Tag: imprensa

  • O ano mais ninja da história

    Uma das maiores surpresas das recentes manifestações populares foi a desenvoltura da chamada mídia ninja, formada por jovens equipados com celulares que transmitem audio e vídeo on line, gerando uma formidável anarquia informacional.
    Ao contrário do que se pensou e se difundiu, essa rapaziada não opera solta no espaço. Ela tem comando, embora desfrute de uma autonomia rara na mídia convencional.
    Só isso já bastou para transformar esses jovens repórteres-manifestantes em protagonistas centrais dos acontecimentos que marcaram 2013 como o ano mais louco do século XXI.
    Dois cabeças do movimento, Pablo Capilé e Bruno Torturra, deram um depoimento extraordinário ao programa Roda Viva da última segunda-feira, dia 5. Com nomes que lembram codinomes, esses rapazes demonstraram possuir uma rara capacidade de argumentação, tanto que conseguiram escapar ilesos à maior parte dos questionamentos feitos por uma bancada de experientes perguntadores.
    Sua articulação tem raízes no movimento estudantil, mas eles têm algo que os diferencia da maior parte dos jovens de hoje – ou muito dependentes dos pais ou completamente descolados das bases familiares: têm consciência social e correm riscos por isso.
    Embora a palavra ninja lembre automaticamente os lutadores encapuzados do Japão, no Brasil de 2013 NINJA é uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação. E por aí vamos com ousadia e criatividade.
    Nada a ver, portanto, com siglas emergentes como CQC e Pânico na TV, que fazem arremedos de jornalismo temperados por um humor irresponsavelmente corrosivo.
    Espaço independente
    Segundo o depoimento de Capilé e Torturra, a base do movimento da Ninja começou a se formar há dez anos graças a jovens músicos sem vez no mundo do show business. Eles procuraram cavar espaços independentes da superestrutura que domina a TV, as gravadoras e à qual está atrelada a máquina publicitária.
    Sobreviveram e cresceram, conseguindo estabelecer um circuito alternativo de festivais e shows durante os quais também rolam debates e seminários que discutem os problemas dos pobres e oprimidos pelo sistema. Em alguns casos, eles contam com patrocínios públicos, que não representam nem 10% de sua arrecadação.
    Hoje há dois mil jovens ativistas que vivem em comunidades de até 30 pessoas que trabalham para se sustentar individual e coletivamente. O custo mensal de cada ativista é R$ 900. Um sucesso: até quando? Qual sua real motivação? Quais seus objetivos? Querem ser absorvidos pelo sistema? Ou desejam transformá-lo? O sistema e o governo são a mesma coisa?
    Sua luta lembra a época da ditadura militar, quando muitos jovens e alguns veteranos se uniram para editar jornais alternativos, formar cooperativas de jornalistas, grupos de teatro e cinema. Os mais radicais caíram na clandestinidade e formaram grupos armados que acabaram sendo destruídos pelo regime militar. Até hoje se faz o rescaldo desse período. Aí está a Comissão da Verdade lutando para reunir depoimentos, documentos e provas de violações de direitos humanos em cadeias civis e dependências militares.
    Sem patrimônio nem estrutura física, como acontece com a mídia convencional, a mídia ninja é engajada no ativismo dos direitos civis, políticos e econômicos. “Jornalismo pós-industrial”, falou Capilé, tentando explicar o fenômeno sem precedentes à vista na moderna história brasileira.
    Seu grande diferencial, além do baixo custo operacional e do voluntarismo, é a habilidade no uso de ferramentas eletrônicas que, além de revolucionar a comunicação interpessoal, estão provocando mudanças profundas na relação da mídia tradicional com seus leitores, ouvintes e telespectadores.
    O celular está para essa mídia revolucionária como o microfone móvel esteve para o rádio e a câmera ambulante para a TV. É lógico concluir que, daqui a algum tempo, todas as novas ferramentas estarão dominadas pelos trabalhadores da mídia convencional. Será a banalização de uma nova tecnologia de comunicação.
    A pergunta que fica é até que ponto a mídia convencional ancorada na iniciativa privada terá interesse em operar como correia de transmissão de impulsos originários da base da sociedade?
    Até onde se sabe pelos relatos da História, os interesses que movem a iniciativa privada estão longe demais do interesse público.
    LEMBRETE DE OCASIÃO
    “Nos corredores da história, o grito dos ricos ecoa mais alto que o gemido dos pobres”
    HENRY THOMAS, historiador inglês, em A História da Raça Humana, de 1938

  • Já voltamos. Por que voltamos?

