{"id":12819,"date":"2013-12-11T10:26:25","date_gmt":"2013-12-11T13:26:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12819"},"modified":"2013-12-11T10:26:25","modified_gmt":"2013-12-11T13:26:25","slug":"grupo-zero-ou-uma-ode-a-inventividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/grupo-zero-ou-uma-ode-a-inventividade\/","title":{"rendered":"Grupo Zero, ou uma ode \u00e0 inventividade"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 quatro de mar\u00e7o de 2014 a Funda\u00e7\u00e3o Iber\u00ea Camargo (FIC) oferece \u00e0 visita\u00e7\u00e3o uma reuni\u00e3o de obras que possibilita uma vis\u00e3o geral de uma das principais vanguardas art\u00edsticas que, entre os anos 1950-60, deu um sopro de renova\u00e7\u00e3o nas artes pl\u00e1sticas, e cuja influ\u00eancia se faz sentir na atualidade. Trata-se da Exposi\u00e7\u00e3o Zero, que congrega trabalhos de 24 artistas da Europa e da Am\u00e9rica do Sul, cujas inspira\u00e7\u00f5es maiores s\u00e3o a luz e o movimento.<br \/>\nAl\u00e9m de pe\u00e7as do n\u00facleo fundador do grupo Zero de Dussseldorf \u2013 Heinz Mack, Otto Piene e G\u00fcnther Uecker \u2013, obras do franc\u00eas Yves Klein, do argentino Lucio Fontana, e dos brasileiros H\u00e9rcules Barsotti, Abraham Palatnik e Lygia Clark.<br \/>\nOs octogen\u00e1rios artistas alem\u00e3es Otto Piene (1928), G\u00fcnther Uecker (1930) e Heinz Mack (1931), viveram em suas inf\u00e2ncias e parte de suas adolesc\u00eancias o apogeu e a derrocada do nazismo.<br \/>\nMas se tiveram a sorte de sobreviver aos intensos bombardeios dos aliados ao final da II guerra mundial, tamb\u00e9m viram seu pa\u00eds ser dividido, ocupado e carregar uma mistura de sentimentos que iam da vergonha pela derrota a culpa por desencadear um conflito que matou cerca de 60 milh\u00f5es de pessoas.<br \/>\nEnfim, testemunharam, sofreram, e habitaram alguns dos cen\u00e1rios que serviram de inspira\u00e7\u00e3o para o genial e depressivo neorrealismo italiano, cujo filme \u201cAlemanha, ano zero\u201d, 1948, de Roberto Rossellini, foi o melhor retrato do in\u00edcio do p\u00f3s-guerra. Em tal contexto hist\u00f3rico e emocional, que futuro poderia almejar um jovem artista?<br \/>\nEstudar bastante e estar pronto para a d\u00e9cada seguinte, os gloriosos anos 1950, sacudidos pelo jazz, nouvelle vague, rock and roll e, mais modestamente, a bossa nova. \u00c9 nessa atmosfera de renouveau que em 1957, em Dussseldorf, Heinz Mack e Otto Piene criam o grupo Zero, logo seguido pela publica\u00e7\u00e3o de uma revista hom\u00f4nima, cuja t\u00f4nica art\u00edstica seria trabalhar com dois componentes principais: a luz e a sua din\u00e2mica. G\u00fcnther Uecker se juntaria ao grupo em 1961, formando a trinca original e cujo ide\u00e1rio est\u00e9tico ganharia adeptos pelo mundo, principalmente nas cidades de Amsterd\u00e3, Mil\u00e3o e Paris.<br \/>\nO grupo, atrav\u00e9s dos seus pr\u00f3prios autores, foi dissolvido em 1967. Mas a semente experimental continua influenciando artistas, como salientou a historiadora de arte, Heike van den Valentyn, da Funda\u00e7\u00e3o Zero de Dusseldorf, respons\u00e1vel pela curadoria do evento no Brasil que, al\u00e9m de Porto Alegre, j\u00e1 foi apresentado em Curitiba e, a partir de abril de 2014, acontecer\u00e1 em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nSegundo ela, as idades avan\u00e7adas foram o principal empecilho para a presen\u00e7a de, pelo menos, um dos artistas da trinca original, mas cujos depoimentos o p\u00fablico pode assistir atrav\u00e9s de um document\u00e1rio veiculado no terceiro piso da FIC. Nele, os, aparentemente, saud\u00e1veis velhinhos, falam das agruras de uma Alemanha \u201cque parecia um cemit\u00e9rio\u201d, como lembra Mack, e, p\u00f3s-milagre econ\u00f4mico, a reden\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma arte feita de inven\u00e7\u00e3o e experimentalismo como salientam Piene e Uecker.