{"id":10027,"date":"2011-09-28T00:47:47","date_gmt":"2011-09-28T03:47:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=10027"},"modified":"2011-09-28T00:47:47","modified_gmt":"2011-09-28T03:47:47","slug":"farda-nunca-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/farda-nunca-mais\/","title":{"rendered":"Farda nunca mais"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Renan Antunes de Oliveira |<\/span><br \/>\n<em> Ele era um pracinha que amava a banda Restart e usava cal\u00e7as coloridas como as dos \u00eddolos, mas pro pelot\u00e3o dele seu gosto \u00e9 coisa gay. Durou tr\u00eas meses no quartel, at\u00e9 o estupro na frente de 14 colegas \u2013 nenhum o ajudou. IPM sob medida recomenda expuls\u00e1-lo do Ex\u00e9rcito.<\/em><br \/>\nO pracinha ga\u00facho de iniciais DPK, 19, enfrenta o Ex\u00e9rcito na Justi\u00e7a Militar. Ele tem poucas chances de ganhar, mas pelo menos honra a tradi\u00e7\u00e3o de luta do uniforme verde-oliva.<br \/>\nDPK est\u00e1 amea\u00e7ado de pegar cadeia depois de denunciar ter sido estuprado no quartel por quatro dos 19 colegas de alojamento \u2013 os demais disseram que n\u00e3o viram nada acontecer.<br \/>\n\u201cEu fui violentado e quero Justi\u00e7a\u201d, afirma DPK, 120 dias depois do incidente, acontecido em 17 de maio no quartel do Parque de Manuten\u00e7\u00e3o do 3\u00ba Ex\u00e9rcito, em Santa Maria (RS). Um inqu\u00e9rito policial militar (IPM) concluiu que foi sexo consensual. O caso corre em segredo na 3\u00aa Auditoria Militar.<br \/>\nA ministra dos Direitos Humanos Maria do Ros\u00e1rio mandou o ouvidor nacional de DH Domingos Silveira investigar o IPM. Ela quer \u201cverificar a situa\u00e7\u00e3o desta viol\u00eancia que est\u00e1 sendo tratada com tamanho desrespeito\u201d.<br \/>\nDurante entrevista no s\u00e1bado 17, o soldado afirmou que enfrentar\u00e1 a acusa\u00e7\u00e3o no tribunal. Ele disse que o Ex\u00e9rcito convenceu seus quatro agressores a mentirem no IPM, oferecendo para eles penas menores em troca de acus\u00e1-lo de homossexualismo \u2013 o objetivo seria isentar a institui\u00e7\u00e3o da responsabilidade sobre o suposto estupro.<br \/>\nPelo relato, seu pesadelo come\u00e7ou quando se apagaram as luzes do alojamento do 3\u00ba Pelot\u00e3o, \u00e0s 10 da noite: \u201cEu fui atacado de surpresa pelos quatro e n\u00e3o tive como reagir\u201d. Um quinto soldado ficou vigiando a porta e, nos beliches, outros 14 assistiram tudo e nada fizeram.<br \/>\nO soldado revive o drama numa sala tamb\u00e9m lotada, por advogados, amigos e familiares, inclusive uma prima adolescente. Olha para o ch\u00e3o e continua: \u201cEles me jogaram de bru\u00e7os na cama e taparam minha boca pra n\u00e3o gritar\u201d. Exames de DNA comprovaram que tr\u00eas dos quatro acusados o penetraram.<br \/>\nDia 15, o Minist\u00e9rio P\u00fablico Militar (MPM) acatou a vers\u00e3o do IPM, denunciando DPK e os demais envolvidos pelo crime de \u201cpederastia e outros atos libidinosos\u201d, artigo 235 do C\u00f3digo Penal Militar, pass\u00edvel de um ano de cadeia e expuls\u00e3o (no CPM s\u00f3 existe estupro se for entre pessoas de sexos diferentes). A turma dos beliches escapou.<br \/>\nO Ex\u00e9rcito jogou pesado contra DPK durante o IPM. Oficiais, sob a condi\u00e7\u00e3o de anonimato, foram revelando aos poucos para jornalistas partes escolhidas do inqu\u00e9rito sigiloso, difamando o jovem como homossexual, aid\u00e9tico, suicida e mentiroso.