    Este site tem vida tão irregular, que a gente fica em dúvida se explica porque ficou fora do ar nos últimos dois dias. Foi simples: um hacker invadiu o jornalja e tirou-o do ar.
    Três dias depois do acontecido (uma eternidade na era digital) pouco conseguimos saber a respeito, além de que é “mais ou menos normal”, que muito bem pode ser coisa de irresponsáveis, “como esses que se penduram nos edifícios para riscar coisas ininteligíveis”.
    Nosso invasor diz que hacker não é crime, é arte. Arte que não respeita o trabalho dos outros! Arte do desrespeito, arte do abuso, pode ser.
    Tentei saber quem é o artista. Recorri à polícia. Fui à décima delegacia, no Bom Fim. O atendente Michel Fontana foi gentil e atencioso. Fez um BO, qualificou o caso entre “ Outros Crimes/Crime pela Internet” .
    Informou que o registro iria para o delegado que determinará ”os procedimentos cabíveis”.
    No dia seguinte fui à Delegacia Especializada em Crimes Cibernéticos. O inspetor Marcelo foi solícito, mas não avançou além da porta de vidro, que manteve entreaberta, como se tivesse pressa em fechá-la.
    Em todo caso, explicou: “As coisas não são tão céleres como gostaríamos. Não é fazer o BO de manhã e vir saber o que aconteceu de tarde. Tudo depende de ordem judicial. Se for questão complexa vem parar aqui”.
    Vamos aguardar os acontecimentos.
    Enquanto isso, vamos tocando o nosso modesto noticiário. Há muita informação que não sai por aí. Vejam esse caso da Siemens…

  • "Os governos são reféns da mídia"

    Estão ganhando espaço na Internet as análises do sociólogo e jornalista Laurindo Lalo Leal Filho, que avalia os rumos da comunicação no Brasil.
    Ele é professor de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão”.
    Em entrevista a Marcos Weissheimer, para o Sul21, afirma que o processo de democratização da mídia já está em andamento, e que “Os governos são reféns da mídia no Brasil”.
    Em artigo que pode ser lido na página da Frente Nacional pela Democratização da Comunicação, mostra os primeiros efeitos da lei da TV Paga, que criou cotas mínimas para a produção nacional.

  • "Paulo Santana expressou visão pessoal"

    Uma enxurrada de críticas ao artigo de Paulo Santana sugerindo a implosão do Mercado Público, obrigou a RBS a registrar em editorial de Zero Hora a posição da empresa, diversa da do cronista, o mais lido do jornal.
    “A RBS defende a imediata recuperação do prédio e discorda da proposta de implosão manifestada neste mesmo veículo pelo colunista Paulo Santana”, diz o principal editorial da edição desta terça-feira.
    “Santana expressou sua visão pessoal em consonância com os princípios do pluralismo de opinião e liberdade de expressão cultuados pela empresa”, completa o texto.
    Shopping
    No edição de segunda-feira, 48 horas depois do incêndio que queimou parcialmente o prédio histórico no coração da capital gaúcha, Paulo Santana escreveu em sua coluna na ZH:
    -“Penso que pode ser a hora propícia para a implosão do Mercado Público, semidestruído anteontem e a construção de um novo prédio, um novo Mercado Público”.
    Depois de equipar o mercado a “um shopping, onde se vende muita coisa variada”, o cronista aponta o que seria o maior pecado do Mercado Público, um monumento arquitetônico de 143 anos: a falta de estacionamento.
    -“Então, este Mercado incendiado é o único shopping do mundo que não tem estacionamento. Isso é inaceitável”. E sugere que “se imploda esse Mercado e se construa outro no local com vários andares destinados ao estacionamento…”.
    A reação pelas redes sociais foi violenta. O editorial foi uma resposta. Na mesma edição, Santana falou de suas lembranças do mercado, dos lugares que ali frequenta e dos produtos que adquire, “há mais de 20 anos”. Nada de implosão.
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  • "É a hora propícia para implodir"

