{"id":10197,"date":"2011-10-03T08:52:55","date_gmt":"2011-10-03T11:52:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=10197"},"modified":"2011-10-03T08:52:55","modified_gmt":"2011-10-03T11:52:55","slug":"policia-do-rio-mata-mil-por-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/policia-do-rio-mata-mil-por-ano\/","title":{"rendered":"Pol\u00edcia do Rio mata mil por ano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\"><span class=\"assina\">Mateus Frizzo | Marcus Leonardo | Bruno Bruno Louren\u00e7o<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span class=\"assina\">*Colaborou Tiago Baltz<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro matou uma pessoa a cada oito horas nos \u00faltimos dez anos, segundo estat\u00edstica da pr\u00f3pria Secretaria de Seguran\u00e7a. A maioria dos mortos tombou na chamada &#8220;guerra ao tr\u00e1fico&#8221; e tem como certid\u00e3o de \u00f3bito um documento chamado de <strong>auto de resist\u00eancia<\/strong> &#8211; \u00e9 o jeitinho da PM carioca &#8220;fazer justi\u00e7a&#8221; ignorando o C\u00f3digo Penal Brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O caso da ju\u00edza Patr\u00edcia Acioli, assassinada por policiais numa emboscada, faz parte desse quadro. Nos \u00faltimos anos, a ju\u00edza mandou mais de 60 policiais \u00e0 cadeia, boa parte deles acusados de abusar de um recurso legal que concede \u00e0 Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro salvo-conduto por mortes cometidas em opera\u00e7\u00f5es. \u00c9 o auto de resist\u00eancia, portaria institu\u00edda na plena ditadura militar para legitimar mortes em oposi\u00e7\u00f5es armadas ou, como ainda \u00e9 comum, encobrir casos de execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Por condenar este e outros tipos de crimes semelhantes, Patr\u00edcia foi assassinada com 21 tiros numa conspira\u00e7\u00e3o de PMs, com a participa\u00e7\u00e3o inclusive de um comandante de batalh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Tiroteio com mortos numa favela? Os policiais que participaram do incidente redigem um auto declarando-se v\u00edtimas de ataque, tendo, em leg\u00edtima defesa, revidado e ocasionado mortes. O morto passa ent\u00e3o a ser r\u00e9u. R\u00e9u morto, caso encerrado na maioria das vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Os legisladores que escreveram a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 esqueceram de revisar a portaria de 1969 que instituiu o auto de resist\u00eancia. Ela s\u00f3 mudou agora, depois do recente assassinato do menino Juan, de 11 anos, cometido por PMs. O corpo de Juan foi atirado num rio com a inten\u00e7\u00e3o de eliminar evid\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A Secretaria de Seguran\u00e7a do Estado do Rio de Janeiro determinou, a partir do caso, que uma per\u00edcia independente dever\u00e1 ser feita quando a pol\u00edcia matar algu\u00e9m e lavrar um auto &#8211; provid\u00eancia simples, procedimento padr\u00e3o no resto do pa\u00eds.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14651\" aria-describedby=\"caption-attachment-14651\" style=\"width: 195px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-14651 size-medium\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Andr\u00e9-665x1024-195x300.jpg\" alt=\"Andr\u00e9-665x1024\" width=\"195\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14651\" class=\"wp-caption-text\">Executado por PMs, Andr\u00e9 foi o primeiro &#8216;auto de resist\u00eancia&#8217; registrado ap\u00f3s a instala\u00e7\u00e3o das UPPs.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Ao longo de anos, v\u00e1rios autos foram desmascarados. Por press\u00e3o de familiares e movimentos sociais comprovaram-se execu\u00e7\u00f5es encomendadas, vingan\u00e7as, puro sadismo, enganos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Para dar voz e rosto \u00e0s fam\u00edlias das v\u00edtimas inocentes desta guerra, o Jornal J\u00e1 enviou os rep\u00f3rteres <strong>Bruno Louren\u00e7o, <\/strong><strong>Marcus Leonardo Bruno <\/strong>e <strong>Mateus Frizzo<\/strong> aos morros cariocas por 15 dias, em julho. Eles entrevistaram familiares dos que tombaram frente a PMs matadores que se escudaram atr\u00e1s de autos de resist\u00eancia e outras farsas. Estas s\u00e3o suas hist\u00f3rias:<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">V\u00edtimas da viol\u00eancia policial<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Faltava apenas uma semana para o funcion\u00e1rio do Carrefour Andr\u00e9 Ferreira, 21 anos, se tornar pai. Como de costume, fora comprar o lanche da noite para a mulher Ana Paula Vieira no Point do A\u00e7a\u00ed, morro do Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho, Zona Sul do Rio. No caminho, dois PMs da Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP), \u00e0 paisana, o abordaram. Conforme testemunhas, a a\u00e7\u00e3o foi truculenta. Trucul\u00eancia \u00e9 a palavra de ordem nos depoimentos sobre a conduta da pol\u00edcia na favela. Ap\u00f3s revista, pediram os documentos do rapaz e o liberaram. Ao dar as costas, Andr\u00e9 foi alvejado com um tiro na altura da regi\u00e3o lombar. Era dia dos namorados.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ca\u00eddo no beco, ainda consciente, suplicou para ficar vivo e ver sua filha nascer. Os PMs o deixaram no ch\u00e3o. Coube aos vizinhos prestar socorro. O t\u00e1xi de Jos\u00e9 Gon\u00e7alves serviu de ambul\u00e2ncia para levar o ferido at\u00e9 o Hospital Municipal Miguel Couto. A mulher chegou em seguida, j\u00e1 passava das duas da manh\u00e3. Os dois policiais na porta da UTI barraram sua passagem. \u201cDisseram que se tratava de um criminoso\u201d, explica a vi\u00fava de 17 anos, m\u00e3e da beb\u00ea Ana Vit\u00f3ria, testemunha muda da trag\u00e9dia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14652\" aria-describedby=\"caption-attachment-14652\" style=\"width: 219px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14652\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Ana-Paula-747x1024-219x300.jpg\" alt=\"Ana Paula, m\u00e3e e vi\u00fava aos 17 anos, n\u00e3o recebe assist\u00eancia do Estado para cuidar da filha Ana Vit\u00f3ria.\" width=\"219\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14652\" class=\"wp-caption-text\">Ana Paula, m\u00e3e e vi\u00fava aos 17 anos, n\u00e3o recebe assist\u00eancia do Estado para cuidar da filha Ana Vit\u00f3ria.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Este foi o primeiro auto de resist\u00eancia registrado em uma favela pacificada no Rio de Janeiro, dia 12 de junho de 2011. O jovem corresponde ao perfil da maioria das v\u00edtimas da pol\u00edcia: pobre, negro e favelado; homens de 14 a 21 anos com pouco estudo, at\u00e9 a 5\u00aa s\u00e9rie.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O povo se mexe. A Associa\u00e7\u00e3o de Moradores do bairro e a ONG Rede de Comunidades e Movimentos contra a Viol\u00eancia agora buscam na Justi\u00e7a indeniza\u00e7\u00e3o para a fam\u00edlia e puni\u00e7\u00e3o aos policiais. Uma das batalhadoras de ONGs \u00e9 Deize Silva de Carvalho. Ela vem dando o maior apoio para Ana Paula e Ana Vit\u00f3ria, pois j\u00e1 passou por situa\u00e7\u00e3o semelhante.