{"id":85238,"date":"2024-04-11T16:36:13","date_gmt":"2024-04-11T19:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84138"},"modified":"2024-04-11T16:41:14","modified_gmt":"2024-04-11T19:41:14","slug":"degelo-e-o-sinal-visivel-da-mudanca-nas-montanhas-mais-altas-do-planeta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/degelo-e-o-sinal-visivel-da-mudanca-nas-montanhas-mais-altas-do-planeta\/","title":{"rendered":"Degelo nas montanhas mais altas do planeta, o sinal vis\u00edvel das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"<p><strong>MARCIA TURCATO<\/strong><\/p>\n<p>Cad\u00ea o gelo que estava aqui?<\/p>\n<p>\u00c9 a pergunta que o montanhista Pedro Hauck, de 42 anos, faz a cada vez que lidera uma expedi\u00e7\u00e3o ao Aconc\u00e1gua, a maior montanha \u00a0do hemisf\u00e9rio sul, com 6.961 metros de altitude, na Cordilheira dos Andes.<\/p>\n<p>O degelo \u00e9 a consequ\u00eancia mais vis\u00edvel das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas nos pontos mais elevados da terra.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, Hauck fala sobre as altera\u00e7\u00f5es que tem percebido em 26 anos de escaladas. Paulista de Itatiba, ele \u00e9 ge\u00f3grafo formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), p\u00f3s graduado na Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e guia de expedi\u00e7\u00f5es de montanhismo, al\u00e9m de s\u00f3cio da loja Alta Montanha e da ag\u00eancia Soul Outdoor, que organiza viagens de montanhismo.<\/p>\n<p>Ele j\u00e1 escalou mais de 170 montanhas acima de 5 mil metros de altitude e a mais recente expedi\u00e7\u00e3o foi ao Aconc\u00e1gua, alcan\u00e7ando o seu cume, no per\u00edodo de 18 de janeiro a 04 de fevereiro deste ano.<\/p>\n<p><strong>Nas suas fotos \u00e9 vis\u00edvel o degelo nas montanhas. Que leitura voc\u00ea faz sobre esse fen\u00f4meno?<\/strong><\/p>\n<p>-Eu sou uma testemunha das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais. Em 2002, na minha primeira experi\u00eancia no Aconc\u00e1gua, a montanha era totalmente diferente de hoje. Em fevereiro, que \u00e9 uma \u00e9poca em que o derretimento do gelo est\u00e1 mais avan\u00e7ado, mesmo assim eu escalava em gelo, isso na Plaza de Mulas, que \u00e9 onde fica o acampamento base, a 4.300 metros de altitude. Atualmente, e eu acabei de voltar de l\u00e1, na Plaza de Mulas, n\u00e3o tem nada de gelo. Zero gelo. J\u00e1 escalei montanhas nos Andes cuja rota era pelo gelo, o gelo derreteu, como na montanha Rincon, com 5.590 metros de altitude. Era uma rota por uma canaleta de gelo e agora a escalada \u00e9 em rocha pura. \u00c9 muito perigoso, porque essas rochas est\u00e3o soltas, elas estavam est\u00e1veis por conta do gelo, que funciona como cimento. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o apenas altera\u00e7\u00f5es na temperatura. O clima \u00e9 muito mais do que temperatura, o clima \u00e9 precipita\u00e7\u00e3o, \u00e9 vento, \u00e9 irradia\u00e7\u00e3o. Todos esses elementos mudaram e aqui nos Andes uma coisa que mudou muito \u00e9 a precipita\u00e7\u00e3o, tem nevado cada vez menos, sem falar na temperatura que subiu muito. A m\u00e9dia de temperatura no inverno nos Andes oscilava entre 14 graus cent\u00edgrados negativos e zero. As rotas t\u00e9cnicas, com gelo, est\u00e3o desaparecendo, assim como todos os glaciares, agora est\u00e3o surgindo as rochas soltas. As esta\u00e7\u00f5es de esqui est\u00e3o fechando porque n\u00e3o h\u00e1 mais gelo. A esta\u00e7\u00e3o de esqui de Chacaltaya, na Bol\u00edvia, perto de La Paz, que era a esta\u00e7\u00e3o de esqui mais alta do mundo, a 5.421 metros de altitude, fechou em 2009. Acabou o gelo por completo e a esta\u00e7\u00e3o foi abandonada. Um amigo boliviano me disse que antigamente, a van do Clube Boliviano de Montanhismo passava na casa dos associados e eles iam para o cerro Chacaltaya e passavam o fim de semana esquiando no gelo. Com o fim da neve no cerro, acabou o Clube Boliviano, a esta\u00e7\u00e3o de esqui, os empregos e a gera\u00e7\u00e3o de renda oriunda dessas atividades. Eu ministro um curso de alta montanha na Bol\u00edvia h\u00e1 algum tempo. S\u00e3o aulas pr\u00e1ticas de t\u00e9cnica de escalada em gelo. H\u00e1 tr\u00eas anos eu levava o grupo at\u00e9 4.900 metros de altitude para praticarmos a escalada em gelo. N\u00e3o tem mais gelo nessa altitude. Agora n\u00f3s precisamos subir at\u00e9 5.300 metros para encontrar gelo e praticar a t\u00e9cnica. Abaixo dessa