedia ‘‘morte aos traficantes ocidentais cristãos’’, descrição na qual se encaixam os dois brasucas. O pedido da massa deixa o governo firme para rejeitar as campanhas internacionais por direitos humanos, livre de dúvidas existenciais sobre a pena de morte.</p>
<p>O modelo prende e mata já deu certo na política, em 1965, quando o país se dividia entre esquerda e direita. Em quatro meses, o presidente-general Suharto implantou o capitalismo fuzilando quase um milhão de comunistas.</p>
<p>Esta tradição não parece assustar os brasileiros sentenciados ao fuzilamento. Nos momentos de maior delírio eles já se enxergam, Marco em Ipanema e Rodrigo nas praias de Floripa, contando aos amigos como se livraram da fria.</p>
<p>Rodrigo sonha que políticos influentes amigos da mãe vão pressionar Lula para que ele interceda oficialmente a seu favor, pedindo clemência ao presidente indonésio. Marco anda tão avoado que até já encomendou de Casemiro, um amigo no Rio, o último modelo de asa-delta.</p>
<p>Paradoxalmente, a prisão é o momento de glória de suas vidas: “Somos os únicos entre 180 milhões de brasileiros”, diz Rodrigo, deslumbrado com a notoriedade obtida com o narcotráfico – cujo pico de audiência é entre jovens ricos praticantes de esportes radicais.</p>
<p>Eles acreditam nas chances de transformar o limão numa limonada. Estão com tudo pronto para botar um diário na internet. Planejam contratar videomakers para acompanhar seus dias. Negociam exclusividade na cobertura jornalística, começaram a escrever livros com a experiência.</p>
<p>Uma benção para os planos de libertação foi o tsunami que arrasou uma zona pobre da Indonésia: familiares e diplomatas contabilizam cada avião brasileiro de ajuda humanitária como um ponto para a futura negociação. O Itamaraty espera que os indonésios considerem isso na hora de analisar o pedido de clemência feito por Lula.<br />
<strong><br />
Mordomia na prisão<br />
</strong><br />
Enquanto esperam, os dois compram privilégios para viver como marajás na cadeia – ambos estão com o cordão umbilical ligado nas contas bancárias das mães: “Aqui é como numa pousada, muito legal, só que jogaram a chave fora”, diz Rodrigo, satisfeito, mesmo sendo acostumado ao conforto de sua suíte com sauna, na casa da família, em Curitiba. Marco também não resmunga, mas sente saudades dos apês na Holanda, EUA e Bali.</p>
<p>Enquanto os 1300 presos muçulmanos estão amontoados em 10 por jaula, cada um dos brasileiros tem sua cela. E elas estão equipadas com TV, ventilador, geladeira, forno elétrico, som pauleira. No jardim privativo criam pássaros, podam bonsais, alimentam os peixes do laguinho, cuidam da gata Tigrinha.</p>
<p>O serviço é excelente: presos pobres fazem a faxina, lavam as roupas deles, são garçons nas festas, cabeleireiros, pedicures. Os dois podem receber gente sem formalidades, todos os dias. Rodrigo já foi visitado pela família, pela namorada, a empresária carioca Adriana Andrade, e pelo parceirão Dimitri “Dimi” Papageorgiou.</p>
<p>Dimi é outro garotão com mais de 30, carioca de pais gregos, acusado de ser líder da quadrilha contratante do malfadado transporte das pranchas recheadas de coca. Apareceu na cadeia para ver seu mula Rodrigo, deu 2 milhões de rúpias para ele se virar, dinheirama que vale só 500 pilas. Mas agora Dimi não vai mais poder ajudar: ele foi preso, em fevereiro, pela Polícia Federal, no Brasil – aquelas rúpias dadas a Rodrigo poderão lhe fazer falta.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia11.bmp"><img class="alignnone size-full wp-image-3564" title="indonesia11" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia11.bmp" alt="" /></a></p>
<p>Marco recebeu a visita de amigos de Bali e de uma senhorita conhecida apenas como ‘Dragão de Komodo’, sua namorada indonésia. A moça também é sentenciada, está na área feminina da prisão. Dona Carolina já esteve com ele duas vezes, a última no niver, em outubro, quando deu uma festinha com brigadeiros e refris – depois, tirou uma soneca na cela do filho.</p>
<p>Dona ‘Carola’ é funcionária pública aposentada, superdescolada. Conquistou a simpatia dos carcereiros de Marco com seu ‘show do milhão’. Foi assim: cansada do assédio deles por dinheiro para cigarros, ela trocou 1 milhão de rúpias em notas de 10 mil (quase R$2,50) e saiu pelo pátio jogando as cédulas para o alto. Guardas e presos lutaram para recolher a mixaria.</p>
<p>Mais showtime na cadeia: os dois recebem suas visitas íntimas no sofá da sala do comandante. De vez em quando pinta um ecstasy. E nas noites quentes rola até um chopinho gelado, cortesia de um chefão local, preso no mesmo pavilhão. Lá, a balada não pára nunca.</p>
