{"id":12466,"date":"2013-09-02T09:23:46","date_gmt":"2013-09-02T12:23:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12466"},"modified":"2013-09-02T09:23:46","modified_gmt":"2013-09-02T12:23:46","slug":"o-globo-reconhece-apoio-ao-golpe-de-64-foi-um-erro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-globo-reconhece-apoio-ao-golpe-de-64-foi-um-erro\/","title":{"rendered":"O Globo reconhece: apoio ao golpe foi um erro"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;A consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 de hoje, vem de discuss\u00f5es internas de anos, em que as Organiza\u00e7\u00f5es Globo conclu\u00edram que, \u00e0 luz da Hist\u00f3ria, o apoio se constituiu um equ\u00edvoco&#8221;<br \/>\nRIO &#8211; Desde as manifesta\u00e7\u00f5es de junho, um coro voltou \u00e0s ruas: \u201cA verdade \u00e9 dura, a Globo apoiou a ditadura\u201d. De fato, trata-se de uma verdade, e, tamb\u00e9m de fato, de uma verdade dura. J\u00e1 h\u00e1 muitos anos, em discuss\u00f5es internas, as Organiza\u00e7\u00f5es Globo reconhecem que, \u00e0 luz da Hist\u00f3ria, esse apoio foi um erro.<br \/>\nH\u00e1 alguns meses, quando o Mem\u00f3ria estava sendo estruturado, decidiu-se que ele seria uma excelente oportunidade para tornar p\u00fablica essa avalia\u00e7\u00e3o interna. E um texto com o reconhecimento desse erro foi escrito para ser publicado quando o site ficasse pronto.<br \/>\nN\u00e3o lamentamos que essa publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha vindo antes da onda de manifesta\u00e7\u00f5es, como teria sido poss\u00edvel. Porque as ruas nos deram ainda mais certeza de que a avalia\u00e7\u00e3o que se fazia internamente era correta e que o reconhecimento do erro, necess\u00e1rio.<br \/>\nGovernos e institui\u00e7\u00f5es t\u00eam, de alguma forma, que responder ao clamor das ruas.<br \/>\nDe nossa parte, \u00e9 o que fazemos agora, reafirmando nosso incondicional e perene apego aos valores democr\u00e1ticos, ao reproduzir nesta p\u00e1gina a \u00edntegra do texto sobre o tema que est\u00e1 no Mem\u00f3ria, a partir de hoje no ar:<br \/>\n1964<br \/>\n\u201cDiante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, \u00e9 frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que O GLOBO apoiou editorialmente o golpe militar de 1964.<br \/>\nA lembran\u00e7a \u00e9 sempre um inc\u00f4modo para o jornal, mas n\u00e3o h\u00e1 como refut\u00e1-la. \u00c9 Hist\u00f3ria. O GLOBO, de fato, \u00e0 \u00e9poca, concordou com a interven\u00e7\u00e3o dos militares, ao lado de outros grandes jornais, como \u201cO Estado de S.Paulo\u201d, \u201cFolha de S. Paulo\u201d, \u201cJornal do Brasil\u201d e o \u201cCorreio da Manh\u00e3\u201d, para citar apenas alguns. Fez o mesmo parcela importante da popula\u00e7\u00e3o, um apoio expresso em manifesta\u00e7\u00f5es e passeatas organizadas em Rio, S\u00e3o Paulo e outras capitais.<br \/>\nNaqueles instantes, justificavam a interven\u00e7\u00e3o dos militares pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente Jo\u00e3o Goulart, com amplo apoio de sindicatos \u2014 Jango era criticado por tentar instalar uma \u201crep\u00fablica sindical\u201d \u2014 e de alguns segmentos das For\u00e7as Armadas.<br \/>\nNa noite de 31 de mar\u00e7o de 1964, por sinal, O GLOBO foi invadido por fuzileiros navais comandados pelo Almirante C\u00e2ndido Arag\u00e3o, do \u201cdispositivo militar\u201d de Jango, como se dizia na \u00e9poca. O jornal n\u00e3o p\u00f4de circular em 1\u00ba de abril. Sairia no dia seguinte, 2, quinta-feira, com o editorial impedido de ser impresso pelo almirante, \u201cA decis\u00e3o da P\u00e1tria\u201d. Na primeira p\u00e1gina, um novo editorial: \u201cRessurge a Democracia\u201d.