altitude \u00e9 tudo rocha exposta ao Sol e \u00e0s varia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Recentemente, a esta\u00e7\u00e3o de esqui Vallecitos, no cerro Cordon del Plata, a cerca de 5 mil metros de altitude, na Argentina, foi totalmente abandonada, n\u00e3o tem mais gelo. A esta\u00e7\u00e3o de esqui de Penitentes, 4.350 metros de altitude, ao lado da Rota 7, que vai de Mendoza, na Argentina, a Santiago, no Chile, est\u00e1 parcialmente abandonada desde 2016 porque n\u00e3o \u00e9 em todos os invernos que h\u00e1 neve suficiente para a pr\u00e1tica do esporte. Por conta do degelo, lugares que tinham abund\u00e2ncia de \u00e1gua, agora n\u00e3o t\u00eam mais e as pessoas acabam abandonando suas terras e o estilo de vida e migram para as cidades. Em agosto de 2023, a regi\u00e3o dos Andes, no p\u00e9 da cordilheira, registrou temperatura de 38,9 graus cent\u00edgrados.\u00a0 E foi em agosto, m\u00eas de inverno.<\/p>\n<p><strong>Qual tua estrat\u00e9gia nas expedi\u00e7\u00f5es para diminuir o impacto ao meio ambiente?<\/strong><\/p>\n<p>Nas minhas expedi\u00e7\u00f5es fa\u00e7o de tudo pra zerar o impacto, n\u00e3o deixamos nada e ainda recolhemos o que \u00e9 encontrado de lixo no caminho. Muitos dos locais que frequentamos s\u00e3o unidades de conserva\u00e7\u00e3o e t\u00eam suas regras de controle e, por isso mesmo, n\u00e3o encontramos muitos res\u00edduos. Tem ainda uma quest\u00e3o importante, que s\u00e3o as fezes, sempre levamos banheiros, n\u00e3o \u00e9 qu\u00edmico, e as pessoas fazem suas necessidades dentro de um saquinho, e a gente traz de volta. As expedi\u00e7\u00f5es ao monte Roraima, no Brasil, tamb\u00e9m adotam essa pr\u00e1tica. L\u00e1 na montanha acaba n\u00e3o ficando nada. Deveria haver uma estrutura local para transformar o res\u00edduo biol\u00f3gico em algum tipo de nutriente. \u00c9 necess\u00e1rio pensar em solu\u00e7\u00f5es para essa quest\u00e3o. A gente v\u00ea que nesses destinos de montanhismo existe cada vez mais uma consci\u00eancia ambiental, mas ainda falta organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Teu interesse pelo montanhismo, como surgiu?<\/strong><\/p>\n<p>A inspira\u00e7\u00e3o chegou aos poucos. Meu padrasto, Ernst Mossembock, \u00e9 austr\u00edaco, ele viajou muito pelo mundo, eram viagens de aventura, n\u00e3o de montanhismo. Quando eu via as fotos dessas viagens eu achava muito legal. Minha m\u00e3e, Solange Vicentini, quando era jovem, fez uma viagem pela Bol\u00edvia, chegando at\u00e9 Machu Picchu, no Peru. As fotos dessas viagens tamb\u00e9m me impressionaram bastante. A primeira vez que vi montanhas foi viajando com eles, nas f\u00e9rias escolares,\u00a0 fomos para a Argentina, quando conheci montanhas nevadas pela primeira vez e sonhei em fazer escaladas. Com 18 anos, junto com um amigo, fiz algumas viagens de carona pela Argentina e algumas escaladas em alta montanha, mesmo sem muito conhecimento, na base da aventura. Portanto, estou nessa vida h\u00e1 26 anos e eu amo o que fa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Nessas quase tr\u00eas d\u00e9cadas de montanhismo, quais foram os momentos mais dif\u00edceis?<\/strong><\/p>\n<p>A expedi\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil que realizei foi a primeira, aos 18 anos de idade, que durou seis meses, porque eu tinha pouca experi\u00eancia. Fui de carona at\u00e9 Ushuaia, na Argentina, e a primeira montanha de altitude que escalei foi o Cerro Plata, em Mendoza,com 5.968 metros de altitude, considerada uma montanha-escola para quem deseja chegar ao cume do Aconc\u00e1gua. Como eu n\u00e3o tinha dinheiro, dependia muito da ajuda dos outros, e cheguei a dormir na rua quando montei a barraca em um terreno de \u00e1rea urbana, e tamb\u00e9m ocupei uma casa abandonada. Uma das expedi\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis que fiz foi a escalada do Aconc\u00e1gua &#8211; 6.961 metros de altitude- sem o uso de mulas para carregar os equipamentos. A escalada demora, em m\u00e9dia, uns 14 dias -depende muito das condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas- e s\u00e3o quase 40 km para chegar na base da montanha caminhando, \u00e9 uma aproxima\u00e7\u00e3o demorada, e eu carregava uma mochila com mais de 40 kg, encarei tempestades terr\u00edveis e, al\u00e9m disso, a comida acabou antes que eu alcan\u00e7asse o cume. Precisei pegar comida que havia sido descartada por outros montanhistas no caminho. Emagreci 8 kg