{"id":12017,"date":"2013-07-01T10:09:23","date_gmt":"2013-07-01T13:09:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12017"},"modified":"2013-07-01T10:09:23","modified_gmt":"2013-07-01T13:09:23","slug":"redes-sociais-o-quinto-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/redes-sociais-o-quinto-poder\/","title":{"rendered":"Redes Sociais, o quinto poder"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f4nio Carlos de Medeiros<\/em><br \/>\nAs manifesta\u00e7\u00f5es que varrem o Brasil  podem afetar o Zeitgeist  (esp\u00edrito da \u00e9poca) no Brasil. O que significa, em suma, afetar a cultura e a cultura pol\u00edtica. Neste sentido, elas t\u00eam e ter\u00e3o efeitos sociol\u00f3gicos pertinentes na sociedade e na pol\u00edtica. No tempo de uma gera\u00e7\u00e3o, o Brasil vivenciou um forte movimento hist\u00f3rico de estabilidade econ\u00f4mica e de inclus\u00e3o social. Agora, esta (nova) sociedade est\u00e1 dizendo que quer mais cidadania pol\u00edtica e social e que h\u00e1 uma crise de representa\u00e7\u00e3o no sistema pol\u00edtico brasileiro.<br \/>\nDemorou. Mas chegou. Eu mesmo, assim como v\u00e1rios outros observadores da cena pol\u00edtica brasileira,  temos chamado a aten\u00e7\u00e3o, h\u00e1 aproximadamente vinte anos, para o que denominamos do dilema pol\u00edtico-institucional brasileiro: sociedade e economia que se modernizam \u201cversus\u201d sistema pol\u00edtico arcaico e tradicional, portador (o sistema pol\u00edtico) do v\u00edrus da ingovernabilidade.<br \/>\nA Constitui\u00e7\u00e3o-Cidad\u00e3 de 1988 ouviu as ruas e ampliou os direitos sociais. Mas manteve o tal do presidencialismo de coaliz\u00e3o, assentado num sistema e regime pol\u00edticos e de governo h\u00edbridos e portadores de paradoxos que alimentam crises permanentes de representatividade e governabilidade. Um sistema eleitoral arcaico, dito proporcional, mas que n\u00e3o produz proporcionalidade na representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Um sistema partid\u00e1rio olig\u00e1rquico, difuso e fragmentado. E assim por diante. Um dia, estava escrito nas estrelas, a casa ia cair. Pois \u00e9. Caiu.<br \/>\nE agora? As manifesta\u00e7\u00f5es s\u00e3o contra \u201ctudo que est\u00e1 a\u00ed\u201d e contra \u201ctodos\u201d. O desgaste maior j\u00e1 \u00e9 para a presidente da Rep\u00fablica, uma esp\u00e9cie de s\u00edmbolo em cujo colo s\u00e3o depositadas, inevitavelmente, as responsabilidades pelas mazelas do pa\u00eds. A sua popularidade despencou. Sua aprova\u00e7\u00e3o caiu de 57% para 30% em apenas 3 semanas, segundo o Datafolha. Diz a Folha de S\u00e3o Paulo: \u201c\u00e9 a maior queda de aprova\u00e7\u00e3o de um presidente aferida pelo Datafolha desde Fernando Collor em 1990\u201d (29\/06\/2013).<br \/>\nEntretanto, o desgaste \u00e9 e ser\u00e1 para todos os pol\u00edticos, de todos os partidos. E agora vai \u201cdescer\u201d para o colo de governadores e prefeitos, pois as pautas das manifesta\u00e7\u00f5es, difusas pela pr\u00f3pria natureza, cont\u00e9m cr\u00edticas e reivindica\u00e7\u00f5es que se situam nas esferas de responsabilidades de governadores e prefeitos. Isto \u00e9 inexor\u00e1vel. N\u00e3o adianta este ou aquele pol\u00edtico se aproveitar da ocasi\u00e3o, talvez movido(s) pela s\u00edndrome da natureza do escorpi\u00e3o. Vai para o colo de todos eles. E de todas as institui\u00e7\u00f5es em geral dos tr\u00eas poderes: executivo, legislativo, judici\u00e1rio. Repercutindo, \u00e9 claro, nos cen\u00e1rios da sucess\u00e3o presidencial, das sucess\u00f5es estaduais e das elei\u00e7\u00f5es gerais de 2014. Zerou o jogo?