    O cronista mais lido do jornal de maior circulação no Estado sugere a implosão do Mercado Público após o incêndio de sábado.
    O assunto desta segunda-feira em Porto Alegre é o incêndio do Mercado Público, ocorrido no sábado. O fogo queimou cerca de dez por cento da área construída. As causas ainda não são conhecidas. A recuperação parece garantida, inclusive com recursos do PAC.
    Duas afirmações, no entanto, se destacam.
    O vice-prefeito, Sebastião Melo, que substitui Fortunati em viagem a Brasilia, disse que “não é hora de buscar culpados” e sim de cuidar da reconstrução o mais rápido possível. Melo não explicou o que uma coisa tem a ver com a outra.
    E o cronista Paulo Santana, o mais influente do Estado, propõe em sua coluna na ZH que se aproveite o incendio para implodir o prédio centenário, para erguer no local um moderno shopping com vários andares e estacionamentos. Santana não esclarece que sua sugestão é uma velha aspiração do lobby imobiliário…

  • Tarso prega uma Constituinte revisora

    Em um extenso artigo que circula nas redes sociais desde segunda-feira, o governador Tarso Genro, do Rio Grande do Sul, lança o que seria uma “plataforma de esquerda” para fazer frente à “crise que emerge das ruas”.
    “Quinta-feira, 27 de junho, Porto Alegre, frente do Palácio Piratini, sede do governo gaúcho. Nove horas da noite. Na Praça da Matriz, mais de quatro mil manifestantes fazem seu protesto legítimo em perfeita harmonia, inclusive com as forças da Brigada Militar, que garantem a segurança para a cidadania manifestar-se livremente. Um cordão de isolamento de policiais militares, protegidos por escudos, garante a integridade do Palácio.
    “Durante uma hora e meia os policiais aguentam impávidos e disciplinados, por ordem originária do próprio Governador, uma chuva de pedras, garrafas e paus, jogadas por aproximadamente 150 mascarados, postados no lado esquerdo do Praça, fundidos no meio de uns 200 manifestantes, que não impedem suas ações violentas e provocativas, mas inibem uma resposta da Polícia, cuja reação poderia atingir pessoas que, inocentemente ou não, não estavam envolvidas na“ação direta”.
    Esses dois parágrafos do artigo “Uma Esquerda à Altura da Crise da República” indicam que o governador Tarso Genro corrigiu o comportamento da força militar, a nota desafinada na sua estratégia para enfrentar a “crise das ruas”.
    Na manifestação anterior, a Brigada atacou manifestantes pacíficos – embretou-os no Viaduto Otávio Rocha e carregou com bombas e cavalaria, contrariando aquilo que o governador sempre disse – que a força estaria lá para garantir a integridade dos manifestantes e o seu direito de protestar.
    No artigo, o governador também deu a pista para o trabalho policial que as circunstâncias requerem:
    “No céu, um helicóptero com letreiros eletrônicos voeja rente à Praça, com dizeres contra a existência dos Partidos e afirma que, desta forma – sem os partidos – o Brasil “tem jeito”. Quem promoveu este vôo? Quem o pagou? Como ele se conecta com as manifestações?”
    Em seguida, apresenta as credenciais que o legitimam para enfrentar o clamor das ruas:
    “Dentro do Palácio, um “governo de partidos”, eleito no primeiro turno, que governa com mecanismos de participação popular combinados de forma inédita, tais como o Orçamento Participativo, o Gabinete Digital, os Conselhos Regionais de Desenvolvimento, o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, a Consulta Popular.
    Esta, por exemplo, é um procedimento de votação eletrônica (1 milhão e 100 mil votos no ano passado) que, através de perguntas diretas à população, promove a liberação hierarquizada de recursos (este ano, mais de duzentos milhões de reais) para investimentos, principalmente em pequenas obras e nas áreas da saúde e da educação”.
    Grupos sem rosto
    Na avaliação que faz no artigo, Tarso vê “três protagonistas claros da crise”:
    – a cidadania manifestando-se na defesa de direitos;
    – grupos “sem rosto” que servem de massa de manobra para provocações, como ocorre historicamente nestas conjunturas (cujos objetivos são obscuros, mas funcionam como desestabilizadores da democracia política);
