{"id":12835,"date":"2013-12-16T13:25:15","date_gmt":"2013-12-16T16:25:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12835"},"modified":"2013-12-16T13:25:15","modified_gmt":"2013-12-16T16:25:15","slug":"a-forca-dos-novos-cineastas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-forca-dos-novos-cineastas\/","title":{"rendered":"Os novos diretores de cinema no Festival de Ver\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Os filmes \u201cEles voltam\u201d, de Marcelo Lordello, e \u201cO Rio nos pertence\u201d, de Ricardo Pretti, s\u00e3o dois exemplos da garra e do talento da nova gera\u00e7\u00e3o de cineastas brasileiros.<br \/>\nEles provam, como outros em todas as \u00e9pocas, que mesmo com or\u00e7amentos limitad\u00edssimos \u00e9 poss\u00edvel fazer obras de grande qualidade narrativa.<br \/>\nOs dois trabalhos est\u00e3o na avant-premi\u00e8re da nona edi\u00e7\u00e3o do Festival de Ver\u00e3o de Cinema Internacional, evento produzido pela Panda Filmes, e que acontece at\u00e9 19 de dezembro nas salas Paulo Amorim (Casa de Cultura M\u00e1rio Quintana) e Instituto NT.<br \/>\nO brasiliense radicado em Pernambuco, Marcelo Lordello, e o carioca Ricardo Pretti mostraram em seus longas-metragens \u2013 \u201cEles voltam\u201d e o \u201cO Rio nos pertence\u201d \u2013 dom\u00ednio formal e narrativo, seja tratando do tema da sobreviv\u00eancia, caso do primeiro; ou da solid\u00e3o, do desespero, da puls\u00e3o de morte, no segundo.<br \/>\nA obra de Lordello recebeu v\u00e1rios pr\u00eamios no 45\u00b0 Festival de Bras\u00edlia, como o de melhor filme e melhor atriz para Maria Luiza Tavares; j\u00e1 a de Pretti integra o projeto Opera\u00e7\u00e3o S\u00f4nia Silk, uma cooperativa reunindo a mesma equipe de t\u00e9cnicos e atores para a produ\u00e7\u00e3o de tr\u00eas filmes, dois dos quais j\u00e1 realizados.<br \/>\n\u201cEles voltam\u201d conta, fundamentalmente, a hist\u00f3ria de Cris (Maria Luiza Tavares), uma menina de 12 anos abandonada junto com o irm\u00e3o numa estrada. O longo plano inicial do filme mostra uma rodovia movimentada que poderia estar na periferia de qualquer grande cidade brasileira: o capinzal, o barranco, o vai-e-vem de transeuntes humildes.<br \/>\nTudo inspira desola\u00e7\u00e3o e medo. \u00c9 neste cen\u00e1rio que Cris e Peu, um pouco mais velho, foram largados pelos pais ap\u00f3s uma briga. Castigo? Provavelmente, s\u00f3 que eles n\u00e3o voltam para busc\u00e1-los e o irm\u00e3o resolve ir at\u00e9 o posto mais pr\u00f3ximo para pedir ajuda. Peu tamb\u00e9m n\u00e3o regressa.<br \/>\n<span class=\"intertit\">De gata borralheira \u00e0 princesa<\/span><br \/>\nCome\u00e7a a aventura de Cris que, inicialmente, \u00e9 acolhida por uma fam\u00edlia muito pobre, mas digna e solid\u00e1ria, capaz de aliment\u00e1-la e abrig\u00e1-la. Ela se conforma com o que lhe d\u00e3o e pedem pra fazer, inclusive ajudar a mulher que a acolheu em seu trabalho de faxineira.<br \/>\n\u00c9 nesta faina que Cris, caminhando pela praia, reconhece a casa de veraneio dos pais. Trata-se, como diria o rec\u00e9m-falecido Syd Field, mestre da arte do roteiro, do grande ponto de virada da hist\u00f3ria que, contudo, continua enigm\u00e1tica, mas coloca o espectador em p\u00e9 de igualdade com a protagonista e, a partir da\u00ed, sabe tanto quanto ela.<br \/>\nCris, at\u00e9 ent\u00e3o v\u00edtima de imposi\u00e7\u00f5es \u2013 o abandono pela fam\u00edlia, n\u00e3o importa as atenuantes, ou a conformidade com os c\u00f3digos da fam\u00edlia que a abriga \u2013 pode assumir a sua identidade de classe-media alta, coisa que intuitivamente escondia. Corre para a casa vazia. E ali, j\u00e1 integrada ao seu meio, pede socorro \u00e0 vizinha, que a reconhece e acolhe, e se prop\u00f5e a lev\u00e1-la de volta para o Recife.<br \/>\nA nova condi\u00e7\u00e3o de Cris que, de gata borralheira, volta a ser princesa, \u00e9 sutilmente mostrada na caminhada que faz pela praia junto com a filha da faxineira, na troca de olhares que evidencia o mal-estar e a dist\u00e2ncia social que as separa.<br \/>\nMas o casulo foi quebrado. Ela sobreviveu \u00e0 descoberta da exist\u00eancia de outros mundos, inclusive o do sexo, que ela vislumbra, na penumbra, a pouca dist\u00e2ncia, entre a vizinha e o namorado dentro da piscina. Cris, em seu ritual de inicia\u00e7\u00e3o de passagem da inf\u00e2ncia a adolesc\u00eancia adquiriu novas experi\u00eancias e conhecimentos.