{"id":12733,"date":"2013-11-13T21:21:34","date_gmt":"2013-11-14T00:21:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12733"},"modified":"2013-11-13T21:21:34","modified_gmt":"2013-11-14T00:21:34","slug":"ultimos-dias-para-ver-vasco-xico-e-ibere-juntos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/ultimos-dias-para-ver-vasco-xico-e-ibere-juntos\/","title":{"rendered":"\u00daltimos dias para ver Vasco, Xico e Iber\u00ea juntos"},"content":{"rendered":"<p>Na entrada da exposi\u00e7\u00e3o, quarto andar da FIC, uma nota explicativa do curador da mostra, Agnaldo Farias \u2013 professor da USP e cr\u00edtico de arte \u2013 resume aquilo que se vai encontrar: \u201ca ideia que permeia essa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 enfatizar o coleguismo no \u00e1spero of\u00edcio art\u00edstico, tornado ainda mais \u00e1rduo num pa\u00eds como o nosso, no geral indiferente \u00e0s conquistas sociais mais elementares\u201d.<br \/>\nLida a explica\u00e7\u00e3o tem-se acesso ao primeiro ambiente da mostra onde dois quadros e seis esculturas definem, parcialmente, as complexas cabe\u00e7as do austr\u00edaco Xico Stockinger (1919-2009), e dos ga\u00fachos Vasco Prado (1914-1998), e Iber\u00ea Camargo (1914-1994). Do primeiro, a s\u00e9rie \u201cGabirus\u201d; de Vasco, a enigm\u00e1tica escultura \u201cAcr\u00f3lito\u201d, e de Iber\u00ea, as pinturas \u201cTudo \u00e9 falso e in\u00fatil V\u201d e \u201cNo vento e na terra\u201d.<br \/>\nEssas obras, de imediato, transmitem uma das caracter\u00edsticas do g\u00eanio art\u00edstico: o estranhamento. Das telas de Iber\u00ea a met\u00e1fora constru\u00edda em torno da bicicleta e da idiota que ri o riso amargo de algu\u00e9m que passou indiferente a vida, sem correr o risco do ciclista que, mesmo ca\u00eddo, testemunha a a\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m que tentou.<br \/>\nDe Xico, a den\u00fancia da mis\u00e9ria na s\u00e9rie, de 1996, de cinco esculturas representando o homem gabiru (apelido de um tipo de rato do Nordeste). Obra que, em seu conjunto, \u00e9 uma tr\u00e1gica tradu\u00e7\u00e3o e evolu\u00e7\u00e3o, da forma pict\u00f3rica para a escultural, de \u201cOs retirantes\u201d, de C\u00e2ndido Portinari (1903-1962). No quadro de Portinari, 1944, temos a imagem da fuga, n\u00e3o se sabe pra onde, de uma fam\u00edlia esqu\u00e1lida numa terra seca e desolada.<br \/>\nO homem gabiru, ao contr\u00e1rio, mesmo faminto, j\u00e1 se adaptou ao ambiente miser\u00e1vel, aprendeu a viver de dejetos, e seu parentesco est\u00e1 mais para os morlocks, subesp\u00e9cie humana, criados por H. G. Wells em \u201cA m\u00e1quina do tempo\u201d. Ele procria e cresce nas cidades, disputando espa\u00e7os e comida com os ratos que lhe emprestaram o apelido.<br \/>\nPor fim, observadora, \u201cAcr\u00f3lito\u201d, escultura de madeira e bronze, que Vasco levou 30 anos para construir.<br \/>\nEsp\u00e9cie de esfinge, indecifr\u00e1vel, olhando para o futuro. Serve de escape, contraponto, ao baixo astral das obras de Iber\u00ea e Xico. \u201cAcr\u00f3lito\u201d conduz a imagina\u00e7\u00e3o a uma viagem antropol\u00f3gica, ancestral, unindo \u00e9pocas, antiguidade e presente. Vasco, o mais ga\u00facho dos tr\u00eas, sabia, como no pampa, olhar o horizonte verde da esperan\u00e7a.<br \/>\nContudo, se o \u00faltimo Iber\u00ea, marcado por uma trag\u00e9dia pessoal, \u00e9 amargo, isso n\u00e3o impede de continuar a ser um grande artista, pois, como escreveu Ferreira Gullar no livro do fot\u00f3grafo Luiz Eduardo Achutti (Iber\u00ea Camargo por Achutti, 2004): \u201cEstes \u00faltimos trabalhos do pintor nos mostram que a arte pode ser, em face do desespero, uma afirma\u00e7\u00e3o da vida, um derradeiro voo e, assim, uma supera\u00e7\u00e3o do impasse definitivo\u201d.<br \/>\nE \u00e9 justamente essa afirma\u00e7\u00e3o da vida e da arte, seja como reinven\u00e7\u00e3o ou manifesta\u00e7\u00e3o de coleguismo e de amizade que transmitem os trabalhos confinados nos outros dois ambientes da exposi\u00e7\u00e3o. Num, abrangendo um per\u00edodo de 40 anos, convivem obras como \u201cTorso Masculino\u201d, escultura de Vasco, de 1972; \u201cFantasmagoria IV\u201d, \u00f3leo sobre tela, 1987, de Iber\u00ea; e \u201cAs magrinhas\u201d, bronze de Xico, de 2003.<br \/>\nNoutro, sobressaem os retratos, pict\u00f3ricos e escult\u00f3ricos \u2013 cabe\u00e7as em terracota e gesso \u2013 que cada um fez para o outro. Chama aten\u00e7\u00e3o o \u00f3leo sobre tela, 1984, que Iber\u00ea pintou de Xico, e que consagra uma de suas t\u00e9cnicas, atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de grossas camadas de pasta- cor, na qual a figura humana parece esculpida, ganhando not\u00f3rio relevo.<br \/>\nH\u00e1 tamb\u00e9m, dos tr\u00eas artistas, muitos desenhos, utilizando diversos materiais \u2013 como nanquim, l\u00e1pis stabilo tone, guache, caneta esferogr\u00e1fica, sobre papel -, e que revelam experimenta\u00e7\u00f5es, esbo\u00e7os. Alguns, como os desenhos er\u00f3ticos de Vasco, grafite sobre papel, de 1979, fazem, h\u00e1 dois meses, a alegria da barulhenta garotada estudantil que visita a exposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nExposi\u00e7\u00e3o: Xico, Vasco e Iber\u00ea: o ponto de converg\u00eancia<br \/>\nFunda\u00e7\u00e3o Iber\u00ea Camargo (Av. Padre Cacique, 2000)<br \/>\nAt\u00e9 domingo (17\/11)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na entrada da exposi\u00e7\u00e3o, quarto andar da FIC, uma nota explicativa do curador da mostra, Agnaldo Farias \u2013 professor da USP e cr\u00edtico de arte \u2013 resume aquilo que se vai encontrar: \u201ca ideia que permeia essa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 enfatizar o coleguismo no \u00e1spero of\u00edcio art\u00edstico, tornado ainda mais \u00e1rduo num pa\u00eds como o nosso, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":20014,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[1665,1666,1667,1668],"class_list":["post-12733","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-materiasecundaria","tag-fundacao-ibere-camargo","tag-ibere-camargo","tag-vasco-prado","tag-xico-stockinger"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":12733,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-3jn","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12733"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12733\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}