    – e a direita conspirativa, que trabalha nas “sombras” – no caso, “no ar” – dando seqüência ao trabalho feito pela mídia dominante, que nos últimos anos dissolveu o prestígio dos partidos, dos políticos em geral e de todas as instituições democráticas da República.
    Quanto às “causas mais visíveis da insatisfação popular”:
    – as péssimas condições do transporte coletivo e do sistema de saúde pública nas grandes regiões metropolitanas.
    (“Na verdade faltou Estado, seja como prestador, seja como organizador-controlador, o que se combinou com o ascenso de milhões de jovens ao mundo do trabalho e às universidades públicas e não públicas (estas, através do Prouni), sufocando, não só a mobilidade destas grandes regiões, mas também a capacidade da estruturas públicas prestarem serviços de mediana qualidade. De outra parte, os apelos da sociedade consumista oferecem promessas espetaculares que apenas uma parte da população pode acessar, transformando o desejo sonegado de muitos em frustração, crime e violência irracional”).
    Entre as causas, Tarso menciona “um processo geral de hipnose fascista, que não tem precedentes na História do país”.
    Promovida pela mídia, essa “hipnose” consiste basicamente numa inversão de prioridades, com manipulação dos fatos: em vez de “denunciar as desigualdades e a riqueza concentrada”, verdadeira causa das mazelas nacional, a mídia se fixa na denúncia da corrupção, “como se ela fosse uma propriedade e uma qualidade dos políticos atuais e dos governos atuais”.
    “Não foi promovido o combate à corrupção como mazela de um Estado reprodutor de desigualdades e protetor de privilégios corporativos e de classe, pois isso suporia reconhecer que tanto nos partidos, no serviço público, como nas empresas, em todas instituições (até mesmo na mídia), há uma grande maioria de pessoas que não tolera a corrupção e que não a aceita, por princípios morais e políticos”.
    “A campanha foi feita de modo a incriminar de maneira plena a esfera da política, os partidos e, particularmente, os dois governos que colocaram os pobres e os trabalhadores como protagonistas da cena pública”.
    Moralidade republicana
    Tarso vai ao ponto de atribuir a esse discurso repisado pela mídia a motivação aos grupos violentos que se infiltram nas manifestações:
    “Ao fazer uma incriminação generalizada colocando, de um lado, a grande imprensa como a virtude moral do país, e, de outro lado, os partidos e os agentes públicos como a fontes da corrupção, o que ocorreu foi a degradação dos instrumentos democráticos para combater a própria corrupção, restando a grande mídia como fonte de toda a moralidade republicana, com poderes totalitários para dizer quem presta e quem não presta, quem merece confiança e quem não merece”.
    “Assim, quando um Juiz Privado, a mídia, transforma-se em monopólio do Juízo Público, estamos entrando numa crise da República: a marginalidade violenta e os fascistas clássicos e pós-modernos, que emergem nesta situação, não precisam mais se conter e sentem-se autorizados ideologicamente a saquear e a incendiar”.
    O governador gaúcho, porém, não vê inocentes na cena política:
    “É preciso compreender, porém, que o que está ocorrendo no país não é mera invenção midiática. É óbvio que os partidos de esquerda e as instituições “dissolvidas” por esta manipulação sobre a corrupção não são inocentes”.
    “Seus vícios, seu acomodamento ideológico, seu afastamento das questões mais intensas que desqualificam a vida cotidiana do povo, facilitaram esta agenda da direita que, como se vê, sorri satisfeita com toda a crise e pretende transformá-la em cavalo de batalha eleitoral”.
    “Nossos partidos precisam captar esta energia criadora que vem das ruas e transformá-la em políticas democráticas de largo alcance”.
    “Nestas circunstâncias, a crise da democracia transmudou-se em crise da República. Isso não quer dizer, no entanto, que o pacto democrático não possa ser recuperado, tanto pela “via conservadora”, como pela “via da radicalização da democracia”.
