{"id":12510,"date":"2013-09-12T01:19:42","date_gmt":"2013-09-12T04:19:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12510"},"modified":"2013-09-12T01:19:42","modified_gmt":"2013-09-12T04:19:42","slug":"o-beco-tem-saida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-beco-tem-saida\/","title":{"rendered":"O beco tem sa\u00edda?"},"content":{"rendered":"<p>Beco por defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem sa\u00edda. Ent\u00e3o o que far\u00e1 o Homem para sair do beco em que se meteu a bordo do capitalismo?<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o importa se a economia cresceu, se a infla\u00e7\u00e3o subiu ou o emprego est\u00e1 batendo pino. O navio encalhou com sete bilh\u00f5es de pessoas a bordo. O que fazer?<br \/>\nComo o capitalismo se reinventa a cada crise, \u00e9 prov\u00e1vel que seus batedores aconselhem a demoli\u00e7\u00e3o do beco metaf\u00f3rico em que se v\u00ea o pobrerio.<br \/>\nNo lugar do buraco (ou da favela), eles construir\u00e3o um pr\u00e9dio de apartamentos, um conjunto de lojas ou quem sabe um shoppinzinho maneiro.<br \/>\nPronto: os investidores e seus aliados se refestelar\u00e3o em suas cadeiras estofadas enquanto o povo ser\u00e1 convidado a procurar sua turma na PQP.<br \/>\n\u00c9 exatamente assim que pensam os adeptos da tese de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 almo\u00e7o gr\u00e1tis\u201d, como disse o economista Milton Friedman, um dos pilares do neoliberalismo.<br \/>\nOcorre que n\u00e3o h\u00e1 recursos naturais suficientes para manter o atual modelo competitivo de produ\u00e7\u00e3o. \u201cThe game is over\u201d, o jogo acabou.<br \/>\n\u00c9 preciso reconhecer que a \u00eanfase no crescimento acelerado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de se sustentar a longo prazo. O foco, como se diz hoje em dia, tem de se voltar para a coopera\u00e7\u00e3o, a solidariedade.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Distribui\u00e7\u00e3o da riqueza<\/span><br \/>\nA \u00e2nsia de acumula\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se justifica diante da abund\u00e2ncia de produtos e mercadorias dispon\u00edveis no mundo globalizado. O que falta \u00e9 distribuir melhor os frutos do trabalho e da riqueza. Alguns grupos e governos j\u00e1 trabalham dentro dessa perspectiva, mas s\u00e3o minoria.<br \/>\nSe nos condoemos ao ver animais abandonados, maltratados ou v\u00edtimas de desastres ecol\u00f3gicos (por exemplo, as aves marinhas agonizando nas manchas de petr\u00f3leo), por que n\u00e3o tomamos a iniciativa de estender a m\u00e3o aos nossos semelhantes, desprovidos de recursos ou de sorte?<br \/>\n\u00c9 o que anda se perguntando pelo mundo afora muita gente boa, uns crist\u00e3os, outros marxistas.<br \/>\nNeste momento, faz enorme sucesso na Internet a entrevista em que o ge\u00f3grafo brit\u00e2nico David Harvey desafia os insatisfeitos do mundo a apontarem alternativas ao capitalismo. A entrevista a Ronan Burtenshaw e Aubrey Robinson foi publicada originalmente no site Red Pepper em 22-08-2013.<br \/>\nHarvey tem 77 anos e leciona em Nova York, onde foi espectador privilegiado do colapso, cinco anos atr\u00e1s, do banco Lehman Brothers, a maior fal\u00eancia da hist\u00f3ria dos Estados Unidos.<br \/>\nA quebra do Lehman Brothers n\u00e3o foi apenas um trope\u00e7o do neoliberalismo, mas o mais recente sinal de que o capitalismo n\u00e3o tem cacife para levar bem-estar a todos os habitantes do planeta.<br \/>\nMas de que adianta ficar apontando os defeitos e contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo se n\u00e3o temos algo novo a propor?<br \/>\nHarvey est\u00e1 escrevendo um livro chamado As 17 Contradi\u00e7\u00f5es do Capitalismo. Inspira-se num dos grandes ditados de Karl Marx, segundo o qual toda crise \u00e9 sempre o resultado das contradi\u00e7\u00f5es subjacentes. Da\u00ed que o foco de Harvey n\u00e3o vai para os resultados da crise de 2008, mas para suas contradi\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar pela distor\u00e7\u00e3o entre o uso e o valor de uma mercadoria como a casa.<br \/>\nDiz o ge\u00f3grafo: \u201cAntigamente, as casas eram constru\u00eddas pelas pr\u00f3prias pessoas, e n\u00e3o havia absolutamente nenhum valor de troca. A partir do s\u00e9culo XVIII, teve in\u00edcio a constru\u00e7\u00e3o de casas para fins especulativos. Assim, as casas se tornaram valores de troca para os consumidores providos de poupan\u00e7a\u201d.<br \/>\nEm consequ\u00eancia, metade da humanidade est\u00e1 exclu\u00edda do direito natural \u00e0 pr\u00f3pria habita\u00e7\u00e3o. Para ter um teto, as pessoas pagam aluguel, vivem amontoadas em favelas ou praticam invas\u00f5es. Para se defender os detentores de im\u00f3veis se fecham atr\u00e1s de muros, grades e condom\u00ednios fechados.