{"id":12639,"date":"2013-10-17T13:59:21","date_gmt":"2013-10-17T16:59:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12639"},"modified":"2013-10-17T13:59:21","modified_gmt":"2013-10-17T16:59:21","slug":"montevideu-impressoes-de-um-paulistano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/montevideu-impressoes-de-um-paulistano\/","title":{"rendered":"Montevid\u00e9u: impress\u00f5es de um paulistano"},"content":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u \u00e9 uma bel\u00edssima cidade, mas isso n\u00e3o faz com que seus habitantes sejam muy alegres. Os montevideanos s\u00e3o circunspectos, um pouco mal humorados, \u201cpra dentro\u201d, o que pode fazer voc\u00ea concluir precipitadamente que h\u00e1 alguma preven\u00e7\u00e3o deles contra n\u00f3s brasileiros, alguma hostilidade t\u00e1cita mal disfar\u00e7ada.<br \/>\nDepois voc\u00ea v\u00ea que n\u00e3o \u00e9 nada disso. Eles s\u00e3o assim mesmo. Em rela\u00e7\u00e3o aos argentinos, sim, h\u00e1 uma rivalidade natural, regional. Os uruguaios comparam a oposi\u00e7\u00e3o entre eles e argentinos com o que eles sup\u00f5em ser a nossa com os cariocas. Fazem essa compara\u00e7\u00e3o comumente. \u00c9 engra\u00e7ado.<br \/>\nNum fim de tarde em que havia um p\u00f4r de sol magn\u00edfico e est\u00e1vamos \u00e0 beira do Rio da Prata, conversamos por acaso com o jornalista chamado coincidentemente Marcelo Tarde, que ali estava, como n\u00f3s, para contemplar aquela cena que dispensa adjetiva\u00e7\u00f5es.<br \/>\nTarde deu sua vers\u00e3o sobre por que, na sua opini\u00e3o, o uruguaio de modo geral \u00e9 uma pessoa circunspecta e \u201ccinzenta\u201d. Segundo ele, as coisas s\u00e3o bastante dif\u00edceis para o povo, que vive num pa\u00eds de economia dif\u00edcil para eles, onde tudo \u00e9 caro e as pessoas ganham mal. Esse aspecto econ\u00f4mico n\u00e3o \u00e9 conjuntural, mas hist\u00f3rico, visto que a economia uruguaia passou nos \u00faltimos anos por uma fase de crescimento e baixo desemprego.<br \/>\nPassamos dias ensolarados em Montevid\u00e9u (e um dia em Col\u00f4nia de Sacramento), mas todos frios. O amigo Marcelo Tarde, naquela tarde, comentou que o clima normalmente cinza colabora para que o uruguaio seja aburrido, meio depressivo, mal humorado e com tend\u00eancias suicidas.<br \/>\nUma cidade cinza, que tem um inverno longo, acaba deixando as pessoas deprimidas, conjectura Tarde. Segundo pesquisa divulgada pela BBC no ano passado, o Uruguai est\u00e1 em primeiro lugar na taxa de suic\u00eddios, ao lado de Cuba, entre os pa\u00edses latino-americanos. Seriam 16,6 suic\u00eddios por 100 mil habitantes.<br \/>\n\u201cMontevid\u00e9u \u00e9 \u00f3tima para os turistas, para voc\u00eas, pero para nosotros \u00e9s muy dif\u00edcil\u201d, diz Tarde. O jornalista faz uma associa\u00e7\u00e3o entre futebol e sociologia. Afirma que o futebol do Uruguai, duro, ra\u00e7udo, para o qual tudo \u00e9 dif\u00edcil e sofrido, um futebol n\u00e3o agrad\u00e1vel, reflete esse estado de esp\u00edrito de Montevid\u00e9u e do Uruguai de modo geral, de sua hist\u00f3ria, de sua economia, de seu povo. &#8220;N\u00e3o somos alegres como voc\u00eas brasileiros com seu futebol alegre, com suas mulheres que se vestem coloridas. Para nosostros \u00e9s as\u00ed, como nuestro futbol.