<br \/>\nA divis\u00e3o ideol\u00f3gica do mundo na Guerra Fria, entre Leste e Oeste, comunistas e capitalistas, se reproduzia, em maior ou menor medida, em cada pa\u00eds. No Brasil, ela era agu\u00e7ada e aprofundada pela radicaliza\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart, iniciada t\u00e3o logo conseguiu, em janeiro de 1963, por meio de plebiscito, revogar o parlamentarismo, a sa\u00edda negociada para que ele, vice, pudesse assumir na ren\u00fancia do presidente J\u00e2nio Quadros.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Militares exigem condi\u00e7\u00f5es<\/span><br \/>\nObteve, ent\u00e3o, os poderes plenos do presidencialismo. Transferir parcela substancial do poder do Executivo ao Congresso havia sido condi\u00e7\u00e3o exigida pelos militares para a posse de Jango, um dos herdeiros do trabalhismo varguista. Naquele tempo, votava-se no vice-presidente separadamente. Da\u00ed o resultado de uma combina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica contradit\u00f3ria e fonte permanente de tens\u00f5es: o presidente da UDN e o vice do PTB. A ren\u00fancia de J\u00e2nio acendeu o rastilho da crise institucional.<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da \u00e9poca se radicalizou, principalmente quando Jango e os militares mais pr\u00f3ximos a ele amea\u00e7avam atropelar Congresso e Justi\u00e7a para fazer reformas de \u201cbase\u201d \u201cna lei ou na marra\u201d. Os quart\u00e9is ficaram intoxicados com a luta pol\u00edtica, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita. Veio, ent\u00e3o, o movimento dos sargentos, liderado por marinheiros \u2014 Cabo Ancelmo \u00e0 frente \u2014, a hierarquia militar come\u00e7ou a ser quebrada e o oficialato reagiu.<br \/>\nNaquele contexto, o golpe, chamado de \u201cRevolu\u00e7\u00e3o\u201d, termo adotado pelo GLOBO durante muito tempo, era visto pelo jornal como a \u00fanica alternativa para manter no Brasil uma democracia. Os militares prometiam uma interven\u00e7\u00e3o passageira, cir\u00fargica. Na justificativa das For\u00e7as Armadas para a sua interven\u00e7\u00e3o, ultrapassado o perigo de um golpe \u00e0 esquerda, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1966.<br \/>\nO desenrolar da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 conhecido. N\u00e3o houve as elei\u00e7\u00f5es. Os militares ficaram no poder 21 anos, at\u00e9 sa\u00edrem em 1985, com a posse de Jos\u00e9 Sarney, vice do presidente Tancredo Neves, eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de receber a faixa.<br \/>\nNo ano em que o movimento dos militares completou duas d\u00e9cadas, em 1984, Roberto Marinho publicou editorial assinado na primeira p\u00e1gina. Trata-se de um documento revelador. Nele, ressaltava a atitude de Geisel, em 13 de outubro de 1978, que extinguiu todos os atos institucionais, o principal deles o AI5, restabeleceu o habeas corpus e a independ\u00eancia da magistratura e revogou o Decreto-Lei 477, base das interven\u00e7\u00f5es do regime no meio universit\u00e1rio.<br \/>\nDestacava tamb\u00e9m os avan\u00e7os econ\u00f4micos obtidos naqueles vinte anos, mas, ao justificar sua ades\u00e3o aos militares em 1964, deixava clara a sua cren\u00e7a de que a interven\u00e7\u00e3o fora imprescind\u00edvel para a manuten\u00e7\u00e3o da democracia e, depois, para conter a irrup\u00e7\u00e3o da guerrilha urbana. E, ainda, revelava que a rela\u00e7\u00e3o de apoio editorial ao regime, embora duradoura, n\u00e3o fora todo o tempo tranquila.