<p>A comida é tudo de bom. Marco tem curso de chef na Suíça, dá show na cozinha. Na semana passada seu cardápio incluía salmão, arroz à piemontesa, leite achocolatado com castanhas para sobremesa. O fornecedor dos alimentos é Dênis, um ex-preso tornado amigão. Ele pega a lista por celular e traz tudo fresco do Hypermart.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia2.bmp"><img src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia2.bmp" alt="" title="indonesia2" class="alignnone size-medium wp-image-3567" /></a></p>
<p>Quando o amigão está ocupado e a geladeira vazia, Marco chama a cobrar a mãe no Rio, que liga pra mãe de Rodrigo em Curitiba, que aciona a Embaixada, que despacha um chofer pra garantir o fome zero da dupla.</p>
<p>Como Tangerang é uma prisão provisória, nos arredores de Jacarta, Rodrigo e Marco estão como naquela piada da hora do recreio no inferno. O secretário do diabo pode anunciar o fim dos privilégios a qualquer momento. Pior do que o fogo será a transferência deles para o Carandiruzão de uma remota ilha no Sul, onde serão misturados com 10 mil presos muçulmanos: aí será bom começarem a rezar para Alá.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia31.bmp"><img src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia31.bmp" alt="" title="indonesia31" class="alignnone size-medium wp-image-3569" /></a></p>
<p>Sempre otimistas, já têm planos para tentar se refazer lá embaixo. Rodrigo bola um jeito de demonstrar sua habilidade em pesca submarina, para presentear peixes ao comandante da nova cadeia e conquistar sua amizade.</p>
<p>Difícil saber como é que lhe ocorreu uma idéia destas. Mas é fazendo planos absurdos como esse que eles passam os dias. As baladas da cadeia, o papo encorajador das famílias, o apoio dos diplomatas e a expectativa de que suas ações possam ficar impunes dão um tom surrealista pra todas conversas deles.</p>
<p>Num papo, Rodrigo revela sua crescente admiração pelo companheiro, já o acha até injustiçado. “Marco teve uma vida que merece ser filmada”, exalta, contando ter oferecido um roteiro sobre o amigo à cineasta curitibana Laurinha Dalcanale. “Ele fez coisas extraordinárias, incríveis.”</p>
<p>O repórter pede um exemplo de tal obra. “Ué, viajou pelo mundo todo, teve um monte de mulheres, foi nos lugares mais finos, comeu nos melhores restaurantes, tudo só no glamour, nunca usou uma arma, o cara é demais.”</p>
<p>Menos, Rodrigo. Menos.</p>
<p>Ele pára alguns segundos, reflete um pouco. Sai devagar do deslumbramento com as vantagens do narcotráfico sobre um emprego comum. Muda o tom e pede ajuda: “Por favor, brother, quando você for escrever, dê uma força, passe uma imagem positiva nossa, pra ajudar na campanha”.</p>
<p>Então diga lá o que você vai fazer quando for solto: “Bota aí que eu quero trabalhar 10 anos pro governo dando palestras pra crianças sobre a roubada que é o tráfico”.</p>
<p>Ele diz e saboreia o efeito das palavras. Traga seu Marlboro, acaricia Tigrinha. Parece sério, joga a fumaça pra cima. Quando solta tudo, o corpo já está se chacoalhando. É que ele não conseguiu conter o riso.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia4.bmp"><img src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia4.bmp" alt="" title="indonesia4" class="alignnone size-medium wp-image-3572" /></a></p>
<p>&#8220;Vou sair dessa&#8221;</p>
<p><strong>Seu último desejo: voar mais uma vez em São Conrado</strong></p>
<p>Marco Archer já esperava ter a pena de morte confirmada no Supremo Tribunal indonésio, como ocorreu na quinta 17. Sua única esperança agora é um apelo do Itamaraty ao presidente indonésio por clemência. Isto lhe pouparia a vida, mas o deixaria para sempre na cadeia. A execução ainda pode demorar cinco anos.</p>
<p>Quem é Marco? Um carioca, com o apelido chinfrim de Curumim. Ele cresceu classe média na Ipanema dos ricos. Queria ser um deles. Em 80, aos 17 anos, foi à Colômbia disputar um campeonato de asa delta. Voltou campeão, mas mordido pela mosca azul do narcotráfico: sacou como ganhar dinheiro fácil.</p>
<p>“Alguém no hotel me deu uma caixa de fósforos com cocaína. Depois da primeira viagem, nunca fiz outra coisa na vida, tenho mais de mil gols”, exagera.</p>
<p>Ele conta que serviu de mula no Hawai, Nova York, Europa toda. “Fazia viagens rentáveis, ficava meses sem trabalhar.”</p>
<p>Na cadeia, Marco passa horas olhando fotos amassadas que guarda numa imunda pasta preta. São recuerdos de suas viagens, de belas mulheres, de carrões e barcos: “Não posso me queixar da vida que levei”.</p>
<p>Orgulha-se: “Nunca declarei imposto de renda, nem tive talão de cheque, não servi ao Exército. Só votei uma vez na vida. Foi no Collor, amigo da família”.</p>
<p>Com o dinheiro do tráfico, Curumim manteve apartamentos em três continentes, abertos pra patota da asa delta, do surf, da vida boa: “Nunca perguntaram de onde vinha meu dinheiro”.</p>
<p>Marco conta que saiu do Brasil para morar em Bali há 15 anos, “cansado de ver meu irmão (Sérgio) bater na minha mãe para obter dela dinheiro pras drogas”. O irmão morreu de overdose em 2000, mas a estas todas ele tinha tido seu infortúnio: em 1997 caiu da asa, sofreu várias fraturas.</p>
