{"id":12676,"date":"2013-10-31T17:16:17","date_gmt":"2013-10-31T20:16:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12676"},"modified":"2013-10-31T17:16:17","modified_gmt":"2013-10-31T20:16:17","slug":"amos-gitai-os-horrores-da-guerra-na-mostra-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/amos-gitai-os-horrores-da-guerra-na-mostra-da-paz\/","title":{"rendered":"Amos Gitai: os horrores da guerra na Mostra da Paz"},"content":{"rendered":"<p>A visita do cineasta israelense Amos Gitai \u00e0 capital ga\u00facha foi breve, o tempo de abrir a Mostra da Paz, fazer uma confer\u00eancia, receber a comenda Sim\u00f5es Lopes Neto do governador Tarso Genro, e debater com cin\u00e9filos, estudantes e intelectuais. A Mostra ter\u00e1 sequ\u00eancia em novembro, com filmes palestinos.<br \/>\nFica a reflex\u00e3o sobre a obra de Gitai que, sem d\u00favida, \u00e9 um dos cineastas mais interessantes da atualidade. Na Mostra de Porto Alegre, foram apresentados trabalhos j\u00e1 conhecidos e consagrados: <em>Kadosh<\/em> (1999); <em>O dia do perd\u00e3o<\/em> (2000); e <em>Kedma<\/em> (2003).<br \/>\nNeles, e na maioria dos seus mais de 40 filmes, temas como, principalmente, a sociedade israelense, as rela\u00e7\u00f5es entre judeus e \u00e1rabes. Colocam, enfim, importantes abordagens sobre conceitos como territ\u00f3rio, fronteiras, paz, identidade, mem\u00f3ria, numa das regi\u00f5es mais conflituosas do mundo, o Oriente M\u00e9dio. Gitai, na guerra do Iom Kipur, serviu numa unidade de salvamento, encarregada de resgatar feridos nos campos de combate. \u00c9 desse testemunho que trata <em>O dia do perd\u00e3o<\/em>, misto de fic\u00e7\u00e3o autobiogr\u00e1fica e linguagem de document\u00e1rio, g\u00eanero muito apreciado por Gitai e respons\u00e1vel por grande parte da sua respeit\u00e1vel filmografia.<br \/>\n<strong>Ter\u00e7a-feira, 29 de outubro.<\/strong> Quarenta anos ap\u00f3s a guerra do Yom Kipur, o cineasta israelense Amos Gitai, 63, fez, na abertura da Mostra da Paz, na Cinemateca Paulo Amorim, a apresenta\u00e7\u00e3o do seu filme O dia do perd\u00e3o (Kippur, 2000). N\u00e3o era uma apresenta\u00e7\u00e3o qualquer. Tamb\u00e9m era um testemunho.<br \/>\nArquiteto de forma\u00e7\u00e3o, Gitai ainda era estudante quando, em seis de outubro de 1973, Israel foi surpreendido com os ataques conjuntos dos ex\u00e9rcitos eg\u00edpcio e s\u00edrio.<br \/>\nCome\u00e7ava a guerra do Yom Kipur, que terminaria com uma vit\u00f3ria t\u00e1tica de Israel, mas que deixou, mais do que nos tr\u00eas conflitos anteriores, o gosto amargo de um estrago em baixas e equipamentos, e a necessidade de encontrar uma sa\u00edda diplom\u00e1tica para a quest\u00e3o palestina, algo que, quatro d\u00e9cadas depois, ainda parece estar longe de acontecer.<br \/>\nNa capital ga\u00facha, a visita de Gitai foi breve, o tempo de abrir a Mostra, fazer uma confer\u00eancia, receber a comenda Sim\u00f5es Lopes Neto do governador Tarso Genro, e debater com cin\u00e9filos, estudantes e intelectuais. Tudo como parte do pacote da Paz, iniciativa do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no intuito de promover a conc\u00f3rdia t\u00e3o esperada entre palestinos e judeus.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Mais de 40 filmes<\/span><br \/>\nSe a visita e a Mostra (que ter\u00e1 uma sequ\u00eancia, em novembro, com filmes palestinos) foram breves, resta \u00e0 reflex\u00e3o sobre a obra de Gitai que, sem d\u00favida, \u00e9 um dos cineastas mais interessantes da atualidade. Na Mostra de Porto Alegre, foram apresentados trabalhos j\u00e1 conhecidos e consagrados: Kadosh (1999); O dia do perd\u00e3o (2000); e Kedma (2003).<br \/>\nNeles, e na maioria dos seus mais de 40 filmes, temas como, principalmente, a sociedade israelense, as rela\u00e7\u00f5es entre judeus e \u00e1rabes. Colocam, enfim, importantes abordagens sobre conceitos como territ\u00f3rio, fronteiras, paz, identidade, mem\u00f3ria, numa das regi\u00f5es mais conflituosas do mundo, o Oriente M\u00e9dio.<br \/>\nGitai, na guerra do Iom Kipur, serviu numa unidade de salvamento, encarregada de resgatar feridos nos campos de combate. \u00c9 desse testemunho que trata O dia do perd\u00e3o, misto de fic\u00e7\u00e3o autobiogr\u00e1fica e linguagem de document\u00e1rio, g\u00eanero muito apreciado por Gitai e respons\u00e1vel por grande parte da sua respeit\u00e1vel filmografia.