<br \/>\nResta saber o que far\u00e1 com essas lembran\u00e7as, algumas amargas, como as imagens que gravou no seu celular, e que testemunham o seu abandono. No final da hist\u00f3ria, diante dos pais hospitalizados, revelar\u00e1 uma for\u00e7a superior a do irm\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Narrativa sombria<\/span><br \/>\nEmbora seja enigm\u00e1tico como \u201cEles voltam\u201d, o filme de Pretti \u00e9 uma narrativa sombria e sem esperan\u00e7a existencial. A hist\u00f3ria, falada em ingl\u00eas e portugu\u00eas, conta o percurso de Marina (Leandra Leal), uma jovem de classe m\u00e9dia que ap\u00f3s dez anos fora do Brasil resolve \u2013 depois de receber um cart\u00e3o postal onde est\u00e1 escrito, em caracteres que parecem sangue,<br \/>\n\u201cO Rio nos pertence\u201d \u2013 voltar \u00e0 cidade e acertar pend\u00eancias: com a irm\u00e3 (Mariana Ximenes); com o ex-namorado (Jiddu Pinheiro); e elucidar a morte dos pais que, segundo ela, foram assassinados. Na verdade, trata-se de homologar rupturas, pois o baixo astral em que se encontra Marina s\u00f3 lhe aponta um caminho: morte. Real ou simb\u00f3lica, a fuga.<br \/>\nOs cen\u00e1rios de \u201cO Rio nos pertence\u201d, mesmo quando denotam algum requinte, conotam atmosferas m\u00f3rbidas, p\u00f3s-vel\u00f3rio. Os di\u00e1logos s\u00e3o tensos e desesperados. O \u00fanico al\u00edvio vem das imagens de alguns planos exteriores, fechados, que mostram partes de matas, peda\u00e7os de montanha, e o mar.<br \/>\nSe os planos fossem abertos revelariam a mis\u00e9ria social, e a viol\u00eancia decorrente que manchou de sangue os cart\u00f5es postais da cidade. Neste universo claustrof\u00f3bico, de onde emergem as ilhas envoltas na neblina, o sol que cobre a Guanabara \u00e9 negro como a depress\u00e3o. Resta a pergunta: a quem pertence o Rio?<br \/>\nSob o ponto de vista formal, Pretti \u00e9 bastante ousado e tecnicamente \u2013 pelo uso que faz da c\u00e2mera, efeitos e montagem \u2013, materializa alguns aspectos psicol\u00f3gicos da personagem cuja melancolia oscila entre a perda do sentimento de para\u00edso, e o mergulho no inferno, entremeados por cita\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas e filos\u00f3ficas, da B\u00edblia a Nietzsche. Com esta tem\u00e1tica, corporificando uma narrativa cheia de s\u00edmbolos e puls\u00f5es, Pretti se associa a escola do finado diretor Walter Hugo Khoury. E Ingmar Bergman, se ainda vivesse, certamente lhe mandaria uma mensagem de felicita\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNestes filmes, Lordello e Pretti prop\u00f5em um interessante di\u00e1logo com a classe m\u00e9dia brasileira, diferente daquele efetuado pelo Cinema Novo, e que foi brilhantemente dissecado por Jean-Claude Bernadet no livro \u201cBrasil em tempo de cinema\u201d, de 1967. Passou, praticamente, meio s\u00e9culo, pouca gente ainda fala em ditadura do proletariado, e se os problemas de base do pa\u00eds n\u00e3o foram resolvidos, o caminho para discuss\u00e3o est\u00e1 livre.<br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o falta proposta para acabar com aquele resqu\u00edcio de \u201cSobrados e Mucambos\u201d, que falava Gilberto Freyre, e que se faz notar no in\u00edcio de \u201cEles voltam\u201d. Enfim, Lordello e Pretti, trint\u00f5es recentes, geram grandes expectativas sobre os seus pr\u00f3ximos trabalhos.<br \/>\n[notice]Festival de ver\u00e3o de cinema internacional: avant-premi\u00e8re<br \/>\nAt\u00e9 19 de dezembro<br \/>\nSala Paulo Amorim \u2013 CCMQ (Rua dos Andradas, 736)<br \/>\nInstituto NT (Rua Marques do Pombal, 1111)<br \/>\nInforma\u00e7\u00f5es sobre a programa\u00e7\u00e3o e hor\u00e1rios dos filmes:[\/notice]<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/festivalveraors\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.facebook.com\/festivalveraors<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os filmes \u201cEles voltam\u201d, de Marcelo Lordello, e \u201cO Rio nos pertence\u201d, de Ricardo Pretti, s\u00e3o dois exemplos da garra e do talento da nova gera\u00e7\u00e3o de cineastas brasileiros. 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