{"id":11110,"date":"2012-01-11T15:28:04","date_gmt":"2012-01-11T18:28:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=11110"},"modified":"2012-01-11T15:28:04","modified_gmt":"2012-01-11T18:28:04","slug":"movimento-ocupe-pode-ser-inedito-em-termos-de-escala-e-de-carater","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/movimento-ocupe-pode-ser-inedito-em-termos-de-escala-e-de-carater\/","title":{"rendered":"Movimento \u201cOcupe\u201d pode ser in\u00e9dito em termos de escala e de car\u00e1ter"},"content":{"rendered":"<p>\u201cParece apropriado o fato de o Occupy ser um movimento sem precedentes, uma vez que esta \u00e9 uma era sem precedentes, n\u00e3o s\u00f3 neste momento, mas desde os anos 1970?, escreve Noam Chomsky, um dos mais importantes linguistas do s\u00e9culo XX, publicado pelo jornal The New York Times e reproduzido abaixo:<br \/>\nDar uma palestra sobre Howard Zinn \u00e9 uma experi\u00eancia agridoce para mim. Lamento que ele n\u00e3o esteja aqui para revigorar e fazer parte de um movimento que foi o sonho da vida dele. Ele certamente criou boa parte da base disso.<br \/>\nSe as liga\u00e7\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo estabelecidas nesses acontecimentos not\u00e1veis puderem ser mantidas pelo longo e dif\u00edcil per\u00edodo que vem pela frente \u2013 vit\u00f3rias n\u00e3o chegam rapidamente \u2013 os protestos do Occupy poder\u00e3o marcar um momento significativo na Hist\u00f3ria americana.<br \/>\nNunca vi nada como o movimento Occupy, em termos de escala e de car\u00e1ter, tanto aqui como no resto do mundo. Os postos avan\u00e7ados do movimento est\u00e3o tentando criar comunidades cooperativas que talvez possam ser exatamente a base para organiza\u00e7\u00f5es duradouras necess\u00e1rias para superar as barreiras futuras e a rea\u00e7\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 acontecendo.<br \/>\nParece apropriado o fato de o Occupy ser um movimento sem precedentes, uma vez que esta \u00e9 uma era sem precedentes, n\u00e3o s\u00f3 neste momento, mas desde os anos 1970.<br \/>\nOs anos 1970 marcaram um ponto de virada para os Estados Unidos. Desde sua origem, este pa\u00eds tem visto sua sociedade se desenvolver, nem sempre da melhor forma, mas com um avan\u00e7o geral na dire\u00e7\u00e3o da industrializa\u00e7\u00e3o e da riqueza.<br \/>\nMesmo em tempos sombrios, a expectativa era de que o progresso continuaria. S\u00f3 tenho idade para me lembrar da Grande Depress\u00e3o. Em meados dos anos 1930, embora a situa\u00e7\u00e3o objetivamente estivesse muito mais dif\u00edcil do que hoje, o esp\u00edrito era bem diferente.<br \/>\nUm movimento militante oper\u00e1rio estava se organizando \u2013 o CIO (Congresso de Organiza\u00e7\u00f5es Industriais) e outros \u2013 e trabalhadores estavam fazendo paralisa\u00e7\u00f5es, s\u00f3 a um passo de assumirem as f\u00e1bricas, gerenciando-as eles mesmos.<br \/>\nSob press\u00e3o popular, a legisla\u00e7\u00e3o do New Deal foi aprovada. A sensa\u00e7\u00e3o geral era de que os tempos dif\u00edceis ficariam para tr\u00e1s.<br \/>\nAgora existe um sentimento de desesperan\u00e7a, \u00e0s vezes de desespero. Isso \u00e9 bastante novo em nossa Hist\u00f3ria. Nos anos 1930, a classe trabalhadora conseguia prever que os empregos voltariam. Hoje, se voc\u00ea trabalha na ind\u00fastria, com o desemprego praticamente nos n\u00edveis da \u00e9poca da Depress\u00e3o, voc\u00ea sabe que esses empregos podem sumir para sempre caso as pol\u00edticas atuais persistam.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Setor financeiro<\/span><br \/>\nEssa mudan\u00e7a na perspectiva americana mudou a partir dos anos 1970. Numa invers\u00e3o, v\u00e1rios s\u00e9culos de industrializa\u00e7\u00e3o se voltaram para a desindustrializa\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que a ind\u00fastria continuou, mas em outros pa\u00edses \u2013 muito lucrativo, embora prejudicial \u00e0 for\u00e7a de trabalho.<br \/>\nA economia mudou o foco para as finan\u00e7as. Institui\u00e7\u00f5es financeiras se expandiram enormemente. Um c\u00edrculo vicioso entre finan\u00e7as e pol\u00edticas se acelerou. Cada vez mais, a riqueza foi se concentrando no setor financeiro. Os pol\u00edticos, diante do custo crescente das campanhas, foram levados a buscar cada vez mais fundo nos bolsos de financiadores ricos.<br \/>\nE os pol\u00edticos os recompensaram com pol\u00edticas favor\u00e1veis a Wall Street: desregula\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7as tribut\u00e1rias, relaxamento de regras de governan\u00e7a corporativa, que intensificaram o c\u00edrculo vicioso. O colapso era inevit\u00e1vel. Em 2008, o governo mais uma vez veio em socorro das empresas de Wall Street que supostamente eram grandes demais para falir, com dirigentes grandes demais para serem presos.<br \/>\nHoje, para um d\u00e9cimo do 1% da popula\u00e7\u00e3o que mais lucrou com essas d\u00e9cadas de gan\u00e2ncia e engana\u00e7\u00e3o, tudo est\u00e1 bem. Em 2005, o Citigroup \u2013 que, ali\u00e1s, foi resgatado repetidas vezes pelo governo \u2013 viu os ricos como uma oportunidade para crescer. O banco distribuiu um folheto para investidores que os incentivava a colocarem seu dinheiro em algo chamado \u00cdndice de Plutonomia, que identificava as a\u00e7\u00f5es das empresas que atendem ao mercado de luxo.