&#8221;<br \/>\nTarde diz que vir\u00e1 ao Brasil se La Celeste bater a Jord\u00e2nia na repescagem e garantir o passaporte para a Copa do Mundo de 2014.<br \/>\n<span class=\"intertit\">L\u00edngua <\/span><br \/>\nComo escrevi em post anterior, diferentemente dos portenhos de Buenos Aires, os uruguaios de Montevid\u00e9u, os montevideanos, conversam com voc\u00ea numa boa se voc\u00ea fala portunhol. Nem todos, \u00e9 claro, mas alguns falam muito bem o portugu\u00eas e o vocabul\u00e1rio deles incorporou muitas palavras do portugu\u00eas, que eles falam e entendem naturalmente. Claro, isso n\u00e3o se d\u00e1 por acaso.<br \/>\nTodos nos lembramos das aulas de Hist\u00f3ria em que aprendemos sobre a Col\u00f4nia Cisplatina, lembram-se? O Uruguai foi incorporado ao Brasil em 1821 e se tornou independente em 1828.<br \/>\nPegamos um t\u00e1xi e o taxista falou um portugu\u00eas correto. Surpreso, perguntei de onde ele \u00e9, do Brasil? \u201cN\u00e3o, sou daqui. Aprendi a falar portugu\u00eas trabalhando, e tamb\u00e9m porque na hist\u00f3ria tivemos os portugueses aqui, nossa hist\u00f3ria \u00e9 pr\u00f3xima\u201d, ele explicou. O Rio Grande do Sul est\u00e1 logo ali. Muito simp\u00e1tico aquele jovem taxista de Montevid\u00e9u. \u00c9 virtualmente imposs\u00edvel acontecer um di\u00e1logo como esse em Buenos Aires.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Comida e bebida <\/span><br \/>\nO mate \u00e9 mais do que um h\u00e1bito. \u00c9 um v\u00edcio. Pessoas andando com a garrafa t\u00e9rmica com \u00e1gua quente embaixo do bra\u00e7o enquanto a m\u00e3o segura a cuia \u00e9 uma cena onipresente. O taxista que nos levou do hotel ao aeroporto para pegar o avi\u00e3o de volta dirigia com a cuia na m\u00e3o.<br \/>\nAlgum tipo de carne, batatas (fritas, simplesmente cozidas, na salada russa ou em forma de pur\u00ea) e uma salada \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da culin\u00e1ria do dia-a-dia.<br \/>\nO popular chivito (que re\u00fane carne, queijo e presunto, ovo ou outras combina\u00e7\u00f5es), que pode ser um sandu\u00edche ou al plato, \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o sempre dispon\u00edvel.<br \/>\nCome-se muito ovo no Uruguai. O ovo deles tem uma gema bem vermelha. Lembra o ovo da galinha caipira que temos aqui, que se v\u00ea raramente.<br \/>\nPara comer uma carne, n\u00e3o h\u00e1 nada melhor do que o mercado do Porto. Para quem gosta de carne (de boi, de frango ou lingui\u00e7a) \u00e9 o para\u00edso. Voc\u00ea j\u00e1 come\u00e7a a salivar chegando ao local, antes de se sentar a um dos in\u00fameros boxes dispon\u00edveis.<br \/>\nAndando pela calle San Jos\u00e9, no n\u00famero 1168, voc\u00ea encontra um restaurante basco, ali plantado, e se voc\u00ea n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o quase n\u00e3o v\u00ea. Pacharan \u00e9 o nome da taberna. Comemos um pollo a la vasca (frango \u00e0 basca), sinceramente, inesquec\u00edvel.