{"id":11211,"date":"2012-01-20T13:53:50","date_gmt":"2012-01-20T16:53:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=11211"},"modified":"2012-01-20T13:53:50","modified_gmt":"2012-01-20T16:53:50","slug":"um-forum-dois-mundos-legitimidade-do-forum-social-mundial-e-questionada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/um-forum-dois-mundos-legitimidade-do-forum-social-mundial-e-questionada\/","title":{"rendered":"Um F\u00f3rum, dois mundos: legitimidade do F\u00f3rum Social Mundial \u00e9 questionada"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Andr\u00e9 Guerra<\/span><br \/>\nAtivistas ligados a movimentos sociais alegam que o FSM teria se transformado em um \u201cmegaevento\u201d.<br \/>\n\u201cA coisa toda me parece, cada vez mais, um megaevento, como uma Olimp\u00edada ou Copa do Mundo: um formato fechado, uma periodicidade definida e um alto investimento para acontecer. O f\u00f3rum se tornou um evento que n\u00e3o faz a pergunta necess\u00e1ria: ser\u00e1 que ainda est\u00e1 realmente servindo como espa\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o para os movimentos sociais?\u201d, critica Rodrigo Guimar\u00e3es Nunes. Ele \u00e9 PhD em filosofia pela Universidade de Londres, editor da revista internacional Turbulence e membro do Comit\u00ea Popular da Copa de Porto Alegre.<br \/>\nGuimar\u00e3es Nunes tem um hist\u00f3rico consider\u00e1vel em participa\u00e7\u00f5es no F\u00f3rum Social Mundial: participou ativamente na organiza\u00e7\u00e3o de todas as edi\u00e7\u00f5es de Porto Alegre, desempenhando v\u00e1rias fun\u00e7\u00f5es de 2001 a 2005. Em 2003 e 2005, ele foi organizador do Acampamento Intercontinental da Juventude e, em 2005, organizador do espa\u00e7o Caracol Intergalactika. Al\u00e9m disso, Guimar\u00e3es Nunes participou dos F\u00f3runs Sociais Europeus de Paris (2003), Londres (2004) e Atenas (2005). No F\u00f3rum de Londres, ele esteve envolvido no processo de organiza\u00e7\u00e3o do evento principal e dos espa\u00e7os aut\u00f4nomos.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Representatividade social<\/span><br \/>\n\u201cA partir de 2004, o movimento global entra em refluxo, e a din\u00e2mica do FSM se descola, se torna auto-referencial. Nesse meio tempo, ele passou a funcionar menos como um espa\u00e7o de articula\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o dos movimentos, e mais como uma ferramenta na m\u00e3o de seus organizadores, que passam a se posicionar como \u2018mediadores\u2019 entre os movimentos e os governos, usando o f\u00f3rum para se cacifarem politicamente\u201d, analisa Guimar\u00e3es Nunes.<br \/>\nEm outras palavras, os ativistas consideram que, justamente quando a verdadeira representatividade social do f\u00f3rum diminuiu, ele teria come\u00e7ado a se fazer passar por leg\u00edtimo \u201crepresentante\u201d das reivindica\u00e7\u00f5es por transforma\u00e7\u00f5es sociais. Um exemplo disso seria a apresenta\u00e7\u00e3o de governos progressistas eleitos como a realiza\u00e7\u00e3o das reivindica\u00e7\u00f5es sociais de dez anos atr\u00e1s. Na vis\u00e3o dos ativistas, isso seria uma forma limitada de compreender os anseios dos movimentos populares.<br \/>\n\u201cO fen\u00f4meno da \u2018falsa representa\u00e7\u00e3o\u2019, que ocorreu desde o in\u00edcio, se torna mais forte quando o movimento global recua. Da\u00ed a pr\u00e1tica, por exemplo, de abrir os f\u00f3runs com a presen\u00e7a de presidentes como Hugo Ch\u00e1vez, Evo Morales e etc. Nada contra eles, mas o problema \u00e9 que, se quisermos ter mediadores entre n\u00f3s e o governo, gostar\u00edamos de poder escolh\u00ea-los, e n\u00e3o t\u00ea-los indicados pela organiza\u00e7\u00e3o do f\u00f3rum\u201d, explica Guimar\u00e3es Nunes.<br \/>\nPara os ativistas, o espa\u00e7o deveria resgatar a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o social, colaborando para identifica\u00e7\u00e3o coletiva das din\u00e2micas necess\u00e1rias \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es sociais e ultrapassar a quest\u00e3o meramente eleitoral.<br \/>\n\u201cN\u00e3o quero diminuir em nada os muitos m\u00e9ritos desses governos progressistas, mas o FSM deveria servir para a organiza\u00e7\u00e3o e fortalecimento dos movimentos sociais entre si. Parece que ningu\u00e9m, dentro do FSM, se pergunta por que os movimentos est\u00e3o cada vez menos interessados no f\u00f3rum, por que as lutas mais novas n\u00e3o veem nele um espa\u00e7o relevante e etc.\u201d, alerta Guimar\u00e3es Nunes.