{"id":12783,"date":"2013-12-02T20:41:37","date_gmt":"2013-12-02T23:41:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12783"},"modified":"2013-12-02T20:41:37","modified_gmt":"2013-12-02T23:41:37","slug":"noiva-da-lagoa-volta-ao-local-do-crime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/noiva-da-lagoa-volta-ao-local-do-crime\/","title":{"rendered":"Noiva da Lagoa volta ao local do crime"},"content":{"rendered":"<p>Rafael Guimaraens, est\u00e1 na Feira do Livro de Os\u00f3rio, um dos munic\u00edpios-cen\u00e1rios do livro <em>A Dama da Lagoa<\/em>, que recupera dramaticamente o crime passional de agosto de 1940, quando uma jovem da elite portoalegrense chamada Maria Luiza (Lizinka) foi \u201centerrada\u201d na Lagoa dos Barros pelo namorado Heinz Schmeling. Com 216 p\u00e1ginas, <em>A Dama da Lagoa<\/em>, editado pela Libretos, vendeu 250 exemplares no maior evento liter\u00e1rio de Porto Alegre, a 59a Feira do Livro.<br \/>\nNeto de Eduardo Guimaraens, famoso poeta vinculado ao simbolismo, e filho do jornalista Carlos Rafael Guimaraens, Rafael n\u00e3o se ilude com o sucesso de vendas. O que ele mais teme \u00e9 que as pessoas comecem a ler e ponham o livro de lado. Nesse aspecto as not\u00edcias t\u00eam sido boas. O cronista Liberato Vieira da Cunha deixou na banca da Libretos um bilhete com um elogio expl\u00edcito ao autor.<br \/>\nCom uma dezena de obras publicadas, entre eles <em>A Enchente de 41<\/em> (em quarta edi\u00e7\u00e3o) e <em>O Crime da Rua da Praia<\/em> (em segunda edi\u00e7\u00e3o), que resgatou um assalto ocorrido em 1911 na capital ga\u00facha, Rafael n\u00e3o apenas contou direito a hist\u00f3ria do crime de 1940 como esbo\u00e7ou um painel da sociedade portoalegrense de 70 anos atr\u00e1s.<br \/>\nLogo nas primeiras p\u00e1ginas de <em>A Dama da Lagoa<\/em>, ao apresentar o contexto que cercou o crime, ele resume com leveza em 30 ou 40 linhas o clima german\u00f3filo do Sul do Brasil estadonovista. \u00c9 um flash revelador do envolvimento sulino com o redemoinho nazista.<br \/>\nAqui o rep\u00f3rter formado em 1976 revela uma habilidade muito al\u00e9m do jornalismo policial. N\u00e3o por acaso ele confessa gostar muito de novelas policiais. Quando crian\u00e7a, lia Agatha Christie, depois Conan Doyle, mais tarde os cl\u00e1ssicos Hammet, Chandler, Poe, Simenon, Rex Sout. Ultimamente est\u00e1 descobrindo a obra do Camilieri, criador do detetive Salvo Montalbano, \u201cmuito divertido\u201d, segundo ele.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">Nesta entrevista, Rafael Guimaraens explica seu trabalho.<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 \u2013 Por que o t\u00edtulo do livro n\u00e3o se conecta \u00e0 lenda que at\u00e9 hoje se refere \u00e0 Noiva da Lagoa? <\/span><br \/>\nRAFAEL \u2013 Existe a lenda da mo\u00e7a vestida de noiva que aparecia para os caminhoneiros, mas na realidade Lisinka n\u00e3o estava noiva de Heinz. E quando foi jogada na lagoa usava um vestido azul. Coloquei A Dama da Lagoa como uma refer\u00eancia ao livro do Raymond Chandler, tipo uma homenagem.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; As figuras policiais do livro A Dama da Lagoa s\u00e3o aut\u00eanticas? <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; S\u00e3o reais. O delegado Gadret era um policial implac\u00e1vel. Tive a alegria de encontrar a filha dele na sess\u00e3o de aut\u00f3grafos e ela disse que o retrato do pai est\u00e1 fiel. Referiu uma cena em que ele vai encontrar Heinz no Hospital Alem\u00e3o: \u201cParecia que eu estava vendo ele, com toda aquela energia\u201d.