    “Na primeira hipótese, pela “via conservadora”, basta que os poderes voltem a funcionar em relativa harmonia, para simular que “as coisas começaram a melhorar”. Se eles voltarem a operar nesta relativa harmonia, os clamores populares poderão deixar de ser valorizados pelos meios de comunicação e a situação poderá se acalmar, mas a democracia não será revalorizada e a República não será reformada. Nem serão criadas novas instituições que permitam fortalecer a intervenção do povo no processo político e, em consequência, as “crises” virão ainda mais fortes no futuro”.
    Demandas populares
    “A essência da crise atual, portanto, é que os poderes republicanos e as suas instituições políticas não têm mais chances de recuperar sua plena legitimidade para dar eficiência à democracia – capacidade de resposta à justas demandas populares -, sem novas formas de participação nas decisões públicas e sem novas fontes de legitimação do poder.
    O Congresso tem mecanismos burocráticos de funcionamento que permitem, frequentemente, que interesses escusos impeçam votações e que minorias sem programa e sem princípios dominem a cena parlamentar, desprestigiando todo o corpo representativo. É preciso um sopro “direto” do povo para que ele se atualize e se sensibilize com os problemas reais que o país atravessa.
    “Falo aqui de uma assembléia constituinte (revisora) específica, convocada conforme a Constituição, por Emenda Constitucional, para conectar as instituições políticas da República com o povo, que é o poder constituinte real. Seu objetivo é integrar, de forma direta, a atual energia política despertada pelas grandes manifestações de massas, com delegados eleitos especialmente para fazer a Reforma Política.”
    “Estes representantes, eleitos para este fim específico, impossibilitados de concorrerem nas próximas eleições (admitido um percentual de representantes “sem partido”), pressionados democraticamente pela sociedade em movimento poderiam, através de mudanças substancias nas normas constitucionais que versam sobre os Partidos, financiamento das campanhas e Direito Eleitoral, “democratizar a democracia”, como diz Boaventura Souza Santos. E assim expandir os marcos da participação direta do povo, já previstos na atual Constituição Federal, combinando-a com a representação estável e previsível dos processos eleitorais tradicionais”.
    A direita também usa as redes socias
    “O que está ocorrendo durante as manifestações é também a seqüência de uma lenta e eficaz lavagem cerebral midiática, acolhida amplamente nas “redes sociais”, cujo objetivo está sintetizado na visão de que “o gigante acordou”, “vamos construir um novo Brasil” e “vamos varrer com a corrupção”. Tais sínteses traduzem uma mentira meticulosamente construída, pois os avanços democráticos que o país vem sofrendo, inclusive na luta contra a corrupção, datam da Constituição de 88 e, no plano social, dos dois governos do Presidente Lula, ampliados inclusive no atual governo”.
    “Estas “palavras de ordem”, induzidas dos porões da direita extrema, levam as novas gerações a uma romantização do futuro, com graves frustrações de médio prazo. Embora a crise das regiões metropolitanas – motivação imediata das inconformidades em pauta – venha de erros e omissões dos atuais e anteriores governos (especialmente no que refere ao transporte urbano e a saúde), nenhuma destas questões será resolvida em profundidade nos próximos dez anos.
    São bilhões a serem investidos e repassados aos Estados e às Prefeituras, que precisam enfrentar as agruras da crise mundial e a promoção de uma Reforma Tributária, que principalmente desonere os pobres e as novas classes médias e, em contrapartida, onere as grandes fortunas e as transações do capital especulativo e rentista”.
    “O fato é que as grandes mobilizações populares abriram caminhos que estão em disputa no campo da política. Os partidos de esquerda, se estiveram à altura da crise atual, se forem mesmo de esquerda e democráticos, devem adotar uma estratégia unitária de revalorização da ação política e dos partidos, combinando-a com a criação de novos canais de democracia direta e de participação popular, articulados com a democracia representativa.
    Ou seremos vencidos pelo conservadorismo, que poderá nos levar às novas formas de totalitarismo pós-moderno, que tanto controlará as mentes, a pauta, como ditará o que é lícito ou ilícito, numa democracia ainda mais elitista do que a presente”.
    Tarso Genro é Governador do Estado do Rio Grande do Sul

