{"id":84399,"date":"2023-02-06T09:23:13","date_gmt":"2023-02-06T12:23:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=83887"},"modified":"2023-02-06T09:28:08","modified_gmt":"2023-02-06T12:28:08","slug":"fotografo-registra-degelo-nas-montanhas-em-todo-o-mundo-leia-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/fotografo-registra-degelo-nas-montanhas-em-todo-o-mundo-leia-entrevista\/","title":{"rendered":"Fot\u00f3grafo registra degelo nas montanhas em todo o mundo; leia entrevista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por M\u00e1rcia Turcato<\/strong><\/p>\n<p>Ele \u00e9 cidad\u00e3o do mundo. Mas seus documentos dizem que \u00e9 brasiliense, apesar de ter nascido em Curitiba e ter parentes em Porto Alegre. Quando menino viajava para a praia de Torres com a fam\u00edlia. O diploma universit\u00e1rio, da UnB, entrega que \u00e9 bacharel em Hist\u00f3ria. Mas ele combina o conhecimento acad\u00eamico com atividades de fotografia, escalada, navega\u00e7\u00e3o, organizador de expedi\u00e7\u00f5es ant\u00e1rticas ou para qualquer outro canto do planeta onde a curiosidade possa provoc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O dono desse perfil \u00e9 Jo\u00e3o Paulo Barbosa, 49 anos de idade, primog\u00eanito do qu\u00edmico Ant\u00f4nio e da advogada Joy, tem tr\u00eas irm\u00e3os, casado com a professora Aline Bacelar, pai do pr\u00e9-adolescente Ian, e atualmente tendo a capital paulista como endere\u00e7o residencial.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Paulo atuou como pesquisador convidado da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UnB e foi curador do Museu Virtual de Ci\u00eancia e Tecnologia. Desde 1999, promove cursos, palestras e expedi\u00e7\u00f5es ao redor do mundo.<\/p>\n<p>Seu trabalho foi premiado, exibido e publicado em cerca de 50 pa\u00edses e reconhecido pela National Geographic Society (EUA, Alemanha e It\u00e1lia), Smithsonian Institution (EUA), Bruckmann (Alemanha), Banff Centre (Canad\u00e1), CICI (Coreia do Sul), The Guardian (Inglaterra),\u00a0 Gl\u00e9nat (Fran\u00e7a), Patagon Journal\u00a0 (Chile) e ICMBio, WWF e Greenpeace no Brasil, entre outros.<\/p>\n<p>Suas fotografias fazem parte de cole\u00e7\u00f5es particulares e de acervos como o National Museum of the American Indian, em Washington DC, Museu de Fotografia de Fortaleza (Cear\u00e1), Instituto Moreira Salles, Itamaraty e Memorial dos Povos Ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A partir de 2011, Jo\u00e3o Paulo come\u00e7ou a fazer viagens rotineiras \u00e0 Ant\u00e1rtica e atualmente est\u00e1 dedicado \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica e hist\u00f3rica das zonas frias do planeta para registrar as altera\u00e7\u00f5es provocadas pela a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Tem 10 livros publicados. O \u00faltimo, de cr\u00f4nicas de viagem, \u00e9 Caminhos Imprevis\u00edveis, edi\u00e7\u00e3o limitada, onde ele diz \u201cse eu tivesse que ter apenas um livro, teria um Atlas\u201d.<\/p>\n<p>Conheci o Jo\u00e3o Paulo h\u00e1 cerca de 30 anos. Est\u00e1vamos no mesmo grupo que fazia uma trilha de jeep pelo Cerrado. Ele ainda era estudante de Hist\u00f3ria e desde j\u00e1 apaixonado pela Ant\u00e1rtica, onde eu j\u00e1 estivera para escrever ampla reportagem para a revista Isto \u00c9 (edi\u00e7\u00e3o 582, de 17 de fevereiro de 1988)\u00a0 e este foi nosso la\u00e7o em comum. Tamb\u00e9m estivemos juntos em algumas competi\u00e7\u00f5es off road e numa reportagem sobre turismo de aventura no Amap\u00e1.<\/p>\n<p>Depois perdemos o contato porque Jo\u00e3o Paulo n\u00e3o parou mais de viajar. E se fosse poss\u00edvel percorrer a gal\u00e1xia, com certeza ele j\u00e1 teria feito.