<br \/>\nOriginalidade e aud\u00e1cia s\u00e3o coisas que n\u00e3o faltam nessa exposi\u00e7\u00e3o que ocupa o terceiro e o quarto andar da FIC. Mas, j\u00e1 no t\u00e9rreo, a incr\u00edvel instala\u00e7\u00e3o de Otto Piene (Lichtraum,) \u2013 criada em 1961, um verdadeiro bal\u00e9 de luzes e movimento ativado por aparelhos mec\u00e2nicos \u2013 incita a imagina\u00e7\u00e3o para poss\u00edveis surpresas fe\u00e9ricas nos pisos acima.<br \/>\nNo quarto andar, trabalhos de Yves Klein (1928-1962) \u2013 como \u201cassiete bleu\u201d e \u201crelief planetaire\u201d \u2013 nos remetem ao seu mundo monocrom\u00e1tico, destacando-se o azul, sua obsess\u00e3o, e o que o leva, inclusive, a criar o IKB (International Klein Blue), seu luminoso ultramarino \u2013 feito a partir de pigmento misturado uma determinada resina \u2013 registrado, inclusive, como patente industrial.<br \/>\nAo lado de Klein, o mestre que inspirou o seu monocromatismo, Lucio Fontana (1899-1968), cujas esferas de bronze comp\u00f5em o \u201cConcetto Spaziale\u201d, de 1959-60. Isso nos faz mergulhar no movimento spacialista, fundado pelo pr\u00f3prio Fontana que, enquanto pintor, era inconformado com o limite bidimensional (altura e largura) da tela. Atrav\u00e9s de incis\u00f5es, cortes, conseguiu materializar a dimens\u00e3o de profundidade, juntando, com isso, tamb\u00e9m a ilus\u00e3o de temporalidade. Aplicou este conceito em suas esculturas, por isso, as fendas nas esferas. Ao falar de espa\u00e7o-tempo, arte total, e refor\u00e7ar a ideia conceitual, Fontana transformou-se no principal inspirador do grupo Zero.<br \/>\nNoutros ambientes do terceiro e quarto andares, causam estranhamento as instala\u00e7\u00f5es de: G\u00fcnther Uecker e sua \u201cLichtregen\u201d, composta de tubos de alum\u00ednio e luzes de neon, de 1966; o curioso arranjo intitulado \u201cKleines Segel\u201d \u2013 elaborado entre 1964-67, e feito de tecido de chiffon azul, lastros de perca e ventilador el\u00e9trico \u2013 do alem\u00e3o Hans Haacke; o monumental \u201cSpiegelwand und mobile\u201d, de 1963, um ambiente formado por espelho, madeira, linha, do sui\u00e7o Christian Megert; e o misterioso e assustador \u201cSpazio el\u00e1stico\u201d, um ambiente de luz ultravioleta e anima\u00e7\u00e3o eletromec\u00e2nica, concebido em 1967-68, pelo italiano Gianni Colombo.<br \/>\nDe todos estes trabalhos se sente uma energia cujos movimentos, luzes ou som de motores parece interagir com o espa\u00e7o arquitet\u00f4nico da FIC e seus visitantes. E tamb\u00e9m com o ambiente exterior, enquadrando-se numa das principais concep\u00e7\u00f5es vanguardistas do s\u00e9culo XX e que segue nesse come\u00e7o de novo mil\u00eanio: quebrar barreiras, fronteiras entre pintura, escultura, arquitetura, etc. O grupo Zero encarnou uma esp\u00e9cie de renascimento e, por isso, em meio a estas estruturas \u2013 algumas concebidas h\u00e1 mais de 50 anos \u2013 que ainda hoje parecem futuristas, a arte dialoga com a ci\u00eancia, e em meio \u00e0s instala\u00e7\u00f5es pode-se imaginar o espectro de Leonardo da Vinci.<br \/>\n<strong>Francisco Ribeiro<\/strong><br \/>\nExposi\u00e7\u00e3o Zero<br \/>\nFunda\u00e7\u00e3o Iber\u00ea Camargo (Av. Padre Cacique, 2000)<br \/>\nAt\u00e9 quatro de mar\u00e7o de 2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 quatro de mar\u00e7o de 2014 a Funda\u00e7\u00e3o Iber\u00ea Camargo (FIC) oferece \u00e0 visita\u00e7\u00e3o uma reuni\u00e3o de obras que possibilita uma vis\u00e3o geral de uma das principais vanguardas art\u00edsticas que, entre os anos 1950-60, deu um sopro de renova\u00e7\u00e3o nas artes pl\u00e1sticas, e cuja influ\u00eancia se faz sentir na atualidade. 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