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14653\" aria-describedby=\"caption-attachment-14653\" style=\"width: 178px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-14653\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Deise1-300x505-178x300.jpg\" alt=\"&quot;Me entregaram um ser humano estra\u00e7alhado&quot;, diz Deize, que teve o filho morto dentro de um Centro de Triagem para menores\" width=\"178\" height=\"300\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14653\" class=\"wp-caption-text\">&#8220;Me entregaram um ser humano estra\u00e7alhado&#8221;, diz Deize, que teve o filho morto dentro de um Centro de Triagem para menores<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Deize traz o nome do falecido filho tatuado nas costas: Andreu. Aos 17 anos, ele\u00a0 foi conduzido ao Centro de Triagem e Recep\u00e7\u00e3o (CTR) da Ilha do Governador, por suposto envolvimento no assalto a um coronel norte-americano. A m\u00e3e admite que Andreu j\u00e1 havia cometido pequenos delitos, mas assegura que vinha se recuperando. Pretendia visitar o pai, brasileiro residente nos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A vers\u00e3o oficial foi que o rapaz tentou fugir do CTR. Teve dentes, costelas, maxilar e pesco\u00e7o quebrados. A per\u00edcia concluiu que o corpo apresentava mais de 30 perfura\u00e7\u00f5es feitas com cabo de vassoura, resqu\u00edcios de sab\u00e3o em p\u00f3 na boca, marcas de estrangulamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Deize recebeu um cad\u00e1ver. \u201cMe entregaram um ser humano estra\u00e7alhado\u201d, lembra-se ela. As autoridades informaram que Andreu morreu ao cair do telhado e quebrou o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">N\u00e3o s\u00f3 no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil, n\u00e3o existem meios independentes para investigar abusos policiais com imparcialidade. A investiga\u00e7\u00e3o dos crimes cumpre ent\u00e3o um rito fajuto. &#8220;A Pol\u00edcia Militar n\u00e3o fiscaliza, a Pol\u00edcia Civil n\u00e3o investiga, o Minist\u00e9rio P\u00fablico \u00e9 omisso e a sociedade civil aceita&#8221;, diz o soci\u00f3logo Ign\u00e1cio Cano, do Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise da Viol\u00eancia da Universidade Estadual do Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><span class=\"intertit\">Despreparo<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Com sal\u00e1rio base de R$ 900, a Pol\u00edcia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) possui 41 mil homens na ativa. Na UPP do Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho\/Cantagalo s\u00e3o 177; 25 destes, oficiais. Um dos comandantes da Unidade, tenente Pesqueira, reconhece o despreparo da corpora\u00e7\u00e3o: \u201ca forma\u00e7\u00e3o da PM do Rio \u00e9 prec\u00e1ria para a responsabilidade que temos e ningu\u00e9m se revolta com isso, s\u00f3 se revoltam quando o PM mata\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Menos de 24 horas ap\u00f3s ter sido baleado pelas costas, Andr\u00e9 Ferreira faleceu, n\u00e3o resistindo \u00e0 segunda cirurgia a que foi submetido. A menina Ana Vit\u00f3ria nasceu no dia anterior \u00e0 missa de s\u00e9timo dia do pai. Dorme embalada pela m\u00e3e que relembra o primeiro encontro com o marido. Na favela, marido e mulher n\u00e3o precisam de papel passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ana Paula j\u00e1 trocava olhares com Andr\u00e9 nos bailes <em>funk<\/em> do Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho. Numa certa noite de 2007, os dois ficaram e trocaram telefones. Marcaram de ir \u00e0 praia de Copacabana na manh\u00e3 seguinte. Come\u00e7ava ali o namoro que duraria quatro anos. Ela tinha 13, ele 17.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Na \u00e9poca, Andr\u00e9 morava na comunidade Jardim Am\u00e9rica e era cobrador da Kombi que o pai dirigia. Para visitar Ana Paula, pegava dois \u00f4nibus, por isso logo decidiram morar juntos; uma semana na casa de cada. Em 2010, aos 16 anos, ela ficou gr\u00e1vida. Quem teve que dar a not\u00edcia para a m\u00e3e da menina foi o genro, enquanto Ana se refugiava na casa da irm\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A sogra aceitou bem, chamou-a para uma conversa e discorreu sobre o peso da responsabilidade. No in\u00edcio, a fam\u00edlia n\u00e3o gostava muito do relacionamento, mas conhecendo melhor Andr\u00e9, aprovaram. Ele queria casar na igreja &#8211; como a m\u00e3e, era religioso. N\u00e3o fumava nem bebia. Tamb\u00e9m n\u00e3o gostava que sua mulher bebesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Em decorr\u00eancia da gesta\u00e7\u00e3o, o futuro pai deixou de vez sua casa e os nove irm\u00e3os e se mudou para o Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho. De acordo com a m\u00e3e, a manicure Missilene Maria de Lima, Andr\u00e9 sempre quis deixar o Jardim Am\u00e9rica por medo da guerra entre traficantes e policiais. O jovem e a UPP chegaram quase juntos ao morro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No Registro de Ocorr\u00eancia Andr\u00e9 aparece como r\u00e9u, acusado de tr\u00e1fico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. O soldado Paulino Mendes Pereira narra, na din\u00e2mica do fato, que fazia patrulhamento de rotina com seu colega, soldado Goulart, quando avistaram dois suspeitos. Ao realizar a abordagem, ouviram um tiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Paulino ent\u00e3o efetuou um disparo<em> \u201crevidando a injusta agress\u00e3o\u201d. <\/em>Andr\u00e9<strong>, <\/strong>prossegueo relat\u00f3rio, trazia consigo 63 sacol\u00e9s contendo p\u00f3 branco, um r\u00e1dio transmissor, um rev\u00f3lver calibre .32 e muni\u00e7\u00e3o<em>. <\/em>A vers\u00e3o da pol\u00edcia diz ainda que o atendimento n\u00e3o foi realizado porque populares se aglomeraram no local e arremessaram pedras.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O laudo final ainda n\u00e3o foi divulgado, por\u00e9m, o tenente Pesqueira assegura que Andr\u00e9 de Lima Cardoso Ferreira, mulato sem ensino fundamental completo, era traficante e adianta: \u201cele n\u00e3o trabalhava desde dezembro do ano passado. Eu posso antecipar pra voc\u00eas que o laudo vai mostrar vest\u00edgio de p\u00f3lvora na m\u00e3o dele. Se ele fosse mesmo inocente, j\u00e1 teriam acontecido protestos aqui na frente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No inqu\u00e9rito aberto ap\u00f3s a morte, 17 pessoas testemunharam a favor de Andr\u00e9. Uma contra. A carteira de trabalho do rapaz informa que ele estava empregado quando foi morto.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Foi comprar cigarros e n\u00e3o voltou<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Um dos cinco traficantes rendidos por quatro policiais militares na frente do bar do Seu Rubens, no Morro da Coroa, disse que estava de anivers\u00e1rio. \u201cEnt\u00e3o eu quero ouvir todos cantando parab\u00e9ns bem alto!\u201d ironizou um dos PMs. Nesta abordagem havia um sexto elemento de joelhos, m\u00e3os para cima como os outros. Era Josenildo dos Santos. Sa\u00edra apenas para comprar cigarros e tomar uma com os amigos. N\u00e3o sem alegar ser trabalhador, conhecido no bairro, foi obrigado a se juntar ao coral. Boa parte da comunidade pode ouvir a can\u00e7\u00e3o aflita e os disparos que deram fim a vida de cada um daqueles homens. No dia seguinte, Josenildo virou manchete de jornal popular: \u201cBandidagem perde feio para a pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14655\" aria-describedby=\"caption-attachment-14655\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-14655 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/josenildo-1-300x255.jpg\" alt=\"O mec\u00e2nico Josenildo era auxiliar na horta comunit\u00e1ria do Morro da Coroa; foi assassinado por ter presenciado a\u00e7\u00e3o policial indevida\" width=\"300\" height=\"255\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14655\" class=\"wp-caption-text\">O mec\u00e2nico Josenildo era auxiliar na horta comunit\u00e1ria do Morro da Coroa; foi assassinado por ter presenciado a\u00e7\u00e3o policial indevida<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Informado pelos moradores sobre o acontecimento e preocupado com a demora do irm\u00e3o para voltar pra casa, Luciano Norberto dos Santos foi \u00e0 unidade de pol\u00edcia do morro. L\u00e1 sugeriram que se dirigisse ao Hospital Municipal Souza Aguiar, para onde os corpos foram encaminhados.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ao chegar, foi levado direto \u00e0 sala de necropsia. Abriu o primeiro saco, o segundo, no terceiro reconheceu o irm\u00e3o mais novo sem metade do cr\u00e2nio. Sacou o celular e tirou fotografias, pois j\u00e1 pensava em utilizar as imagens para obter justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O laudo cadav\u00e9rico comprova que Josenildo Estanislau dos Santos, cor parda, nascido em sete de maio de 1966, foi atingido por um proj\u00e9til de arma de fogo na regi\u00e3o occipital, a nuca. Apresentava barba e bigode por fazer e trajava camisa de malha cinza com a inscri\u00e7\u00e3o \u201ca servi\u00e7o da CEG da empresa KONTEL\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14656\" aria-describedby=\"caption-attachment-14656\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14656\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Luciano-irm\u00e3o-josenildo-300x534.jpg\" alt=\"Luciano, irm\u00e3o mais velho, reconheceu o corpo de Josenildo no necrot\u00e9rio.