  • Projeto para mídias locais recebe parecer favorável

    O parecer sobre o Projeto de Lei 159/2012 – Política Estadual de Incentivo às Mídias Locais, Regionais e Comunitárias, de autoria do deputado Aldacir Oliboni (PT) estará na ordem do dia da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa, amanhã. O relator, deputado Jorge Pozzobom (PSDB), construiu parecer favorável, com emenda.
    A reunião ordinária da CCJ ocorre nesta terça-feira (02), a partir das 9h, na sala Maurício Cardoso (4º andar da Assembleia).

  • Zero Hora paga 100 mil ao ex-presidente do TJ

    Zero Hora foi condenada a pagar uma indenização ao expresidente do Tribunal de Justiça, Marco Antonio Barbosa Leal, por uma nota publicada na coluna da Rosane de
    Oliveira. Ultrapassa os 100 mil reais o valor atualizado.
    Não conheço detalhes do processo, mas estou triplamente assustado.
    Primeiro: sou testemunha ocular dos fatos que deram origem ao processo. Eu e mais uns 20 repórteres e colunistas que compareceram à entrevista coletiva que o dr. Marcão convocou, no dia 17 de outubro de 2007, para manifestar sua inconformidade com o corte de 75 milhões de reais no orçamento do Poder Judiciário, feito pela govenadora Yeda Crusius.
    Posso assegurar e acho que os colegas que estavam presentes podem confirmar que a nota da Rosane foi moderada, diante do que o então presidente do Tribunal de Justiça declarou.
    Os repórteres presentes, talvez por conhecerem o temperamento do dr. Marcão, que se exacerba com facilidade, evitaram reproduzir a íntegra das expressões, mas todos registraram o tom agressivo com que o magistrado se manifestou.
    Quero dizer: a jornalista Rosane de Oliveira publicou uma informação verdadeira, mesmo assim foi condenada por “dano moral”.
    Segundo susto: o jornal em que ela publicou a informação verdadeira, decidiu acatar a decisão, sem recorrer. Vai pagar os cento e poucos mil reais e até agora sequer registrou sua inconformidade.
    Punir um veículo de comunicação por publicar uma informação verdadeira só tem um nome: censura.
    Meu terceiro susto: a sentença do Tribunal de Justiça, confirmando a decisão anterior de primeira instância, é de 23 de maio e até agora, já em julho, nenhuma entidade de defesa da liberdade de expressão ou de imprensa se manifestou sobre o assunto.
    A única voz discordante está nos autos. É do revisor Paulo Roberto Lessa Franz, que foi voto vencido no julgamento. Entendeu ele que “a nota jornalística não destoou da realidade fática, não se vislumbrando qualquer intenção da redatora de denegrir a imagem do autor – com o que a pretensão indenizatória deve ser rechaçada”.