<\/p>\n<p>Por tudo isso, foi um enorme prazer reencontr\u00e1-lo e fazer essa entrevista para que os leitores do J\u00c1 possam conhec\u00ea-lo e tamb\u00e9m o\u00a0 trabalho que realiza.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Qual o principal foco das tuas viagens?<\/strong><\/p>\n<p>JP-Fa\u00e7o viagens e fa\u00e7o expedi\u00e7\u00f5es. As expedi\u00e7\u00f5es envolvem muita log\u00edstica, equipamentos e pessoas, tamb\u00e9m tomam mais tempo de prepara\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o.\u00a0 Varia muito o meu foco, \u00e0s vezes eu estou participando de um projeto para fazer um livro ou uma exposi\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica. \u00c0s vezes eu viajo s\u00f3 para fazer uma escalada, como aconteceu recentemente no Paquist\u00e3o. Mas preciso destacar que a viagem para o Paquist\u00e3o tamb\u00e9m envolveu a rela\u00e7\u00e3o com o clima, porque estou envolvido em um projeto sobre o gelo, \u00e9 um projeto de quatro anos, estou fotografando o gelo ao redor do mundo e os glaciares do Paquist\u00e3o fazem parte do projeto. Tamb\u00e9m fa\u00e7o viagens com cunho social porque\u00a0 trabalho para algumas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais (ongs), principalmente inglesas, para fazer reportagens. J\u00e1 participei de expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, como o projeto Darwin, programas ant\u00e1rticos do Brasil e tamb\u00e9m do Chile, e projetos com universidades. \u00c9 bem variado meu leque de temas mas todos eles t\u00eam viagens.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Como \u00e9 esse projeto sobre o gelo no mundo?<\/strong><\/p>\n<p>JP-\u00a0 O N&#8217;Ice Planet\u200b \u00e9 um projeto pessoal e consiste na realiza\u00e7\u00e3o, ao longo de quatro anos, \u200bde \u200bexpedi\u00e7\u00f5es ao redor do mundo para documentar zonas frias e divulgar as principais quest\u00f5es relativas ao gelo, como os dilemas populacionais\u200b, as migra\u00e7\u00f5es por conta de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e o risco de extin\u00e7\u00e3o dos povos \u00e1rticos. Tamb\u00e9m mostro ativistas\u200b ambienta\u200bis que trazem mensagens importantes\u200b\u200b, que fazem alertas sobre os riscos que o planeta experimenta, relato conversas com cientistas e mostro trabalhos de geoengenharia que eles desenvolvem, e tamb\u00e9m procuro documentar o que est\u00e1 sendo feito para mitigar os efeitos do aquecimento global e o consequente derretimento do gelo. \u00c9 um projeto in\u00e9dito e relevante por sua proposta abrangente e popular. Os conte\u00fados produzidos ser\u00e3o divulgados \u200bregularmente em redes sociais e diversas m\u00eddias com o objetivo de instigar o p\u00fablico a refletir, discutir, indagar e atuar por solu\u00e7\u00f5es junto aos governantes.<\/p>\n<p>Documentar a urbaniza\u00e7\u00e3o das mais altas montanhas geladas do planeta \u00e9 dos mais tristes temas que comp\u00f5em a minha pesquisa sobre o gelo no Antropoceno (termo empregado pelo qu\u00edmico holandes Paul Crutzen, vencedor do Pr\u00eamio Nobel de qu\u00edmica de 1995, para designar uma nova \u00e9poca geol\u00f3gica caracterizada pelo impacto do homem na Terra).<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que logo mais haver\u00e1 um hotel sofisticado na montanha K2 (tamb\u00e9m chamada Qogir Feng, no Himalaia), a exemplo do que j\u00e1 acontece no Aconc\u00e1gua e no Everest? O black carbon (concentra\u00e7\u00e3o de fuligem na atmosfera) acelera o derretimento das geleiras. H\u00e1 30 mil refugiados do clima na regi\u00e3o do Himalaia apenas no \u00faltimo Ver\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Qual foi a tua primeira grande viagem?