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; Seu pai Carlos Rafael Guimaraens era respeitado como jornalista e cronista. O que pegaste dele para tua carreira como escritor? <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; O pai escrevia muito bem. Tinha cultura, mem\u00f3ria e um texto muito rico, no qual perpassava uma ironia com a pr\u00f3pria erudi\u00e7\u00e3o. Seus contempor\u00e2neos o consideram o melhor de sua gera\u00e7\u00e3o. Convivemos muito na minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. Eu lia eventualmente seus textos, mas tomei contato mais pr\u00f3ximo com o conjunto da obra dele quando organizamos o livro Morcego em Paris, uma sele\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas que venceu o Pr\u00eamio A\u00e7orianos. No pref\u00e1cio, o Sergio da Costa Franco disse que o pai foi a pessoa mais inteligente que ele conheceu, o que n\u00e3o \u00e9 pouco.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 \u2013 E teu av\u00f4, o poeta Eduardo Guimaraens? Nem o pai o conheceu, porque tinha s\u00f3 dois anos quando ele morreu.<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 \u2013 Todos os teus livros t\u00eam algo em comum: s\u00e3o baseados em fatos reais. Tens mais algum engatilhado? <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Meus livros s\u00e3o basicamente de jornalismo com \u00eanfase na mem\u00f3ria, seja de fatos pontuais, como Trag\u00e9dia da Rua da Praia, Enchente de 41, Unidos pela Liberdade e A Dama da Lagoa, ou de movimentos, como Trem de Volta &#8211; Teatro de Equipe, Teatro de Arena \u2013 Palco de Resist\u00eancia e Abaixo a Repress\u00e3o \u2013 Movimento Estudantil e as Liberdade Democr\u00e1ticas. Mas em Trag\u00e9dia da Rua da Praia e A Dama da Lagoa eu exercito esse possibilidade de tratar de um fato real com uma narrativa de romance ou novela.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">JA \u2013 \u00c9 verdade que est\u00e1s escrevendo uma fic\u00e7\u00e3o 100%. <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Estou escrevendo uma hist\u00f3ria meio com\u00e9dia, meio policial, cujo personagem \u00e9 um m\u00fasico consagrado que, por v\u00e1rias circunst\u00e2ncias, caiu em desgra\u00e7a e ganha a vida tocando sax vestido de palha\u00e7o, contratado por uma loja de cal\u00e7ados infantis. Ele se muda para um apartamento onde houve um crime violento e sua curiosidade o leva a v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es divertidas e dram\u00e1ticas. Por enquanto posso dizer que estou me divertindo muito e n\u00e3o tenho muito ideia de como isto vai acabar.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; Quanto tempo levaste para fazer A Dama da Lagoa? <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Essa hist\u00f3ria me interessa h\u00e1 muito tempo. Passei a inf\u00e2ncia no bairro Moinhos de Vento e tenho ascend\u00eancia alem\u00e3 por parte da minha m\u00e3e, Dona Vera, falecida em janeiro deste ano. Ela conhecia tanto o Heinz quanto a Lisinka e sempre falava da hist\u00f3ria. V\u00e1rias vezes comecei a trabalhar no projeto, mas era obrigado a me desviar para outras coisas, at\u00e9 que no final do ano passado resolvi encarar a empreitada.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; Recorreste a algum consultor para manter o rumo da hist\u00f3ria? <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Posso dizer que meu consultor foi o Carlos Augusto Bisson, que recuperou a hist\u00f3ria em seu livro sobre o bairro Moinhos de Vento. Trocamos muitas ideias e cogita\u00e7\u00f5es.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; Foste aos locais do crime: a rua Casemiro de Abreu, a constru\u00e7\u00e3o onde o assassino pegou os tijolos para \u201centerrar\u201d a mo\u00e7a, o posto da Mangueira na rua Benjamin Constant, a Lagoa dos Barros?