<br \/>\nNas palavras dele: \u201cTemos permanecido fi\u00e9is aos seus objetivos [da revolu\u00e7\u00e3o], embora conflitando em v\u00e1rias oportunidades com aqueles que pretenderam assumir a autoria do processo revolucion\u00e1rio, esquecendo-se de que os acontecimentos se iniciaram, como reconheceu o marechal Costa e Silva, \u2018por exig\u00eancia inelut\u00e1vel do povo brasileiro\u2019. Sem povo, n\u00e3o haveria revolu\u00e7\u00e3o, mas apenas um \u2018pronunciamento\u2019 ou \u2018golpe\u2019, com o qual n\u00e3o estar\u00edamos solid\u00e1rios.\u201d<br \/>\nN\u00e3o eram palavras vazias. Em todas as encruzilhadas institucionais por que passou o pa\u00eds no per\u00edodo em que esteve \u00e0 frente do jornal, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Cobrou de Get\u00falio uma constituinte que institucionalizasse a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, foi contra o Estado Novo, apoiou com vigor a Constitui\u00e7\u00e3o de 1946 e defendeu a posse de Juscelino Kubistchek em 1955, quando esta fora questionada por setores civis e militares.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Cuide dos seus comunistas<\/span><br \/>\nDurante a ditadura de 1964, sempre se posicionou com firmeza contra a persegui\u00e7\u00e3o a jornalistas de esquerda: como \u00e9 not\u00f3rio, fez quest\u00e3o de abrigar muitos deles na reda\u00e7\u00e3o do GLOBO. S\u00e3o muitos e conhecidos os depoimentos que d\u00e3o conta de que ele fazia quest\u00e3o de acompanhar funcion\u00e1rios de O GLOBO chamados a depor: acompanhava-os pessoalmente para evitar que desaparecessem. Instado algumas vezes a dar a lista dos \u201ccomunistas\u201d que trabalhavam no jornal, sempre se negou, de maneira desafiadora.<br \/>\nFicou famosa a sua frase ao general Juracy Magalh\u00e3es, ministro da Justi\u00e7a do presidente Castello Branco: \u201cCuide de seus comunistas, que eu cuido dos meus\u201d. Nos vinte anos durante os quais a ditadura perdurou, O GLOBO, nos per\u00edodos agudos de crise, mesmo sem retirar o apoio aos militares, sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo poss\u00edvel, da normalidade democr\u00e1tica.<br \/>\nContextos hist\u00f3ricos s\u00e3o necess\u00e1rios na an\u00e1lise do posicionamento de pessoas e institui\u00e7\u00f5es, mais ainda em rupturas institucionais. A Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas uma descri\u00e7\u00e3o de fatos, que se sucedem uns aos outros. Ela \u00e9 o mais poderoso instrumento de que o homem disp\u00f5e para seguir com seguran\u00e7a rumo ao futuro: aprende-se com os erros cometidos e se enriquece ao reconhec\u00ea-los.<br \/>\nOs homens e as institui\u00e7\u00f5es que viveram 1964 s\u00e3o, h\u00e1 muito, Hist\u00f3ria, e devem ser entendidos nessa perspectiva. O GLOBO n\u00e3o tem d\u00favidas de que o apoio a 1964 pareceu aos que dirigiam o jornal e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do pa\u00eds.<br \/>\n\u00c0 luz da Hist\u00f3ria, contudo, n\u00e3o h\u00e1 por que n\u00e3o reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decis\u00f5es editoriais do per\u00edodo que decorreram desse desacerto original. A democracia \u00e9 um valor absoluto. E, quando em risco, ela s\u00f3 pode ser salva por si mesma.\u201d<br \/>\n<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/pais\/apoio-editorial-ao-golpe-de-64-foi-um-erro-9771604#ixzz2djl6hl44\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leia mais sobre esse assunto em O Globo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A consci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 de hoje, vem de discuss\u00f5es internas de anos, em que as Organiza\u00e7\u00f5es Globo conclu\u00edram que, \u00e0 luz da Hist\u00f3ria, o apoio se constituiu um equ\u00edvoco&#8221; RIO &#8211; Desde as manifesta\u00e7\u00f5es de junho, um coro voltou \u00e0s ruas: \u201cA verdade \u00e9 dura, a Globo apoiou a ditadura\u201d. 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