<br \/>\nNa vers\u00e3o militar, DPK teria inventado a viola\u00e7\u00e3o para obter indeniza\u00e7\u00e3o financeira. Toda argumenta\u00e7\u00e3o do IPM tem base nos testemunhos dos recrutas acusados. Ficou a palavra de um contra quatro. DPK passou de v\u00edtima a r\u00e9u.<br \/>\nDona Ester, 40 anos, m\u00e3e do soldado, comanda a defesa dele e partiu para o ataque. Quer responsabilizar o Ex\u00e9rcito e pedir indeniza\u00e7\u00e3o. Ela contesta a tese central do IPM: \u201cMeu filho n\u00e3o \u00e9 gay, nunca tentou o suic\u00eddio, nem \u00e9 aid\u00e9tico\u201d \u2013 neste caso, exames deram negativos.<br \/>\nEla afirma que o resultado do IPM teria sido manipulado porque foi antecipado em 70 dias pelo general comandante da guarni\u00e7\u00e3o de Santa Maria: \u201cOs militares fizeram uma campanha de mentiras para condenar meu filho\u201d (os citados nesta reportagem foram procurados, mas o \u00fanico a falar foi o comandante).<br \/>\nA m\u00e3e do soldado disse que DPK se queixava de ass\u00e9dio no pelot\u00e3o desde fevereiro, quando foi ao quartel pela primeira vez usando cal\u00e7a justa e colorida, \u00e0 moda da banda Restart, a favorita dele.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-16049\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/DPK-31-1024x644.jpg\" alt=\"DPK-31-1024x644\" width=\"465\" height=\"296\" \/><\/p>\n<div>\nSegundo o IPM, 20 soldados estavam no alojamento na hora do incidente, contando com DPK. Um ficou de sentinela. Os quatro acusados pelo ataque encostaram tr\u00eas beliches, improvisando a cama onde deitariam DPK. A sess\u00e3o de sexo durou 30 minutos.<br \/>\nOs outros 14 recrutas, interrogados pelo capit\u00e3o Newmar Schmidt, disseram n\u00e3o ter visto nem ataque nem orgia. &#8220;Muitos viram e nenhum me ajudou&#8221;, insiste DPK. &#8220;Durante tr\u00eas meses os carinhas do pelot\u00e3o fizeram piadas, passavam a m\u00e3o na minha bunda, mas nunca pensei que chegariam a tanto&#8221;, relembra. Ele acha que o ass\u00e9dio come\u00e7ou mesmo por causa do figurino Restart. &#8220;O pessoal aqui diz que minha roupa \u00e9 coisa de gay&#8221;.<br \/>\nPeritos encontraram esperma dos soldados JS, JPR e VRS nas ceroulas de DPK (os nomes completos n\u00e3o podem ser citados por causa do segredo de Justi\u00e7a).<br \/>\nO \u00faltimo a ser ouvido no inqu\u00e9rito foi DPK. Ele manteve que foi violentado. No interrogat\u00f3rio, Schmidt perguntou se para subjug\u00e1-lo os supostos agressores usaram &#8220;correntes, cordas, fios de luz ou de nylon&#8221;? Resposta: n\u00e3o. Para intimid\u00e1-lo, se usaram &#8220;baioneta, faca, pistola, rev\u00f3lver, fuzil, escopeta, metralhadora&#8221;? Resposta: n\u00e3o.<br \/>\nO capit\u00e3o relata nos autos um exame feito pelo enfermeiro do hospital da guarni\u00e7\u00e3o, que levantou as cobertas e deu uma olhada no traseiro do soldado. A conclus\u00e3o deste perito: &#8220;Seu corpo n\u00e3o exibe marcas compat\u00edveis com a resist\u00eancia que teria oferecido&#8221;. Exames independentes feitos pela fam\u00edlia n\u00e3o foram aceitos pelo IPM.<br \/>\nJuntando os n\u00e3os, a aus\u00eancia de marcas no corpo e a confiss\u00e3o dos acusados por DPK, o IPM fechou redondo na tese da orgia gay.<\/p>\n<div>\n<span class=\"intertit\">Foi brincadeira de rapazes, diz general<\/span><br \/>\n&#8220;Houve crime, mas n\u00e3o foi estupro&#8221;, disse em entrevista na segunda-feira o general S\u00e9rgio Etchegoyen, comandante da 3\u00aa Divis\u00e3o do Ex\u00e9rcito, em Santa Maria. &#8220;O IPM foi conduzido de forma isenta pelo oficial encarregado&#8221;.