<br \/>\nFoi assim que a habita\u00e7\u00e3o se tornou uma forma de ganho especulativo. O valor de troca assumiu o comando. O boom especulativo dos capitais flutuantes gerou uma bolha imobili\u00e1ria nos Estados Unidos no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. O valor de uso do im\u00f3vel foi destru\u00eddo pelo valor de troca. Uma distor\u00e7\u00e3o brutal que todo mundo v\u00ea como normal, pois nascemos debaixo desse sistema.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Produ\u00e7\u00e3o e demanda <\/span><br \/>\nE aqui Harvey toca no ponto crucial: o problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 com a habita\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com coisas como a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade. \u201cEm muitos casos\u201d, diz Harvey, \u201cn\u00f3s ativamos a din\u00e2mica do valor de troca na hip\u00f3tese de que ele vai fornecer o valor de uso mas, frequentemente, o que ele faz \u00e9 estragar os valores de uso, e as pessoas acabam n\u00e3o recebendo bons cuidados de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o ou habita\u00e7\u00e3o.\u201d<br \/>\nUma das grandes quest\u00f5es abordadas por Harvey \u00e9 o conflito entre produ\u00e7\u00e3o e demanda de mercado. Como o capital precisa produzir de forma lucrativa, isso significa suprimir trabalho, isto \u00e9, reduzir os custos salariais.<br \/>\nAssim, a produ\u00e7\u00e3o gera lucros elevados, mas quem vai comprar o produto se os trabalhadores perderam poder aquisitivo?<br \/>\nNos anos 1990, como o achatamento salarial se tornou invi\u00e1vel diante do poder dos sindicatos de trabalhadores e da manuten\u00e7\u00e3o dos direitos trabalhistas (s\u00f3 em parte desmanchados pelo neoliberalismo), a economia global se manteve em alta gra\u00e7as ao aumento do endividamento das pessoas.<br \/>\n\u201cVoc\u00ea come\u00e7a a criar uma economia do cart\u00e3o de cr\u00e9dito e uma economia financiada em altas hipotecas na habita\u00e7\u00e3o\u201d, diz o ge\u00f3grafo. Ou seja, as d\u00edvidas encobriram o fato de que n\u00e3o havia demanda real.<br \/>\nNo fim, isso explodiu em 2008. Para Harvey, \u00e9 preciso recuperar o valor de uso, organizando a produ\u00e7\u00e3o de forma a atender aos direitos e necessidades das pessoas \u2013 e n\u00e3o o contr\u00e1rio, as pessoas sendo obrigadas a atender \u00e0s necessidades das empresas. Nas palavras dele:<br \/>\n\u201cO que est\u00e1 acontecendo exatamente agora \u00e9 que n\u00f3s produzimos coisas e depois tentamos persuadir os consumidores a consumir tudo o que produzimos, independentemente se eles realmente querem ou precisam disso. Enquanto que dever\u00edamos descobrir quais s\u00e3o as vontades e os desejos b\u00e1sicos das pessoas e, ent\u00e3o, mobilizar o sistema de produ\u00e7\u00e3o para produzir isso\u201d.<br \/>\nEst\u00e1 dif\u00edcil mudar o jogo porque, de acordo com estudos recentes de pa\u00edses da antiga Europa, uma parcela poderosa dos detentores do capital est\u00e1 se saindo muito bem dentro da crise atual e quer continuar ganhando. \u201cA popula\u00e7\u00e3o como um todo est\u00e1 sofrendo, o capitalismo como um todo n\u00e3o est\u00e1 saud\u00e1vel, mas a classe capitalista \u2013 particularmente uma oligarquia dentro dela \u2013 tem se sa\u00eddo extremamente bem\u201d, diz Harvey.<br \/>\nPara o entrevistado, a esquerda se tornou t\u00e3o c\u00famplice do neoliberalismo que voc\u00ea realmente n\u00e3o pode distinguir os seus partidos pol\u00edticos dos da direita, exceto em quest\u00f5es nacionais ou sociais. Na economia pol\u00edtica, n\u00e3o h\u00e1 muita diferen\u00e7a. Mas \u00e9 a\u00ed que se deve procurar resolver as contradi\u00e7\u00f5es, como no caso dos valores de uso e de troca de bens essenciais como a casa, o ensino, a saude.<br \/>\nHarvey chama a aten\u00e7\u00e3o para a apropria\u00e7\u00e3o da moeda como elemento de poder de uns sobre os outros. As pessoas mobilizam as suas vidas ao redor da busca do dinheiro. \u201cEnt\u00e3o, n\u00f3s temos que mudar o sistema monet\u00e1rio, seja cobrando imposto de quaisquer excedentes que as pessoas estejam come\u00e7ando a obter, seja chegando a um sistema monet\u00e1rio que se dissolva e n\u00e3o possa ser armazenado, como as milhas a\u00e9reas\u201d, diz ele.<br \/>\nPara fazer isso, \u00e9 preciso superar a dicotomia entre propriedade privada e Estado, de forma a se chegar a um regime de propriedade comum, baseado mais na solidariedade do que na competi\u00e7\u00e3o. Na previs\u00e3o otimista de David Harvey, as pessoas v\u00e3o deixar de correr atr\u00e1s do dinheiro ou da acumula\u00e7\u00e3o desvairada se entenderem que sempre ter\u00e3o uma renda b\u00e1sica para sobreviver. (Geraldo Hasse)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Beco por defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem sa\u00edda. Ent\u00e3o o que far\u00e1 o Homem para sair do beco em que se meteu a bordo do capitalismo? J\u00e1 n\u00e3o importa se a economia cresceu, se a infla\u00e7\u00e3o subiu ou o emprego est\u00e1 batendo pino. O navio encalhou com sete bilh\u00f5es de pessoas a bordo. O que fazer? 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