<br \/>\n\u00c9 caro comer em Montevid\u00e9u. Um real equivale a 9 pesos uruguaios. Em duas pessoas, voc\u00ea gasta em m\u00e9dia para jantar ou almo\u00e7ar, normalmente, entre 400 e 700 pesos uruguaios, equivalente a 45 e 80 reais, aproximadamente.<br \/>\nA cerveja \u00e9 boa. A Patr\u00edcia e a Pilsen, de l\u00e1, s\u00e3o de \u00f3tima qualidade. \u00c9 comum a garrafa de um litro. Custa cerca de 130 pesos (14 reais).<br \/>\n\u00c9 muito comum as pessoas pedirem cigarros nas ruas de Montevid\u00e9u. Isso porque, para os pobres de l\u00e1, fumar \u00e9 um luxo. Um ma\u00e7o de Marlboro, que no Brasil custa R$ 5,75, na capital uruguaia \u00e9 85 pesos, o que equivale a R$ 9,50.<br \/>\nTamb\u00e9m diferentemente dos argentinos, que tomam muito vinho, os uruguaios bebem mais cerveja. E coca-cola. Como gostam de coca-cola! Um casal tomar 1 litro numa refei\u00e7\u00e3o \u00e9 normal. Na Ciudad Vieja, h\u00e1 muitos estabelecimentos com propagandas antigas da Coca-Cola.<br \/>\n\u00c9 charmoso, porque remete ao passado, mas um passado invadido pelo kitsch moderno, o que provoca um sentimento de nostalgia inevit\u00e1vel.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Mujica <\/span><br \/>\nCerca da metade das pessoas com quem conversamos em Montevid\u00e9u sobre o presidente Jos\u00e9 Mujica consideram-no p\u00edfio, garantem que no ano que vem ele e seu grupo saem do poder e dizem, contra seus programas sociais, que o governo d\u00e1 plata a quem n\u00e3o trabalha, &#8220;pero nosotros que trabajamos pagamos esto&#8221;. O mesmo argumento dos que vociferam contra o Bolsa-Fam\u00edlia no Brasil, por\u00e9m com uma diferen\u00e7a importante: uma parcela dos que s\u00e3o contra Mujica com esse argumento de que o governo sustenta vagabundos com o dinheiro dos que trabalham s\u00e3o pessoas com problemas. Passam dificuldades. Trabalham muito e n\u00e3o t\u00eam nada (no Brasil, o \u00f3dio contra o Bolsa Fam\u00edlia parece mais ideol\u00f3gico).<br \/>\nA outra metade se divide em duas:<br \/>\nUm quarto, 25%, \u00e9 expressa pelo taxista jovem citado acima:<br \/>\n\u2013 Te gusta Mujica? \u2013 perguntamos.<br \/>\n\u2013 Gosto. N\u00e3o faz nada, mas pelo menos n\u00e3o rouba \u2013 respondeu, nessas mesmas palavras, em portugu\u00eas.<br \/>\nOs outros 25% da segunda metade das pessoas com as quais conversamos sobre pol\u00edtica e Mujica s\u00e3o mais reflexivos. Dizem que o governo &#8220;est\u00e1 bien&#8221;, que \u00e9 certa sua pol\u00edtica social. Mas h\u00e1 algo que as inquieta. \u00c9 que essas pessoas parecem ter uma certeza amarga de que n\u00e3o podem ir m\u00e1s all\u00e1, e que Mujica n\u00e3o far\u00e1 nada por elas. \u00c9 uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o do Uruguai, que oscila entre a compreens\u00e3o e a indiferen\u00e7a.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Est\u00e1dio Centen\u00e1rio e pra\u00e7as <\/span><br \/>\nFiquei emocionado ao visitar o Centen\u00e1rio. O est\u00e1dio de futebol tal como conhecemos hoje descende das arenas gregas que sediaram a Olimp\u00edada a partir do s\u00e9culo VIII a.C., concep\u00e7\u00e3o que posteriormente deu origem ao Coliseu de Roma, constru\u00eddo entre 70 e 90 d.C.