<p>Dali pra frente sua atividade de mula de drogas diminuiu, as contas de hospitais cresceram. Ficou quase dois anos sem andar, até conseguir se recuperar. Hoje anda com dificuldades, com as pernas cheias de pinos de metal.</p>
<p>Pra decolar outra vez na vida boa ele preparou aquele que seria seu último golpe, faturar 3 milhões e 500 mil dólares inundando Bali com cocaína.</p>
<p>Foi ao Peru, pegou 15 quilos com um fornecedor, por uma bagatela, cerca de 8 mil dólares o quilos (dinheiro que ele obteve com um chefão americano, com quem dividiria os lucros da operação).</p>
<p>Marco meteu a droga nos tubos de sua asa delta. Saiu de Iquitos, no Peru, para Manaus, pelos rios da Amazônia. “Eu me misturei com turistas americanos e nunca fui revistado”, gaba-se. De lá embarcou para Jacarta: “Tava tudo pronto pra ser a viagem da minha vida”.</p>
<p>No desembarque, mete o equipamento no raio x. A asa de Marco tinha cinco tubos, três de alumínio e dois de carbono. Este é mais rijo e impermeável aos raios: “Meu mundo caiu por causa de um guardinha desgraçado”.</p>
<p>Como foi: “O cara perguntou porque a foto do tubo saía preta. Eu respondi que era da natureza do carbono. Aí ele puxou um canivete, bateu no alumínio, fez tim tim, bateu no carbono, fez tom tom”.</p>
<p>O som revelou que o tubo estava carregado. Foi o fim de uma bem-sucedida carreira de 25 anos no narcotráfico.</p>
<p>Marco ainda conseguiu dar um desdobre nos guardas. Enquanto buscavam as ferramentas, ele se esgueirou para fora do aeroporto, pegou um prosaico táxi e sumiu – ajudado pelo fato de falar fluentemente a língua bahasa.</p>
<p>Estava com tudo pronto para escapar no iate de um amigo milionário, mas aí azar pouco é bobagem. Um passaporte frio que ele tinha foi queimado por um cúmplice que também fugia da polícia.</p>
<p>Depois de 15 dias pulando de ilha em ilha no arquipélago indonésio – estava tentando chegar ao Timor do Leste –, passou sua última noite em liberdade num barraco de pescador, em Lombok.</p>
<p>Acordou cercado por um esquadrão policial, armas apontadas. Suplicou em bahasa, tiveram misericórdia dele.</p>
<p>Na cadeia esperando a execução, procura levar seus dias na malandragem carioca, na maior paz com os carcereiros, sempre fazendo piadas, cozinhando-lhes pratos especiais.</p>
<p>Acabou pro Curumim? “Vou fazer tudo para continuar vivo e sair dessa”.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia5.bmp"><img src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2009/03/indonesia5.bmp" alt="" title="indonesia5" class="alignnone size-medium wp-image-3573" /></a></p>
<p><strong>Nas drogas desde os treze</strong></p>
<p>Rodrigo nasceu em Foz do Iguaçu. É neto de latifundiário produtor de soja, filho de mãe milionária, dona Clarisse. O pai é um médico gaúcho de Santana do Livramento, Rubens Borges Gularte.</p>
<p>Aos 13, já em Curitiba, Rodrigo começa nas drogas, cheirando solventes. “Era um garoto maravilhoso, a alegria da família, nunca levantou a voz”, isso é tudo o que a mãe lembra dele naquela época.</p>
<p>Com 18 é preso fumando baseado no parque Barigüi. O pai queria deixar que ele fosse processado. A mãe não concorda, suborna um delegado com mil dólares pra soltar o garoto: “Se fossem prender todos que fumam”, justificou dona Clarisse.</p>
<p>O garoto ganha seu primeiro carro. Bota amigos dentro e sai pela América Latina como um Che Guevara mauricinho, bebendo e se drogando. “Fiz cada loucura”, lembra.</p>
<p>Aos 20 Rodrigo era um rapaz de 1,84m, magrão, modos educados, cheio de namoradas. Teve um breve romance com a professora catarinense Maria do Rocio, 13 anos mais velha, fazendo Jimmy, hoje com 12, autista. Raramente via o filho: “Eu não estava preparado para a paternidade”, admite.</p>
<p>Rodrigo passa a viajar muito e pira total: “Em Marrocos, fumei o melhor haxixe”. No Peru: “Coca da pura”. Na Holanda: “Ecstasy de primeira”.</p>
<p>Aos 24, sai bêbado e drogado de uma festa. Bate o carro num táxi, tenta fugir, bate noutro, abandona tudo e corre pra casa da mãe. Ela dá uma volta na polícia, chama um médico, interna o garoto.</p>
<p>Na ficha de internação, o médico João Carlos anota: “Mostrou onipotência, estava depressivo”.</p>
<p>Nos anos seguintes a mãe fez de tudo para ele dar certo. Abre para Rodrigo uma creperia, em Curitiba. Não deu. Uma casa de massas, em Floripa. Não deu. Mandou pra fazenda. Não deu. Rodrigo vai estudar no Paraguai. Não deu. Ele se matricula na UFSC. Não deu.</p>
<p>Rodrigo começa no tráfico: “Fiz várias viagens à Europa só para trazer skunk”, confessa.</p>
<p>“Se ele fazia isso, não sei onde metia o dinheiro, porque nunca tinha um tostão”, rebate a mãe.</p>
<p>A prisão: “Os carinhas me deram as pranchas com cocaína dentro. Embarquei em Curitiba, onde o raio x é ruim, pra desembarcar em Jacarta”.</p>
<p><strong>O narco também não deu certo.</strong></p>
