{"id":12648,"date":"2013-10-22T10:03:08","date_gmt":"2013-10-22T13:03:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12648"},"modified":"2013-10-22T10:03:08","modified_gmt":"2013-10-22T13:03:08","slug":"embrapa-40-anos-os-hibridos-do-cerrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/embrapa-40-anos-os-hibridos-do-cerrado\/","title":{"rendered":"Embrapa 40 anos: os h\u00edbridos do cerrado"},"content":{"rendered":"<p>Os embrapeanos e seus admiradores est\u00e3o festejando os 40 anos da<br \/>\nEmpresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa), criada em 1973 por Emilio Medici, o general ocupante da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<br \/>\nO fato de ter nascido em plena ditadura militar n\u00e3o tira o brilho da Embrapa. Mesmo sendo a mais recente joia da rep\u00fablica, ela alcan\u00e7ou em relativamente pouco tempo um n\u00edvel de excel\u00eancia equivalente ao do Banco do Brasil (1851), BNDES (1952) e Petrobras (1953), sem falar de outros gigantes da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira, como a Eletrobr\u00e1s e a USP.<br \/>\nCom 47 centros de pesquisa onde trabalham mais de 2 mil cientistas e t\u00e9cnicos de n\u00edvel superior, a Embrapa \u00e9 um grande laborat\u00f3rio experimental que caminha ao lado dos produtores e, frequentemente, antecipa solu\u00e7\u00f5es agron\u00f4micas para problemas latentes; outras vezes \u00e9 obrigada a correr atr\u00e1s do preju\u00edzo causado por pragas ou doen\u00e7as. \u00c9 o<br \/>\ncaso da ferrugem da soja, que atormenta os produtores h\u00e1 mais de 10 anos.<br \/>\nPor tudo isso, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel imaginar o Brasil-pot\u00eancia-agr\u00edcola sem a ajuda embrapeana em pesquisas de solos, frutas, gr\u00e3os, fibras e manejo de diversas esp\u00e9cies vegetais e animais.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s vencemos sem seguir nenhum modelo agr\u00edcola externo&#8221;, afirmou o presidente da Embrapa, agr\u00f4nomo Mauricio Lopes, na palestra de encerramento de mais um evento comemorativo realizado no final de setembro na sede da Federasul em Porto Alegre. Ningu\u00e9m o contestou \u2013 talvez porque, sendo uma festa, o terreno parecia liberado para a semeadura de fal\u00e1cias.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples quanto sugere a fala do executivo estatal. Se o sucesso da Embrapa \u00e9 indiscut\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 verdade que ela se estabeleceu sem seguir um modelo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Modelo norte-americano<\/span><br \/>\nEmbora tenha muitas peculiariedades regionais \u2013 como a vastid\u00e3o territorial e a variedade de solos e microclimas \u2013 que lhe permitiram tornar-se campe\u00e3o de caf\u00e9, cana, frango, laranja e soja, o Brasil virou uma pot\u00eancia agr\u00edcola ap\u00f3s adotar o modelo norte-americano que, desde o princ\u00edpio dos anos 1950, nos imp\u00f5e pacotes tecnol\u00f3gicos usados hoje de Picos do Piau\u00ed aos plat\u00f4s do Chu\u00ed.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil compreender o discurso e a postura de Lopes. Formado em Vi\u00e7osa quando a Embrapa engatinhava, ele \u00e9 um h\u00edbrido de cientista e pol\u00edtico formado nos embates entre a pesquisa t\u00e9cnica, a burocracia estatal e os interesses do Agroneg\u00f3cio. Originalmente era geneticista (com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, claro) mas a luta pela sobreviv\u00eancia da Embrapa o levou a trocar o laborat\u00f3rio pelos gabinetes onde nos \u00faltimos 20 anos vicejaram diversos projetos da iniciativa privada.