{"id":1068,"date":"2006-09-12T13:45:51","date_gmt":"2006-09-12T16:45:51","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=1068"},"modified":"2006-09-12T13:45:51","modified_gmt":"2006-09-12T16:45:51","slug":"a-cobra-que-parece-gente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-cobra-que-parece-gente\/","title":{"rendered":"A cobra que parece gente"},"content":{"rendered":"<p><strong> Mario Pirata <\/strong><br \/>\nNascido em Vila Pinhal, Tupanciret\u00e3, no estado do Rio Grande do Sul (1898-1984), Raul Bopp lan\u00e7ou, em 1931, seu principal livro e um dos mais importantes do Modernismo: Cobra Norato.<br \/>\nMurilo Mendes afirmou que &#8220;Cobra Norato \u00e9 o documento capital dessa ruptura de um poeta que, tendo viajado tanto e conhecido culturas t\u00e3o diferentes, permaneceu tipicamente brasileiro e levou a termo, em pleno s\u00e9culo XX, o que os outros descobridores do Brasil tinham tentado em v\u00e3o desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XVII. Na linguagem, Bopp, forjador de um l\u00e9xico saboroso, fundiu sabiamente vozes ind\u00edgenas e africanas, alterando a sintaxe, sem cair nos exageros e preciosismos de M\u00e1rio de Andrade\u201d.<br \/>\nDigo isto para assinalar que a montagem de Cobra Norato, pelo grupo Giramundo de Minas Gerais, encerrou neste domingo ensolarado, em Porto Alegre, o fant\u00e1stico evento \u201cSESI BONECOS DO BRASIL\u201d. E foi emocionante ver o brilho no olhar de um p\u00fablico imenso, ao c\u00e9u aberto, em um dos palcos e nos quatro ou seis tel\u00f5es espalhados pelo Parque da Reden\u00e7\u00e3o (era tanta coisa por ver, dif\u00edcil enumerar).<br \/>\nEsta amostragem, incluindo feira, exposi\u00e7\u00e3o e oficinas, constr\u00f3i assim um painel, desde Mestres Mamulengueiros, da tradi\u00e7\u00e3o mais popular, at\u00e9 grupos contempor\u00e2neos locais e de outros estados, e pelas capitais por onde passa deixa um rastro colorido de encantamentos e cantorias. Reprodu\u00e7\u00f5es e originais da manufatura dos bonequeiros, bonecos gigantes, pequenos, finos, grossos, que se espalham pela cidade cenot\u00e9cnica, e uma estrutura extremamente bem montada fazem da festa um acontecimento grandioso.<br \/>\nAinda tocado pela magia e pela beleza, ouso aqui levantar dois pontos para serem analisados pelos organizadores e colaboradores do evento, esperando dar uma pequena colabora\u00e7\u00e3o para a caravana que segue a estrada e certamente voltar\u00e1 em anos posteriores. Pensem comigo, por favor, e vejam como uma pequena tentativa de contribui\u00e7\u00e3o para o trabalho, j\u00e1 portentoso e digno de total respeito.<br \/>\nQual o significado da palavra para a realiza\u00e7\u00e3o de um espet\u00e1culo, como dimensionar a import\u00e2ncia dos autores que elaboram o texto que sair\u00e1 dos \u201cl\u00e1bios\u201d dos bonecos. Um cabloco pernambucano, ga\u00facho ou mineiro, que trabalha com base no improviso e com um arsenal de \u201ccantos\u201d simples e tradicionais n\u00e3o poderia ter o mesmo espa\u00e7o dos grupos mais ousados e requintados nas artes da manipula\u00e7\u00e3o? Qual o valor da origem autoral para o teatro de bonecos?<br \/>\nTentarei explicar melhor: n\u00e3o consegui acompanhar a apresenta\u00e7\u00e3o de dois Mestres Mamulengueiros, pois o espa\u00e7o destinado a eles era bem menor e de dif\u00edcil visualiza\u00e7\u00e3o (estavam ao n\u00edvel do ch\u00e3o e suas imagens n\u00e3o apareciam nos tel\u00f5es, e o p\u00fablico amontoava-se em p\u00e9 na frente das estantes), pensei comigo, e com a minha filha ao meu lado: &#8211; Puxa, estivessem nos palcos grandes, um p\u00fablico maior poderia beber com mais qualidade desta \u00e1gua de fonte, onde os demais grupos mergulharam e se saciaram. E por que n\u00e3o? Um pequeno detalhe, uma pequena reconfigura\u00e7\u00e3o na ordem das apresenta\u00e7\u00f5es, na sua disposi\u00e7\u00e3o, propiciaria-nos este requinte. N\u00e3o seria poss\u00edvel? Deixo a indaga\u00e7\u00e3o com a rapaziada que pegou no pesado para montar o circo!<br \/>\nSegundo, segurando o mundo, bem fundo, e este ponto bateu forte tamb\u00e9m, doeu outro tanto: &#8211; Puxa, este p\u00fablico imenso acabou de assistir a encena\u00e7\u00e3o do texto do poeta Raul Bopp, e ele \u00e9 o autor das palavras que viraram essa fantasia linda que assistimos, e n\u00e3o foi dito o seu nome, n\u00e3o foi pronunciada a sua autoria. Caramba, Bopp nasceu aqui, nesta terra, e seu poema est\u00e1 encerrando a festa. Bastaria o porta-voz do grupo, nos agradecimentos ao p\u00fablico, ou ao apresentador, citarem o seu nome (poderia ser dito at\u00e9 pela loquacidade de um fantoche ou de um marionete) e a plat\u00e9ia porto-alegrense teria conhecido quem escreveu e que ele nasceu por aqui, junto de n\u00f3s. Plaus\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 incr\u00edvel? Gente, por favor, o que estou tentando dizer \u00e9 que o que separa um descuido de uma indelicadeza \u00e9 um fio t\u00e3o fr\u00e1gil quanto o que sust\u00e9m a m\u00e3o de um boneco no ar.<br \/>\nOra, pode parecer uma gauchada, uma coisa pequena &#8211; por aqui dizemos que os bois com nomes, pelos nomes devem ser chamados. No entanto, vejam s\u00f3: eu sei, de fonte segura, e de forma n\u00e3o menos ir\u00f4nica, que o autor do espet\u00e1culo do Grupo Caixa do Elefante, que antecedeu ao do texto de Raul Bopp, tamb\u00e9m era de um poeta daqui \u2013 n\u00e3o t\u00e3o importante, e, certamente, menos significativo, mas agora com um outro pormenor: este est\u00e1 vivo, e estava l\u00e1, assistindo, aplaudindo com imensa e intensa alegria no cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nVoltem, bonecos, sempre! Com suas companhias, suas fam\u00edlias e seus criadores. Seus sonhos e seus amores. E os de seus autores.<br \/>\nUm grande e apertado brincabra\u00e7o. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mario Pirata Nascido em Vila Pinhal, Tupanciret\u00e3, no estado do Rio Grande do Sul (1898-1984), Raul Bopp lan\u00e7ou, em 1931, seu principal livro e um dos mais importantes do Modernismo: Cobra Norato. 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