  • Uma imprensa que defende as empresas

    É inacreditável a cobertura que a imprensa de Porto Alegre dá aos dois temas mais importantes em discussão no Rio Grande do Sul neste momento: o aumento das tarifas do transporte coletivo na Capital e a questão dos pedágios. Nos dois casos ela tem uma posição inequívoca: a favor das empresas.
    No caso do transporte coletivo de Porto Alegre, há uma omissão reiterada, que este ano não foi diferente. Se não fosse o jornal Metro, diário gratuito, que deu em manchete o pedido de aumento de 14% das empresa de ônibus, o assunto estaria fora de discussão, pois nenhum dos diários da cidade se ocupou dele nesta quarta-feira.
    Ninguém também questionou essa coincidência de estarem os trabalhadores das empresas de transporte coletivo ameaçando greve por aumento no exato momento em que as empresa pressionam a prefeitura por um reajuste muito acima da inflação.
    No ano passado, as empresas de transporte já obtiveram um aumento de 11%, quase o dobro do índice inflacionário. E no ano anterior também.
    O impacto do transporte coletivo repercute em toda a cadeia econômica. Quando um jornal como a Zero Hora deixa de dar importância a isso, alegando que é um assunto que só interessa ao povão (mas o Diário Gaúcho, o jornal da Casa destinado ao povão, também não deu nada), coloca sua ignorância na vitrine. A tarifa do transporte público tem influência em toda a economia, nas empresas inclusive.
    O caso dos pedágios chega a ser cômico. Os contratos de concessão de 1.800 quilômetros de rodovias feitas no governo Britto a empresas privadas (na verdade, consórcios de empreiteiras constituídos com essa finalidade) já foi definido como “o caso mais negro do Rio Grande do Sul” pelo ex-ministro dos Transportes, Cloraldino Severo, um técnico, estudioso do assunto e pessoa ideologicamente insuspeita.
    A cobertura, no entanto, é toda favorável às concessionárias, mesmo quando isso exige omissão ou manipulações das informações. A esse respeito é didática a matéria publicada na ZH (18/01), na verdade um “press release” esquentado.
    Antes, é didático ler o press release distribuído pela assessoria do palácio Piratini, a respeito do assunto:
    “Em reunião com os representantes do consórcio Univias, que administra os polos de pedágios da região Metropolitana, de Lajeado e Caxias do Sul, o coordenador da Assessoria Superior do Governador, João Victor Domingues, reafirmou nesta terça-feira (17), no Palácio Piratini, a disposição do Executivo em reduzir as tarifas cobradas pela empresa. Além de diminuir o valor do pedágio, o Estado propõe a manutenção dos investimentos previstos.
    Mais do que rechaçar a continuidade do modelo atual de cobrança, João Victor afirmou que o Governo do Estado mantém a exigência de acabar com a praça de Farroupilha, adotar um modelo mais transparente e criar um conselho de usuários. “Não queremos a continuidade de um modelo que não prevê uma prestação de serviço de qualidade por parte das concessionárias”, garantiu.
    Uma consultoria deve ser contratada pelo Governo do Estado até maio para apontar um diagnóstico sobre um possível desequilíbrio nas tarifas. Em 90 dias, a consultoria apresentará os resultados dos estudos.
    Vários fatores podem ser levados em consideração para a diminuição das cobranças. João Victor explica que existe a possibilidade de testar uma cobrança regionalizada das tarifas, a partir da realidade de cada região diminuir. “A proposta que nos trouxeram é de R$ 4,40, e nós achamos que podemos reduzir para R$ 3,80, R$ 4, mas sem prejuízo do volume de investimentos sinalizados de R$ 1bilhão. Isto tudo influencia, inclusive na elaboração de um novo modelo e mesmo na forma de licitação”, acrescentou.
    Conforme João Victor, a primeira alternativa do Estado é a constituição de um novo modelo por licitação. “O ambiente de conversação ajuda, inclusive para que não tenhamos uma batalha judicial que inviabilize a alteração do modelo”, disse.
