{"id":12360,"date":"2013-08-07T12:19:41","date_gmt":"2013-08-07T15:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12360"},"modified":"2013-08-07T12:19:41","modified_gmt":"2013-08-07T15:19:41","slug":"o-melhor-da-imprensa-foi-incapaz-de-entender","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-melhor-da-imprensa-foi-incapaz-de-entender\/","title":{"rendered":"&quot;O melhor da imprensa foi incapaz de entender&quot;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luis Nassif<\/strong><br \/>\nA entrevista dos representantes dos Ninja ao Roda Viva \u00e9 mais um cap\u00edtulo relevante do extraordin\u00e1rio processo de mudan\u00e7as na sociedade brasileira, impulsionado pelas redes sociais. Foi de deixar a direita indignada e a esquerda perplexa.<br \/>\nMas, principalmente, foi reveladora da verdadeira ruptura ocorrida no pa\u00eds &#8211; na pol\u00edtica, na cultura, na m\u00eddia &#8211; com o advento das redes sociais e de seus pensadores. Reveladora porque a bancada de jornalistas, bem escolhida &#8211; com o que de melhor existe na imprensa tradicional -, foi incapaz de entender e explicar o novo ou contrapor argumentos minimamente s\u00f3lidos \u00e0 vis\u00e3o de mundo da rapaziada.<br \/>\nO novo \u00e9 representado pelo trabalho em rede, colaborativo, com formas de produ\u00e7\u00e3o j\u00e1 identificadas por cl\u00e1ssicos modernos, como o espanhol Manuel Castells e pela n\u00e3o compartimentaliza\u00e7\u00e3o de ideias, grupos ou trabalho.<br \/>\nOs dois entrevistados representam esse modelo, Capil\u00e9 como representante da Casa Fora do Eixo \u2013 que trabalha com coletivos culturais &#8211; e Bruno Torturra, da M\u00eddia Ninja \u2013 que trabalha com coletivos midi\u00e1ticos. Ambos s\u00e3o portadores do que chamam de \u201cnova narrativa\u201d \u2013 uma maneira diferente de pensar, entender e explicar os fen\u00f4menos atuais.<br \/>\nFicou extremamente did\u00e1tico o contraste entre as duas formas de pensamento. No pensamento antigo tudo \u00e9 compartimentalizado \u2013 posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, partidos pol\u00edticos, formas de fazer jornalismo, modo de produ\u00e7\u00e3o. Na nova narrativa h\u00e1 a explos\u00e3o de todas as formas de compartimentaliza\u00e7\u00e3o e o est\u00edmulo a toda forma de trabalho coletivo, em rede.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Diferen\u00e7as ficaram gritantes <\/span><br \/>\nOs jornalistas tradicionais queriam a todo custo enquadr\u00e1-los em algum compartimento ideol\u00f3gico, boa forma de desqualifica-los. Chegaram a classific\u00e1-los de linha auxiliar do PT. Resposta de Capil\u00e9: estamos h\u00e1 dez anos construindo nossa nova narrativa e n\u00e3o seria agora que nos acoplar\u00edamos a organiza\u00e7\u00f5es com discurso velho.<br \/>\nResposta de Torturra: assinou o manifesto de cria\u00e7\u00e3o do partido de Marina Silva. E considerou hist\u00f3rica a posi\u00e7\u00e3o de Fernando Henrique Cardoso em defesa da libera\u00e7\u00e3o da maconha.<br \/>\nQuiseram, a todo custo, que eles identificassem UM grupo com o qual tivessem mais afinidades. E ambos explicando que, na cultura em rede, relacionam-se com todos os grupos, do partido de Marina ao Movimento do Passe Livre. O apresentador M\u00e1rio S\u00e9rgio Conti, em vez de entender essa n\u00e3o-compartimentaliza\u00e7\u00e3o como caracter\u00edstica da cultura em rede, acusou-os de estarem tirando o corpo.<br \/>\nOs jornalistas tradicionais mostraram a inviabilidade financeira atual do jornalismo e indagaram de que forma pretendia fazer jornalismo sem recursos. Resposta: o jornalismo continua preso ao modo de produ\u00e7\u00e3o industrial do come\u00e7o do s\u00e9culo 20- e j\u00e1 estamos na era da informa\u00e7\u00e3o. Proximamente o M\u00eddia Ninja pretende lan\u00e7ar um novo jornal. J\u00e1 existem 1.500 volunt\u00e1rios dispostos a colaborar.<br \/>\nOs jornalistas tradicionais acusaram-nos de defender o movimento Black Boc Brasil \u2013 os v\u00e2ndalos que promovem quebradeira \u2013 ao abrir espa\u00e7o para suas declara\u00e7\u00f5es. E Torturra deu uma aula impens\u00e1vel, partindo de um jovem para jornalistas experientes: disse n\u00e3o apoiar nenhum dos m\u00e9todos do grupo, mas seu papel, como jornalista, era entender as raz\u00f5es que os levam a proceder assim.