\" width=\"300\" height=\"534\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14656\" class=\"wp-caption-text\">Luciano, irm\u00e3o mais velho, reconheceu o corpo de Josenildo no necrot\u00e9rio.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Ap\u00f3s a a\u00e7\u00e3o, os policiais tentaram ocultar os vest\u00edgios de sangue perfurando \u00e0 bala um cano d\u2019\u00e1gua no estreito e inclinado corredor onde ficava o bar, hoje fechado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u201cO corredor da morte\u201d, como se refere o outro irm\u00e3o de Josenildo, o taxista Josilmar Mac\u00e1rio dos Santos, de 47 anos. Nenhum perito oficial foi ao local do crime. Os pr\u00f3prios PMs deram encaminhamento aos corpos, que foram enrolados em tapetes roubados dos moradores e levados ao hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Pelo <a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XCq0YEX_F8c\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">v\u00eddeo amador dispon\u00edvel no <em>youtube <\/em><\/a>, nota-se a simula\u00e7\u00e3o de atendimento realizada pelos policiais. Os seis mortos, mais um ferido, s\u00e3o colocados em macas \u00e0s pressas. De carro, o percurso do morro ao hospital \u00e9 feito em no m\u00e1ximo 20 minutos. Os PMs levaram uma hora. O Registro de Ocorr\u00eancia indica que as mortes foram classificadas como autos de resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Segundo o depoimento sum\u00e1rio, os homens, incluindo Josenildo, reagiram a um procedimento legal. \u201cTrata-se de fato em que Policiais Militares lotados no 1\u00baBPM, em OPERA\u00c7\u00c3O no Morro da Coroa, foram recebidos a tiros por traficantes que portavam, ilegalmente, armas e drogas, reagiram e causaram a morte de seis opositores\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Na inten\u00e7\u00e3o de diminuir o n\u00famero de autos, a Secretaria de Seguran\u00e7a instituiu uma premia\u00e7\u00e3o \u00e0s delegacias que registram queda nos \u00edndices. Desde que assumiu o governo do Estado, S\u00e9rgio Cabral (PMDB) conseguiu reduzir o quadro: foram 1.330 em 2007 (ano com maior n\u00famero de ocorr\u00eancias) contra 854 em 2010. Os dados s\u00e3o do Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Rio de Janeiro (ISP).<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No estado, s\u00e3o 29,8 homic\u00eddios para cada 100 mil habitantes ao ano. Se acrescentarmos os autos de resist\u00eancia nas estat\u00edsticas, o n\u00famero sobe para 35. Na capital argentina Buenos Aires, o \u00edndice \u00e9 de 5,03 &#8211; mantendo o mesmo comparativo populacional. Bogot\u00e1, capital da Col\u00f4mbia, j\u00e1 foi considerada uma das cidades mais violentas da Am\u00e9rica, hoje possui uma taxa de 20. O aceit\u00e1vel pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) \u00e9 de no m\u00e1ximo 10.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O auto de resist\u00eancia \u00e9 t\u00e3o comum que as autoridades criaram um formul\u00e1rio padr\u00e3o, est\u00e1 dispon\u00edvel na internet. O procedimento sempre foi contestado por defensores dos direitos humanos. At\u00e9 a Anistia Internacional j\u00e1 denunciou, mas a portaria atravessou a democratiza\u00e7\u00e3o do regime pol\u00edtico com os mesmos poderes que tinha no autoritarismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Roberto S\u00e1, subsecret\u00e1rio de Planejamento e Integra\u00e7\u00e3o Operacional da Secretaria de Seguran\u00e7a, acredita que a portaria serve como prote\u00e7\u00e3o ao policial. &#8220;N\u00e3o podemos acabar com o auto de resist\u00eancia e deixar o policial exposto&#8221;, defende. Nos \u00faltimos cinco anos, a cada PM morto, 52 civis perderam a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u201cTiraram o sonho do meu irm\u00e3o\u201d, lamenta Luciano, hoje com 51 anos. No final de 2008<strong>, <\/strong>a not\u00edcia chegou pelos Correios &#8211; Josenildo fora aprovado em 462\u00ba no concurso do Programa de Mobiliza\u00e7\u00e3o da Ind\u00fastria Nacional de Petr\u00f3leo e G\u00e1s Natural (Prominp), para o cargo de caldeireiro. A inten\u00e7\u00e3o, conforme relata o irm\u00e3o, era chegar a um cargo de chefia antes mesmo das Olimp\u00edadas de 2016.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14658\" aria-describedby=\"caption-attachment-14658\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14658\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/of2-1024x592.jpg\" alt=\"Oficina de Josenildo, agora abandonada\" width=\"700\" height=\"405\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14658\" class=\"wp-caption-text\">Oficina de Josenildo, agora abandonada<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Na pequena oficina de sua propriedade, Josenildo, conhecido tamb\u00e9m como T\u00e9o, consertava carrocerias de autom\u00f3veis. Na \u00faltima vez que conversaram, Luciano repetiu a brincadeira de sempre. Batendo no cap\u00f4 da Caravan em reparo, disse: \u201cdepois desse tem esse outro\u201d. Josenildo trabalhava em uma Kombi; respondeu o usual: \u201cbota na fila\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A m\u00e3e, TerezinhaMaria dos Santos, faleceu um dia antes da morte do filho completar dois anos. Nesta mesma data, a fam\u00edlia recebeu a 23\u00aa Medalha Chico Mendes de Resist\u00eancia. Para embalar a cerim\u00f4nia, Josilmar escolheu a m\u00fasica <em><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2s0-wbXC3pQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Once upon a time in the West<\/a> <\/em>(Era uma vez no Oeste)<em>, <\/em>de Ennio Morricone, trilha do <em>western<\/em> de 1968 que leva o mesmo nome. \u201c\u00c9 isso que vivemos no Rio de Janeiro\u201d &#8211; avalia &#8211; \u201cum faroeste de policiais militares com garantia de impunidade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Luciano define o irm\u00e3o como tranquilo, pacato. As fotografias que ele mostra evidenciam o car\u00e1ter descontra\u00eddo, s\u00e9rio apenas em momentos solenes, como no batizado das g\u00eameas filhas de Josilmar \u2013 o respons\u00e1vel por dar andamento a praticamente toda a investiga\u00e7\u00e3o do caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No dia seguinte ao enterro do irm\u00e3o, Josilmar fotografou as perfura\u00e7\u00f5es dos proj\u00e9teis na parede. Os buracos ainda s\u00e3o vis\u00edveis. Encontrou at\u00e9 peda\u00e7os de massa encef\u00e1lica no muro da execu\u00e7\u00e3o. Coube a ele procurar a per\u00edcia, feita de bom grado pelo Dr. Lev\u00ed Inim\u00e1 de Miranda, quase um ano ap\u00f3s o ocorrido. Este constatou, pelas \u201corlas de tatuagens\u201d (marcas deixadas na pele devido ao disparo \u00e0 queima roupa) presentes no laudo e pelas evid\u00eancias no local, a posi\u00e7\u00e3o de Josenildo durante a execu\u00e7\u00e3o. De joelhos, m\u00e3os para o alto. Rendido.