<\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Fui aos locais. Tive muita dificuldade para encontrar o local exato onde o corpo foi sepultado na Lagoa \u2013 na verdade, n\u00e3o consegui. O posto de gasolina n\u00e3o existe mais. A constru\u00e7\u00e3o na Bordini era um sobrado de dois andares, perto da Marqu\u00eas do Herval.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; No livro h\u00e1 dois jornalistas rivais, um Koetz e outro Neumann, o primeiro rep\u00f3rter do Correio do Povo, o segundo um jornalista dupl\u00ea de policial que trabalhava o Di\u00e1rio de Not\u00edcias: eles existiram ou s\u00e3o personagens inventados para retratar facetas contradit\u00f3rias do jornalismo?<\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Paulo Koetz existiu, foi o cara que achou a p\u00e9rola do colar da mo\u00e7a, mas eu n\u00e3o tinha muitas informa\u00e7\u00f5es sobre ele e acabei moldando o personagem \u00e0 hist\u00f3ria. J\u00e1 o rep\u00f3rter do Di\u00e1rio era um<br \/>\nfuncion\u00e1rio da Pol\u00edcia, mas n\u00e3o sei o nome e n\u00e3o encontrei refer\u00eancias e, assim, fundi com o editor da Vida Policial, a revista dos investigadores.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; Percentualmente, de suas 216 p\u00e1ginas, quanto o livro tem de fic\u00e7\u00e3o? Uns 15%? <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Acho que \u00e9 um bom percentual.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">J\u00c1 &#8211; Todos os teus livros t\u00eam um p\u00e9 firme na realidade concreta, s\u00e3o ancorados em alguma hist\u00f3ria real, mas parece que te inclinas seriamente para a fic\u00e7\u00e3o. Est\u00e1s seguro de que esse caminho \u00e9 seguro? <\/span><br \/>\nRAFAEL &#8211; Neste livro que estou tentando escrever, me inspiro em algumas constru\u00e7\u00f5es que meu pai fazia em textos mais ir\u00f4nicos. Mas a minha escrita \u00e9 bem simples, nada sofisticada. Acho que meus livros t\u00eam como caracter\u00edstica o ritmo da narrativa. O pior que pode acontecer a um escritor n\u00e3o \u00e9 que as pessoas n\u00e3o comprem os livros dele, mas que o leitor comece a ler e desista. Penso nisso o tempo todo enquanto estou escrevendo. Por enquanto, est\u00e1 dando certo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">A M\u00c3O DE CL\u00d4 BARCELOS <\/span><br \/>\nDesde o infantil O Livr\u00e3o e o Jornalzinho, os livros de Rafael Guimaraens s\u00e3o editados por Cl\u00f4 Barcelos, a alma da Libretos, a editora mais em evid\u00eancia no panorama liter\u00e1rio riograndense. Com cerca de 50 t\u00edtulos, todos com o rigor cr\u00edtico da ex-diagramadora da Plural Comunica\u00e7\u00e3o (revistas Amanh\u00e3 e Aplauso), a pequena editora familiar teve em 2013 o seu ano mais produtivo: lan\u00e7ou 12 livros \u2013 cinco autosustentados, cinco copatrocinados e dois incentivados.<br \/>\n\u00c9 uma evolu\u00e7\u00e3o significativa em rela\u00e7\u00e3o aos seus primeiros anos, quando a Libretos subsistiu gra\u00e7as \u00e0 edi\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e lan\u00e7amento de livros patrocinados ou incentivados por leis culturais. Apesar do sucesso da parceria, Cl\u00f4 e Rafael temem que o excesso de visibilidade possa criar percal\u00e7os para a sustentabilidade da editora. \u201cQuanto mais alto o voo, maior o risco\u201d, diz ela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rafael Guimaraens, est\u00e1 na Feira do Livro de Os\u00f3rio, um dos munic\u00edpios-cen\u00e1rios do livro A Dama da Lagoa, que recupera dramaticamente o crime passional de agosto de 1940, quando uma jovem da elite portoalegrense chamada Maria Luiza (Lizinka) foi \u201centerrada\u201d na Lagoa dos Barros pelo namorado Heinz Schmeling. 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