{"id":11602,"date":"2012-03-06T17:59:48","date_gmt":"2012-03-06T20:59:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=11602"},"modified":"2012-03-06T17:59:48","modified_gmt":"2012-03-06T20:59:48","slug":"guerrilheira-ambiental-giselda-castro-um-exemplo-de-cidadania","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/guerrilheira-ambiental-giselda-castro-um-exemplo-de-cidadania\/","title":{"rendered":"Guerrilheira ambiental Giselda Castro, um exemplo de cidadania"},"content":{"rendered":"<p>A morte de Giselda Escosteguy Castro aos 89 anos no domingo 4\/3, no final ver\u00e3o mais quente de Porto Alegre nos \u00faltimos 50 anos, sugere o quanto estava certa a mais brava das militantes ga\u00fachas ao juntar as bandeiras do feminismo \u00e0s causas do movimento ambientalista, ao lado de Augusto Carneiro e Jos\u00e9 Lutzenberger (1926-2002), fundadores da Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Prote\u00e7\u00e3o ao Ambiente Natural (Agapan), criada em 1971.<br \/>\n<figure id=\"attachment_13533\" aria-describedby=\"caption-attachment-13533\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/giselda-castro-05-300x200.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-13533 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/03\/giselda-castro-05-300x200.jpg\" alt=\"    Viagem internacional em Washington, auge da milit\u00e2ncia ambiental de Giselda Castro | Foto: Arquivo do N\u00facleo Amigos da Terra.\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-13533\" class=\"wp-caption-text\">Viagem internacional em Washington, auge da milit\u00e2ncia ambiental de Giselda Castro | Foto: Arquivo do N\u00facleo Amigos da Terra.<\/figcaption><\/figure><br \/>\n\u201cO Lutzenberger usou essas militantes como escudo para ganhar espa\u00e7o na imprensa e na sociedade \u2013 ele era um estranho no ninho\u201d, diz o jornalista Elmar Bones, que editou em 2002 o livro Pioneiros da Ecologia \u2013 Pequena Hist\u00f3ria do Movimento Ambiental no Rio Grande do Sul. Claro que havia a rec\u00edproca: as mulheres se aproveitaram da garra e da lucidez de Lutz para ampliar o alcance de suas lutas, originalmente restritas a causas como o aleitamento materno, o uso da p\u00edlula anticoncepcional, a luta contra o machismo e a favor dos direitos civis em geral.<br \/>\nPor serem mais ou menos ricas, Giselda e suas mais constantes companheiras Magda Renner e Hilda Zimmermann chegaram a ser tratadas como \u201cas madames das Tr\u00eas Figueiras\u201d, bairro da elite econ\u00f4mica de Porto Alegre, mas sua dedica\u00e7\u00e3o a causas comunit\u00e1rias extrapolou as fronteiras da aliena\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica dos anos do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d (1968\/1973).<br \/>\nSua milit\u00e2ncia adquiriu conota\u00e7\u00e3o de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas do capitalismo dito selvagem, j\u00e1 que a maioria dos empres\u00e1rios no Brasil e no mundo se comprazia na patrolagem do meio ambiente, n\u00e3o respeitando encostas, banhados, mangues nem \u00e1reas de marinha no litoral e em cursos d\u2019\u00e1gua.<br \/>\nNum momento em que poucas mulheres mais jovens se engajaram na luta armada contra a ditadura, elas usaram as palavras como armas. E segundo diversos depoimentos Giselda era a mais indignada, aquela que encabe\u00e7ava as iniciativas, numa mistura impressionante de destemor, discernimento e pragmatismo.<br \/>\n\u201cAntes burgueses conscientes do que uma elite irrespons\u00e1vel ou uma classe m\u00e9dia indiferente \u00e0 cidadania\u201d, diz Celso Marques, ex-presidente da AGAPAN. Para ele, Giselda, Magda e Hilda foram \u201cexemplos de cidadania\u201d.<br \/>\nF\u00e3 de Giselda Castro e suas companheiras de ativismo civil, Marques lembra-se de ter participado de uma caravana de ambientalistas que foi a um evento internacional em Washington em 2001, na \u00e9poca dos primeiros confrontos entre o F\u00f3rum Econ\u00f4mico de Davos e o F\u00f3rum Social Mundial de Porto Alegre.<br \/>\nAs interven\u00e7\u00f5es brasileiras foram marcantes. Enquanto Giselda Castro exigiu que o Banco Mundial deixasse de emprestar dinheiro a governos e empres\u00e1rios predadores do meio ambiente, o cacique ind\u00edgena matogrossense Ailton Krenak apelou para uma rica met\u00e1fora: segundo ele, os brancos s\u00e3o navegadores que se esfor\u00e7am para furar o fundo da pr\u00f3pria embarca\u00e7\u00e3o em que navegam \u2013 a Terra.<br \/>\nInteressante a mudan\u00e7a de foco e de imagem dessa aguerrida milit\u00e2ncia de Porto Alegre. Completamente despida de suas cores pol\u00edticas originais, a entidade criada por elas (A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Feminina Ga\u00facha, contr\u00e1ria ao vermelho do comunismo e, portanto, a favor do golpe de estado contra o governo do presidente Jo\u00e3o Goulart) converteu-se no N\u00facleo Amigos da Terra, uma institui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica com ramifica\u00e7\u00f5es internacionais.