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-14659\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/irm\u00e3o-jos31-300x497.jpg\" alt=\"irm\u00e3o-jos31-300x497\" width=\"300\" height=\"497\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_14660\" aria-describedby=\"caption-attachment-14660\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14660\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Josilmar-irm\u00e3o-josenildo-300x228.jpg\" alt=\"Josilmar encena execu\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o, a marca do disparo ainda est\u00e1 vis\u00edvel\" width=\"300\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14660\" class=\"wp-caption-text\">Josilmar encena execu\u00e7\u00e3o do irm\u00e3o, a marca do disparo ainda est\u00e1 vis\u00edvel<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Os policiais estavam de tocaia, ou \u201cTroia\u201d como \u00e9 conhecido o procedimento, em uma casa abandonada aguardando a chegada de traficantes que n\u00e3o haviam pago o \u201carrego\u201d, conforme explicam testemunhas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O local fica a cerca de 50 metros de onde foram feitas as execu\u00e7\u00f5es. Pelas escadarias em frente, j\u00e1 imaginavam, subiriam os criminosos. Se viessem por cima teriam de passar pelo Departamento de Pol\u00edcia Ostensiva (DPO), unidades hoje desativadas em toda a cidade. No momento da travessia, deram o bote. Josenildo vinha por outro lado, um caminho rotineiro, e, por ter visto demais, teve que ser eliminado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Quase todo dia Josenildo sa\u00eda de sua oficina mec\u00e2nica e subia o morro para tomar uma cachacinha e jogar umas partidas de purrinha (ou porrinha, jogo de aposta envolvendo moedas, peda\u00e7os de papel ou palitos quebrados) com os amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Naquela noite de 2 de abril de 2009, iria tamb\u00e9m buscar um ma\u00e7o de Derby azul, j\u00e1 que no mercado da Rede Econ\u00f4mica &#8211; onde minutos antes comprara p\u00e3es e uma garrafa de sangria &#8211; s\u00f3 havia cigarros paraguaios. Trazia no bolso as luvas sujas de graxa quando o renderam. Sem nunca ter deixado o estado do Rio de Janeiro, o lanterneiro de forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, auxiliar da horta comunit\u00e1ria, foi assassinado com um tiro de fuzil FAL 7.62 na nuca.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A presidente da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ), Maria Margarida Pressburger, classificou o crime como queima de arquivo. \u201cFoi uma execu\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara\u201d, declarou quando soube do caso. A OAB ent\u00e3o designou um advogado criminalista para acompanhar de perto o inqu\u00e9rito policial.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Uma menor viu tudo da janela de seu quarto. Um dos policiais mandou que fosse lavar roupa e disparou tr\u00eas vezes contra a parede da casa da menina. \u201cEles fazem a pr\u00f3pria lei\u201d, comenta Luciano. Uma das coisas que mais indigna a fam\u00edlia \u00e9 a m\u00e1cula ao nome do irm\u00e3o, taxado como traficante pela pol\u00edcia e por alguns ve\u00edculos da m\u00eddia. \u201cA vida dele era s\u00f3 trabalho e fam\u00edlia, nunca usou drogas\u201d, afirma.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Josenildo era solteiro, sem filhos, doava sangue regularmente; serviu ao ex\u00e9rcito e teve baixa com honra ao m\u00e9rito. No morro, instituiu o trabalho de reciclagem de garrafas pet. O reconhecimento \u00e9 comprovado pelo abaixo assinado feito pela comunidade, onde mais de 1.600 assinaturas com RGs e endere\u00e7os foram colhidas apenas nos dois primeiros dias que sucederam \u00e0 morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Os policiais Vagner Barbosa Santana, Carlos Eduardo Virg\u00ednio dos Santos, Jobson Alencar Cruz Souza e Leonardo Jos\u00e9 Jesus Gomes, antes v\u00edtimas no auto de resist\u00eancia, agora s\u00e3o r\u00e9us no processo que est\u00e1 nas m\u00e3os do Esselent\u00edssimo Senhor Jorge Luiz Le Coq d\u2019Oliveira. Um documento que exige a apura\u00e7\u00e3o imediata foi encaminhado por Josilmar \u00e0 Justi\u00e7a e redigido propositalmente dessa forma, com \u201css\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Em maio de 2010, Josilmar foi v\u00edtima de um atentado. Ele teve o vidro de seu t\u00e1xi estilha\u00e7ado por um proj\u00e9til enquanto dirigia pelo centro da cidade. Por sorte, a bala ricocheteou e n\u00e3o ultrapassou o para-brisa. Esta foi o terceira e mais grave amea\u00e7a recebida pela fam\u00edlia desde que o Minist\u00e9rio P\u00fablico denunciou os PMs envolvidos no caso.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">Massacre na Barbearia do Senhor<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O frentista Paulo Cardoso Batalha, 43 anos, saiu do trabalho, buscou o filho Gabriel na creche e o levou ao barbeiro Chor\u00e3o, em Nova Holanda, Complexo da Mar\u00e9. Era v\u00e9spera de dia dos namorados e ele n\u00e3o queria deixar esse tipo de tarefa para o final de semana. O menino de cinco anos ficou no colo do pai, que por medo evitava as ruas da favela \u00e0 noite. Enquanto isso, policiais do 22\u00ba Batalh\u00e3o estavam de tocaia na laje em frente ao local. Quando anoiteceu, abriram fogo contra todos na barbearia.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14661\" aria-describedby=\"caption-attachment-14661\" style=\"width: 309px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14661\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/barbeiro-21-527x1024.jpg\" alt=\"Dentro do Caveir\u00e3o, Alessandro 'Chor\u00e3o' levou um tiro na cabe\u00e7a e sobreviveu\" width=\"309\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14661\" class=\"wp-caption-text\">Dentro do Caveir\u00e3o, Alessandro &#8216;Chor\u00e3o&#8217; levou um tiro na cabe\u00e7a e sobreviveu<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Paulo Batalha tomou um tiro nas costas; Gabriel, ainda no seu colo, foi alvejado na m\u00e3o. Deividson, deficiente auditivo, tamb\u00e9m foi baleado. Outras duas pessoas que estavam fora do recinto, Rodson Soares Gomes (22) e Gilberto dos Santos (35) foram atingidos, mas os vizinhos conseguiram socorr\u00ea-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Os policiais mandaram o barbeiro e o frentista entrarem no Caveir\u00e3o. \u201cSomos trabalhadores\u201d, respondeu Paulo. Sem sucesso, ele ainda entregou um cord\u00e3o com a foto de Gabriel para a vizinha que socorreu o filho. Moradores viram Chor\u00e3o entrar mancando no carro blindado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Alessandro de Oliveira Nascimento, Chor\u00e3o para a comunidade, trabalhava sozinho na pequena pe\u00e7a alugada na esquina entre as ruas Bittencourt Sampaio e Santa Rita. Estava com 26 anos. O estabelecimento foi registrado no Sindicato dos Comerci\u00e1rios do Rio como Barbearia do Senhor. L\u00e1 s\u00f3 tocava m\u00fasica evang\u00e9lica. Com frequ\u00eancia os clientes pediam para Chor\u00e3o colocar um <em>funk<\/em>, mas nunca eram atendidos.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14662\" aria-describedby=\"caption-attachment-14662\" style=\"width: 336px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14662\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/barbearia1-573x1024.jpg\" alt=\"Barbearia onde tocaia de PMs deixou dois mortos e quatro feridos\" width=\"336\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14662\" class=\"wp-caption-text\">Barbearia onde tocaia de PMs deixou dois mortos e quatro feridos<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Naquele 11 de junho de 2010, a rua estava calma, n\u00e3o havia traficantes ali devido a uma opera\u00e7\u00e3o policial que ocorrera pela manh\u00e3. O primo do barbeiro, Deividson Evangelista Pacheco (19), aguardava para fazer a barba. O rapaz era surdo desde os cinco anos, sequela de uma meningite. Trabalhava em um lava-jato e estudava na Escola Municipal Yuri Gagarin.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Do outro lado da rua Bittencourt Sampaio, os policiais esperavam com ansiedade o anoitecer. Eles comemoravam a pris\u00e3o do traficante que atuava naquele ponto. Pela manh\u00e3, quando a viatura deixou a favela, quatro PMs ficaram de tocaia na laje. Eles estavam com o produto do criminoso nas m\u00e3os: coca\u00edna, maconha e <em>crack<\/em>. Assim que o sol caiu no Complexo da Mar\u00e9, come\u00e7ou o massacre.