{"id":12636,"date":"2013-10-17T11:14:07","date_gmt":"2013-10-17T14:14:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12636"},"modified":"2013-10-17T11:14:07","modified_gmt":"2013-10-17T14:14:07","slug":"o-pampa-como-metafora-do-deserto-arabe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-pampa-como-metafora-do-deserto-arabe\/","title":{"rendered":"O Pampa como met\u00e1fora do deserto \u00e1rabe"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cGauchos e Bedu\u00ednos\u201d, ano 65<br \/>\n<\/strong><br \/>\nBem disse Erico Verissimo: foi muito original e ousado o escritor Manoelito de Ornellas ao desenvolver seu famoso ensaio sobre as semelhan\u00e7as entre os habitantes do pampa e dos desertos \u00e1rabes. T\u00e3o logo caiu na pra\u00e7a de Porto Alegre, seu livro Ga\u00fachos e Bedu\u00ednos, editado em 1948 pela Jos\u00e9 Olympio, do Rio, levantou uma grande polvadeira no cen\u00e1rio cultural riograndense.<br \/>\nSeguiu-se um enorme sil\u00eancio, rompido em 1955 com uma segunda edi\u00e7\u00e3o, desta vez bancada pela Editora da Livraria do Globo, na qual Verissimo era a figura de proa. O romancista de O Tempo e o Vento fez ressalvas \u00e0 tese de Manoelito de Ornellas, mas apoiou a publica\u00e7\u00e3o do livro.<br \/>\nQuem mais se doeu com a ousadia do ensa\u00edsta \u201ccastelhanista\u201d foram os defensores da vertente a\u00e7oriana da origem riograndense, liderada por Moyses Vellinho, que n\u00e3o deixou por menos: no livro Capitania D\u2019El Rei (Livraria do Globo, 1964), ele fez quest\u00e3o de destacar as diferen\u00e7as entre os ga\u00fachos platinos e os ga\u00fachos do Rio Grande.<br \/>\nIgnorando a opini\u00e3o de Ornellas, Vellinho viu nos ga\u00fachos do Prata a rebeldia contra a arrog\u00e2ncia e a prepot\u00eancia dos castelhanos; nos riograndenses, o esp\u00edrito acomodat\u00edcio dos conquistadores lusobrasileiros, que receberam em sesmarias a paga pela defesa do terrrit\u00f3rio lusitano na por\u00e7\u00e3o meridional da Am\u00e9rica do Sul, estabelecendo assim o que denominou \u201ca fun\u00e7\u00e3o civilizadora da est\u00e2ncia\u201d.<br \/>\nPara minimizar o peso do nomadismo na forma\u00e7\u00e3o do ga\u00facho brasileiro, Vellinho recorre a Lindolfo Collor. \u201cEles s\u00e3o n\u00f4mades em rela\u00e7\u00e3o aos habitantes dos n\u00facleos urbanos, mas representam na g\u00eanese das popula\u00e7\u00f5es meridionais o primeiro e decisivo elo de fixa\u00e7\u00e3o social, de civiliza\u00e7\u00e3o no deserto\u201d, escreveu Collor em seu livro sobre Garibaldi e a Guerra dos Farrapos.<br \/>\nDepois de publicar seu ensaio, Manoelito de Ornellas n\u00e3o teve mais sossego: foi criticado e por fim segregado nos meios intelectuais de Porto Alegre. Acabou buscando ref\u00fagio na ilha de Santa Catarina, onde lecionou por muitos anos. N\u00e3o foi o primeiro ga\u00facho a migrar por se sentir desconfort\u00e1vel em sua terra. Poucos lhe foram solid\u00e1rios. \u201cManoelito era de Itaqui\u201d, lembra o editor Carlos Jorge Appel, fundador da Editora Movimento, de Porto Alegre. Com seu lembrete, Appel quer dizer que Ornellas tinha outras ra\u00edzes e sofreu influ\u00eancias da fronteira com a Argentina numa \u00e9poca em que Buenos Aires era uma das capitais do mundo, com metr\u00f4 e tudo mais.<br \/>\nEle pr\u00f3prio um migrante oriundo do interior catarinense, Appel reconhece que no porto de Itaqui (no m\u00e9dio rio Uruguai) do in\u00edcio do s\u00e9culo XX era mais f\u00e1cil receber jornais, livros e mercadorias de Buenos Aires e outras cidades argentinas do que de Porto Alegre. Nascido em 1903, Manoelito ficou na terra natal at\u00e9 os 18 anos, quando migrou para Cruz Alta, onde conviveu com o dono de farm\u00e1cia Erico Verissimo. Acabou seguindo o destino da maioria dos literatos do interior ga\u00facho: foi para a capital trabalhar como jornalista e professor.<br \/>\nBem ou mal, Manoelito atraiu boa parte da m\u00e1 vontade dos colegas de Porto Alegre ao aceitar, em 1938, trabalhar como funcion\u00e1rio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), \u00f3rg\u00e3o de divulga\u00e7\u00e3o do Estado Novo que exerceu um papel censorial e repressor sobre o jornalismo e todas as manifesta\u00e7\u00f5es do livre pensamento. N\u00e3o foi por muito tempo e talvez tenha sido mais por necessidade do que por convic\u00e7\u00e3o, mas o homem de Itaqui carregou para sempre a imagem de amigo da ditadura varguista.<br \/>\nEssa pecha contaminou-lhe a carreira, impedindo que sua tese, t\u00e3o original e inovadora, fosse absorvida e interpretada de forma isenta. Falecido em 1969 em Porto Alegre, ele deixou uma das frases mais instigantes da literatura ga\u00facha: \u201cO galp\u00e3o \u00e9 uma tenda que se fixou\u201d. Mais do que uma frase, uma tese, uma met\u00e1fora.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cGauchos e Bedu\u00ednos\u201d, ano 65 Bem disse Erico Verissimo: foi muito original e ousado o escritor Manoelito de Ornellas ao desenvolver seu famoso ensaio sobre as semelhan\u00e7as entre os habitantes do pampa e dos desertos \u00e1rabes. 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