<br \/>\nA nova identidade come\u00e7ou a surgir em 1983, quando a ADFG assumiu a representa\u00e7\u00e3o no Brasil da Amigos da Terra, criada anos antes nos EUA. Nos anos 1990, criou-se na entidade uma ala jovem que praticamente asssumiu a sua dire\u00e7\u00e3o, enquanto as pioneiras reflu\u00edam para a retaguarda, de onde s\u00f3 sa\u00edam a pedido, em momentos muito especiais.<br \/>\nA ge\u00f3loga Lucia Ortiz, atual coordenadora do NAT, lembra que no F\u00f3rum Social Mundial de 2001 Giselda Castro fez uma exposi\u00e7\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es entre os governos e as entidades internacionais como o Banco Mundial. Foram manifesta\u00e7\u00f5es como essa que levaram \u00e0 ado\u00e7\u00e3o de novos par\u00e2metros na concess\u00e3o de financiamentos para projetos governamentais e empresariais.<br \/>\nCom 80 s\u00f3cios contribuintes em Porto Alegre, o NAT trabalha no momento em torno da Confer\u00eancia Rio+20, marcada para junho pr\u00f3ximo no Rio, onde ser\u00e3o discutidos os avan\u00e7os e recuos das pol\u00edticas ambientais no Brasil e no mundo. Ali Giselda e outras certamente ser\u00e3o lembradas como atletas exemplares de uma corrida de revezamento sem limites.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Precursoras<\/span><br \/>\nSem querer\/querendo, Giselda e suas companheiras foram pioneiras na defesa dos direitos dos contestadores numa \u00e9poca em que reuni\u00f5es com mais de meia d\u00fazia de pessoas eram vistas como subvers\u00e3o da ordem vigente. Como \u00e9 da natureza da maioria dos civis, elas tinham medo de gente fardada, mas se sentiam \u00e0 vontade nos ambientes de poder e mando.<br \/>\nAssim, antes de qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de rua, visitavam as autoridades para pedir prote\u00e7\u00e3o. Fizeram parte, \u00e0 sua maneira, do movimento de resist\u00eancia \u00e0 ditadura. Foram as formiguinhas precursoras dos protestos globais contra as desigualdades criadas pela voracidade do mundo empresarial.<br \/>\nTiveram a intui\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se podia ficar de bra\u00e7os cruzados enquanto o equil\u00edbrio do meio ambiente corria perigo diante da alian\u00e7a entre a voracidade empresarial e os incentivos das autoridades militares, nos idos de 1970.<br \/>\nQuando achavam que era preciso reclamar ou reivindicar, mobilizavam-se, pediam audi\u00eancia e davam seu recado. No livro Pioneiros da Ecologia, Giselda Castro conta que ela e Magda Renner foram recebidas em 1976 pelo presidente Ernesto Geisel em Bras\u00edlia. Prepararam-se para dar o recado em cinco minutos e cair fora. O assunto era planejamento familiar.<br \/>\nA conversa se estendeu por quase uma hora. Nenhuma das partes encontrava o jeito de encerrar. Nervosa, preocupada com a agenda do presidente, Giselda deixou cair a bolsa no ch\u00e3o. Agachou-se no mesmo momento em que o general fez o mesmo. O choque de cabe\u00e7as foi inevit\u00e1vel. \u201cFoi um momento memor\u00e1vel\u201d, concluiu Giselda, lembrando-se do final da audi\u00eancia.<br \/>\nGeisel: \u201cSe as senhoras n\u00e3o t\u00eam mais nada a dizer eu vou pedir licen\u00e7a\u201d.<br \/>\nGiselda: \u201cE o senhor tem alguma coisa para nos dizer?\u201d.<br \/>\nGeisel: \u201cTenho. Continuem trabalhando.\u201d<br \/>\n(Geraldo Hasse, Sul21)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte de Giselda Escosteguy Castro aos 89 anos no domingo 4\/3, no final ver\u00e3o mais quente de Porto Alegre nos \u00faltimos 50 anos, sugere o quanto estava certa a mais brava das militantes ga\u00fachas ao juntar as bandeiras do feminismo \u00e0s causas do movimento ambientalista, ao lado de Augusto Carneiro e Jos\u00e9 Lutzenberger (1926-2002), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":13535,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[266,185,1417,53,738,189,190,1418,923],"class_list":["post-11602","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-agapan","tag-ambientalismo","tag-ativismo-civil","tag-ecologia","tag-forum-social-mundial","tag-giselda-castro","tag-jose-lutzenberger","tag-nucleo-amigos-da-terra","tag-pioneiros-da-ecologia"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":11602,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-318","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11602","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11602"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11602\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11602"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11602"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11602"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}