<br \/>\nTodos n\u00f3s ainda estamos tentando compreender a natureza da avalanche. J\u00e1 existem avalia\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises para todos os gostos e todos os \u00e2ngulos. O fundamental \u00e9 compreender os grafos sociais e as redes sociais. A mir\u00edade de \u201cn\u00f3s\u201d e de liga\u00e7\u00f5es que conectam os n\u00f3s.  O que leva  \u00e0 \u201chorizontaliza\u00e7\u00e3o\u201d da pol\u00edtica e da participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 um equ\u00edvoco querer procurar \u201cquem \u00e9 O L\u00cdDER\u201d. Melhor procurar os \u201cn\u00f3s\u201d, os \u201chubs\u201d, as comunidades. Tem os Anonymous,  da inspira\u00e7\u00e3o de Guy Fawkes. Tem os violentos. Tem os l\u00fadicos. Tem os saudosistas. Tem os que se movem \u00e0 margem dos partidos\/aparelhos da esquerda oficial (PSoL , PSTU, PCdoB, UNE, sindicatos). Mas tem, sobretudo , uma grande inquieta\u00e7\u00e3o difusa e crescente, misturada com indigna\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMovimenta\u00e7\u00f5es pr\u00e9-pol\u00edticas (ainda) que desmoralizam a \u00c1GORA (pra\u00e7a principal da constitui\u00e7\u00e3o da P\u00d3LIS ,a cidade-estado na Gr\u00e9cia da Antiguidade Cl\u00e1ssica) e que rejeitam os partidos e se mostram fartas do governo e da oposi\u00e7\u00e3o, da corrup\u00e7\u00e3o e da impunidade, da baixa qualidade dos servi\u00e7os p\u00fablicos, do fantasma da carestia.<br \/>\nA maioria \u00e9 de jovens. Que forjam identidade pelas redes sociais. Dispensam media\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A maior parte \u00e9 de jovens brasileiros entre 18 e 30 anos. Estima-se que 23 milh\u00f5es destes jovens (55%) pertencem \u00e0 chamada classe C, com renda mensal entre R$219 e R$1.019. De cada R$100 que recebem, destinam R$70 para ajudar nas despesas de casa. Esta gera\u00e7\u00e3o tem o dobro da escolaridade dos pais, acessam internet, s\u00e3o formadores de opini\u00e3o na fam\u00edlia, s\u00e3o menos conservadores que seus pais. Entre 2002 e 2010 os universit\u00e1rios da classe C saltaram de 6 milh\u00f5es para 9 milh\u00f5es. Ser\u00e3o 11 milh\u00f5es no ano que vem. \u00c9 p\u00fablico do Prouni.  Ocupam 67% das vagas nas universidades federais.<br \/>\nSegundo Maria Cristina Fernandes, \u201cn\u00e3o parece haver d\u00favidas de que \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que usufrui  de mais oportunidades que seus pais, mas h\u00e1 crescente dificuldade no cotidiano para usufru\u00ed-las. De t\u00e3o lotado, o metr\u00f4 de S\u00e3o Paulo, por exemplo, transporta, por quil\u00f4metro quadrado, quatro vezes mais passageiros dos que o de Nova York. Os jovens t\u00eam celulares e laptop. Empregados, alcan\u00e7am um plano de sa\u00fade,mas frequentemente o atendimento concorre em precariedade com o dos hospitais p\u00fablicos. Mais da metade dos universit\u00e1rios do pa\u00eds usa transporte p\u00fablico&#8230;.usufruem de descontos&#8230;pedem tarifa zero&#8230;.