nessa jornada. A montanha n\u00e3o foi a mais dif\u00edcil, dif\u00edcil mesmo foram as condi\u00e7\u00f5es. Eu tenho 1m73 e peso 70 kg. A mochila cargueira que costumo levar nas expedi\u00e7\u00f5es tem mais de 30kg. Sem d\u00favida, a pr\u00e1tica do montanhismo exige muito preparo f\u00edsico e uma lombar bem fortalecida. Recentemente estive no Paquist\u00e3o, uma montanha de 8 mil metros, a Gasherbrum II &#8211; 8.035 metros de altitude. \u00c9 uma escalada perigosa e muito t\u00e9cnica. Quando eu estava perto do cume o tempo virou e tivemos de descer e quando voltamos ao acampamento a tempestade estava muito forte e soterrou toda a nossa estrutura de escalada, como as cordas fixas, elas sumiram na neve e tivemos de procurar o material. A rota foi coberta por muita neve e ficou dif\u00edcil encontrar o caminho. Nesses meus 26 anos de montanhismo, eu j\u00e1 realizei mais de 170 ascens\u00f5es a montanhas de grande altitude. Enfrentei v\u00e1rios tipos de dificuldades nesse tempo, inclusive pol\u00edticas, em pa\u00edses que passavam por crises de governo, mas no fim tudo dava certo.<\/p>\n<p><strong>ACONC\u00c1GUA: <\/strong><\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 1.5rem\">153 j\u00e1 perderam a vida tentando chegar ao cume<\/strong><\/p>\n<p>O Aconc\u00e1gua, na Cordilheira dos Andes, com altitude 6.961 metros, localizado na prov\u00edncia de Mendoza, Argentina, \u00e9 o ponto mais alto do hemisf\u00e9rio sul e do Ocidente.<\/p>\n<p>A montanha e seus arredores fazem parte do Parque Provincial Aconc\u00e1gua, que abriga uma s\u00e9rie de importantes geleiras.<\/p>\n<p>O maior glaciar \u00e9 o Ventisquero Horcones Inferior, com cerca de 10 km de comprimento, que desce a partir da face sul da montanha, com aproximadamente 3.600 metros de altitude, perto do acampamento Conflu\u00eancia. Dois outros grandes sistemas de geleira s\u00e3o o Ventisquero de las Vacas Sur e Glaciar Este\/Ventisquero Relinchos, com cerca de 5 km de comprimento. A face mais conhecida \u00e9 a do nordeste, chamada de\u00a0 Glaciar dos Polacos, uma rota desbravada por montanhistas da Pol\u00f4nia em 9 de mar\u00e7o de 1934. No entanto, a primeira tentativa de chegar ao cume do Aconc\u00e1gua foi em 1883, por um grupo liderado pelo ge\u00f3logo alem\u00e3o Paul Gussfeldt. A rota que ele fez \u00e9 agora um itiner\u00e1rio bastante\u00a0 usado. A pessoa mais jovem a chegar ao cume do Aconc\u00e1gua foi Tyler Armstrong, da Calif\u00f3rnia, Estados Unidos. Ele tinha nove anos de idade quando alcan\u00e7ou o cume em 24 de dezembro de 2013. \u00a0A pessoa mais velha a escalar foi Scott Lewis, que alcan\u00e7ou o cume em 26 de novembro de 2007, aos 87 anos de idade.<\/p>\n<p>Desde a primeira morte de montanhista registrada no Aconc\u00e1gua, do austr\u00edaco Juan Stepanek em 1926, 153 pessoas perderam a vida tentando alcan\u00e7ar o cume.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MARCIA TURCATO Cad\u00ea o gelo que estava aqui? \u00c9 a pergunta que o montanhista Pedro Hauck, de 42 anos, faz a cada vez que lidera uma expedi\u00e7\u00e3o ao Aconc\u00e1gua, a maior montanha \u00a0do hemisf\u00e9rio sul, com 6.961 metros de altitude, na Cordilheira dos Andes. 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A equipe do pesquisador alem\u00e3o S\u00f6nke Dangendorf, da Universidade de Siegen, desenvolveu uma nova metodologia para analisar as s\u00e9ries de dados\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Ambiente J\u00c1-MAT\u00c9RIA&quot;","block_context":{"text":"Ambiente J\u00c1-MAT\u00c9RIA","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/category\/ambiente-geral\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Captura-de-Tela-2019-08-06-a%CC%80s-12.35.09-450x170.png?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbKnZo-maO","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85238","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85238"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85238\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85246,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85238\/revisions\/85246"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85239"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85238"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85238"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ambiente\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85238"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}