{"id":1036,"date":"2006-03-27T16:51:21","date_gmt":"2006-03-27T19:51:21","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1036"},"modified":"2006-03-27T16:51:21","modified_gmt":"2006-03-27T19:51:21","slug":"os-dedos-nas-feridas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/os-dedos-nas-feridas\/","title":{"rendered":"Os dedos nas feridas"},"content":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse, jornalista\u00a0 ghasse@th.com.br<\/p>\n<p align=\"justify\">A mosca azul de Frei Betto incomoda gregos e troianos, petistas e tucanos. At\u00e9 agora a m\u00eddia brasileira quase n\u00e3o falou do novo livro de Frei Betto, no qual ele rememora sua passagem pelo governo Lula, nos anos 2003 e 2004. Lan\u00e7ado na primeira quinzena de mar\u00e7o, j\u00e1 aparece na lista dos mais vendidos, mas permanece cercado por um estranho sil\u00eancio. Por que n\u00e3o analisam\/ criticam\/ resenham uma obra t\u00e3o atual e engajada, que esmiu\u00e7a a realidade contempor\u00e2nea como nenhum outro autor brasileiro fez nos \u00faltimos anos? Pode ser birra ou m\u00e1 vontade, mas desde j\u00e1 n\u00e3o se pode negar: ta\u00ed o livro mais contundente de um ano que mal come\u00e7a e muito promete.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em <strong>A Mosca Azul<\/strong> (Rocco, 310 p\u00e1ginas), Betto exp\u00f5e seu desencanto com o rumo da nau petista. Logo no primeiro par\u00e1grafo ele p\u00f5e o dedo na ferida, ao lamentar \u201ca desdita de promessas esvoa\u00e7adas em mera ret\u00f3rica\u201d. No final do cap\u00edtulo 30, depois de tocar em v\u00e1rias feridas &#8212; \u00e0 esquerda e \u00e0 direita &#8211;, confessa: \u201cDe repente dei-me conta de que naveg\u00e1vamos para oeste, quando todos os planos orientavam-nos para leste\u201d. Resultado: caiu fora \u201cem busca de si mesmo\u201d. Pouco mais de um ano depois de pedir demiss\u00e3o e deixar o poder para \u201cnunca mais\u201d, ele apresenta o que poder\u00edamos denominar \u201co reencontro consigo\u201d. Temos na m\u00e3o uma contribui\u00e7\u00e3o relevante para a organiza\u00e7\u00e3o do pensamento brasileiro.<\/p>\n<p align=\"justify\">Frei Betto escreve com tal clareza e sinceridade que \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ler at\u00e9 o fim. Apesar de \u201cligado na miss\u00e3o\u201d, ele n\u00e3o pede licen\u00e7a para ser criativo. Brincalh\u00e3o \u00e0s vezes, solta alguns trocadilhos de tirar o chap\u00e9u. Com \u201ctudo que \u00e9 s\u00f3lido desmancha no bar\u201d, ele atualiza para nossos tempos consumistas a c\u00e9lebre frase de Karl Marx sobre os per\u00edodos cr\u00edticos em que \u2018tudo que \u00e9 s\u00f3lido parece se desmanchar no ar\u2019&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\">H\u00e1 tamb\u00e9m confiss\u00f5es memor\u00e1veis. Ele diz que escrever \u00e9 sua forma de driblar a pr\u00f3pria loucura. Admite que algumas vezes tem vontade de chutar o balde e cair na contempla\u00e7\u00e3o dos mist\u00e9rios da vida e da morte. Mas n\u00e3o desiste. Uma das coisas que o incentiva a se manter na luta \u00e9 a mem\u00f3ria do que passou na pris\u00e3o, resistindo \u00e0 tortura.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao contr\u00e1rio do que se poderia esperar, ele n\u00e3o picha o amigo Lula nem cospe no prato em que comeu (foi coordenador de mobiliza\u00e7\u00e3o social do programa Fome Zero). Fiel aos ideais que o levaram a optar pela vida religiosa e a milit\u00e2ncia pol\u00edtica, surpreende tanto pela\u00a0 an\u00e1lise dos equ\u00edvocos da esquerda quanto pela cr\u00edtica das engana\u00e7\u00f5es da direita.