{"id":12760,"date":"2013-11-21T16:05:42","date_gmt":"2013-11-21T19:05:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12760"},"modified":"2013-11-21T16:05:42","modified_gmt":"2013-11-21T19:05:42","slug":"marxismo-e-rock-n-roll-ate-domingo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/marxismo-e-rock-n-roll-ate-domingo\/","title":{"rendered":"Marxismo e Rock &#039;n&#039; Roll at\u00e9 domingo"},"content":{"rendered":"<p>Trata-se de um texto forte, abarcando 22 anos de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, enfocando temas como totalitarismo, dissid\u00eancia, contracultura.<br \/>\nN\u00e3o est\u00e1 muito longe \u00e0 idade de ouro da contesta\u00e7\u00e3o contra o sistema capitalista e, tamb\u00e9m, das manifesta\u00e7\u00f5es de sua ant\u00edtese, o dissidente comunista. Assim, 1968 \u00e9 o ano ideal para situar esse dilema, pois nele temos: o maio franc\u00eas, os protestos contra a guerra do Vietn\u00e3, a Primavera de Praga, flower-power, e Jimi Hendrix em sua gl\u00f3ria.<br \/>\nAo escrever, em 2006, a pe\u00e7a \u201cRock \u2018n\u2019 Roll\u201d (que no Brasil teve agregados os termos marxismo e ideologia), Tom Stoppard, dramaturgo e roteirista oscarizado por \u201cShakespeare apaixonado\u201d, idealizou, misturando hist\u00f3ria e fic\u00e7\u00e3o, um original caminho de volta para casa. Mas n\u00e3o se trata, embora contenha elementos ligados \u00e0 vida pessoal do autor, de uma autobiografia.<br \/>\nJudeu tcheco, Stoppard tinha apenas dois anos de idade quando seus pais, em 1939, deixaram \u00e0 pequena Zlin, na antiga Tchecoslov\u00e1quia, fugindo dos nazistas. Depois de algum tempo em Singapura \u2013 onde o pai morreu combatendo os japoneses, e do novo casamento de sua m\u00e3e com um oficial ingl\u00eas \u2013 o jovem Straussler tornou-se Stoppard, como o padrasto, e mudou-se para a Inglaterra em 1946.<br \/>\nSessenta anos depois, j\u00e1 famoso (principalmente pela pe\u00e7a \u201cRosencrantz e Guildenstern est\u00e3o mortos\u201d), e com sotaque e postura que o fazem parecer um lorde ingl\u00eas, Stoppard resolveu recuperar parte de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A pe\u00e7a, situada entre Cambridge, Inglaterra, e Praga, Tchecoslov\u00e1quia, engloba o per\u00edodo 1968-1990.<br \/>\nJan, Max, Eleonor e Esme s\u00e3o os personagens principais da trama. Max, comunista de longa data, \u00e9 um conceituado professor de filosofia. Sua mulher, Eleonor, \u00e9 uma professora de grego cl\u00e1ssico. Por fim, Esme, a filha do casal, uma adolescente de 16 anos, flower-child, esp\u00e9cie de hippie juvenil, que vive a sua viagem psicod\u00e9lica.<br \/>\nA hist\u00f3ria come\u00e7a em Cambridge, quando Jan, tcheco, aluno favorito de Max, comunica ao seu velho mestre que est\u00e1 de partida para Praga. L\u00e1, a chegada de Alexander Dubcek ao poder, em janeiro de 1968, anuncia a sonhada combina\u00e7\u00e3o entre socialismo e democracia. Este movimento se tornou conhecido como a Primavera de Praga, uma declara\u00e7\u00e3o de ruptura contra a burocracia stalinista que se fazia passar por comunismo.<br \/>\nEnt\u00e3o, se o clima \u00e9 de abertura, de aproxima\u00e7\u00e3o com o ocidente, que melhor forma de concretizar, culturalmente, isto, do que na m\u00fasica. As revoltas s\u00e3o jovens e o que pode representar melhor a juventude do que o rock\u2019n\u2019 roll? Assim Jan, armado com a sua centena de vinis, acha que pode arrombar a cortina de ferro.<br \/>\nNa bagagem, ao inv\u00e9s de livros, discos dos Rolling Stones, Velvet Underground e, claro, Pink Floyd, cujo fundador, Syd Barret, tal qual o deus Pan (a guitarra substituindo a flauta), povoa o imagin\u00e1rio maconheiro e lis\u00e9rgico de Esme que acredita v\u00ea-lo tocar no seu jardim.<br \/>\nO sonho de Jan vira pesadelo quando em agosto de 1968 as tropas sovi\u00e9ticas do Pacto de Vars\u00f3via invadem a Tchecoslov\u00e1quia. Impedido de voltar para a Inglaterra, torna-se um dissidente, \u00e9 preso e tem seus vinis destru\u00eddos pela repress\u00e3o.<br \/>\nMas ele \u00e9 forte. E ao algoz Milan \u2013 o policial encarregado de perseguir a ele e ao seu amigo Fernando, outro dissidente \u2013 poderia contrapor os versos de Sapho, a poetisa grega t\u00e3o cara a Eleonor, escritos h\u00e1 dois mil e quinhentos anos: \u201cn\u00e3o me domes com ang\u00fastias e n\u00e1useas\u201d. Afinal, se o rock, segundo a \u00f3tica totalit\u00e1ria, \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o e<br \/>\ndecad\u00eancia, tamb\u00e9m pode significar resist\u00eancia. Foi o caso da Plastic People of Universe, banda de rock checa que tocava clandestinamente e teve seus m\u00fasicos presos.