<br \/>\n\u201cO mundo est\u00e1 se dividindo em dois blocos: a plutonomia e o resto\u201d, resumiu o Citigroup. \u201cOs Estados Unidos, o Reino Unido e o Canad\u00e1 s\u00e3o as principais plutonomias: economias impulsionadas pelo luxo\u201d. Quanto aos n\u00e3o-ricos, \u00e0s vezes eles s\u00e3o chamados de precariado: o proletariado que\u00a0 vive uma exist\u00eancia prec\u00e1ria na periferia da sociedade. A \u201cperiferia\u201d, no entanto, se tornou uma propor\u00e7\u00e3o significativa da popula\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos e outros pa\u00edses.<br \/>\nEnt\u00e3o temos a plutonomia e o precariado: o 1% e os 99%, como v\u00ea o Occupy. N\u00e3o s\u00e3o n\u00fameros exatos, mas \u00e9 a imagem certa.<br \/>\nA mudan\u00e7a hist\u00f3rica na confian\u00e7a do povo sobre o futuro \u00e9 um reflexo de tend\u00eancias que poderiam se tornar irrevers\u00edveis. Os protestos do Occupy s\u00e3o a primeira grande rea\u00e7\u00e3o popular que poderiam mudar a din\u00e2mica das coisas.<br \/>\nAtive-me a quest\u00f5es internas. Mas h\u00e1 dois acontecimentos perigosos no cen\u00e1rio internacional que ofuscam todo o resto. Pela primeira vez na Hist\u00f3ria da humanidade, existem amea\u00e7as reais \u00e0 sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana. Desde 1945 temos armas nucleares, e parece um milagre que tenhamos sobrevivido a elas. Mas as pol\u00edticas da administra\u00e7\u00e3o Obama e seus aliados est\u00e3o encorajando a escalada.<br \/>\nA outra amea\u00e7a, claro, \u00e9 a cat\u00e1strofe ambiental. Praticamente todos os pa\u00edses do mundo est\u00e3o tomando pelo menos medidas hesitantes para fazer algo a respeito. Os Estados Unidos est\u00e3o dando passos para tr\u00e1s. Um sistema de propaganda abertamente reconhecido pela comunidade empresarial declara que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o passa de um embuste dos liberais: por que dar aten\u00e7\u00e3o a esses cientistas? Se essa intransig\u00eancia continuar no pa\u00eds mais rico e poderoso do mundo, a cat\u00e1strofe n\u00e3o poder\u00e1 ser evitada.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Educa\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nAlgo precisa ser feito de uma forma disciplinada e cont\u00ednua, e r\u00e1pido. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil. Haver\u00e1 dificuldades e fracassos, \u00e9 inevit\u00e1vel. Mas a menos que o processo que est\u00e1 ocorrendo aqui e em outras partes do pa\u00eds e no resto do mundo continue a crescer e se torne uma grande for\u00e7a na sociedade e na pol\u00edtica, as chances de termos um futuro decente s\u00e3o \u00ednfimas.<br \/>\nN\u00e3o se conseguem iniciativas significativas sem uma base popular ampla e ativa. \u00c9 necess\u00e1rio sair por todo o pa\u00eds e ajudar as pessoas a entenderem do que se trata o movimento Occupy \u2013 o que elas mesmas podem fazer, e quais s\u00e3o as consequ\u00eancias de n\u00e3o se fazer nada.<br \/>\nOrganizar uma base como essa envolve educa\u00e7\u00e3o e ativismo. Educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa dizer \u00e0s pessoas no que elas devem acreditar \u2013 significa aprender com elas. Karl Marx disse, \u201cA tarefa n\u00e3o \u00e9 somente entender o mundo, e sim mud\u00e1-lo\u201d. Uma variante que se pode ter em mente \u00e9 que se voc\u00ea quer mudar o mundo, \u00e9 melhor tentar entend\u00ea-lo. Isso n\u00e3o significa assistir a uma palestra ou ler um livro, embora isso \u00e0s vezes ajude.<br \/>\nVoc\u00ea aprende ao participar. Voc\u00ea aprende com os outros. Voc\u00ea aprende com as pessoas que voc\u00ea est\u00e1 tentando organizar. Todos temos de adquirir compreens\u00e3o e experi\u00eancia antes de formular e implementar ideias.<br \/>\nO aspecto mais interessante do movimento Occupy \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o dos v\u00ednculos que est\u00e3o ocorrendo em todo lugar. Se eles puderem se manter e se expandir, o Occupy pode levar a esfor\u00e7os destinados a colocar a sociedade em uma rota mais humana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cParece apropriado o fato de o Occupy ser um movimento sem precedentes, uma vez que esta \u00e9 uma era sem precedentes, n\u00e3o s\u00f3 neste momento, mas desde os anos 1970?, escreve Noam Chomsky, um dos mais importantes linguistas do s\u00e9culo XX, publicado pelo jornal The New York Times e reproduzido abaixo: Dar uma palestra sobre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":14881,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[1352,52,1353,1354,206,1355,1356,1357,1358,1279,1359],"class_list":["post-11110","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-acampados","tag-ambiente","tag-canada","tag-depressao","tag-economia","tag-movimento-ocupe","tag-new-york-times","tag-noam-chomsky","tag-occupy","tag-ocupacao-de-wall-street","tag-reino-unido"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-2Tc","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11110","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11110"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11110\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11110"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11110"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11110"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}