<p>Agora ele se lamenta: “Só depois soube que os japoneses doaram um raio x potente pros indonésios, eles pegaram a droga”.</p>
<p>Rodrigo filosofa: “Meu erro foi a coca. O skunk é energia positiva, o ecstasy dá um barato legal, mas a cocaína é do mal”.</p>
<p>Um desabafo: “Se a parada tivesse dado certo eu estaria surfando em Bali, cercado de mulheres”.</p>
<p>Seu futuro: esperar as negociações do Itamaraty e tentar reduzir a pena em segunda instância.</p>
<p>Uma novidade: ele está namorando firme. Com uma menina indonésia, caixa de um supermercado, prima de um condenado. Ela entrou para visitar o parente, os dois se pegaram no olhar. Ele foi no primo, soltou um plá, consegui atrair a menina.</p>
<p>Ela vem uma vez por semana, Rodrigo dá uns amassos nela, na sala do comandante.</p>
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		<title>A tragédia de Felipe Klein</title>
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		<pubDate>Mon, 20 Dec 2004 16:18:01 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Na noite do sábado 17 de abril, um corpo de aparência incomum foi levado pela polícia ao necrotério da Avenida Ipiranga. Tinha duas protuberâncias esquisitas na testa. O médico-legista abriu o couro cabeludo, abaixou a pele até o nariz e se deparou com algo muito raro: dois chifres implantados na carne, feitos de teflon. Cada um era quase do tamanho de uma barra de chocolate Prestígio.<br /><strong>Por Renan Antunes de Oliveira</strong>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Renan Antunes de Oliveira</strong></p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled8.jpg"><img class="thumbesq" style="border: 1px solid black;" title="Klein" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled8-300x214.jpg" alt="" width="210" height="150" /></a><em>Ele tinha tudo para ser feliz. Juventude, saúde, talento, dinheiro, o amor de belas garotas. Mas Felipe construiu para si um mundo dark e animal. Tatuou demônios no peito &#8211; e foi vencido por eles.</em></p>
<p>Na noite do sábado 17 de abril, um corpo de aparência incomum foi levado pela polícia ao necrotério da Avenida Ipiranga. Tinha duas protuberâncias esquisitas na testa. O médico-legista abriu o couro cabeludo, abaixou a pele até o nariz e se deparou com algo muito raro: dois chifres implantados na carne, feitos de teflon. Cada um era quase do tamanho de uma barra de chocolate Prestígio.</p>
<p>O cadáver estava todinho tatuado. Trazia argolas de metal nos genitais, mamilos, lábios, nariz e nas orelhas &#8211; e estas tinham orifícios da largura de um dedo.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled.jpg"><img class="thumbdir" style="border: 1px solid black;" title="Klein2" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled.jpg" alt="" width="200" height="303" /></a>De entre os chifres saíam três pinos metálicos pontiagudos. A língua fora alterada: cortada ao meio e já cicatrizada, parecia a de um lagarto.</p>
<p>É claro que Felipe Augusto Klein, morto aos 20 anos, nem sempre teve uma aparência assim.</p>
<p>Nasceu uma criança saudável. Era o caçula dos cinco filhos do casal Lili e Odacir &#8211; o pai é um político influente, quatro vezes deputado federal, ministro de FHC e secretário estadual da Agricultura do governo Germano Rigotto.</p>
<p>Fotos de Felipe no álbum da família mostram a criança típica da classe privilegiada: um menino de cachinhos loiros, olhos azuis, bochechudo, limpo, bem vestido &#8211; e, às vezes, sorridente.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled1.jpg"><img class="thumbesq" style="border: 1px solid black;" title="Klein2" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled1.jpg" alt="" width="200" height="213" /></a>Foi na adolescência que ele começou a se mutilar com tatuagens, cirurgias e implantes. Pouco antes de morrer preparava-se para botar nas costas uma pele de lagarto e rasgar sulcos no rosto, para pintar neles uma máscara dos maoris, nativos da Nova Zelândia.</p>
<p>Em sua curta vida Felipe radicalizou em ‘body modification’, a expressão inglesa dos adeptos de mudanças corporais. Nos últimos três anos, todo mês gravou alguma figura nova no corpo, ou se aplicou algum piercing. Para combater as dores provocadas por agulhas e bisturis ele se automedicava.</p>
<p>As dores físicas eram fichinha se comparadas ao espírito atormentado de Felipe. A mãe, as duas últimas namoradas e os dois amigos mais próximos o descreveram como um jovem patologicamente sensível a tudo que o rodeava &#8211; e em especial, ao alcoolismo do pai.</p>
<p>‘Eu não sou desse mundo’ era sua frase predileta. Felipe disse que se sentia assim para dona Lili, para Helena, seu grande amor, para Karen, sua última namorada, para Cristiano e Xande, dois tatuadores tão amigos que cada um segurou uma alça do caixão, e para Virgínia, uma amiga que foi ao enterro chorar com a família.</p>
