{"id":12414,"date":"2013-08-20T10:45:42","date_gmt":"2013-08-20T13:45:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12414"},"modified":"2013-08-20T10:45:42","modified_gmt":"2013-08-20T13:45:42","slug":"12414","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/12414\/","title":{"rendered":"Como a CTPM ficou ref\u00e9m dos gigantes"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto a imprensa divulga a forma\u00e7\u00e3o de cartel para o fornecimento de equipamentos e servi\u00e7os para as empresas do chamado sistema metro-ferrovi\u00e1rio do Estado de S\u00e3o Paulo, a estatal paulista CPTM saiu \u00e0s compras, com dinheiro do contribuinte.<br \/>\nNo dia 3 de julho de 2013, o Di\u00e1rio Oficial do Estado publicou o aviso de homologa\u00e7\u00e3o da concorr\u00eancia n\u00famero 8085132011. Com esta publica\u00e7\u00e3o, sabe-se que a CPTM comprar\u00e1 de dois cons\u00f3rcios internacionais 65 trens pelo valor de R$ 1,8 bilh\u00e3o.<br \/>\nEsta \u00e9 uma das maiores compras da hist\u00f3ria da empresa que nasceu da fus\u00e3o das estatais Fepasa, paulista, e CBTU, federal, em 1992, no rastro de um programa que o governo do ent\u00e3o presidente Fernando Collor chamava genericamente de enxugamento da m\u00e1quina p\u00fablica.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que ocorreu com outras empresas p\u00fablicas, a CPTM ficou sob controle do governo do Estado. \u201cN\u00e3o foi privatizada, mas quem d\u00e1 as cartas s\u00e3o empresas privadas e, pior, gigantes estrangeiras\u201d, diz Rog\u00e9rio Centofanti, psic\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o, assessor do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferrovi\u00e1rias da Zona Sorocabana, que atua nesta \u00e1rea h\u00e1 mais de 30 anos.<br \/>\n\u201c\u00c9 como se o estado fosse o dono da vaca, mas quem mama s\u00e3o empresas como a Siemens, a Alston e a CAF\u201d, acrescenta \u00c9verson Craveiro, presidente do Sindicato.<br \/>\nEssa simbiose come\u00e7ou em 1997, quando, sob administra\u00e7\u00e3o de M\u00e1rio Covas, o governo do estado aceitou a doa\u00e7\u00e3o de 48 trens da Renfe, a estatal espanhola de trens.<br \/>\nSegundo Craveiro, foi um presente de grego. \u201cOs trens tinham ar condicionado e m\u00fasica ambiente, mas, para os padr\u00f5es europeus, n\u00e3o serviam mais, iriam virar sucata\u201d, conta o presidente do Sindicato.<br \/>\nMas, como na hist\u00f3ria de Troia, os inimigos estavam ocultos. Logo veio a conta. No acordo de doa\u00e7\u00e3o, o governo do estado concordou com uma cl\u00e1usula de exclusividade: a reforma dos trens caberia \u00e0 Renfe. E havia necessidade de reforma.<br \/>\nO estado gastou, segundo Craveiro, quase o mesmo que o valor de um trem novo. E permitiu a entrada de empresas estrangeiras ao p\u00e1tio da ferrovia paulista, at\u00e9 ent\u00e3o ocupada majoritariamente por empresas nacionais, entre as quais despontava a Mafersa.<br \/>\nO pr\u00f3prio Craveiro denunciou o caso \u00e0 Justi\u00e7a, atrav\u00e9s de uma a\u00e7\u00e3o popular, que foi arquivada em raz\u00e3o da exist\u00eancia de outro processo parecido, s\u00f3 que assinada por um deputado, Caldini Crespo, hoje no DEM.<br \/>\nCaldini Crespo tinha uma a\u00e7\u00e3o contra o estado, mas estranhamente, durante anos, exerceu influ\u00eancia pol\u00edtica na CPTM e no Metr\u00f4, nomeando afilhados para a diretoria das duas empresas.