<\/strong><\/p>\n<p>JP- A primeira grande viagem foi o nascimento, a segunda grande viagem foi minha ado\u00e7\u00e3o (Jo\u00e3o Paulo foi adotado em Curitiba quando tinha\u00a0 pouco mais de um ano de idade, e veio com os pais\u00a0 para Bras\u00edlia. Se considera brasiliense.) A terceira grande viagem\u00a0 foram os sete meses que vivi na Fran\u00e7a (Jo\u00e3o Paulo acompanhou a fam\u00edlia durante o p\u00f3s-doutorado do pai em Paris). Depois disso vieram in\u00fameras viagens, todas tamb\u00e9m importantes e inesquec\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Quais as melhores viagens e qual a sua regi\u00e3o preferida?<\/strong><\/p>\n<p>JP- Existem muitas melhores viagens. Inclusive a da imagina\u00e7\u00e3o, que \u00e9 viajar quietinho. A viagem a \u00c1sia, que comento em meu \u00faltimo livro (&#8220;Caminhos Imprevis\u00edveis&#8221;, Editora Caseira e Ateli\u00ea Casa das Ideias), foi entre 2007 e 2008.\u00a0 Fiz uma viagem de 480 dias que foi muito importante pra mim, quando vi o Himalaia pela primeira vez e fiquei alguns meses na regi\u00e3o, mas eu gosto muito do deserto do Atacama, gostei muito das duas expedi\u00e7\u00f5es que fiz ao Pico da Neblina, em Roraima, na \u00e1rea Yanomami, que chamamos de Yaripo, que significa Montanha do Vento. A Patag\u00f4nia, principalmente os fiordes da Terra do Fogo, que s\u00e3o lugares em que eu frequento de veleiro, \u00e9 um lugar lind\u00edssimo (veleiro Kotik, de 40 toneladas,\u00a0 60 p\u00e9s, cinco camarotes e\u00a0 espa\u00e7o para\u00a0 10 pessoas). E claro, meu lugar preferido \u00e9 a Ant\u00e1rtica, a Pen\u00ednsula Ant\u00e1rtica e a costa oeste da pen\u00ednsula, que acho muito especial.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Quantas vezes voc\u00ea esteve na Ant\u00e1rtica?<\/strong><\/p>\n<p>JP- Neste m\u00eas de fevereiro de 2023 eu vou participar da minha nona expedi\u00e7\u00e3o ant\u00e1rtica e ser\u00e1 minha s\u00e9tima embarcado no\u00a0 veleiro Kotik, do comandante franc\u00eas Igor Bely.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Qual a melhor experi\u00eancia que voc\u00ea experimentou numa dessas viagens?<\/strong><\/p>\n<p>JP- Quando eu tinha 18 anos de idade e estava no norte do Canad\u00e1,\u00a0 em Quebec, e vi a aurora boreal foi uma experi\u00eancia fant\u00e1stica, eu estava acampado com seis amigos. A aurora boreal durou horas, muito colorida, foi emocionante. Os primeiros mergulhos utilizando garrafa (cilindro com oxig\u00eanio) tamb\u00e9m foram emocionantes. Escalar o Aconc\u00e1gua (maior montanha da cordilheira do Andes, na Argentina, com 6.961 metros de altura), sozinho, aos 20 anos, tamb\u00e9m foi muito emocionante. Em 2014, na minha terceira viagem para Ant\u00e1rtica a bordo do veleiro Kotik foi incr\u00edvel porque eu sonhava em viajar nesse barco e com uma galera que eu sonhava muito em estar junto. Durante muito tempo eu chorei de emo\u00e7\u00e3o ao chegar na Ant\u00e1rtica e chorava de tristeza quando tinha de ir embora. Tamb\u00e9m preciso falar de uma outra\u00a0 experi\u00eancia \u00f3tima, quando subo montanhas e vulc\u00f5es com amigos, sem m\u00eddia, sem publicidade, s\u00f3 por amizade e com esfor\u00e7o f\u00edsico. Em 2020 eu tive a experi\u00eancia de remar por nove dias, na Ant\u00e1rtica, numa canoa polin\u00e9sia para tr\u00eas pessoas, a V3, e eu remei com dois campe\u00f5es brasileiros de canoa.\u00a0 Inclusive eles s\u00e3o representantes do Brasil no campeonato mundial de canoagem\u00a0 (os remadores\u00a0 Marcelo Bosi e Rudah Caribe).\u00a0 Isso foi muito bom.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Qual a maior dificuldade que voc\u00ea experimentou?