<p>Não dá para saber quando foi que ele começou a se sentir desse jeito. A mãe contou que ‘cedo’ a família percebeu nele ‘alguma coisa diferente’. Por isso, ‘desde pequeno recebeu tratamento psicológico’. Nos dois últimos anos esteve ‘sob o controle de um psiquiatra’.</p>
<p>Os médicos diagnosticaram um mal que surge na adolescência. O ‘transtorno afetivo bipolar’, ou ‘psicose maníaco-depressiva’. Felipe vivia na gangorra entre depressão e euforia, quase sempre no lado da baixa. Era tratado com um coquetel de antidepressivos.</p>
<p>Na literatura médica, a origem do mal é incerta. Pode ser genética, ou despertada por um trauma. O certo é que ‘ele nunca foi uma criança feliz’, afirmou a mãe. Ela não sabe explicar como, entre seus cinco filhos, apenas Felipe teve a sina. ‘O mundo dele era seu quarto e seus bichos, não gostava de jogar futebol, nem de sair’.</p>
<p>Felipe passou a infância em Brasília, onde seu divertimento era colecionar gnomos, seres imaginários de uma lenda nórdica. Na adolescência, já em Porto Alegre, onde terminou o secundário no Colégio Sevigné, aumentaram seus sintomas depressivos.</p>
<p>Por alguns meses fez parte da tribo urbana dos góticos, jovens que se vestem de negro, assumem um ar deprê e desprezam o resto da sociedade &#8211; mas se afastou deles porque o pessoal o considerava excessivamente&#8230; gótico.</p>
<p>Quando saiu dessa tribo de humanos, ele se voltou mais ainda para seus bichos. Passava dias trancado no confortável quarto que ocupava no amplo apê da família, no edifício El Greco, onde morava com a mãe, uma tia e mais de 20 animais.</p>
<p>No seu minizôo tinha gatos com pedigree, cobras importadas, filhotes de jacaré, tartarugas e lagartos. ‘Ele gostava mais de animais do que de gente’, contou Helena, citando outra frase ouvida dele. Tal paixão o levou a estudar Veterinária na Ulbra, mas logo se desinteressou.</p>
<p>Paixão permanente só por tattoos. A primeira ele fez aos 11, levado pela mãe. Era um sol, na coxa direita. Na adolescência evoluiu de tatuagens inocentes para figuras demoníacas e implantes radicais &#8211; já então contrariando os pais.</p>
<p>Pesquisando na internet, Felipe virou autoridade em body modification. Quando começou a fazer experiências no próprio corpo ele apareceu na RBS TV, demonstrando as técnicas. Vaidoso, cortejou cineastas para tentar exibir seu visual em filmes. Já na fase da modification total suas imagens acabaram exibidas ao grande público, mas no Ratinho, numa comparação grotesca com um porco.</p>
<p>Seu visual o transformou numa celebridade na web. No pequeno círculo dos tatuadores ele chegou a jurado de competições internacionais.</p>
<p>Quem o conhecia sabia que era determinado e não temia a dor. Ele mesmo se aplicava alguns piercings, aquelas argolas metálicas que usava no corpo, cuja fixação é um pequeno suplício.</p>
<p>Quando botava na cabeça que faria alguma modification ia em frente. Foi dele próprio a idéia dos chifres. ‘Eu tentei dissuadi-lo dizendo que um dia ele se arrependeria e que então seria doloroso retirá-los, mas ele não ouvia ninguém’, lembrou dona Lili.</p>
<p>Com a decisão tomada, ele estudou os passos da operação em livros de Medicina. Depois, orientou o tatuador que fez a cirurgia.</p>
<p>Nos últimos meses Felipe alimentou a bizarra fantasia de se transformar num animal como aqueles que amava &#8211; a idéia era virar um lagarto, aplicando sob a pele das costas bolinhas de silicone que lhe dariam um aspecto enrugado. A língua já estava pronta, dividida numa operação feita por um dentista de Taquara.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled2.jpg"><img class="thumbesq" style="border: 1px solid black;" title="untitled2" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled2.jpg" alt="" width="300" height="217" /></a>No final de março Felipe anunciou a meta de implantar a máscara maori e virar lagarto, coisas que o deixariam irreconhecível. Ninguém duvidou da possibilidade. Mas era tarde. Ninguém pôde mais fazer coisa alguma por ele, exceto assistir sua dolorosa renúncia à humanidade.</p>
<p><strong>Polícia não consegue depoimento do pai</strong></p>
<p>A primeira pessoa a ver Felipe morto foi Tadeu, porteiro do edifício Palácio, onde morava Odacir Klein. Ele contou que estava no saguão quando ouviu ‘um grito e um baque’. Caminhou até o muro que dá para o edifício Santa Maria e viu o corpo do rapaz estatelado no depósito de lixo do prédio vizinho.</p>
<p>Eram 18h56min do sábado 17 de abril. Tadeu chamou a polícia.</p>
<p>Quase três meses depois, a polícia ainda não tinha concluído o inquérito para apurar se Felipe se atirou, ou caiu, ou foi jogado do apto 903, o quarto e sala do pai no nono andar do Palácio, no 888 da Duque de Caxias.</p>
<p>Só pai e filho estavam no apartamento na hora da morte &#8211; e o pai não deu depoimento. Alguns jornais divulgaram que alguém vira Felipe no parapeito momentos antes da queda. Tal testemunha confirmaria suicídio, mas ela nunca existiu.</p>