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A namorada do barbeiro, Luciane Saldanha (32), estava cruzando a Passarela 10 da Avenida Brasil quando uma amiga ligou e perguntou onde ela estava. A inten\u00e7\u00e3o era impedi-la de passar em frente \u00e0 barbearia, o que n\u00e3o aconteceu. Quando Luciane viu o movimento em frente ao local, o sangue pelo ch\u00e3o, correu para saber o que havia acontecido. A sogra, dona Sandra, foi quem a acalmou. \u201cEle s\u00f3 tomou um tiro no p\u00e9, j\u00e1 est\u00e1 no hospital. Est\u00e1 tudo bem\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Luciana pegou um moto-t\u00e1xi e foi direto para o Hospital Geral de Bonsucesso. Chegou antes dos policiais e das v\u00edtimas. Ao inv\u00e9s de prestar socorro imediato, os PMs levaram os feridos \u00e0 delegacia, onde fizeram em exatos 20 minutos o Registro de Ocorr\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Segundo o documento, os policiais receberam den\u00fancia de que traficantes de uma fac\u00e7\u00e3o rival invadiriam a comunidade, e para l\u00e1 se deslocaram, sendo necess\u00e1rio utilizar o Caveir\u00e3o. A din\u00e2mica do fato narra que a guarni\u00e7\u00e3o foi recebida a tiros, precisando efetuar alguns disparos <em>\u201ccomo forma de revide \u00e0 injusta agress\u00e3o\u201d<\/em>:<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em>\u201c&#8230;conforme o blindado ia progredindo em dire\u00e7\u00e3o ao interior da comunidade, notou a presen\u00e7a de alguns corpos deitados ao longo da via, inclusive diversas pessoas pedindo socorro. Que naquela ocasi\u00e3o obteve sucesso em resgatar tr\u00eas elementos supostamente baleados\u201d. <\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_14663\" aria-describedby=\"caption-attachment-14663\" style=\"width: 336px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14663\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/Luciane-muher-barbeiro-574x1024.jpg\" alt=\"Luciane largou o emprego para cuidar do namorado que conhecera h\u00e1 apenas seis meses\" width=\"336\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14663\" class=\"wp-caption-text\">Luciane largou o emprego para cuidar do namorado que conhecera h\u00e1 apenas seis meses<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">O RO tamb\u00e9m informa que foram arrecadadas, junto aos corpos, duas pistolas e um rev\u00f3lver calibre .38, al\u00e9m de diversos sacos contendo \u201cerva seca picada\u201d, p\u00f3 branco, e pequenas pedras embaladas em papel alum\u00ednio, \u201cbem como determinada quantia em esp\u00e9cie&#8221;. Os policiais Cl\u00e1udio da Silva Lopes e Alex Borges Teixeira aparecem como testemunhas no RO.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Eles chegaram ao hospital informando \u00e0s enfermeiras que os tr\u00eas <em>feridos <\/em>eram bandidos. Por esse motivo, os parentes das v\u00edtimas n\u00e3o puderam v\u00ea-las. Desesperada, Luciane invadiu o CTI e encontrou os cad\u00e1veres de Paulo e Deividson. \u201cOnde est\u00e1 Alessandro?\u201d implorou. O chefe de enfermagem a levou at\u00e9 o quarto onde Chor\u00e3o estava. Havia tomado um tiro na cabe\u00e7a e respirava com aparelhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O barbeiro perdeu um peda\u00e7o do cr\u00e2nio e ficou 76 dias internado no CTI. H\u00e1 pouco abandonou a cadeira de rodas. Hoje frequenta sess\u00f5es semanais de fisioterapia e fonoaudiologia, est\u00e1 reaprendendo a andar e a falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u201cOs m\u00e9dicos diziam que ele nunca mais ia voltar a andar, mas todos est\u00e3o se surpreendendo com a evolu\u00e7\u00e3o dele\u201d, comemora Luciane. Ela teve que deixar o emprego de copeira para cuidar do namorado que conhecera h\u00e1 seis meses. \u201cA alegria dele em estar vivo ajuda a acelerar\u00a0a recupera\u00e7\u00e3o\u201d, diz Luciane. O casal n\u00e3o recebe nenhum tipo de aux\u00edlio por parte do Governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O ex-barbeiro est\u00e1 consciente, parece entender o que lhe falam, mas n\u00e3o consegue se expressar. Questionado se tudo aconteceu dentro do Caveir\u00e3o, Chor\u00e3o fica s\u00e9rio e confirma balan\u00e7ando a cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Luciane acredita que os policiais tentaram execut\u00e1-lo dentro do blindado junto com Paulo e Deividson, mas o companheiro sobreviveu justamente para ser a prova viva que colocaria os assassinos atr\u00e1s das grades. Em maio deste ano, o promotor do Minist\u00e9rio P\u00fablico Homero Freitas Filho pediu a pris\u00e3o preventiva dos policiais Gutemberg Gon\u00e7alves de Monte Alverne, Alexander Mattoso da Silva, Claudio da Silva Lopes e Alex Borges Teixeira. Outros 11 PMs do 22\u00ba Batalh\u00e3o foram denunciados por falso testemunho.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">O tenente n\u00e3o ter\u00e1 perd\u00e3o<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Oldemar Pablo Escola de Faria cursava o \u00faltimo ano do ensino m\u00e9dio e tinha uma certeza: queria ser policial. Fora admitido na Escola Militar ap\u00f3s oito meses de curso preparat\u00f3rio no Centro de Estudos \u00e0s For\u00e7as Armadas (CEFA).<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">&#8220;O dia em que eu entrar vou dar um jeito nisso, pai!&#8221;. Esse era o discurso do jovem de 17 anos quando via na televis\u00e3o alguma not\u00edcia que envolvesse policiais criminosos. Foi morto pelo tenente do batalh\u00e3o de choque Carlos Henrique Figueiredo Pereira com tr\u00eas tiros na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Carlos Henrique contou em seu depoimento que tentava apenas separar uma briga na porta da casa de shows Aldeia Velha, localizada no bairro do Z\u00e9 Garoto, em S\u00e3o Gon\u00e7alo. O estabelecimento era de propriedade de sua mulher e ele costumava fazer a seguran\u00e7a do local.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14665\" aria-describedby=\"caption-attachment-14665\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14665\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/mae-oldemar1-1024x650.jpg\" alt=\"Adilson e Teresa estampam cartazes e camisetas, organizam manifestos, lutam pela justi\u00e7a no caso do assassinato do filho Oldemar\" width=\"700\" height=\"444\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14665\" class=\"wp-caption-text\">Adilson e Teresa estampam cartazes e camisetas, organizam manifestos, lutam pela justi\u00e7a no caso do assassinato do filho Oldemar<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">O tenente diz que enquanto separava a briga foi cercado pelos baderneiros e ent\u00e3o deu um tiro para o alto para que o grupo se dispersasse. O ato n\u00e3o surtiu efeito e, logo em seguida, foi agredido com um chute na bunda por Rodrigo de Oliveira Correa Nogueira. Virou-se e bateu com a arma no ombro do rapaz. No momento do impacto, ouviu um estampido. A arma havia disparado acidentalmente. A bala passou de rasp\u00e3o pelo ombro de Rodrigo e atravessou a rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Eram oito e meia da noite, a festa &#8220;Cala a Boca e Beija Logo&#8221; havia come\u00e7ado \u00e0s duas da tarde e estava quase no fim. Oldemar j\u00e1 estava do lado de fora com um amigo. Os dois se preparavam para ir embora, mas pararam do outro lado da rua para assistir \u00e0 confus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O tiro acertou o rosto de Oldemar, filho mais novo do cobrador de \u00f4nibus Adilson Barra de Faria e de Tereza Cristina Escola de Faria, encarregada de servi\u00e7os gerais no piscin\u00e3o de S\u00e3o Gon\u00e7alo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A amiga Naomi Arag\u00e3o (17) conta que ainda estava na festa quando ouviu o disparo. Um colega a informou que Oldemar tinha sido atingido. Naomi correu at\u00e9 a sa\u00edda, viu que muitas pessoas choravam, algumas chegaram a desmaiar. &#8220;O policial at\u00e9 tentou fugir sem prestar socorro. Saiu correndo e entrou no carro, mas todos que estavam l\u00e1 o cercaram. Ent\u00e3o ele desceu, pegou o Oldemar e colocou dentro do carro, mas n\u00e3o deixou ningu\u00e9m ir junto&#8221;, recorda.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O percurso da casa de shows at\u00e9 o pronto-socorro pode ser feito a p\u00e9 em cinco minutos. O Palio azul de Carlos levou mais de meia hora para chegar ao local. A fam\u00edlia acredita que ele parou o carro e atirou mais duas vezes no rapaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Oldemar chegou vivo ao hospital. Durante os seis dias em que esteve em coma induzido, amigos e familiares n\u00e3o sa\u00edram da vig\u00edlia. O telefone de Adilson n\u00e3o parava de tocar um minuto. &#8220;Meu filho era muito querido. Fizemos tr\u00eas passeatas depois de sua morte, cada uma chegou a reunir mais de 500 pessoas. Teve at\u00e9 briga de duas namoradinhas dele na frente do hospital\u201d, lembra o pai.