\u201d (\u201cOs estudantes entre o molotov e a utopia\u201d, VALOR, 14,15 e 16\/06\/2013).<br \/>\nNo in\u00edcio, todos os governantes e pol\u00edticos ficaram at\u00f4nitos. Quase com certeza porque a grande maioria deles (ainda) n\u00e3o compreendeu bem que a internet e as Redes Sociais s\u00e3o o Quinto Poder. E que a \u201chorizontaliza\u00e7\u00e3o\u201d da Pol\u00edtica veio para ficar. E que, principalmente, \u00e9 preciso dialogar pela rede com os internautas. N\u00e3o basta \u201cpostar\u201d. \u00c9 preciso dialogar. A presidente Dilma demorou mas finalmente se rendeu \u00e0 necessidade de dialogar pela internet. Mas a maioria dos governadores e prefeitos, por exemplo, ainda n\u00e3o compreendeu este fen\u00f4meno. Por isto, as manifesta\u00e7\u00f5es reais e virtuais v\u00e3o continuar&#8230;<br \/>\nAs reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o difusas mas algumas pautas j\u00e1 ganharam institucionalidade. PEC 37. Reforma Pol\u00edtica. Royalties para educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Outras ainda v\u00e3o ter que ganhar institucionalidade: seguran\u00e7a e pacto federativo por exemplo. \u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o em constru\u00e7\u00e3o ainda.<br \/>\nTudo isto vai ter efeito na economia. Tudo isto vai ter efeito fiscal. Demandas geram despesas p\u00fablicas. A press\u00e3o (leg\u00edtima) por \u201cagora quero mais\u201d vai certamente sobrecarregar os or\u00e7amentos dos tr\u00eas n\u00edveis de governo. Como dizem os americanos: \u201cn\u00e3o h\u00e1 almo\u00e7o gr\u00e1tis\u201d&#8230;<br \/>\nE a\u00ed reside um problema. O movimento das ruas e as press\u00f5es do mercado geraram uma crise de confian\u00e7a e uma quebra e revers\u00e3o das expectativas no Brasil. Tudo resultando em press\u00f5es inflacion\u00e1rias e em \u201covershooting\u201d nos pre\u00e7os do c\u00e2mbio e dos juros. Agora, h\u00e1 uma forte press\u00e3o e necessidade de promo\u00e7\u00e3o de forte ajuste fiscal. O mercado quer ortodoxia fiscal. E as ruas querem melhores servi\u00e7os p\u00fablicos ( \u00e9 a chamada revolta dos centavos).<br \/>\nComo alerta Claudia Safatle, em 1999 Fernando Henrique Cardoso reinventou o seu governo e em 2005, na crise do \u201cmensal\u00e3o\u201d, Lula tamb\u00e9m reinventou o seu governo. Agora, Dilma, pressionada,  \u201cpode ser levada a se reinventar. Se o problema \u00e9 de confian\u00e7a, s\u00f3 ela pode resolver\u201d (\u201cS\u00f3 Dilma salva Dilma\u201d, VALOR, 21,22 e 23\/06\/2013).<br \/>\nA \u00fanica coisa que todos n\u00f3s temos que torcer para que n\u00e3o ocorra \u00e9 um surto de autoengano nos governantes e nas elites pol\u00edticas, sociais e empresariais. A transforma\u00e7\u00e3o do Zeitgeist est\u00e1 em movimento&#8230;<br \/>\n=================================================<br \/>\n( Artigo para S\u00e9culo Di\u00e1rio \u2013 29\/06\/2013)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Carlos de Medeiros As manifesta\u00e7\u00f5es que varrem o Brasil podem afetar o Zeitgeist (esp\u00edrito da \u00e9poca) no Brasil. O que significa, em suma, afetar a cultura e a cultura pol\u00edtica. Neste sentido, elas t\u00eam e ter\u00e3o efeitos sociol\u00f3gicos pertinentes na sociedade e na pol\u00edtica. 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