<br \/>\nNessa virada da pesquisa pura para a pesquisa comercial, a Embrapa abra\u00e7ou como parceiros preferenciais as empresas de sementes e agroqu\u00edmicos. Muitos pesquisadores com talento para os neg\u00f3cios preferiram tornar-se vendedores de projetos de pesquisa e\/ou captadores de verbas necess\u00e1rias \u00e0 sobreviv\u00eancia da empresa num ambiente dominado pelo pensamento neoliberal. Foi uma transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande quanto a migra\u00e7\u00e3o das sementes org\u00e2nicas para transg\u00eanicas nas principais lavouras comerciais brasileiras. N\u00e3o se deve esquecer que os embrapeanos pouco resistiram \u00e0 press\u00e3o industrial pelos transg\u00eanicos.<br \/>\nO pragmatismo empresarial de Mauricio Lopes faz lembrar os agr\u00f4nomos Luiz Fernando Cirne Lima e Allisson Paulinelli, os dois ministros respons\u00e1veis pela cria\u00e7\u00e3o e implanta\u00e7\u00e3o da Embrapa, entre 1973 e 1979.<br \/>\nEmbora tenham nascido nos anos 1930, eles vieram de escolas diferentes. Cirne Lima formou-se em Porto Alegre e doutorou-se na Inglaterra. Paulinelli estudou em Lavras (MG) e posgraduou-se nos Estados Unidos. De certa maneira representam duas \u00e9pocas, duas influ\u00eancias. Cirne ligado na pecu\u00e1ria europeia. Paulinelli, no agribusinesse norte-americano.<br \/>\nO marco divis\u00f3rio dessas duas \u00e9pocas da agricultura brasileira foi uma planta chamada Glycine max, a fabulosa soja. Quando Cirne estava deixando o minist\u00e9rio, em 1973, a soja estava organizando a ponte Iju\u00ed-Chicago. Quem mais se beneficiou dessa tremenda ascens\u00e3o foi o mineiro Paulinelli, dubl\u00ea de t\u00e9cnico e pol\u00edtico que at\u00e9 mandato de senador exerceu por Minas Gerais, anos depois de deixar o Mapa.<br \/>\nAssim, n\u00e3o \u00e9 por falta de conhecimento hist\u00f3rico, mas por conveni\u00eancia pol\u00edtica, que o maior executivo da Embrapa espalha a vers\u00e3o que mais afaga a autoestima nacional. Mas \u00e9 fraude hist\u00f3rica dizer que o Brasil virou pot\u00eancia agr\u00edcola sem pagar tributo a qualquer modelo estrangeiro. Na realidade, \u00e9 a depend\u00eancia tecnol\u00f3gica, financeira e mercadol\u00f3gica que mant\u00e9m o pais numa situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 da col\u00f4nia dos primeiros s\u00e9culos da hist\u00f3ria nacional.<br \/>\nPodemos sumarizar as influ\u00eancias predominantes sobre a agricultura brasileira, ao longo dos seus 500 anos, da seguinte forma:<br \/>\nI &#8211; De 1500 a 1800, cultivamos cana \u00e0 moda afroportuguesa e mandioca, milho e fumo \u00e0 base do extrativismo ind\u00edgena<br \/>\nII &#8211; De 1800 a 1900, cultivamos caf\u00e9, algod\u00e3o e plantamos ferrovias<br \/>\npara atender ao mercado europeu<br \/>\nIII &#8211; Em 1887, D. Pedro II criou o Instituto Agron\u00f4mico de Campinas,<br \/>\nentregue \u00e0 dire\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de europeus<br \/>\nIV &#8211; A partir de 1895, difunde-se o livro &#8220;Cultura dos Campos&#8221; (Assis<br \/>\nBrasil), uma compila\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas agr\u00edcolas da Europa tamb\u00e9m usadas nos Estados Unidos<br \/>\nV \u2013 Ap\u00f3s a Primeira Guerra (1914-1918), inicia-se a pesada influ\u00eancia exercida por ind\u00fastrias de m\u00e1quinas, pesquisadores e empresas norte-americanas compradoras de mat\u00e9rias-primas agr\u00edcolas<br \/>\nVI &#8211; Ap\u00f3s a Segunda Guerra (1939-45), a importa\u00e7\u00e3o de trigo amarra<br \/>\ndefinitivamente o Brasil aos EUA, que passa a nos vender m\u00e1quinas e diversos insumos de acordo com um receitu\u00e1rio que alcan\u00e7ar\u00e1 dimens\u00e3o internacional com a Revolu\u00e7\u00e3o Verde financiada pelos irm\u00e3os Rockefeller<br \/>\nVII &#8211; Em 1962, a citricultura brasileira vive um \u201cboom\u201d para atender o<br \/>\nmercado americano<br \/>\nVIII &#8211; A partir da 1973, o Brasil cultiva a soja de acordo com o<br \/>\nmodelo americano, presente em todas as pontas do processo produtivo<br \/>\nNo livro O Brasil da Soja &#8211; A Rainha do Agroneg\u00f3cio, deixei claro que a<br \/>\nrevolu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola feita no cerrado brasileiro nos \u00faltimos 40 anos<br \/>\nteve tr\u00eas protagonistas b\u00e1sicos: a soja, os agricultores e os t\u00e9cnicos\/cientistas.