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14666\" aria-describedby=\"caption-attachment-14666\" style=\"width: 371px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14666\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/DSC03072-634x1024.jpg\" alt=\"Amigos lembram de Oldemar como um jovem brincalh\u00e3o e namorador\" width=\"371\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14666\" class=\"wp-caption-text\">Amigos lembram de Oldemar como um jovem brincalh\u00e3o e namorador<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Nascido no bairro de Santa Catarina em S\u00e3o Gon\u00e7alo, Dem\u00e1h, como era conhecido, morava com os pais e a irm\u00e3 em um sobrado que seu pai ajudou o av\u00f4 a construir. A vizinhan\u00e7a \u00e9 tranquila, com pra\u00e7a, quadra de esportes, crian\u00e7as correndo na rua&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Foi no pr\u00f3prio bairro que o garoto conheceu o insepar\u00e1vel grupo de amigos. Juntos, os adolescentes com idades entre 14 e 18 anos, viajavam, jogavam futebol, dan\u00e7avam nas micaretas e sempre dormiam uns nas casas dos outros. &#8220;Faz\u00edamos tudo juntos, a gente se conhecia melhor do que a nossa pr\u00f3pria fam\u00edlia&#8221;, confessa Gabriel Scarpa, que na \u00e9poca do crime tinha apenas 16 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O pai garante que nunca teve preocupa\u00e7\u00f5es nem dificuldades em educ\u00e1-lo: &#8220;Quando ele sa\u00eda eu sabia que n\u00e3o ia fazer nada de errado, conhecia muito bem a conduta do meu filho&#8221;. Os amigos riem enquanto lembram das hist\u00f3rias que viveram juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Adilson conta que sempre tinha que ter em casa um estoque de miojo, pois quando o filho chegava \u00e0 noite, depois de uma festa e sempre com um grupo amigos, era a \u00fanica coisa que tinham vontade de comer.\u00a0 &#8220;Era o clube do miojo&#8221;, suspira.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Oldemar queria montar uma banda de rock, j\u00e1 aprendia a tocar guitarra e incentivava os amigos para tamb\u00e9m aprenderem a tocar algum instrumento. Mal conseguia esperar para completar 18 anos e ganhar a moto que o pai prometera. Era o t\u00edpico zagueiro caneleiro, torcia para o Flamengo e gostava de jogar fliperama na sa\u00edda do col\u00e9gio. Jo\u00e3o Gabriel de Souza Mattos, de 18 anos, o Porquinho, garante que era imposs\u00edvel ficar sem rir por mais de 10 minutos quando Dem\u00e1h estava por perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">&#8220;Pai, voc\u00ea acha que algu\u00e9m vai querer fazer alguma coisa contra mim? Eu n\u00e3o fumo, n\u00e3o bebo e n\u00e3o cheiro. Meu neg\u00f3cio \u00e9 namorar, dan\u00e7ar e internet\u201d. Os amigos confirmam, esses eram realmente os seus &#8216;neg\u00f3cios&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Quase no final da entrevista, a m\u00e3e, que permanecera calada durante toda a tarde, decide falar. \u201cSou evang\u00e9lica e acredito no perd\u00e3o como a maior virtude do ser humano, mas tenho certeza que nunca vou conseguir perdoar o que esse cara fez com meu filho\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14667\" aria-describedby=\"caption-attachment-14667\" style=\"width: 321px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14667\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/DSC031291-548x1024.jpg\" alt=\"Termo de reconhecimento do corpo informa como causa mortis perfura\u00e7\u00f5es cranianas que levaram \u00e0 hemorragia\" width=\"321\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14667\" class=\"wp-caption-text\">Termo de reconhecimento do corpo informa como causa mortis perfura\u00e7\u00f5es cranianas que levaram \u00e0 hemorragia<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">No dia da reconstitui\u00e7\u00e3o do crime, Carlos Henrique usava sua pr\u00f3pria arma, carregada, para demonstrar os fatos que ocorreram na noite do dia seis de setembro de 2008. Na ocasi\u00e3o, n\u00e3o conseguiu explicar para a ju\u00edza Patr\u00edcia Lourival Acioli os outros dois tiros, todos na regi\u00e3o frontal da face, presentes no laudo cadav\u00e9rico de Oldemar. Carlos Henrique ficou quatro meses em pris\u00e3o preventiva, mas foi solto antes das investiga\u00e7\u00f5es serem conclu\u00eddas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O amigo que acompanhava Oldemar na sa\u00edda da festa, Rodrigo, era uma testemunha fundamental para o caso. N\u00e3o queria depor, mas foi convencido por Adilson. No dia de seu depoimento, ia sair para almo\u00e7ar com a noiva, mas recebeu uma liga\u00e7\u00e3o, supostamente de seu chefe. Foi trabalhar no dia de folga, de moto. Morreu atropelado na frente de um supermercado. A fam\u00edlia n\u00e3o fez nem o boletim de ocorr\u00eancia na delegacia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O julgamento foi realizado no dia 8 de agosto deste ano e durou mais de 24 horas. De acordo com a fam\u00edlia de Oldemar, o promotor respons\u00e1vel pelo caso entrou de f\u00e9rias uma semana antes da data marcada. O processo foi parar nas m\u00e3os de uma outra promotora. \u201cN\u00e3o mostraram nenhuma foto do meu filho morto, n\u00e3o falaram que ele chegou ao hospital com tr\u00eas tiros na cabe\u00e7a\u201d, diz a m\u00e3e.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O j\u00fari entendeu que Carlos Henrique n\u00e3o teve inten\u00e7\u00e3o de matar e o condenou a um ano e quatro meses de servi\u00e7os comunit\u00e1rios. Carlos ainda dever\u00e1 pagar uma pens\u00e3o no valor de R$ 700 durante 17 meses \u00e0 fam\u00edlia do rapaz. \u201cEsse \u00e9 o valor da vida do meu filho?\u201d \u2013 questiona Tereza. \u201cN\u00e3o queremos dinheiro, queremos justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Quatro dias ap\u00f3s o julgamento, a ju\u00edza encarregada do caso, Patr\u00edcia Acioli, foi assassinada com 21 tiros quando chegava \u00e0 sua casa, em Niter\u00f3i. Ela era conhecida pelo bra\u00e7o firme nas condena\u00e7\u00f5es, tendo mandado 60 policias para a cadeia. O delegado titular da Divis\u00e3o de Homic\u00eddios da Pol\u00edcia Civil, Felipe Ettore, colocou 60% do seu efetivo na investiga\u00e7\u00e3o do caso.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">A saga de uma m\u00e3e em busca do filho desaparecido<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O baleiro F\u00e1bio Eduardo Santos de Souza passava por baixo da roleta do \u00f4nibus ansioso. Tinha combinado de se encontrar com Ana Carla na Festa Junina de Queimados, Baixada Fluminense. Iria curtir a folia mesmo a contragosto da m\u00e3e, dona Izildete Silva dos Santos. Mas mal pode se divertir, pois, j\u00e1 no local, passou pelo constrangimento de uma abordagem policial. O PM Walter Mario Valim\u00a0o insultou e pediu seus documentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">F\u00e1bio, negro, baixa instru\u00e7\u00e3o, j\u00e1 estava acostumado com a pol\u00edcia. Certa vez, ainda crian\u00e7a<strong>,<\/strong> andava com a bicicleta que ganhou da m\u00e3e, quando PMs o acusaram de t\u00ea-la roubado. Izildete teve que busc\u00e1-la na delegacia mostrando a nota fiscal.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14668\" aria-describedby=\"caption-attachment-14668\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14668\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/iziltede-300x547.jpg\" alt=\"Desde 2003 dona Izildete procura pelo filho F\u00e1bio, levado por PMs ap\u00f3s uma festa junina\" width=\"300\" height=\"547\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14668\" class=\"wp-caption-text\">Desde 2003 dona Izildete procura pelo filho F\u00e1bio, levado por PMs ap\u00f3s uma festa junina<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Sob olhares de todos na festa, Walter e outros tr\u00eas policiais liberaram o rapazde 20 anos. Ele e o amigo Rodrigo Ab\u00edlio decidiram ir embora ap\u00f3s o sufoco e foram levar Ana Carla e mais uma menina em casa. Sem saber, foram seguidos. Ana e a amiga ficaram no p\u00e1tio de casa observando eles dobrarem a esquina.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Foram testemunhas da nova abordagem dos policiais. Viram os dois serem atirados dentro da Blazer da PM e desaparecerem da favela. Ao saber da not\u00edcia, dona Izildete correu para procurar o filho na festa. Desde aquele 9 de junho de 2003 s\u00f3 encontra relatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Apesar da queda do n\u00famero de autos de resist\u00eancia, os desaparecimentos seguem num patamar est\u00e1vel: s\u00e3o mais de 5.400 por ano, ou 15 di\u00e1rios. F\u00e1bio queria entrar para o quartel. Era forte e saud\u00e1vel. Vendia balas pela manh\u00e3 e \u00e0 tarde levava o irm\u00e3o Fl\u00e1vio Jorge, deficiente mental, \u00e0 escola Abelinha Faceira.