<br \/>\nDepois de disputar duas vezes a prefeitura de Sorocaba, ber\u00e7o da ferrovia, Crespo saiu de cena sem conseguir se eleger, apesar das campanhas milion\u00e1rias.<br \/>\nO processo dele contra o estado tamb\u00e9m deu em nada, assim uma investiga\u00e7\u00e3o aberta na \u00e9poca pelo Tribunal de Contas do Estado, que hoje tem entre seus conselheiros Robson Marinho, ex-chefe da Casa Civil do governo Covas e denunciado pela justi\u00e7a su\u00ed\u00e7a como titular de uma conta usada para receber propinas da Alstom.<br \/>\n\u201cA CPTM se tornou um balc\u00e3o de neg\u00f3cios do governo tucano\u201d, diz Centofanti, antes de entrar em detalhas da compra mais recente, a de R$ 1,8 bilh\u00e3o. No edital, a CPTM avaliou em R$ 23,7 milh\u00f5es o pre\u00e7o de um trem, mas a proposta mais barata foi de R$ 26,2 milh\u00f5es, oferecido pelo cons\u00f3rcio IESA\/Hyundai.<br \/>\nEra um pre\u00e7o superior ao de refer\u00eancia, mas o menor entre tr\u00eas propostas apresentadas. Mesmo assim, o cons\u00f3rcio vendeu apenas trinta dos 65 trens encomendados pela CPTM.<br \/>\nA maior parte \u2013 35 trens \u2014 foi para o cons\u00f3rcio da espanhola CAF com a francesa Alstom, que cobrar\u00e1 R$ 28,9 milh\u00f5es por trem.<br \/>\nSe n\u00e3o tivesse dividido a licita\u00e7\u00e3o em dois lotes, a CPTM \u2014  com dinheiro do contribuinte paulista, repita-se \u2013, compraria todos os trens por cerca de R$ 1,5 bilh\u00e3o.<br \/>\nMas, em raz\u00e3o das estranhas regras do edital, a conta sair\u00e1 por R$ 1,8 bilh\u00e3o. Para onde vai essa diferen\u00e7a de R$ 300 milh\u00f5es?<br \/>\nA IESA\/Hyundai poderia ter ficado com toda a encomenda, j\u00e1 que participou da licita\u00e7\u00e3o nos dois lotes. Curioso \u00e9 que em um, o de trinta trens, ela apresentou um pre\u00e7o mais baixo, e ficou em primeiro lugar. No outro, o de 35 trens, ela apresentou um pre\u00e7o mais alto do que a CAF\/Alstom, ficando em segundo lugar.<br \/>\n\u00c9 um ind\u00edcio de que houve acerto entre as empresas, mas a CPTM, comandada pelo governo do Estado de S\u00e3o Paulo, em vez de suspender a compra por suspeita de cartel, homologou a licita\u00e7\u00e3o assim mesmo.<br \/>\nEscandaloso tamb\u00e9m \u00e9 que, h\u00e1 tr\u00eas anos, a CPTM, com dinheiro do contribuinte paulista, comprou nove trens da Alstom por um pre\u00e7o ainda mais alto: R$ 31,6 milh\u00f5es cada um.<br \/>\nSegundo o sindicato, esses trens ainda n\u00e3o rodaram, por n\u00e3o estarem adaptados para a obsoleta linha f\u00e9rrea da Grande S\u00e3o Paulo. Est\u00e3o no p\u00e1tio da esta\u00e7\u00e3o Presidente Altino, onde, at\u00e9 alguns meses atr\u00e1s, o sindicato ocupava um pequeno pr\u00e9dio. Foi despejado de l\u00e1 depois das den\u00fancias feitas por Craveiro.<br \/>\nEntre outras coisas, ele dizia que os trens estrangeiros que o estado compra n\u00e3o servem para as linhas da CPTM. \u201c\u00c9 necess\u00e1rio fazer obras de infraestrutura. Quando colocamos esses trens para rodar, \u00e9 como se coloc\u00e1ssemos um motor de Ferrari num Fusquinha. D\u00e1 pau. Esta \u00e9 a raz\u00e3o de tantas panes e acidentes no sistema\u201d, diz Craveiro.