<p>Quem esteve muito próximo da cena, mas também nada viu, foi Lucas, um estudante que mora no oitavo andar do prédio vizinho, quase janela com janela com o apê onde estava Felipe. Ele apenas ouviu o mesmo grito e baque escutados pelo porteiro.</p>
<p>Por determinação superior, a investigação da morte de Felipe não foi para a delegacia do bairro, como sempre acontece com cidadãos comuns, mas sim para a especializada em homicídios.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled3.jpg"><img class="thumbdir" style="border: 1px solid black;" title="Klein" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled3.jpg" alt="" width="200" height="237" /></a>O delegado Márcio Zachello, encarregado do inquérito, disse que ‘a investigação contempla todas as possibilidades’, mas trabalha mais com a hipótese de suicídio. Ele promete concluir a apuração ‘em breve’. Três são as principais evidências de suicídio. A primeira é que o corpo de Felipe foi encontrado a 11 metros de distância do prédio do Palácio, sinalizando que ele teria tomado impulso.</p>
<p>A segunda foi a constatação de que o pai estava quase inconsciente na hora da tragédia, bêbado demais para qualquer ação violenta. Examinado pelo Departamento Médico-Legal, ele tinha 26 decigramas de álcool por litro de sangue, numa escala onde seis é o limite legal da embriaguês.</p>
<p>A terceira é o depoimento da namorada, a estudante Karen, 20 anos. Ela disse às autoridades que os dois tinham um pacto de suicídio. Karen desistiu da idéia quando eles discordaram sobre formas indolores de morrer &#8211; Felipe gostava de se flagelar.</p>
<p>Ainda faltam duas peças para a conclusão do inquérito. O laudo da perícia feita no local pelo Instituto de Criminalística e o depoimento do pai. Ele já disse a familiares e amigos que não se lembra de nada do ocorrido naquela noite.</p>
<p><strong>Filho cuidava de Odacir</strong></p>
<p>Era Felipe quem cuidava do pai quando este bebia demais. ‘Meu filho se preocupava com o que pudesse acontecer com Odacir’, contou dona Lili. ‘Ele sempre tentava protegê-lo’.</p>
<p>O drama do alcoolismo foi vivido em segredo pela família durante anos, até ser exposto em rede nacional de TV, em 1996. Odacir, então ministro dos Transportes, voltava de uma festa com o filho mais velho, Fabrício, quando este atropelou e matou um operário, em Brasília. Os dois fugiram sem prestar socorro à vítima, mas alguém anotou a placa do carro e eles foram descobertos. O ministro estava embriagado. Com a repercussão do caso ele renunciou ao cargo.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled4.jpg"><img class="thumbesq" style="border: 1px solid black;" title="Felipe Klein" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled4.jpg" alt="" width="300" height="201" /></a>No últimos anos Odacir fez vários tratamentos, alternando períodos ruins com outros de sobriedade. No ano passado, se separou da mulher e foi viver na mesma rua, a um quarteirão. Quando estava em dia ruim, assessores levavam documentos oficiais para que ele os assinasse em casa.</p>
<p><strong>Última hora<br />
</strong><br />
Passava das 5 da tarde daquele sábado quando Felipe saiu do apê da mãe, atravessou a Praça da Matriz e caminhou até o do pai. Àquela hora a família sabia que Odacir estava alcoolizado &#8211; e o filho cumpriria pela última vez a tarefa de cuidar dele.</p>
<p>‘Quando meu filho saiu eu fiquei rezando o terço libertário. Pedi a Jesus para proteger e libertar os dois’, disse dona Lili &#8211; ela não derramou uma lágrima sequer durante 40 minutos de entrevista, numa manhã de junho.</p>
<p>Felipe chegou no edifício do pai e o esperou no saguão. Odacir apareceu pouco antes da seis, cambaleando. Caiu no portão. O zelador Gérson e o porteiro Tadeu tiveram que carregá-lo.</p>
<p>Os dois levaram Odacir para o elevador. Na curta viagem, Gérson notou que ele se contorceu de dor, provocada por um forte beliscão que Felipe lhe aplicara nas costas.</p>
<p>‘Eu disse para ele parar de judiar do doutor Odacir’, contou Gérson. Felipe rebateu: ‘Ele só nos faz passar vergonha’. A frase do rapaz com o rosto desfigurado soou estranha para o zelador: ‘Vinda de quem vinha, parecia piada, mas notei que ele estava muito nervoso e fiquei quieto’.</p>
<p>No apê, Felipe ordenou que os dois atirassem o pai no chão, mas Gérson não aceitou: ‘Mandei ele abrir a bicama da sala e o deixamos ali’.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled5.jpg"><img class="thumbdir" style="border: 1px solid black;" title="untitled5" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled5.jpg" alt="" width="200" height="143" /></a>O que aconteceu depois não teve testemunhas. Vizinhos ouviram pai e filho discutindo, gritos abafados por portas fechadas. Às 18h56, a queda.</p>
<p>A polícia chegou logo depois. Odacir aparece sem camisa nas fotos do inquérito, descabelado. Num relatório do SAMU os paramédicos atestaram que ele estava ‘com hálito etílico, fala arrastada e movimentos desorientados’, mas sem ferimentos, exceto pequenos arranhões.</p>
