{"id":12349,"date":"2013-08-06T22:55:55","date_gmt":"2013-08-07T01:55:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12349"},"modified":"2013-08-06T22:55:55","modified_gmt":"2013-08-07T01:55:55","slug":"o-ano-mais-ninja-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-ano-mais-ninja-da-historia\/","title":{"rendered":"O ano mais ninja da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Uma das maiores surpresas das recentes manifesta\u00e7\u00f5es populares foi a desenvoltura da chamada m\u00eddia ninja, formada por jovens equipados com celulares que transmitem audio e v\u00eddeo on line, gerando uma formid\u00e1vel anarquia informacional.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que se pensou e se difundiu, essa rapaziada n\u00e3o opera solta no espa\u00e7o. Ela tem comando, embora desfrute de uma autonomia rara na m\u00eddia convencional.<br \/>\nS\u00f3 isso j\u00e1 bastou para transformar esses jovens rep\u00f3rteres-manifestantes em protagonistas centrais dos acontecimentos que marcaram 2013 como o ano mais louco do s\u00e9culo XXI.<br \/>\nDois cabe\u00e7as do movimento, Pablo Capil\u00e9 e Bruno Torturra, deram um depoimento extraordin\u00e1rio ao programa Roda Viva da \u00faltima segunda-feira, dia 5. Com nomes que lembram codinomes, esses rapazes demonstraram possuir uma rara capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o, tanto que conseguiram escapar ilesos \u00e0 maior parte dos questionamentos feitos por uma bancada de experientes perguntadores.<br \/>\nSua articula\u00e7\u00e3o tem ra\u00edzes no movimento estudantil, mas eles t\u00eam algo que os diferencia da maior parte dos jovens de hoje \u2013 ou muito dependentes dos pais ou completamente descolados das bases familiares: t\u00eam consci\u00eancia social e correm riscos por isso.<br \/>\nEmbora a palavra ninja lembre automaticamente os lutadores encapuzados do Jap\u00e3o, no Brasil de 2013 NINJA \u00e9 uma sigla: Narrativas Independentes, Jornalismo e A\u00e7\u00e3o. E por a\u00ed vamos com ousadia e criatividade.<br \/>\nNada a ver, portanto, com siglas emergentes como CQC e P\u00e2nico na TV, que fazem arremedos de jornalismo temperados por um humor irresponsavelmente corrosivo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Espa\u00e7o independente<\/span><br \/>\nSegundo o depoimento de Capil\u00e9 e Torturra, a base do movimento da Ninja come\u00e7ou a se formar h\u00e1 dez anos gra\u00e7as a jovens m\u00fasicos sem vez no mundo do show business. Eles procuraram cavar espa\u00e7os independentes da superestrutura que domina a TV, as gravadoras e \u00e0 qual est\u00e1 atrelada a m\u00e1quina publicit\u00e1ria.<br \/>\nSobreviveram e cresceram, conseguindo estabelecer um circuito alternativo de festivais e shows durante os quais tamb\u00e9m rolam debates e semin\u00e1rios que discutem os problemas dos pobres e oprimidos pelo sistema. Em alguns casos, eles contam com patroc\u00ednios p\u00fablicos, que n\u00e3o representam nem 10% de sua arrecada\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHoje h\u00e1 dois mil jovens ativistas que vivem em comunidades de at\u00e9 30 pessoas que trabalham para se sustentar individual e coletivamente. O custo mensal de cada ativista \u00e9 R$ 900. Um sucesso: at\u00e9 quando? Qual sua real motiva\u00e7\u00e3o? Quais seus objetivos? Querem ser absorvidos pelo sistema? Ou desejam transform\u00e1-lo? O sistema e o governo s\u00e3o a mesma coisa?<br \/>\nSua luta lembra a \u00e9poca da ditadura militar, quando muitos jovens e alguns veteranos se uniram para editar jornais alternativos, formar cooperativas de jornalistas, grupos de teatro e cinema. Os mais radicais ca\u00edram na clandestinidade e formaram grupos armados que acabaram sendo destru\u00eddos pelo regime militar. At\u00e9 hoje se faz o rescaldo desse per\u00edodo. A\u00ed est\u00e1 a Comiss\u00e3o da Verdade lutando para reunir depoimentos, documentos e provas de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos em cadeias civis e depend\u00eancias militares.<br \/>\nSem patrim\u00f4nio nem estrutura f\u00edsica, como acontece com a m\u00eddia convencional, a m\u00eddia ninja \u00e9 engajada no ativismo dos direitos civis, pol\u00edticos e econ\u00f4micos. \u201cJornalismo p\u00f3s-industrial\u201d, falou Capil\u00e9, tentando explicar o fen\u00f4meno sem precedentes \u00e0 vista na moderna hist\u00f3ria brasileira.<br \/>\nSeu grande diferencial, al\u00e9m do baixo custo operacional e do voluntarismo, \u00e9 a habilidade no uso de ferramentas eletr\u00f4nicas que, al\u00e9m de revolucionar a comunica\u00e7\u00e3o interpessoal, est\u00e3o provocando mudan\u00e7as profundas na rela\u00e7\u00e3o da m\u00eddia tradicional com seus leitores, ouvintes e telespectadores.<br \/>\nO celular est\u00e1 para essa m\u00eddia revolucion\u00e1ria como o microfone m\u00f3vel esteve para o r\u00e1dio e a c\u00e2mera ambulante para a TV. \u00c9 l\u00f3gico concluir que, daqui a algum tempo, todas as novas ferramentas estar\u00e3o dominadas pelos trabalhadores da m\u00eddia convencional. Ser\u00e1 a banaliza\u00e7\u00e3o de uma nova tecnologia de comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA pergunta que fica \u00e9 at\u00e9 que ponto a m\u00eddia convencional ancorada na iniciativa privada ter\u00e1 interesse em operar como correia de transmiss\u00e3o de impulsos origin\u00e1rios da base da sociedade?<br \/>\nAt\u00e9 onde se sabe pelos relatos da Hist\u00f3ria, os interesses que movem a iniciativa privada est\u00e3o longe demais do interesse p\u00fablico.<br \/>\nLEMBRETE DE OCASI\u00c3O<br \/>\n\u201cNos corredores da hist\u00f3ria, o grito dos ricos ecoa mais alto que o gemido dos pobres\u201d<br \/>\nHENRY THOMAS, historiador ingl\u00eas, em A Hist\u00f3ria da Ra\u00e7a Humana, de 1938<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das maiores surpresas das recentes manifesta\u00e7\u00f5es populares foi a desenvoltura da chamada m\u00eddia ninja, formada por jovens equipados com celulares que transmitem audio e v\u00eddeo on line, gerando uma formid\u00e1vel anarquia informacional. 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