<br \/>\nNa \u00faltima sess\u00e3o da CPI do Transporte realizada na C\u00e2mara Municipal de S\u00e3o Paulo, uma burocrata do governo do Estado, Rosimeire Salgado, coordenadora de Transportes Coletivos da Secretaria de Transportes Metropolitanos, em cujo guarda-chuva se abriga a CPTM, admitiu que a empresa precisa de maior capacidade de energia para fazer rodar os trens adequadamente.<br \/>\nPara isso, \u00e9 necess\u00e1rio fazer obras, mas s\u00e3o obras civis e de engenharia, atividades fora do cat\u00e1logo das gigantes Alstom, Siemens e CAF.<br \/>\nRosimeire atribuiu \u00e0 falta de recursos o fato de n\u00e3o terem sido realizadas essas obras de adapta\u00e7\u00e3o das linhas da CPTM \u2013 esta \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais os trens aqui sacodem mais do que pipoca na panela, enquanto na Europa deslizam como patins sobre o gelo.<br \/>\n\u201cS\u00e3o R$ 66 milh\u00f5es para obras de manuten\u00e7\u00e3o\u201d, disse Rosimeire. Pode ser pouco em rela\u00e7\u00e3o ao montante que se gasta para trazer os trens estrangeiros, mas \u00e9 o suficiente para fazer a alegria de empresas que andam entre as penas das gigantes.<br \/>\n\u00c9 o caso da Tejofran, que at\u00e9 a chegada do PSDB ao governo do estado s\u00f3 fazia servi\u00e7o de faxina em pr\u00e9dios p\u00fablicos. Hoje, um de seus neg\u00f3cios mais pr\u00f3speros \u00e9 o de manuten\u00e7\u00e3o de trens. Trens da CPTM.<br \/>\nA Tejofran pertence a Ant\u00f4nio Dias Felipe, o Portugu\u00eas. Quando era governador, Covas ficava bravo quando os jornalistas lhe perguntavam sobre a sua amizade com o Portugu\u00eas e a relacionava aos contratos da Tejofran no governo.<br \/>\nEram contratos em que a Tejofran entrava com faxineira e vassoura, e o estado com o dinheiro. Al\u00e9m da limpeza, a Tejofran agora, depois de quase vinte anos de governo do PSDB, empunha alicate e chave de fenda, para servi\u00e7os mais complexos das ferrovias e, portanto, mais caros. Mas continua sendo dif\u00edcil questionar o governo do Estado sobre a Tejofran.<br \/>\nNa reuni\u00e3o da CPI do Transporte da C\u00e2mara Municipal, o filho de M\u00e1rio Covas, o vereador Zuzinha, acompanhou tudo. Ele n\u00e3o \u00e9 membro da comiss\u00e3o, mas se sentou numa cadeira perto e olhava para os vereadores encarregados de questionar os burocratas do Estado.<br \/>\nA Tejofran n\u00e3o foi citada uma \u00fanica vez. Coincid\u00eancia ou n\u00e3o, Zuzinha \u00e9 afilhado do Portugu\u00eas. Foi na Tejofran que ele come\u00e7ou sua carreira profissional, formalmente contratado como advogado. Portugu\u00eas foi padrinho de seu casamento.<br \/>\n\u201cEst\u00e1 na hora de fazer uma faxina nessas rela\u00e7\u00f5es prom\u00edscuas. Algu\u00e9m ganha com isso, e n\u00e3o \u00e9 o passageiro, que paga caro por um servi\u00e7o ruim\u201d, diz Centofanti, o Sancho Pan\u00e7a da luta pela moraliza\u00e7\u00e3o da estatal.<br \/>\nA \u00faltima da cruzada dele e de Craveiro, o Dom Quixote: juntaram outros sindicatos para formar a Associa\u00e7\u00e3o dos Usu\u00e1rios de Trens de S\u00e3o Paulo. Vem mais den\u00fancia por a\u00ed. Mas quem se importa?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto a imprensa divulga a forma\u00e7\u00e3o de cartel para o fornecimento de equipamentos e servi\u00e7os para as empresas do chamado sistema metro-ferrovi\u00e1rio do Estado de S\u00e3o Paulo, a estatal paulista CPTM saiu \u00e0s compras, com dinheiro do contribuinte. 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