<p>Uma parente passou pela rua, viu o rebuliço, ouviu o zum zum zum e correu para a casa de dona Lili &#8211; ainda sem saber quem tinha morrido. ‘Eu pensei que tinha sido o Odacir’, disse depois dona Lili. ‘Quando entrei na sala e o vi de pé, entendi que era Felipe’.</p>
<p>Ela ainda teve coragem para ir à janela e olhar para baixo. O filho estava de bruços, com as pernas quebradas, os pés torcidos para fora e os braços abertos em cruz.</p>
<p><strong>Serenidade</strong></p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled6.jpg"><img class="thumbesq" style="border: 1px solid black;" title="Klein 6" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled6.jpg" alt="" width="200" height="299" /></a>Dona Lili disse que já temia que o filho se matasse e mostrou dois sinais: ‘Uma semana antes ele me deu uns óculos que eu gostava e distribuiu os bichos’. Tutankamon, o gato persa preferido, e Corn Snake, uma cobra americana, foram para o amigo Xande, tatuador em Camaquã. A mãe disse que agora se sente serena porque ‘ele sempre teve tudo o que queria, toda a ajuda que precisava. Não adiantou. Acho que ele estava muito avançado para nós, noutra dimensão’.</p>
<p>Ela buscou apoio num grupo de pessoas que também perderam parentes: ‘Com eles a gente pode falar, explicar e entender tudo’.</p>
<p>Dona Lili e o resto da família decidiram armar uma barreira de silêncio. Todos temem que o incidente possa prejudicar a candidatura do irmão Fabrício à Câmara de Vereadores.</p>
<p>Recuperado do choque, Odacir retomou o trabalho, até viajou para a China na comitiva do governador. A tragédia uniu outra vez Lili e Odacir &#8211; ele voltou para casa, nunca mais pisou no apê onde Felipe morreu.</p>
<p><strong>Rebeldia no enterro</strong></p>
<p>Felipe fez parte de um grupo gótico freqüentador do estúdio Tattoo Company, da rua Duque. A musa do pessoal era a pintora Sílvia Motosi, uma Frida Kahlo dos pampas, cujos trabalhos estão expostos este mês na Usina do Gasômetro &#8211; amiga de Felipe, tatuada no mesmo estúdio e pelo mesmo tatuador, ela se matou em 2002, do mesmo jeito: saltando da janela do apê da família.</p>
<p>Quando menino Felipe era como um mascote da turma, composta por gente bem mais velha. Na adolescência era cliente compulsivo. Finalmente, quando já estava todo tatuado, virou garoto-propaganda da casa. O pessoal de lá elogiava muito seu visual &#8211; ele se sentia estimulado e ia cada vez mais fundo.</p>
<p>Um tatuador do estúdio era seu confidente. Quando não estava se tatuando, Felipe aparecia com amigos para quem oferecia os serviços do estúdio. Por algum tempo a mesma turma se reuniu no atelier da arquiteta Roberta, uma notável na tribo, para discussões sobre body modification, universo gótico e a arte da tatuagem, considerada por eles ‘tão efêmera quanto a vida’.</p>
<p>Ainda adolescente ele serviu de modelo num calendário gótico. Na última página Felipe exibe o corpo com a palavra ‘alone’ (sozinho), enquanto abraça a arquiteta &#8211; ela hoje tem 32 anos, vive na Áustria.</p>
<p>Uma série de fotos feitas pela produtora de moda Marion Velasco, com a participação de modelo Priscila Burman, é emblemática do visual chocante de Felipe mesmo antes do implante de chifres.</p>
<p>Seu corpo estava coberto por tatuagens aparentemente sem sentido. A mais dramática era uma face demoníaca no peito. Exibia cemitérios, dragões, flores, máscaras, frases completas &#8211; uma delas, em alemão, dizia ‘solidão para sempre’.</p>
<p><a href="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled7.jpg"><img class="thumbesq" style="border: 1px solid black;" src="http://www.jornalja.com.br/wp-content/uploads/2008/12/untitled7.jpg" alt="" width="200" height="142" /></a>Para quem se sentia sozinho em vida, Felipe teve um enterro superconcorrido. Com a presença do governador Germano Rigotto, do senador Pedro Simon e até de adversários políticos do pai, como o ex-governador Alceu Collares, a cerimônia acabou atraindo centenas de pessoas e muitos jornalistas &#8211; foi tudo, menos discreta.</p>
<p>Os amigos do lado gótico dele não gostaram de ver tantos políticos no velório. Virgínia contou que um grupo de tatuadores, ela junto, ‘se posicionou entre o caixão e os políticos durante alguns minutos, tenho certeza que Felipe gostaria do que fizemos para protegê-lo’.</p>
<p>As diferenças entre família e tatuadores apareceram também no convite para enterro, com dois textos. Um falando que o menino foi acolhido por Jesus e Maria. O outro dizendo que ‘no mundo de Felipe não pode haver maldade’. Houve um pequeno momento de constrangimento entre as duas turmas, episódio relatado por Virginia. A irmã dele, Fernanda, estava fazendo um agradecimento público aos tatuadores, dizendo ‘vocês eram sua verdadeira família’, quando foi brecada pela mãe: ‘Não filha, ele nos amava, nós é que éramos sua família’ &#8211; dona Lili falou com a autoridade de quem mais o conhecia.</p>