<br \/>\nEssa \u00e9 a hist\u00f3ria de Jan. Mas a dos outros personagens tamb\u00e9m poderia servir de fio condutor da trama como comprovam os desenlaces finais. N\u00e3o h\u00e1 um narrador espec\u00edfico e os pontos de vista, apesar de \u00e2ngulos ideol\u00f3gicos diferentes, s\u00e3o coerentes e revelam, sobretudo, maturidade.<br \/>\nEleonor, a mulher de Max, trata um c\u00e2ncer no seio. Mutilada p\u00f3s-opera\u00e7\u00e3o, recusa o apelido de amazona, e tal como a poetisa Sapho, cuja verve ensina para a insinuante Magda, mistura feminismo e sentimentos agu\u00e7ados, pois, como lembra ao marido: o seu corpo \u2013 sem um seio, ov\u00e1rio, ou outra coisa que as diversas cirurgias possam ter extirpado do seu organismo \u2013 n\u00e3o \u00e9 nada sem a sua alma, persona. Ou seja, aquilo que ela acha que \u00e9.<br \/>\nN\u00e3o estaria a\u00ed \u2013 nesse discurso angustiado, desesperado, o mais pungente da pe\u00e7a, onde a vis\u00e3o da ess\u00eancia precedendo a exist\u00eancia parece ser a \u00faltima ilus\u00e3o de algu\u00e9m condenado \u2013 uma met\u00e1fora a ideologia marxista, ou, mais especificamente, aos avatares, como o stalinismo e seu car\u00e1ter totalit\u00e1rio, que ela gerou? S\u00e3o estas contradi\u00e7\u00f5es entre<br \/>\nideais e pr\u00e1xis que terminam por abalar as convic\u00e7\u00f5es de Max e o fazem comprometer-se, seja pela liberta\u00e7\u00e3o de Jan, seja assinando documentos de apoio \u00e0 causa dos dissidentes tchecos.<br \/>\nEsme \u2013 ao contr\u00e1rio de Jan, Max e Eleonor \u2013 \u00e9 uma folha em branco que, alienadamente, quer apenas entrar na corrente daquilo que considera o seu tempo, feito de rock, sexo e drogas. Sobreviver\u00e1, ter\u00e1 uma filha e, ao final, seguir\u00e1 com Jan, amor de juventude, para Praga, cidade cuja reden\u00e7\u00e3o, 22 anos depois, parece se concretizar atrav\u00e9s do show dos<br \/>\nStones, afinal: \u201cit\u2019s only rock\u2019n\u2019 roll (but I like)\u201d.<br \/>\nEsta \u00faltima cena, puro happy end, faz com que o texto de Stoppard represente uma luz no fim do t\u00fanel se comparado aos sombrios \u201cZero e infinito\u201d, romance, de Arthur Koestler, e \u201cAs m\u00e3os sujas\u201d, pe\u00e7a, de Jean Paul Sartre. Em ambas as obras de Koestler e Sartre, escritas nos anos 1940, transcende um mal-estar entre ideologia marxismo e l\u00f3gica stalinista, sendo os her\u00f3is destru\u00eddos em nome desta \u00faltima.<br \/>\nApesar do parentesco, em parte, tem\u00e1tico, este n\u00e3o \u00e9 o caso de \u201cRock \u2018n\u2019 Roll\u201d onde, exceto Eleonor, que n\u00e3o sobrevive ao c\u00e2ncer, os demais personagens t\u00eam a chance de amadurecer, rever suas posi\u00e7\u00f5es ou defend\u00ea-las e tentar ser feliz, pois nem tudo precisa ser eternamente cinza e depressivo na chuvosa Inglaterra. Afinal, sartreanamente, cada indiv\u00edduo tem o direito de escolher seu caminho e engajar-se nele. \u00c9 esta a liberdade<br \/>\nexistencialista que panfleteia Stoppard.<br \/>\nAo preservar todos estes aspectos, Luciano Alabarse e Margarida Peixoto fizeram uma adapta\u00e7\u00e3o interessante e segura. O cen\u00e1rio \u00e9 despojado, amplo, perfeito para a evolu\u00e7\u00e3o da trupe de atores. Eles vestem bem os seus personagens, destacando o veterano Carlos Cunha Filho, pela economia, perfeito como o velho Max, comunista de carteirinha.<br \/>\nA m\u00fasica, outro ponto alto da pe\u00e7a, serve de fundo para as emo\u00e7\u00f5es transmitidas pelos personagens. Nisso, destaque para a participa\u00e7\u00e3o do multi-instrumentista Arthur Faria \u2013 tocando viol\u00e3o, piano e acorde\u00e3o \u2013 encarnando uma esp\u00e9cie de Syd Barrett gaud\u00e9rio. E \u00e0 inclus\u00e3o de composi\u00e7\u00f5es de Caetano Veloso \u2013 do seu ex\u00edlio londrino \u2013 enriquece a<br \/>\nadapta\u00e7\u00e3o brasileira dando um toque tropical sobre o final dos anos 1960. Vale a pena conferir. <em>(Francisco Ribeiro)<\/em><br \/>\n<strong>Marxismo, Ideologia e Rock\u2019n\u2019roll<\/strong><br \/>\nTeatro Renascen\u00e7a (Av. Erico Verissimo, 307)<br \/>\nQuinta, sexta e s\u00e1bado \u00e0s 21h<br \/>\nDomingo \u00e0s 18h<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trata-se de um texto forte, abarcando 22 anos de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, enfocando temas como totalitarismo, dissid\u00eancia, contracultura. N\u00e3o est\u00e1 muito longe \u00e0 idade de ouro da contesta\u00e7\u00e3o contra o sistema capitalista e, tamb\u00e9m, das manifesta\u00e7\u00f5es de sua ant\u00edtese, o dissidente comunista. 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