<\/p>\n<div>\nUma vers\u00e3o completa do incidente j\u00e1 tinha sido dada pelo general em sigilo aos deputados da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa ga\u00facha, em sete de julho. L\u00e1, ele disse que tudo fora &#8220;uma esp\u00e9cie de luta corporal de brincadeira entre os rapazes&#8221;. Etchegoyen disse ainda que apenas &#8220;constatou-se les\u00e3o leve no \u00e2nus do soldado DPK, o que por si s\u00f3 n\u00e3o comprova o alegado estupro&#8221; &#8211; falava 50 dias depois do ocorrido, antecipando em 70 o resultado do IPM.<br \/>\nO depoimento foi distribu\u00eddo aos jornais por um deputado petista. A revela\u00e7\u00e3o enfureceu o general. Na segunda, por telefone, ele lamentou que &#8220;um tema t\u00e3o s\u00f3rdido tenha sido levado a p\u00fablico pelo deputado. Ele diz o que quer porque tem imunidade, mas eu tenho um compromisso com a privacidade com meus subordinados&#8221;.<br \/>\nNa batalha pela m\u00eddia, tudo j\u00e1 indicava que DPK seria transformado em r\u00e9u no IPM. A boataria na cidade cresceu tanto que em 29 de agosto, duas semanas antes da conclus\u00e3o do inqu\u00e9rito, o MPM divulgou uma nota preventiva, isentando o Ex\u00e9rcito das acusa\u00e7\u00f5es de tentar &#8220;abafar o caso ou descaracteriz\u00e1-lo&#8221;.<br \/>\nO promotor Jorge C\u00e9sar de Assis, o mesmo que depois aceitou a den\u00fancia, afirmou que \u201c&#8230; as For\u00e7as Armadas est\u00e3o entre as institui\u00e7\u00f5es que det\u00e9m a maior credibilidade perante a opini\u00e3o p\u00fablica&#8221; e que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 nenhum ind\u00edcio de que estejam fazendo isto&#8221; (abafando ou descaracterizando).<br \/>\n<span class=\"intertit\">A escaramu\u00e7a do hospital<\/span>\n<\/div>\n<div>\nDepois do ataque, DPK n\u00e3o quis mais sair da cama. No dia seguinte, quarta 18 de maio, um sargento estranha sua apatia e logo descobre tudo, alertando superiores. O soldado \u00e9 internado no hospital da guarni\u00e7\u00e3o, onde seria periciado pelo tal enfermeiro. Um aspirante a oficial anota que ele parecia deprimido e suicida, receitando antidepressivos.<br \/>\nUm recruta do mesmo pelot\u00e3o \u00e9 destacado para vigi\u00e1-lo no leito, mas piora as coisas porque o amea\u00e7a: &#8220;Se falar, voc\u00ea vai se ferrar&#8221;.<br \/>\nDia 19 de maio. DPK liga pra m\u00e3e, mas n\u00e3o conta nada: &#8220;Eu tive vergonha&#8221;. No quinto dia, 22 de maio, a m\u00e3e ouve boatos de um estupro no quartel. Num palpite, ela manda o marido apurar &#8211; a fama do quartel \u00e9 ruim desde 2006, quando dois soldados foram expulsos por violentar um terceiro na padaria da guarni\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-16050\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/DPK-21-1024x768.jpg\" alt=\"DPK-21-1024x768\" width=\"459\" height=\"347\" \/><br \/>\nSeu Luiz encontra o filho escondido sob cobertores, com as m\u00e3os no rosto. Chorando, DPK conta tudo pro pai. Dona Ester se materializa no hospital. Em modo de combate ao lado do filho, interroga todos que v\u00ea pela frente. O subtenente Jorge Bernardes faz o papel de assistente social. Ele explica candidamente aos pais que &#8220;o menino participou da \u2018cerim\u00f4nia do sabonete\u2019 durante o banho. Caiu, quem se abaixa para juntar j\u00e1 era&#8221;. E que n\u00e3o tinha d\u00favidas: &#8220;O filho de voc\u00eas \u00e9 gay&#8221;.