<br \/>\nNa hist\u00f3ria do futebol do s\u00e9culo XX, o est\u00e1dio de futebol \u00e9 filho popular das arenas greco-romanas. E o Centen\u00e1rio \u00e9 um \u201cmonumento del futbol mundial\u201d, como diz uma inscri\u00e7\u00e3o no est\u00e1dio, o primeiro constru\u00eddo para uma Copa do Mundo, onde a Celeste Ol\u00edmpica se sagrou o primeiro time campe\u00e3o mundial em 1930.<br \/>\nO est\u00e1dio Centen\u00e1rio est\u00e1 situado dentro do parque Battle, uma linda \u00e1rea de nada menos do que 60 hectares localizada na regi\u00e3o centro-leste da cidade. \u00c9 um t\u00edpico exemplo de como as capitais dos pa\u00edses sul-americanos consideram importantes as pra\u00e7as e os parques. Em Montevid\u00e9u, como em Buenos Aires ou Santiago de Chile, las plazas est\u00e3o em toda parte. Nossa Porto Alegre (RS) tem um pouco essa cultura.<br \/>\nAs pra\u00e7as nas cidades importantes da Am\u00e9rica do Sul ocupam o espa\u00e7o que nas cidades hist\u00f3ricas brasileiras \u00e9 ocupado por igrejas cat\u00f3licas. Numa cidade importante de Minas Gerais, voc\u00ea n\u00e3o anda 500 metros, ou menos, sem encontrar uma igreja.<br \/>\nNas cidades sul-americanas, melhor, voc\u00ea encontra pra\u00e7as. Vi poucas igrejas em Montevid\u00e9u. Falo das cat\u00f3licas. Infelizmente, h\u00e1 uma (felizmente, uma) \u201cloja\u201d da Universal do Reino de Deus, na avenida 18 de Julio. Seja como for, os montevideanos s\u00e3o mais laicos do que os brasileiros.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Las calles <\/span><br \/>\nJorge Luis Borges define com nuance po\u00e9tica as ruas de Montevid\u00e9u como &#8220;calles con luz de patio&#8221;. Lindas calles, muitas das quais, principalmente as transversais \u00e0 avenida 18 de Julio, uma veia que atravessa a cidade, s\u00e3o ornamentadas pelos pl\u00e1tanos.<br \/>\nA avenida 18 de julho (data da primeira Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, em 1830) leva \u00e0 Ciudad Vieja, e entre elas la Plaza Independ\u00eancia, uma ampla e agrad\u00e1vel pra\u00e7a que \u00e9 ao mesmo tempo um monumento urbano e ufanista, dedicado a Jos\u00e9 Artigas. Esse car\u00e1ter ufano e militarista dessa pra\u00e7a, por\u00e9m, \u00e9 um pouco opressivo.<br \/>\nA partir dali, da Plaza Independencia, n\u00e3o existem pl\u00e1tanos, pero &#8220;calles con luz de patio&#8221; que acabam desembocando no monumental Rio da Prata de cujas ramblas o povo uruguaio mira o horizonte depois das \u00e1guas. <em>(Eduardo Maretti, no seu blog http:\/\/fatosetc.blogspot.com.br\/2013\/10\/impressoes-de-montevideu.html)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid\u00e9u \u00e9 uma bel\u00edssima cidade, mas isso n\u00e3o faz com que seus habitantes sejam muy alegres. Os montevideanos s\u00e3o circunspectos, um pouco mal humorados, \u201cpra dentro\u201d, o que pode fazer voc\u00ea concluir precipitadamente que h\u00e1 alguma preven\u00e7\u00e3o deles contra n\u00f3s brasileiros, alguma hostilidade t\u00e1cita mal disfar\u00e7ada. Depois voc\u00ea v\u00ea que n\u00e3o \u00e9 nada disso. 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