Isolado, Bolsonaro faz pronunciamento suicida

O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro na noite desta terça-feira, 24, beira a insanidade.

Ou ele vai dar um golpe ou vai ser interditado.

Bolsonaro disse que começou a enfrentar o novo coronavírus desde a chegada dos brasileiros que estavam de quarentena em Wuhan. Ele e o ministro da Saúde, Henrique Mandetta, lutaram “quase contra tudo e contra todos”, afirmou.

Para Bolsonaro, os meios de comunicação “espalharam a sensação de pavor” no Brasil e promoveram o que ele chamou de “histeria” no país.

O presidente mais uma vez minimizou a doença que já matou mais de 16 mil pessoas nos últimos três meses. Segundo ele, a realidade que afeta a Itália não será a mesma no Brasil por conta do clima – o que não é comprovado cientificamente.

Indiretamente, ele atacou o Jornal Nacional – ao citar um pedido de “calma” feito pelos âncoras do telejornal – e a TV Globo, usando o médico Dráuzio Varella, que em janeiro havia apontado que o cenário no Brasil seria outro em razão de pesquisas que circulavam naquela época.

O presidente mais uma vez mostrou-se mais preocupado com a economia do que com o contágio da doença e defendeu que se voltasse à normalidade do país.

“Nossa vida tem que continuar. Os empregos devem ser mantidos. Devemos sim voltar à normalidade. Algumas autoridades devem abandonar medidas de isolamento”, afirmou, atacando governadores e negando orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“O que se passa no mundo mostra que o grupo de risco são as pessoas maiores de 60 anos. Não tem por que fechar escolas”, disse  o presidente.

No pronunciamento, que durou cerca de 4 minutos, Bolsonaro ainda voltou a citar a cloroquina como uma possível cura da doença, exaltando o Hospital Albert Einstein, em São Paulo. “Acredito em Deus que irá capacitar médicos e pesquisadores”, disse ainda.

Até esta terça-feira, o Brasil registrou 46 mortes pela Covid-19 e mais de 2,2 mil casos confirmados de coronavírus em todo o país.

Trump

O pronunciamento do presidente brasileiro seguiu na mesma linha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defendeu em entrevista nesta quarta-feira (24) que o país volte ao normal. Segundo a OMS, os EUA devem ser o novo epicentro da pandemia do novo coronavírus. O país já registra mais de 50 mil casos e 703 mortes.

Presidente do Senado, David Alcolumbre, diz que país precisa de “liderança séria”. Em nota emitida logo após o pronunciamento do presidente em rede nacional, ele diz que Bolsonaro “está na contramão”:

“Neste momento grave, o País precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população. Consideramos grave a posição externada pelo presidente da República hoje, em cadeia nacional, de ataque às medidas de contenção ao Covid-19. Posição que está na contramão das ações adotadas em outros países e sugeridas pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS). Reafirmamos e insistimos: não é momento de ataque à imprensa e a outros gestores públicos. É momento de união, de serenidade e equilíbrio, de ouvir os técnicos e profissionais da área para que sejam adotadas as precauções e cautelas necessárias para o controle da situação, antes que seja tarde demais. A Nação espera do líder do Executivo, mais do que nunca, transparência, seriedade e responsabilidade. O Congresso continuará atuante e atento para colaborar no que for necessário para a superação desta crise.”

O presidente da Ordem dos Advogados recomendou à população que “não quebre a quarentena”:

“Entre a ignorância e a ciência, não hesite. Não quebre a quarentena por conta deste que será reconhecido como um dos pronunciamentos políticos mais desonestos da história.”

Gilmar Mendes, ministro do STF:

“A pandemia da Covid-19 exige solidariedade e co-responsabilidade. A experiência internacional e as orientações da OMS na luta contra o vírus devem ser rigorosamente seguidas por nós. As agruras da crise, por mais árduas que sejam, não sustentam o luxo da insensatez”. 

(Com Forum e G1)

 

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