<br \/>\nDona Ester diz uns palavr\u00f5es para Bernardes, acampa no quarto do filho e expulsa de l\u00e1 o sentinela. Os militares tentam tir\u00e1-la do quartel, mas ela se recusa a sair. O general Etchegoyen oferece transferir DPK para o QG, promete que l\u00e1 seria tratado como filho por oficiais mais velhos. Dona Ester tamb\u00e9m n\u00e3o aceita. O general disse que cedeu \u00e0s exig\u00eancias dela porque &#8220;era compreens\u00edvel o sentimento de m\u00e3e&#8221;.<br \/>\nNo \u00faltimo dia dele no hospital, 25 de maio, um capit\u00e3o aparece com ordens para transferi-lo em carro oficial e fardado para outra unidade militar. Dona Ester bate p\u00e9: &#8220;Daqui ele s\u00f3 sai comigo e vai para casa&#8221;. Ela ganhou de novo. Licenciado, sempre recebendo o soldo de R$ 473 mensais, o filho est\u00e1 desde ent\u00e3o na casa dos pais.<\/p>\n<div><span class=\"intertit\">De volta pra casa<\/span><\/div>\n<p>E como vai indo o soldado DPK?&#8221;T\u00f4 maus, mas vou levando, vou superar&#8221;.Na entrevista ele vestia cal\u00e7a justa, t\u00eanis Nike e jaqueta escura &#8211; nada colorido. Seu cabelo \u00e9 o moicano estilizado da hora. Magro, 1m80, pele bem morena, apesar do sobrenome e sangue de imigrantes alem\u00e3es. O soldado fala baixo, com voz grave. Tem um tique nervoso que o faz jogar os l\u00e1bios muito pra frente ao falar, fazendo biquinho.Seus melhores amigos s\u00e3o as irm\u00e3s de 9 e 7 anos. A m\u00e3e conta que ele ainda brinca com elas de esconde-esconde.<br \/>\nE Samuel, com quem vai ao culto da Igreja Quadrangular nas quartas.Na sala lotada, DPK se v\u00ea for\u00e7ado a responder se \u00e9 gay ou n\u00e3o &#8211; mesmo que quisesse sair do arm\u00e1rio seria dif\u00edcil, ainda mais com a curiosa prima adolescente refestelada numa poltrona.Ele demora segundos. Todos na sala com respira\u00e7\u00e3o suspensa. Mas a voz grave e firme vem do biquinho: &#8220;Sou h\u00e9tero&#8221;. Ao lado dele, o pai relaxa os ombros, parecendo respirar aliviado.&#8221;Meu filho n\u00e3o \u00e9 gay&#8221; atesta dona Ester, percebendo que a tese do homossexualismo \u00e9 central na disputa jur\u00eddica. Ela ainda desafia: &#8220;E se fosse? Poderia ter sido estuprado?&#8221;.<br \/>\nOs advogados dele querem provar que o soldado \u00e9 retardado mental e que o Ex\u00e9rcito falhou em perceber isto nos exames de ingresso. Se for declarado incapaz, voltar\u00e1 a ser considerado v\u00edtima de viola\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA m\u00e3e concorda. Ele ouve ser chamado de retardado e nem pisca. O pai ajuda: &#8220;Meu filho nunca conseguiu ser aprovado na escola depois da 5\u00aa s\u00e9rie do primeiro grau&#8221;.<br \/>\nPais e advogados desencavaram pareceres de professores, laudos de exames neurol\u00f3gicos e testes psicol\u00f3gicos extras do menino l\u00e1 na escola prim\u00e1ria. Um psiquiatra de Santa Maria atestou retardamento e d\u00e9ficit de aten\u00e7\u00e3o por hiperatividade.<br \/>\nO pai quer que o drama termine logo para mudar-se da cidade e fugir do esc\u00e2ndalo.<br \/>\nDPK revela o sonho que tinha de permanecer no Ex\u00e9rcito depois do servi\u00e7o obrigat\u00f3rio, mas sabe que agora n\u00e3o ser\u00e1 mais poss\u00edvel.<br \/>\nA m\u00e3e fecha o papo: &#8220;Esta farda voc\u00ea n\u00e3o veste mais&#8221;.\n<\/p><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renan Antunes de Oliveira | Ele era um pracinha que amava a banda Restart e usava cal\u00e7as coloridas como as dos \u00eddolos, mas pro pelot\u00e3o dele seu gosto \u00e9 coisa gay. Durou tr\u00eas meses no quartel, at\u00e9 o estupro na frente de 14 colegas \u2013 nenhum o ajudou. 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