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u00c0 noite estudava, estava na 8\u00aa s\u00e9rie. Dona Izildete conta que os policiais que faziam a seguran\u00e7a em Queimados extorquiam drogas das crian\u00e7as do tr\u00e1fico. Ela garante que seus filhos n\u00e3o eram envolvidos com o \u201cmovimento\u201d. \u201cE como eles estavam sempre sem nada para oferecer \u00e0 pol\u00edcia, sobrava pra eles!\u201d, declara indignada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Izildete procurava um emprego para os filhos. Acreditava que assim conseguiria se livrar das amea\u00e7as policiais. Chegou a mandar uma carta para a ent\u00e3o governadora do Rio, Rosinha Garotinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A m\u00e3e de F\u00e1bio Eduardo registrou o sumi\u00e7o dos rapazes na 55\u00aa DP de Queimados. Nos dias ap\u00f3s o desaparecimento do filho, Izildete foi \u00e0 antiga Secretaria Estadual de Direitos Humanos. Um motorista foi deslocado para acompanh\u00e1-la aos pres\u00eddios do Rio de Janeiro atr\u00e1s do filho. Ela conta que nunca pode descer da viatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O motorista a levava at\u00e9 uma delegacia, descia do carro, e ap\u00f3s alguns minutos voltava. \u201cO delegado disse que n\u00e3o quer receber voc\u00ea\u201d, era o discurso recorrente. A dona de casa tamb\u00e9m n\u00e3o foi recebida nas delegacias de Nova Igua\u00e7u, Belford Roxo e Morro Agudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Izildete retornou sozinha \u00e0 55\u00aa DP de Queimados para obter not\u00edcias do seu filho com o inspetor Gomes. Teve a seguinte recep\u00e7\u00e3o: \u201cvai procurar o seu filho no mato e para de me perturbar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Voltou pra casa de m\u00e3os vazias. Enquanto cuidava do filho deficiente, uma viatura da PM parou em frente ao port\u00e3o do seu barraco. \u201cAcho melhor voc\u00ea parar de ir \u00e0 ao Minist\u00e9rio P\u00fablico revirar pap\u00e9is. Como est\u00e1 o doente? \u00c9 bom cuidar bem dele. Estamos de olho na sua fam\u00edlia!\u201d, amea\u00e7ou um dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Na mesma semana do sumi\u00e7o de F\u00e1bio, Izildete recebeu uma resposta do Governo do Estado de que haveria um trabalho para o seu filho. Foi ao Pal\u00e1cio das Laranjeiras revoltada: \u201cagora j\u00e1 \u00e9 tarde, a pol\u00edcia desapareceu com o F\u00e1bio!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A pr\u00f3pria governadora, ent\u00e3o, recebeu a m\u00e3e desolada e prometeu fazer de tudo para encontrar o menino. No entanto, assim como F\u00e1bio, os processos tamb\u00e9m desapareceram. Rosinha ofereceu o emprego aos seus outros filhos: um cargo de office-boy e ajuda de custo de R$ 320.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ualisse, \u00e0 \u00e9poca com 17 anos, aceitou a proposta. Com emprego ou n\u00e3o, ele nunca teve medo das amea\u00e7as. Mesmo sabendo que seu irm\u00e3o sumiu num baile, nunca deixou de ir \u00e0s festas da comunidade. Numa dessas, a hist\u00f3ria quase se repetiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Mesmo trabalhando para o Governo do Estado, o jovem foi abordado por policiais que o levaram para um terreno baldio atr\u00e1s da Igreja Assembleia de Deus do bairro. Deixaram o garoto nu:<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">&#8211; Fica de joelhos, vagabundo. Te escora na viatura e bota a m\u00e3o na cabe\u00e7a!<br \/>\n&#8211; Por favor, me deixa ir embora, me deixa ir embora! \u2013 implorava o rapaz.<br \/>\n&#8211; Eu vou fazer com voc\u00ea o mesmo que fiz com seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Torturaram Ualisse por mais de meia hora. O rapaz n\u00e3o quis entrar em detalhes. Antes que a viol\u00eancia tomasse maiores propor\u00e7\u00f5es, os PMs ouviram um barulho estranho no matagal. Foram averiguar. Nesse momento, o jovem saiu correndo, nu, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa de um amigo, que o acolheu.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Em 12 de abril de 2004, Dona Izildete solicitou inclus\u00e3o no PROVITA \u2013 Programa de Prote\u00e7\u00e3o a V\u00edtimas e Testemunhas Amea\u00e7adas, atrav\u00e9s de uma carta enviada ao Secret\u00e1rio de Direitos Humanos do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">No mesmo ano, denunciou os desaparecimentos perante os membros do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana.\u00a0 Em 2005, perante o Minist\u00e9rio P\u00fablico e \u00e0 Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica. No dia 15 de mar\u00e7o de 2007, o inqu\u00e9rito policial foi arquivado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Dia desses, Izildete voltava de metr\u00f4 para a favela. Conversava com uma desconhecida no banco ao lado. Ela contou a hist\u00f3ria de F\u00e1bio e ouviu um relato parecido. A mulher disse que tamb\u00e9m teve um filho sequestrado por policiais. Por meses o procurou por pres\u00eddios do Rio, foi ao Minist\u00e9rio P\u00fablico&#8230; Ningu\u00e9m lhe dizia nada. Quatro meses depois, ele apareceu em casa. Fora levado para Minas Gerais, estava trabalhando como escravo num canavial.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Dona Izildete est\u00e1 com 60 anos. N\u00e3o lembra o nome desta m\u00e3e, mas agora a sua maior esperan\u00e7a \u00e9 que o filho esteja escravizado em alguma fazenda do Brasil.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">A eterna luta de Z\u00e9 Luiz<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">J\u00e1 est\u00e1 em obras o Memorial do Maicon, espa\u00e7o que pretende levar \u00e0 comunidade da favela do Acari encena\u00e7\u00f5es do cotidiano, como o movimento do tr\u00e1fico de drogas, as a\u00e7\u00f5es truculentas da pol\u00edcia, agress\u00f5es cometidas por m\u00e3es, as \u201cgarotas do lanchinho\u201d, al\u00e9m de discuss\u00f5es e debates sobre a realidade social da regi\u00e3o. O projeto \u00e9 idealizado e financiado (a duras custas) por Jos\u00e9 Luiz Faria da Silva, pai de cria\u00e7\u00e3o de Maicon Faria da Silva, morto aos dois anos e seis meses por uma bala perdida, supostamente disparada pelo policial militar Pedro Dimitri Amaral.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14669\" aria-describedby=\"caption-attachment-14669\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14669\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/DSC02734-300x388.jpg\" alt=\"Maicon morreu aos dois anos e meio, v\u00edtima de bala perdida enquanto brincava com os amiguinhos no quintal de casa\" width=\"300\" height=\"388\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14669\" class=\"wp-caption-text\">Maicon morreu aos dois anos e meio, v\u00edtima de bala perdida enquanto brincava com os amiguinhos no quintal de casa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">H\u00e1 15 anos Z\u00e9 Luiz vive em busca de justi\u00e7a. \u00c9 um s\u00edmbolo da luta contra a impunidade. Costuma se vestir de prisioneiro durante atos p\u00fablicos de protesto. Dedica-se \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica e aos movimentos sociais. J\u00e1 foi \u00e0 Bras\u00edlia, Bel\u00e9m, S\u00e3o Paulo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Ficou doente (toma Gardenal 100ml e Diazepan h\u00e1 tr\u00eas anos). Aprendeu todos os tr\u00e2mites legais na marra. Traz consigo uma pilha de pap\u00e9is &#8211; c\u00f3pias de todos os desdobramentos jur\u00eddicos do caso. Como considera Patr\u00edcia Oliveira (37), integrante do movimento Viol\u00eancia Nunca Mais, \u00e9 isso que todo morto vira: uma pilha de pap\u00e9is.