<\/p>\n<p align=\"justify\">Diz o informe da Editora Rocco que <strong>A Mosca Azul<\/strong> \u00e9 \u201cuma revis\u00e3o honesta da ascens\u00e3o do PT ao poder vinculada \u00e0 recente hist\u00f3ria da esquerda no Brasil e no mundo\u201d. Na realidade, com uma narrativa na primeira pessoa, Frei Betto faz uma reavalia\u00e7\u00e3o de sua vida, toda ela consagrada a um projeto de reden\u00e7\u00e3o dos pobres e oprimidos. A Mosca Azul \u00e9 talvez o mais autobiogr\u00e1fico dos livros de Frei Betto, uma das figuras mais fascinantes da hist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea, com mais de 50 livros publicados.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mineiro de Belo Horizonte, nascido em 24 de agosto de 1944, ele fala bastante do pai, que morreu quatro meses antes da elei\u00e7\u00e3o de Lula, em 2002. Recorda o conservadorismo e o anticlericalismo paterno, expresso numa amea\u00e7a expl\u00edcita, segundo a qual n\u00e3o toleraria ver \u201cum filho de saias\u201d, ou seja, que fosse maricas ou padre. Betto respeitou o pai \u00e0 sua moda: sem ser sacerdote, assumiu a vida religiosa, como frade dominicano, desses que andam \u00e0 paisana; sem deixar de ser homem, jamais se casou. No livro, sem maiores detalhes, confessa que na juventude frequentou a \u201czona\u201d da prostitui\u00e7\u00e3o de BH; insatisfeito, escolheu o claustro e fez do trabalho religioso uma miss\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Da milit\u00e2ncia crist\u00e3 evoluiu para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica at\u00e9 ser preso e condenado a quatro anos de pris\u00e3o por ajudar na luta armada contra a ditadura militar. Quando deixou a cadeia, foi aconselhado a ir embora para o exterior, mas exilou-se na regi\u00e3o metropolitana de Vit\u00f3ria, onde morou por cinco anos. A\u00ed conheceu, entre outros, o m\u00e9dico Vitor Buaiz, um dos fundadores do PT, ao lado de Lula. Eles estiveram juntos em Jo\u00e3o Monlevade, em janeiro de 1980, no encontro sindical em que pela primeira vez Lula falou em fundar um partido dos trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eram todos \u201cduros\u201d e idealistas. Depois desse evento, alguns sindicalistas como Lula e Ol\u00edvio Dutra foram descansar no apartamento dos pais de Betto em Belo Horizonte. Com v\u00f4o marcado para o amanhecer e sem dinheiro para o hotel, eles dormiram amontoados no ch\u00e3o da sala, pois n\u00e3o havia cama para todos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Outro epis\u00f3dio dessa \u00e9poca foi o encontro (em 1979) em S\u00e3o Paulo com os socialistas Almino Affonso, Fernando Henrique Cardoso e Pl\u00ednio de Arruda Sampaio. Convidado para entrar no partido que os tr\u00eas estavam dispostos a fundar, Betto ficou de pensar. Muito tempo depois, soube que a reuni\u00e3o \u2013 realizada no apartamento duplex de um jornalista &#8212; fora gravada pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a da ditadura agonizante.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nessa viagem ao passado, Betto fala do ideal constru\u00eddo pela esquerda brasileira ap\u00f3s o golpe militar de 1964, mergulha nas circunst\u00e2ncias que geraram o efeito Lula e culminaram na elei\u00e7\u00e3o do l\u00edder sindical a Presidente da Rep\u00fablica em 2002. Comentando o carisma do atual presidente, n\u00e3o deixa barato: compara-o a Vargas e Prestes.