    Advogado do Univias, Ricardo Breier afirmou que a empresa vai repensar critérios técnicos e avaliar os valores cobrados pela empresa. “Os contratos preveem alguns indicativos importantes e mexer nisso agora pode também mudar o índice e aumentar os índices de desequilíbrio”, frisou.
    Agora compare a matéria de ZH ( 18/01, pg. 6):
    Política: Pedágios em Jogo.
    “Em negociação, Piratini sugere tarifa de Cr$ 3,80. Contraproposta do governo Tarso faz parte da discussão em torno da renovação dos atuais contratos”.
    “Em reunião com representantes do Consórcio Univias, no fim da tarde em Porto Alegre, o  governo Tarso Genro pediu a redução de tarifa às concessionárias. Antes de dar mais um passo à possível prorrogação dos contratos até 2014, o executivo  quer  garantir que o valor cobrado pelas empresas  em caso de renovação fique entre R$ 3,80 e R$ 4,00, no máximo.
    A retomada das negociações, iniciadas em novembro, estendeu-se por uma hora no Salão dos Banquetes do Palácio Piratini. A portas fechadas, o único representante do governo, o coordenador executivo da Assessoria Superior do governador, João Vitor Domingues sugeriu a redução nos preços e fez um segundo pedido: que as empresas também apresentem tarifas regionalizadas – por entender que nas praças de maior movimento a possibilidade de cortes é maior.
    “Acreditamos que ainda há margem de negociação. As tarifas poderiam ficar em R$ 3,80 e R$ 4,00, sem prejuízo às demais propostas apresentadas – disse Domingues.
    Em novembro, além de se comprometer a baixar as tarifas de R$ 6,70 para R$ 4,40, as concessionárias prometeram fechar a praça de Farroupilha, na Serra, e investir em obras.
    Ao final do encontro, os três representantes da Univias – o advogado Ricardo Breier, e os diretores Mário Baltar e Radamés Cassab, do grupo Equipav, acionista do consórcio, deram sinais de que o acordo é possível. “Vamos dar início a um estudo e avaliar o que pode ser feito. Nosso interesse é fazer isso o mais rápido possível”, afirmou Breier.
    Embora João Vitor tenha se preocupado em  assegurar que não existe uma definição por parte do Executivo, o avanço nas tratativas é alvo de críticas dentro do próprio PT. Ontem o deputado Raul Pont, presidente do partido no Estado, disse  ser contrário às negociações.
    A postura irritou Domingues: “O que ele sugere. Eu rompa com as empresas e entre numa disputa judicial sem fim? – questionou. Em agosto, o coordenador espera ter em mãos o diagnóstico do setor que será elaborado por uma consultoria, que ainda será contratada”.
    Uma  foto de quatro pessoas numa mesa, ocupando quase ¼ da página traz a seguinte legenda: “Representantes do Consórcio Univias ouviram a proposta feita por João Vitor, assessor de Tarso”.
    Síntese: o jornal insiste que o governo está negociando a prorrogação dos contratos, quando o governo diz claramente que o atual modelo é improrrogável.

  • O blogueiro Mosquito é encontrado morto

    O blogueiro Amilton Alexandre, o Mosquito, foi encontrado morto ontem à tarde na sua casa, na grande Florianópolis. Estava enforcado, e o caso está sendo tratado como suicídio. A notícia se explalhou rapidamente pela internet e logo a morte do blogueiro era o assunto mais citado no twitter do Brasil.
    Seu blog Tijoladas do Mosquito estava proibido de ir ao ar. Ele denunciava sistematicamente casos de corrupção e outros crimes envolvendo políticos e integrantes do Judiciário de Santa Catarina. Figura polêmica, não media palavras para denunciar corruptos e poderosos omissos.
    Era popular e sensacionalista, na linha dos antigos pasquins que circulavam na ilha. Enfrentava mais de 50 processos na Justiça. Sua cobertura para o caso de um estupro que envolveu um menor da familia Sirotsky, no ano passado, rendeu 200 mil acessos num dia.
    A polícia abriu investigação. Quem dá detalhes é o Cangablog, do jornalista Sérgio Rubim. O sepultamento será às 15 horas, no cemitério do Itacorubi, em Florianópolis.