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14670\" aria-describedby=\"caption-attachment-14670\" style=\"width: 385px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14670\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/DSC02881-657x1024.jpg\" alt=\"Z\u00e9 Luiz se tornou s\u00edmbolo da luta contra a impunidade\" width=\"385\" height=\"600\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14670\" class=\"wp-caption-text\">Z\u00e9 Luiz se tornou s\u00edmbolo da luta contra a impunidade<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Al\u00e9m de viver pela sua e outras causas semelhantes, Z\u00e9 Luiz transforma cartuchos de arma de fogo em arte. Durante o primeiro relato, p\u00f5e cinco na mesa, quatro de pistola 9mm e um de fuzil. Eles far\u00e3o parte de algum painel em mosaico que ir\u00e1 confeccionar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u201cAinda tive que pagar a viatura e a bala que matou meu filho\u201d, ironiza Z\u00e9 Luiz, hoje com 50 anos, referindo-se aos impostos pagos. N\u00e3o quer a lei do tali\u00e3o para Pedro Dimitri. \u201c\u00c9 um covarde irrespons\u00e1vel. N\u00e3o posso consider\u00e1-lo um assassino, n\u00e3o tenho \u00f3dio nem culpo ele. Culpo a Justi\u00e7a por n\u00e3o tomar provid\u00eancias\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Pela gravidade e pela press\u00e3o de Z\u00e9 Luiz, mais de 80 mat\u00e9rias jornal\u00edsticas j\u00e1 foram feitas sobre o caso. Em 15 de abril de 1996, Maicon estava com seis amigos no quintal de casa. Brincavam com tampinhas de garrafa quando uma rolou beco abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">O menino a perseguiu e, antes mesmo de resgat\u00e1-la, foi alvejado no rosto por uma bala de fuzil MD2 de 5,56mm. Pouco antes, come\u00e7ara uma troca de tiros entre seis traficantes e dois policiais. Escondido atr\u00e1s de um muro, Dimitri esticou o bra\u00e7o e sem olhar disparou uma rajada na dire\u00e7\u00e3o em que se encontrava a crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Z\u00e9 Luiz lavava a bicicleta na frente de casa. Soube da not\u00edcia pelos gritos da m\u00e3e do garoto, Maria da Penha de Souza Silva. Desesperada, ela pegou a crian\u00e7a no colo &#8211; o que dificultaria o trabalho da per\u00edcia. O processo aponta que foi imposs\u00edvel determinar a proced\u00eancia do disparo. Z\u00e9 Luiz conta que partiu para cima de Pedro Dimitri.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Deu um soco na cara do homem e, enfurecido, puxou a arma do policial e a for\u00e7ou contra o pesco\u00e7o do mesmo, dedo no gatilho. Dimitri jurou inoc\u00eancia. Alegou que o tiro fora dado pelos traficantes. \u201cMaldita hora em que entrei nessa favela\u201d, praguejou. Houve tumulto entre civis e policiais. Os traficantes j\u00e1 haviam sumido.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u201cSe Maicon tivesse dez anos seria classificado pela m\u00eddia como traficante por ser negro, pobre e favelado\u201d, acredita Z\u00e9 Luiz, j\u00e1 que logo ap\u00f3s a a\u00e7\u00e3o outro policial encontrou um rev\u00f3lver e um r\u00e1dio comunicador pr\u00f3ximo ao local do crime. Na opera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi apreendida uma motocicleta roubada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Um dos amiguinhos de Maicon, Renato da Silva Paix\u00e3o, foi ferido com estilha\u00e7os de proj\u00e9til. Parte de uma c\u00e1psula ficou alojada no seu l\u00e1bio superior. Um m\u00eas depois, durante uma pelada no campinho do Acari, o fragmento caiu. Sangrando, foi logo contar \u00e0 m\u00e3e a boa nova. Hoje, com 22 anos, Renato trabalha em um supermercado e cursa um preparat\u00f3rio para frentista. De acordo com uma das integrantes da Rede Contra a Viol\u00eancia, ele entrou para \u201co movimento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Anos depois da trag\u00e9dia, Maria da Penha sonhou que o filho vinha num avi\u00e3o estendendo uma bandeira do Flamengo. Dentre tantos questionamentos sobre o que poderia ter acontecido, esse \u00e9 um, para qual time o menino torceria. Jos\u00e9 Luiz \u00e9 vasca\u00edno mas planeja estampar o sonho da ex-mulher num mosaico. \u201cVou fazer eu no ch\u00e3o, com a camisa do Vasco e um estilingue na m\u00e3o apontando pra ele; alguma coisa c\u00f4mica\u201d.<\/p>\n<figure id=\"attachment_14671\" aria-describedby=\"caption-attachment-14671\" style=\"width: 700px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-14671\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/memorial-1024x683.jpg\" alt=\"H\u00e1 15 anos, o pai adotivo mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria de Maicon embora a ex-mulher condene sua fixa\u00e7\u00e3o\" width=\"700\" height=\"467\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-14671\" class=\"wp-caption-text\">H\u00e1 15 anos, o pai adotivo mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria de Maicon embora a ex-mulher condene sua fixa\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: left\">Bastante incomodada, Maria da Penha se irrita com a persist\u00eancia de Z\u00e9. Os dois ainda moram juntos, por\u00e9m n\u00e3o mais em rela\u00e7\u00e3o matrimonial. Questionada sobre a lembran\u00e7a viva do filho, respondeu:<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">&#8211; O Z\u00e9 \u00e9 meu filho. Ele ficou doente, n\u00e3o pensa em outra coisa. Vive para isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Passado tanto tempo, Maria da Penha, 51 anos, gostaria de esquecer a trag\u00e9dia. O ex-marido mant\u00e9m viva a mem\u00f3ria. \u201cO Z\u00e9 s\u00f3 respira Maicon, dorme e acorda Maicon, Maicon, Maicon\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">&#8211; Como respirar outra coisa? &#8211; questiona ele. Se eu desistir, muita gente vai ficar triste.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Z\u00e9 Luiz prepara um quartinho e um banheiro para ele no Memorial. Vai se mudar pra l\u00e1. A rela\u00e7\u00e3o com a ex-mulher se tornou insustent\u00e1vel. Quando der, e se der, vai adquirir um terreno cont\u00edguo e p\u00f4r ali alguns animais para cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span class=\"intertit\">O que \u00e9 auto de resist\u00eancia?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left\">\u201cAuto de resist\u00eancia\u201d \u00e9 um expediente criado no antigo estado da Guanabara com finalidade de registrar poss\u00edveis oposi\u00e7\u00f5es armadas no decorrer de opera\u00e7\u00f5es policiais \u00e0 \u00e9poca. Ou, o que era mais frequente, para encobrir casos de execu\u00e7\u00f5es sum\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Institu\u00eddo atrav\u00e9s da Ordem de Servi\u00e7o n.\u00ba 803, de 02\/10\/1969, ainda \u00e9 utilizado para justificar boa parte das mortes cometidas por policiais, sejam ou n\u00e3o fruto de confronto armado. Isto concede \u00e0 pol\u00edcia a manipula\u00e7\u00e3o dos Registros de Ocorr\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">A categoria n\u00e3o tem amparo no C\u00f3digo Penal brasileiro, e foi criada justamente para evitar a classifica\u00e7\u00e3o destes crimes como homic\u00eddios. De acordo com o perito legista Dr. Lev\u00ed Inim\u00e1 de Miranda, as condi\u00e7\u00f5es em que tais mortes ocorrem s\u00e3o descaracterizadas, descritas com frequ\u00eancia no sentido de incriminar a v\u00edtima &#8211; seja ela criminosa de fato ou inocente. Em suma, funciona em muitos casos como uma esp\u00e9cie de permiss\u00e3o para matar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left\">Nos \u00faltimos cinco anos, em m\u00e9dia, a cada PM morto, 52 civis perderam a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mateus Frizzo | Marcus Leonardo | Bruno Bruno Louren\u00e7o *Colaborou Tiago Baltz A Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro matou uma pessoa a cada oito horas nos \u00faltimos dez anos, segundo estat\u00edstica da pr\u00f3pria Secretaria de Seguran\u00e7a. A maioria dos mortos tombou na chamada &#8220;guerra ao tr\u00e1fico&#8221; e tem como certid\u00e3o de \u00f3bito um documento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":14671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[1151,1152,128,1153,1154],"class_list":["post-10197","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-auto-de-resistencia","tag-policia-militar","tag-rio-de-janeiro","tag-upps","tag-violencia-policial"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":10197,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-2Et","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10197\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}