<br \/>\nEm ambos os casos \u2013 Casa Fora do Eixo e Midia Ninja &#8211; , montaram-se estruturas colaborativas em rede para substituir a figura do intermedi\u00e1rio &#8211; no caso da m\u00fasica, as gravadoras; no caso da not\u00edcia, as empresas de m\u00eddia.<br \/>\nQuando a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica entrou em crise, afetou a cadeia produtiva como um todo, os artistas e corpos t\u00e9cnicos que montavam shows e excurs\u00f5es no rastro do lan\u00e7amento do seus CDs.<br \/>\nAs Casas Fora do Eixo surgiram para suprir essa lacuna e acabaram se espalhando por todo o pa\u00eds.<br \/>\nS\u00e3o casas onde moram colaborativamente duas dezenas de pessoas, especializadas em todos os aspectos de shows &#8211; cenografia, operadores de som etc. No total s\u00e3o 2.000 pessoas nas Casas Fora do Eixo e 30 mil artistas se beneficiando dos circuitos culturais e dos 300 festivais montados todo ano.<br \/>\nEspalhados por todo o pa\u00eds, permitiram a novos grupos excursionar e montar shows, hospedando-se em cada Casa e contando com o apoio t\u00e9cnico de seus iintegrantes.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Neg\u00f3cio convencional<\/span><br \/>\nH\u00e1 duas moedas para remunerar o trabalho interno. Uma delas, o real \u2013 obtido em shows. Outra, uma moeda interna, da qual cada Casa se credita de acordo com os trabalhos oferecidos \u00e0s demais. Uma Casa presta um servi\u00e7o para outra, Fica com um cr\u00e9dito nessa moeda, que poder\u00e1 utilizar para comprar servi\u00e7os de outra casa.<br \/>\nFoi praticamente imposs\u00edvel os entrevistadores entenderem essa l\u00f3gica \u2013 j\u00e1 bastante dissecada por Castells. S\u00f3 conseguiam enxergar o plano de neg\u00f3cio convencional.<br \/>\nComo um coletivo, a Casa do N\u00facleo se habilita a editais p\u00fablicos de apoio \u00e0 cultura, tanto na \u00e1rea federal como em S\u00e3o Paulo. S\u00e3o valores irris\u00f3rios, perto do que se produz efetivamente (e \u00e9 medido pela moeda interna). Mas bastou para que, no dia seguinte, a Folha a &#8220;acusasse&#8221; de receber financiamentos p\u00fablicos, numa flagrante distor\u00e7\u00e3o do que foi assistido por milhares de telespectadores.<br \/>\nOutro ponto complexo, denotando profunda compreens\u00e3o sociol\u00f3gica dos dois entrevistados &#8211; e enorme dificuldade de entendimento por parte dos entrevistadores-, foi o conceito de democracia midi\u00e1tica e do que eles chamam de &#8220;mosaico&#8221; das m\u00faltiplas parcialidades&#8221;, nos quais as pessoas ir\u00e3o buscar as informa\u00e7\u00f5es e interagir.<br \/>\nO que eles querem dizer \u00e9 que n\u00e3o existe a media\u00e7\u00e3o neutra da not\u00edcia &#8211; como os jornalistas teimaram em defender &#8211; nem na m\u00eddia tradicional (com a embroma\u00e7\u00e3o do &#8220;ouvir o outro lado&#8221;) nem da parte deles.<br \/>\nA\u00ed reside o conceito da nova m\u00eddia: &#8220;as pessoas ir\u00e3o buscar as informa\u00e7\u00f5es e interagir dentro dessas m\u00faltiplas parcialidades&#8221;. Ou, como explicou Capil\u00e9: &#8220;Nova credibilidade do jornalismo nao vira atraves de falsa parcialidade mas atrav\u00e9s de m\u00faltiplas posi\u00e7\u00f5es&#8221;.<br \/>\nO motor de todo processo de democratiza\u00e7\u00e3o \u00e9 a amplia\u00e7\u00e3o das vozes e dos ru\u00eddos. Mas foi imposs\u00edvel os colegas entenderem essa l\u00f3gica. Ficaram no diapas\u00e3o de M\u00e1rio S\u00e9rgio Conti, o apresentador, sobre &#8220;ouvir o outro lado&#8221;.<br \/>\n<em>Decididamente, quem tinha o eixo das interpreta\u00e7\u00f5es eram os jovens questionadores do Fora do Eixo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luis Nassif A entrevista dos representantes dos Ninja ao Roda Viva \u00e9 mais um cap\u00edtulo relevante do extraordin\u00e1rio processo de mudan\u00e7as na sociedade brasileira, impulsionado pelas redes sociais. Foi de deixar a direita indignada e a esquerda perplexa. 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