<p>Felipe levou consigo algumas de suas bizarrices. No dedo anular direito, um anel em forma de esqueleto. No pescoço, uma corrente com seu inseparável bisturi. Virgínia meteu um broche no caixão, em sinal de amizade eterna. Karen, a última namorada, botou uma vaquinha nas mãos dele, certa de que seu amor só estaria feliz na companhia de algum animal.</p>
<p>Felipe foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. Virgínia reclamou da aparência prosaica do túmulo, queria ‘alguma coisa medieval’, que ela julgava seria mais ao gosto gótico do morto.</p>
<p>A tumba acabou adornada por um singelo bibelô de gesso, com a figura de um anjo montado num escorpião. A mãe mandou gravar uma frase na lápide, citando o martírio de Jesus no Calvário: ‘Nos precedestes na luz’.</p>
<p><strong>Amor no Rio de Janeiro foi raro momento de paz</strong></p>
<p>Felipe conheceu o amor. Foi em outubro de 2001, numa convenção de tatuadores, em São Paulo. Aos 18 anos, branquelo e magro, 1m80 e ombros largos, ele atraiu Helena, sete anos mais velha, branquela e cheinha, 1m66. Ela só se aproximou dele dias depois, no protocolo jovem: via email.</p>
<p>Já em Porto Alegre, ele respondeu dizendo que também a tinha notado. Pediu uma imagem para conferir. E gostou da mulher que não fazia o tipo deprê. Carioca criada no Leblon, filha de uma professora de Literatura Francesa e formada em Publicidade, ela trabalhava numa produtora de filmes.</p>
<p>Superocupada, só teve tempo de vir a Porto Alegre na virada de 2002. Na noite de Ano Novo os dois ficaram. Ela jura que ‘foi um sonho’.</p>
<p>Helena se disse atraída ‘porque ele era muito bonito antes das modificações’, além de ser ‘mais sério do que muita gente mais velha’. Ela o achou então ‘longe de ser deprê’ e que seu figurino ‘era menos extremo’. No carnaval Felipe foi pro Rio.</p>
<p>Por alguns dias Helena ia trabalhar com Felipe a tiracolo. Ele ficava rolando nas locações, esperando pelo tempo livre dela. Os dois tomavam muito sorvete na lanchonete Chaika, em Ipanema. Ela engordou alguns quilinhos, ele não, ela acha que é porque ele ‘era magro de ruim’.</p>
<p>Helena estava apaixonada. Elogiou Felipe como ‘tudo, menos um amador’. Ela topou mudar-se para Porto Alegre. Em março de 2002, veio morar com ele, a mãe, a tia e a bicharada dele. ‘Foi um tempo legal. A gente via desenhos animados, assistia filmes sobre Medicina no Discovery. Às vezes, ele inventava coisas na cozinha, era bom em massas’, recorda a moça.</p>
<p>O relacionamento foi crescendo e as diferenças aparecendo. Helena: ‘Ele dizia que queria ser cada vez menos humano. Sentia ódio da raça humana. Detestava pessoas gananciosas e as que buscam notoriedade’. A ex-namorada lembra que ‘uma coisa muito dele era sofrer quando via gente fazendo coisas ruins, uns passando por cima de outros para aparecer’. Ela dizia ‘esquece isso, vamos nos divertir’, mas parece que ele ‘não era disso, levava as coisas até o fim’.</p>
<p>Mais Helena: ‘Eu acho que é por isso que ele se matou. Ele queria ser o menos humano, mas ao mesmo tempo encarava todos os problemas. Se você encara, como é que vai sobreviver ? O suicida é aquele que não vê uma saída. E Felipe era assim’.</p>
<p>Ela disse que ele demonstrava ‘grande preocupação com o pai. Quando ele sofria suas crises de alcoolismo, Felipe era o mais prestativo. Tomava a iniciativa de ajudá-lo, mas na volta se via que ele sofria. Ficava quieto num canto, muito triste’.</p>
<p>Num momento de depressão Felipe disse a Helena que gostaria de ser internado. ‘O psiquiatra não concordou e receitou Lexotan’, conta a ex-namorada. Depois de um ano trancada no quarto com Felipe, ela foi embora: ‘Nenhuma história de amor dura para sempre’ e ‘eu precisava trabalhar’ foram suas razões.</p>
<p>Nos primeiros meses separados ele foi muito ciumento. ‘Eu passei a ficar em casa, no Rio, para não desagradá-lo. Mas depois ele entendeu e me disse para desencanar, não queria nada ruim assim no nosso relacionamento’.</p>
<p>Felipe também seguiu adiante. No início, queixou-se para Cristiano da separação. Depois arrumou outra namorada, mas reclamava que ela ‘pegava no pé por picuinhas’. Não queria ficar sozinho e seu lema passou a ser ‘antes mal acompanhado do que só’. Nunca escondeu sua paixão e a falta que Helena lhe fazia.</p>
<p>Depois da morte, Helena foi chamada pela família &#8211; ela não o vira durante a fase final de modificações corporais. Um carro oficial foi esperá-la no aeroporto e o enterro atrasado para sua chegada.</p>
<p>Virgínia disse que a viu no caixão, serena, repetindo baixinho para o morto, com ternura: ‘Me desculpe. Se eu não tivesse ido embora você ainda estaria vivo’.</p>
<p>Agora é tarde, Felipe Augusto foi na frente. Nos precedeu na luz.</p>
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