<\/strong><\/p>\n<p>JP- Essa \u00e9 f\u00e1cil. \u00c9 o estreito de Drake (tamb\u00e9m chamado de mar ou passagem). Passar o estreito de Drake em um veleiro n\u00e3o \u00e9 brincadeira n\u00e3o. Eu j\u00e1 passei quase 20 vezes, contando ida e volta. A travessia leva cerca de quatro dias, ent\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel passar por pelo menos uma grande tormenta. Tr\u00eas vezes foram terr\u00edveis, de terror e p\u00e2nico. Pensei que ia morrer, mas lembrei que estava num barco feito para essa situa\u00e7\u00e3o adversa, com mono casco de a\u00e7o, feito por um ex-cientista da Nasa, com uma tripula\u00e7\u00e3o incr\u00edvel, e ent\u00e3o n\u00e3o me entreguei emocionalmente, reagi. O corpo fica acabado, mas o esp\u00edrito aguenta. O estreito de Drake \u00e9 o maior perrengue da gal\u00e1xia.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Qual a melhor forma de viajar, sozinho ou em grupo?<\/strong><\/p>\n<p>JP- Eu tenho quatro formas de viajar: sozinho, com a fam\u00edlia, com\u00a0 amigos e por conta do trabalho. Todas s\u00e3o muito legais. Mas eu gosto muito de viajar sozinho e recomendo que todo mundo tenha essa experi\u00eancia. \u00c9 muito importante viajar sozinho para aprender, para se misturar com a popula\u00e7\u00e3o local. Entretanto, tem lugares que \u00e9 muito bom viajar com um grupo de amigos para se divertir com eles, como eu fiz nos fiordes da Terra do Fogo.<\/p>\n<p><strong>J\u00c1- Voc\u00ea tem parentes em Porto Alegre. Como \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>JP- Eu tenho uma tia av\u00f3, Mar\u00edlia Escosteguy, ela tem 102 anos de idade, mora na rua Jacinto Gomes, no bairro Santana. Ela \u00e9 uma mulher fant\u00e1stica, ela apresentava um programa na antiga TV Tupi, quando viveu no Rio de Janeiro. Foi casada com o artista pl\u00e1stico e escritor Pedro Geraldo Escosteguy &#8211; de Santana do Livramento-\u00a0 que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e9dico, j\u00e1 falecido. O Pedro tinha um acervo liter\u00e1rio e art\u00edstico incr\u00edvel, e que agora est\u00e1 dispon\u00edvel ao p\u00fablico no Departamento de Literatura da UFRGS.<\/p>\n<p>Eu aprendi muitas coisas com a minha av\u00f3 e tamb\u00e9m viajei com ela para praias ga\u00fachas, lembro bem de Torres. Aprendi principalmente a ter cuidado com as coisas, a ter carinho com os objetos e com tudo, com as pessoas tamb\u00e9m, obviamente. Na casa dela tudo \u00e9 muito cuidado, tudo merece respeito, uma coisa meio assim oriental. E por conta dela eu tenho muito carinho por Porto Alegre.<\/p>\n<p><strong>O MAR DE DRAKE<\/strong><\/p>\n<p>Mar onde h\u00e1 mudan\u00e7as bruscas nas condi\u00e7\u00f5es de temperatura, visibilidade e, principalmente, do vento.\u00a0 Comandantes de aeronaves e de navios passam por processo de treinamento especial para operar nessa \u00e1rea. O Mar de Drake \u00e9 o terror dos navegantes. Estima-se que 800 embarca\u00e7\u00f5es tenham naufragado em suas \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u00c9 o ponto mais austral da Am\u00e9rica do Sul e mais pr\u00f3ximo da Pen\u00ednsula Ant\u00e1rtica, com 650 km de extens\u00e3o e quase cinco mil metros de profundidade, onde os oceanos Atl\u00e2ntico e Pac\u00edfico se encontram, se afunilam e se confrontam num grande espet\u00e1culo, provocando ondas gigantes.\u00a0 At\u00e9 a base brasileira, a Comandante Ferraz, s\u00e3o 900 km de dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es no Instagram: @ joaopaulobarbosaphotography<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por M\u00e1rcia Turcato Ele \u00e9 cidad\u00e3o do mundo. Mas seus documentos dizem que \u00e9 brasiliense, apesar de ter nascido em Curitiba e ter parentes em Porto Alegre. Quando menino viajava para a praia de Torres com a fam\u00edlia. O diploma universit\u00e1rio, da UnB, entrega que \u00e9 bacharel em Hist\u00f3ria. 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