<br \/>\nFoi uma corrida de revezamento em que os tr\u00eas atores evolu\u00edram se ajudando mutuamente, mas o denominador comum foi a tecnologia norte-americana, que se imp\u00f4s por meio de uma presen\u00e7a maci\u00e7a em termos de m\u00e1quinas, fornecimento de insumos e compra de produtos.<br \/>\nNessa saga extraordin\u00e1ria, a soja foi adaptada a diversas regi\u00f5es brasileiras por um excepcional corpo de agr\u00f4nomos e t\u00e9cnicos agr\u00edcolas \u2013 n\u00e3o s\u00f3 da Embrapa, mas tamb\u00e9m da Emgopa, da Epamig, do IAC, das Emateres estaduais e de escolas superiores e de grau m\u00e9dio de tecnologia agr\u00edcola.<br \/>\nClaro que houve subs\u00eddios governamentais, mas em todo o mundo a agricultura recebe ajuda oficial. O mais importante \u00e9 que a partir da soja, muito mais do que antes, o Brasil se tornou tribut\u00e1rio e dependente do modelo norte-americano, tanto que acabamos adotando como nossa terminologia que o define: agribusiness\/agroneg\u00f3cio.<br \/>\nComo negar toda essa influ\u00eancia modelar se desde a Segunda Guerra Mundial centenas de agr\u00f4nomos brasileiros foram se aperfei\u00e7oar-se em universidades e centros de pesquisas dos EUA?<br \/>\nCitemos um dos primeiros e talvez o mais conhecido deles: Jos\u00e9 Gomes da Silva, o Z\u00e9 Sojinha, voltou de l\u00e1 em 1948 com a ideia do fomento da lavoura de soja mediante um pacto tripartite entre governo (financiamento da pesquisa e pre\u00e7os m\u00ednimos), ind\u00fastrias compradoras da produ\u00e7\u00e3o\/fornecedoras de insumos e agricultores, que deviam fazer tudo de acordo com o figurino fornecido pelo IAC, a Anderson Clayton, a Bunge, a Cargill etc.<br \/>\nA \u00fanica grande ind\u00fastria nacional naquele momento (anos 1950) era a Matarazzo. Outras nativas, surgidas depois, como a Ceval (1972) acabaram sendo compradas por estrangeiros. O cooperativismo, que chegou a despontar como a terceira via de uma agricultura ancorada em pequenas e m\u00e9dias propriedades, deu com os burros n&#8217;\u00e1gua e somente nos \u00faltimos anos d\u00e1 sinais de reagir.<br \/>\nAtualmente, ind\u00fastrias nativas como Cocamar, Coamo, Caramuru, Granol e outras n\u00e3o chegam a se igualar, em volume de produ\u00e7\u00e3o e compra de produ\u00e7\u00e3o, \u00e0s grandes empresas multinacionais, a maior parte de origem americana, algumas europ\u00e9ias, uma ou outra japonesa.<br \/>\nEssas nacionalidades se tornaram ricas\/poderosas porque t\u00eam maior n\u00edvel educacional\/tecnol\u00f3gico, acumularam mais capital e desenvolveram mercados mais amplos. \u00c9 o que falta para o Brasil se tornar uma pot\u00eancia agr\u00edcola aut\u00f4noma e a Embrapa, uma multinacional realmente livre. Por isso se espera que os embrapeanos, em vez de tapar o sol com a peneira, deixem a luz da verdade cobrir a nossa agricultura.<br \/>\n<em>(Geraldo Hasse)<\/em><br \/>\nLEMBRETE DE OCASI\u00c3O<br \/>\n\u201cCrescimento econ\u00f4mico e sustentabilidade ambiental n\u00e3o s\u00e3o antag\u00f4nicos, podem ser sin\u00e9rgicos\u201d<br \/>\nMaur\u00edcio Lopes, presidente da Embrapa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os embrapeanos e seus admiradores est\u00e3o festejando os 40 anos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa), criada em 1973 por Emilio Medici, o general ocupante da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. O fato de ter nascido em plena ditadura militar n\u00e3o tira o brilho da Embrapa. 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