<\/p>\n<p align=\"justify\">Adepto da teologia da liberta\u00e7\u00e3o nascida em redutos pobres da Am\u00e9rica Latina, Betto faz uma reflex\u00e3o profunda sobre o sonho petista de uma sociedade socialista, os novos paradigmas da esquerda ap\u00f3s o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o ressurgimento do neoliberalismo, que desmantela um s\u00e9culo de conquistas sociais dos trabalhadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">O livro tem grandes sacadas. Por exemplo: \u201cO PT \u00e9 filho bastardo da desconfigura\u00e7\u00e3o da geopol\u00edtica internacional\u201d, diz ele no cap\u00edtulo 29, em que faz uma an\u00e1lise da crise do mundo moderno. Outra constata\u00e7\u00e3o dolorida: \u201cO PT vestiu a camisa do governo e despiu a camiseta dos movimentos populares\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Embora tenha escrito seu livro para explicar\/justificar sua passagem pelo governo Lula no per\u00edodo 2003\/2004, Betto foi muito al\u00e9m da promessa: acabou dando um verdadeiro cursinho (de hist\u00f3ria, filosofia, sociologia, pol\u00edtica) em que apresenta uma s\u00e9rie de racioc\u00ednios extremamente l\u00facidos sobre os rumos da esquerda, o papel do PT e o futuro do socialismo, seja isso l\u00e1 o que for depois do colapso da maior parte dos governos comunistas fundados no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mesmo decepcionado com a maior parte do governo Lula, reconhece que tem pela causa social a mesma preocupa\u00e7\u00e3o de um pai pelo filho deficiente ou drogado: um amor incondicional, eivado de sofrimento. \u00c9 o amor inspirado na li\u00e7\u00e3o de Cristo. Suas outras refer\u00eancias s\u00e3o Gandhi e Guevara, que se dedicaram \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos, cada um a seu modo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os oprimidos, os pobres s\u00e3o o alvo central de sua milit\u00e2ncia. Betto os coloca numa nova categoria \u2013 o pobretariado, abaixo do proletariado. Para entender essa nova classifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso viajar com o autor pelos meandros da sociedade de consumo, da publicidade, do neoliberalismo e da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">S\u00e3o extremamente instrutivos os cap\u00edtulos em que ele analisa, comenta e critica o comportamento dos ricos, da burguesia, dos intelectuais, da classe m\u00e9dia e tamb\u00e9m dos pobres. Leitor dos cl\u00e1ssicos gregos e estudioso de Maquiavel, Betto faz p\u00e1ginas brilhantes sobre o exerc\u00edcio do poder em geral e do poder no governo petista. Apesar de tudo, confia na possibilidade de que, num segundo mandato, Lula penda mais para a esquerda do que para a direita, resgatando mais um pouco das car\u00eancias da maior parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">No final, numa met\u00e1fora carregada de poesia, Betto afirma que \u201ca viagem n\u00e3o foi em v\u00e3o, pois s\u00e3o sinuosas as veredas da hist\u00f3ria e a turba jamais olvida a fonte do alvorecer\u201d. Resta no ar um certo messianismo, mas esperar o qu\u00ea de um pregador cat\u00f3lico? Sem esperan\u00e7a ningu\u00e9m vive.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por essas e outras, <strong>A Mosca Azul<\/strong> \u00e9 um livro de leitura obrigat\u00f3ria para quem pretende n\u00e3o apenas compreender a sinuca dos petistas, mas situar-se depois que o barco de Lula sumiu no nevoeiro neoliberal e tomar um rumo nesse mundo coberto de mis\u00e9ria, corrup\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e inseguran\u00e7a. Sem respostas prontas, Betto d\u00e1 uma dica humanista-crist\u00e3 para construir um mundo melhor: \u201cO p\u00f3lo de refer\u00eancia das esquerdas, em torno do qual precisam se unir, \u00e9 somente um: o direito dos pobres\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse, jornalista\u00a0 ghasse@th.com.br A mosca azul de Frei Betto incomoda gregos e troianos, petistas e tucanos. At\u00e9 agora a m\u00eddia brasileira quase n\u00e3o falou do novo livro de Frei Betto, no qual ele rememora sua passagem pelo governo Lula, nos anos 2003 e 2004. 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