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Esvaziamento popular<\/span><br \/>\nComo exemplo do que representaria um \u201cesvaziamento\u201d do f\u00f3rum, Guimar\u00e3es Nunes lembra que eventos ocorridos no mundo, em 2001, influenciaram diretamente o engajamento popular no f\u00f3rum de 2002. Entre os eventos citados, ele traz as manifesta\u00e7\u00f5es ocorridas em G\u00eanova, na It\u00e1lia, contra a reuni\u00e3o do G-8. Em fun\u00e7\u00e3o do encontro das pot\u00eancias, durante os dias 19 e 22 de julho daquele ano, o movimento antiglobaliza\u00e7\u00e3o organizou dezenas de protestos nas ruas de G\u00eanova. Os protestos foram reprimidos com grande viol\u00eancia pela pol\u00edcia local, resultando na morte do manifestante italiano de 23 anos, Carlo Giuliani, atingido pelo disparo feito por um policial contra a multid\u00e3o.<br \/>\n\u201cCompare: 2001 foi o ano da dura repress\u00e3o ao G8, do 11 de setembro e da crise da Argentina. Em 2002, Porto Alegre estava cheia de italianos, estadunidenses e argentinos, gente comum, n\u00e3o lideran\u00e7as ou intelectuais. Eram pessoas que consideravam aquele espa\u00e7o importante. Se fosse hoje, voc\u00ea teria uma pessoa da Espanha, uma da Tun\u00edsia, uma do Egito e uma dos Estados Unidos, todas convidadas pelos organizadores para contar algo sobre a Primavera \u00c1rabe, sobre o Occupy. Mudou o FSM ou mudou o mundo? Principalmente o mundo, mas o FSM n\u00e3o acompanhou\u201d, pontua Guimar\u00e3es Nunes.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Isolamento<\/span><br \/>\nOs ativistas tamb\u00e9m levantam a quest\u00e3o de o f\u00f3rum ter se tornado um evento estruturalmente dependente de grande apoio financeiro e governamental, o que inviabilizaria a fun\u00e7\u00e3o de promover o di\u00e1logo e a democratiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es onde isso fosse realmente necess\u00e1rio.<br \/>\n\u201cO f\u00f3rum tornou-se uma din\u00e2mica independente dos ritmos e das demandas dos movimentos sociais: para se viabilizar, ele necessita de um alto investimento, tornando-se dependente de financiadores. Uma coisa que ningu\u00e9m parece perceber \u00e9 que jamais ocorrer\u00e1 um FSM num local em que esteja havendo um conflito mais intenso. E isso \u00e9 \u00f3bvio. Como ele depende de altos investimentos e do apoio dos governos locais, ele s\u00f3 pode ir a lugares &#8216;amigos&#8217;. Mas uma converg\u00eancia de for\u00e7as como um f\u00f3rum mundial n\u00e3o seria muito mais importante em um lugar onde estivesse ocorrendo um conflito?\u201d, questiona Guimar\u00e3es Nunes.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Novos horizontes<\/span><br \/>\nOs ativistas pontuam, ainda, que o FSM seria um espa\u00e7o de um movimento mais amplo, criado pelos movimentos sociais a partir de seus pr\u00f3prios espa\u00e7os de converg\u00eancia. Para os ativistas, eventos dessa linha deveriam partir de \u201cquest\u00f5es mais imediatas, organizados pelos interessados mais diretos, com metodologia apropriada a seus fins e sem ter ambi\u00e7\u00f5es de ser aquilo que engloba todas as outras manifesta\u00e7\u00f5es\u201d. Al\u00e9m disso, eles enfatizam que o f\u00f3rum n\u00e3o possui a mesma relev\u00e2ncia produzida em suas primeiras edi\u00e7\u00f5es.<br \/>\n\u201cO FSM foi uma experi\u00eancia enriquecedora nessa hist\u00f3ria e ainda h\u00e1 muitas li\u00e7\u00f5es para extrair de sua trajet\u00f3ria, de seus erros e acertos. Mas, atualmente, ele vale muito mais por aquilo que foi h\u00e1 dez anos atr\u00e1s do que por qualquer relev\u00e2ncia efetiva que realmente ele tenha hoje\u201d, encerra Guimar\u00e3es Nunes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Andr\u00e9 Guerra Ativistas ligados a movimentos sociais alegam que o FSM teria se transformado em um \u201cmegaevento\u201d. \u201cA coisa toda me parece, cada vez mais, um megaevento, como uma Olimp\u00edada ou Copa do Mundo: um formato fechado, uma periodicidade definida e um alto investimento para acontecer. O f\u00f3rum se tornou um evento que n\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[1390,748,738,1334,1335,548],"class_list":["post-11211","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-comite-popular-da-copa-de-porto-alegre","tag-forum-social","tag-forum-social-mundial","tag-forum-social-tematico","tag-fst-2012","tag-movimentos-sociais"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":11211,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-2UP","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11211","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11211"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11211\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11211"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11211"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11211"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}