<br \/>\nA pel\u00edcula come\u00e7a mostrando o jovem Weinraub (Liron Levo. Weinraub \u00e9 tamb\u00e9m o sobrenome original da fam\u00edlia de Gitai) caminhando solit\u00e1rio pelas ruas vazias de Haifa, com\u00e9rcio fechado, como reza a tradi\u00e7\u00e3o do Yom Kipur. Corte para uma cena er\u00f3tica onde Weinraub e sua namorada fazem sexo e, ao mesmo tempo, se lambuzam de tintas coloridas. Outros preferem rasgar roupas, unhar-se. N\u00e3o importa.<br \/>\nTrata-se de uma alegoria e belo efeito pl\u00e1stico ao desejo e a vida, em claro contraste com o baixo-astral do resto do filme, a tinta sendo substitu\u00edda pela lama, numa regi\u00e3o onde a paz \u00e9 um breve interregno entre ataques e contra-ataques violentos.<br \/>\nO toque da sirene interrompe o sexo, mas n\u00e3o chega a ser uma surpresa. Em Israel o estado de prontid\u00e3o \u00e9 permanente. Todos sabem o que fazer e Weinraub e seu amigo Ruso (Tomer Russso) seguem a bordo de um velho Fiat rumo a sua unidade de opera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAntimilitarista, assim como em seu filme Kedma (tamb\u00e9m presente na Mostra), Gitai mostra que a guerra al\u00e9m de um conflito armado \u00e9 acima de tudo um esmagamento existencial.<br \/>\nMas, se \u00e9 imposs\u00edvel apagar o lado heroico e \u00e9pico daqueles que combatem, mesmo sendo c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o as suas causas, \u00e9 poss\u00edvel refor\u00e7ar o mal-estar, como a longa na sequ\u00eancia, plano fixo, tr\u00e1gico-c\u00f4mica da tentativa de resgate de um soldado ferido, quando todos, literalmente, ficam chafurdados na lama.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Neutralidade<\/span><br \/>\nPor outro lado, quando as condi\u00e7\u00f5es de resgate s\u00e3o \u201csatisfat\u00f3rias\u201d, tamb\u00e9m \u00e9 preciso escolher quem socorrer, estabelecer prioridades, pois, n\u00e3o cabem todos no helic\u00f3ptero que, numas das sequ\u00eancias finais, acaba sendo derrubado por um m\u00edssil.<br \/>\nNisso, a fic\u00e7\u00e3o de Gitai foi mais branda do que na hist\u00f3ria real, quando o copiloto foi decapitado pelo proj\u00e9til. D\u00e1 para imaginar o deleite que seria este fato para certo cinema hollywoodiano.<br \/>\nO filme, enquanto ponto de vista, transmite uma certa neutralidade, ou subjetividade como prefere Gitai, sem tomar partido e sem figura\u00e7\u00e3o dos ex\u00e9rcitos s\u00edrio ou eg\u00edpcio, cuja presen\u00e7a narrativa \u00e9 constada somente atrav\u00e9s das explos\u00f5es dos proj\u00e9teis que lan\u00e7am. Mas faz quest\u00e3o de mostrar os horrores da guerra, n\u00e3o faltando mortos, mutilados e corpos queimados. Afinal, o efeito surpresa do in\u00edcio da guerra do Yom Kipur foi devastador para Israel.<br \/>\nNa sequ\u00eancia final, Weinraub, em Haifa, volta para os bra\u00e7os da namorada, num movimento narrativo circular da hist\u00f3ria, repetindo a encena\u00e7\u00e3o da segunda sequ\u00eancia, os dois transando, lambuzando-se de tintas, que agora substitui a lama, enquanto aguardam o pr\u00f3ximo toque da sirene convocando para o combate.<br \/>\nAt\u00e9 quando?<br \/>\nQuest\u00e3o complexa e cuja s\u00edntese parece estar inserida no final de Kedma, nos mon\u00f3logos do palestino, expulso de sua terra, e do judeu, condenado ao sofrimento.<br \/>\nNo pr\u00f3ximo dia seis de novembro (quarta-feira) ser\u00e1 vez do cineasta Kamal Aljafari apresentar filmes com a tem\u00e1tica palestina. Pena n\u00e3o poder reunir, no Bom Fim, Gitai e Aljafari, que, dividindo um fal\u00e1fel, ou um Kebab (especialidade turca, mas n\u00e3o importa) falariam de paz, coabita\u00e7\u00e3o, e daquilo que certamente fazem melhor: cinema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A visita do cineasta israelense Amos Gitai \u00e0 capital ga\u00facha foi breve, o tempo de abrir a Mostra da Paz, fazer uma confer\u00eancia, receber a comenda Sim\u00f5es Lopes Neto do governador Tarso Genro, e debater com cin\u00e9filos, estudantes e intelectuais. A Mostra ter\u00e1 sequ\u00eancia em novembro, com filmes palestinos. 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