{"id":10414,"date":"2011-10-17T15:23:01","date_gmt":"2011-10-17T18:23:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=10414"},"modified":"2011-10-17T15:23:01","modified_gmt":"2011-10-17T18:23:01","slug":"o-lado-sujo-da-modernidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-lado-sujo-da-modernidade\/","title":{"rendered":"O lado sujo da modernidade"},"content":{"rendered":"<p>O leigo que assiste a uma palestra ou debate sobre gest\u00e3o do lixo certamente fica impressionado com o conhecimento t\u00e9cnico, o aparato legal e o vocabul\u00e1rio dos que lidam com o assunto. Na teoria, parece haver solu\u00e7\u00e3o para qualquer problema relacionado com res\u00edduos. Na pr\u00e1tica, em toda cidade brasileira a gest\u00e3o do lixo ainda \u00e9 um deus-nos-acuda.<br \/>\nTomemos um exemplo elementar do progresso da terminologia lixal: todo mundo j\u00e1 sabe o que \u00e9 embalagem descart\u00e1vel, coleta seletiva e reciclagem de lixo, mas o leitor imagina o que vem a ser \u201clog\u00edstica reversa\u201d?<br \/>\nPois, embora n\u00e3o pare\u00e7a e quase ningu\u00e9m desconfie, esta \u00e9 uma das chaves da Pol\u00edtica\u00a0 Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos, que est\u00e1 em implanta\u00e7\u00e3o pelo Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, depois de permanecer 21 anos em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso.<br \/>\n\u201cLog\u00edstica reversa\u201d, para n\u00e3o deixar pergunta sem resposta, \u00e9 o nome do esquema para que as embalagens poluentes, ao contr\u00e1rio das descart\u00e1veis, voltem \u00e0s fontes de produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNa apar\u00eancia, uma beleza. Na realidade, um jogo de empurra que faz parte do costume nacional de jogar a sujeira nos rios e nas ruas, quando n\u00e3o para baixo dos tapetes.<br \/>\nToco de cigarro, papel de bala, jornal velho, garrafa vazia, pneu careca: quase tudo ainda \u00e9 descartado irresponsavelmente. Todo mundo ainda se comporta como se o lixo n\u00e3o fosse um problema comunit\u00e1rio, mas um dever das administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. \u00c9 por causa dessa mentalidade arcaica que as nossas fontes d&#8217;\u00e1gua est\u00e3o polu\u00eddas.<br \/>\nO comportamento individualista \u00e9 vis\u00edvel nas atitudes mais elementares. Por exemplo, mesmo em cidades com leis que mandam os donos de cachorros recolherem as fezes dos seus animais dom\u00e9sticos, os transeuntes vivem pisando em coc\u00f4 canino nas cal\u00e7adas. \u00c9 um res\u00edduo do tempo da escravid\u00e3o, quando\u00a0havia uma criadagem\u00a0sempre pronta a tirar a sujeira do caminho.<br \/>\nMestre em recursos h\u00eddricos e diretor de ambiente urbano do MMA, o engenheiro Silvano Silv\u00e9rio da Costa tem viajado pelo pa\u00eds para participar de audi\u00eancias p\u00fablicas,\u00a0nas quais tenta demonstrar que o maior desafio da Lei dos Res\u00edduos S\u00f3lidos \u00e9 acabar com os lix\u00f5es e implantar os aterros sanit\u00e1rios controlados at\u00e9 2014.<br \/>\nNuma entrevista dada\u00a0em setembro ao portal EcoDesenvolvimento.org, Costa esclareceu que a prioridade da log\u00edstica reversa \u00e9 organizar o retorno das embalagens de medicamentos, \u00f3leos lubrificantes, eletroeletr\u00f4nicos e l\u00e2mpadas de vapor de s\u00f3dio e merc\u00fario. J\u00e1 funciona razoavelmente a log\u00edstica reversa de pilhas e embalagens de agrot\u00f3xicos. Tamb\u00e9m est\u00e1 organizado o esquema de reciclagem de \u00f3leos lubrificantes, um trabalho iniciado em 1989.<br \/>\nSegundo a engenheira qu\u00edmica Carmen N\u00edquel, da Fepam-RS, h\u00e1 no Brasil 500 pessoas habilitadas para lidar com a reciclagem de \u00f3leo lubrificante usado. &#8220;\u00d3leo usado \u00e9 o primo rico da Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos&#8221;, diz a engenheira.\u00a0Ainda assim,\u00a0junto com o \u00f3leo comest\u00edvel descartado nas pias dom\u00e9sticas e em restaurantes, os lubrificantes s\u00e3o respons\u00e1veis por 10% da polui\u00e7\u00e3o. Ou seja, os res\u00edduos\u00a0n\u00e3o param de encher o buraco negro da vida moderna.<br \/>\nO governo federal promete aportar recursos para que munic\u00edpios e estados eliminem os lix\u00f5es e incrementem a coleta seletiva do lixo, de modo a aumentar a reciclagem no pa\u00eds, o que implica a reorienta\u00e7\u00e3o profissional dos catadores que ciscam nos lix\u00f5es.<br \/>\nNos \u00faltimos dez anos, segundo Silvano Silv\u00e9rio da Costa, mesmo sem investimentos p\u00fablicos e sem uma lei espec\u00edfica, j\u00e1 houve uma redu\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos que iam para os lix\u00f5es e um aumento dos que v\u00e3o para reciclagem. Em 2000, 35% dos res\u00edduos gerados acabavam em aterros. Em 2008, este \u00edndice saltou para 58%.<br \/>\nOs n\u00fameros indicam progresso, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que a gest\u00e3o de res\u00edduos s\u00f3lidos ainda funciona precariamente em todo o pa\u00eds. A maior dificuldade \u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o de aterros em pequenos munic\u00edpios, justamente os mais atrasados nesse aspecto. Como n\u00e3o se pode implantar aterros em todos os munic\u00edpios, ser\u00e1 facilitada a cria\u00e7\u00e3o de cons\u00f3rcios intermunicipais.<br \/>\nUma coisa \u00e9 certa: a gest\u00e3o do lixo n\u00e3o pode ficar no fim da fila das prioridades governamentais. Por tr\u00e1s de cada montanha de lixo constru\u00edda numa comunidade, existe uma arapuca sanit\u00e1ria.<br \/>\n<em>* Catador de not\u00edcias recicl\u00e1veis<\/em><br \/>\n<strong>LEMBRETE DE OCASI\u00c3O<\/strong><br \/>\n<strong>\u201cA roda (do lixo) s\u00f3 gira se for vi\u00e1vel economicamente\u201d <\/strong><br \/>\nEduardo Torres, t\u00e9cnico veterano em gest\u00e3o ambiental no Rio Grande do Sul<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O leigo que assiste a uma palestra ou debate sobre gest\u00e3o do lixo certamente fica impressionado com o conhecimento t\u00e9cnico, o aparato legal e o vocabul\u00e1rio dos que lidam com o assunto. Na teoria, parece haver solu\u00e7\u00e3o para qualquer problema relacionado com res\u00edduos. 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