{"id":12870,"date":"2013-12-20T20:32:29","date_gmt":"2013-12-20T23:32:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12870"},"modified":"2013-12-20T20:32:29","modified_gmt":"2013-12-20T23:32:29","slug":"historia-da-tropicalizacao-da-soja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/historia-da-tropicalizacao-da-soja\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria da tropicaliza\u00e7\u00e3o da soja"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nAt\u00e9 50 anos atr\u00e1s, a cana-de-a\u00e7\u00facar, a laranjeira e o cafeeiro eram os principais exemplos da f\u00e1cil adapta\u00e7\u00e3o de vegetais ex\u00f3ticos ao clima e aos solos do Brasil. Aqui e ali, tamb\u00e9m se pode apontar a boa assimila\u00e7\u00e3o do algodoeiro, do arroz, do coqueiro, do eucalipto e da videira, plantas presentes no territ\u00f3rio nacional h\u00e1 pelo menos um s\u00e9culo. Entretanto, nenhum caso foi t\u00e3o r\u00e1pido e intenso quanto o da soja. Em apenas meio s\u00e9culo a leguminosa chinesa Glycine max passou por um processo de &#8220;tropicaliza\u00e7\u00e3o&#8221; sem precedentes.<br \/>\n[floated align=&#8221;left&#8221;]Tendo partido do zero nos anos 1960, a soja representa hoje 50% do produto agr\u00edcola brasileiro.[\/floated]<br \/>\nO gr\u00e3o inicialmente cultivado em ro\u00e7as coloniais no clima temperado do Sul do Brasil adaptou-se de forma espantosa \u00e0s terras quentes do Brasil Central, do Nordeste e da Amaz\u00f4nia. Nesse avan\u00e7o, apresentou ainda not\u00e1veis ganhos de produtividade e de qualidade. Maior exportador mundial de soja, o Brasil pode conquistar na safra a ser colhida no primeiro semestre de 2014 o titulo de campe\u00e3o mundial na produ\u00e7\u00e3o de soja, desbancando os EUA de um reinado secular.<br \/>\nO m\u00e9rito dessa conquista \u00e9 coletivo e deve ser dividido entre pelo menos sete protagonistas:<br \/>\n1 &#8211; os agricultores, que apostaram sem medo na leguminosa, a ponto de dar origem a dois \u201creis da soja\u201d \u2013 Olacyr de Moraes nos anos 1970\/80 e Blairo Maggi na d\u00e9cada de 1990 \u2013, assim chamados por produzir grandes volumes em \u00e1reas da chamada fronteira agr\u00edcola, explorando terras nunca antes cultivadas;<br \/>\n2 &#8211; os pesquisadores, que desenvolveram novas variedades de sementes e defenderam a nova cultura de doen\u00e7as e pragas;<br \/>\n3 &#8211; a ind\u00fastria de beneficiamento da soja, que construiu plantas no rastro das fronteiras abertas pela soja;<br \/>\n4 &#8211; os produtores de m\u00e1quinas, implementos e insumos;<br \/>\n5 &#8211; os importadores de soja e seus derivados;<br \/>\n6 &#8211; o governo, que andou na frente (oferecendo cr\u00e9dito farto) e vem correndo atr\u00e1s (na oferta de infraestrutura);<br \/>\n7 \u2013 S\u00e3o Pedro, que mais ajudou do que atrapalhou na expans\u00e3o e no fortalecimento do elo mais din\u00e2mico da cadeia do agroneg\u00f3cio.<br \/>\nTendo partido do zero nos anos 1960, a soja representa hoje 50% do produto agr\u00edcola brasileiro. Por tudo isso se pode afirmar que esta leguminosa rica em \u00f3leo, prote\u00ednas e outras virtudes nutricionais \u00e9 a protagonista central da maior aventura agrocient\u00edfica da hist\u00f3ria da humanidade na segunda metade do s\u00e9culo XX.<br \/>\nCabe perguntar se esse fen\u00f4meno teria acontecido com outra planta. A resposta \u00e9: provavelmente n\u00e3o. Falando a prop\u00f3sito da surpreendente adaptabilidade revelada pela Glycine max no Brasil, o agr\u00f4nomo Eduardo Antonio Bulisani (Jundia\u00ed, 1945-), ex-diretor adjunto do IAC, disse a este rep\u00f3rter em 1996: &#8220;N\u00e3o sei se houve uma tropicaliza\u00e7\u00e3o ou se, simplesmente, o deslocamento para o Brasil Central revelou um potencial gen\u00e9tico at\u00e9 ent\u00e3o apenas desconhecido na soja&#8221;.<br \/>\nAlguns anos antes, em 1988, quando lutava para n\u00e3o perder o cetro de \u201crei da soja\u201d, o banqueiro e empreiteiro de obras p\u00fablicas Olacyr de Moraes (It\u00e1polis, 1931-) admitiu a um rep\u00f3rter da revista Veja: &#8220;No fundo devemos quase tudo ao trabalho desses rapazes, t\u00e9cnicos e cientistas agr\u00edcolas&#8221;. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, essa foi a primeira vez que um representante da iniciativa privada reconheceu publicamente o m\u00e9rito do pessoal da pesquisa gen\u00e9tica na expans\u00e3o da cultura da soja em territ\u00f3rio brasileiro.<br \/>\nOlacyr tinha consci\u00eancia de que n\u00e3o teria alcan\u00e7ado sucesso sem ajuda t\u00e9cnica no cultivo de variedades adaptadas ao clima e ao solo de Ponta Por\u00e3 (MS), onde havia comprado terras virgens no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, quando a soja come\u00e7ava sua fenomenal arrancada no Sul do Brasil. Para adaptar a leguminosa aos solos \u00e1cidos do cerrado, o megagricultor emergente cercou-se de t\u00e9cnicos de ascend\u00eancia japonesa liderados por Tuneo Sediyama (It\u00e1polis, 1943-), PhD em gen\u00e9tica formado na Universidade Federal de Vi\u00e7osa, um dos principais n\u00facleos de estudo da soja no Brasil.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Esfor\u00e7o coletivo global<\/span><br \/>\nA tropicaliza\u00e7\u00e3o da soja foi um empreendimento conjunto de brasileiros, orientais, europeus e norte-americanos. A lista da legi\u00e3o de melhoristas da soja no Brasil come\u00e7a no final do s\u00e9culo XIX com o agr\u00f4nomo Gustavo D&#8217;Utra, autor do primeiro documento t\u00e9cnico sobre o cultivo de soja na Bahia no final do s\u00e9culo XIX; prossegue na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX com o franc\u00eas Guilherme Minssen, professor de agronomia em Pelotas; avan\u00e7a na d\u00e9cada de 1910 com o norte-americano E.C. Craig, professor de agronomia em Porto Alegre; continua na d\u00e9cada de 1920 com Henrique L\u00f6bbe, pesquisador do Minist\u00e9rio da Agricultura em S\u00e3o Sim\u00e3o, no cora\u00e7\u00e3o da zona cafeeira paulista; na d\u00e9cada de 1930 recebe o impulso do polon\u00eas Czeslaw Biezanko, que difunde a soja entre os colonos do norte do Rio Grande do Sul e, nos anos 1940, experimenta o esfor\u00e7o de propaganda de Neme Abdo Neme, do Instituto Agron\u00f4mico de Campinas.<br \/>\nSem d\u00favida, por\u00e9m, \u00e9 nos anos 1950 que a difus\u00e3o da soja se multiplica com o entusiasmo do agr\u00f4nomo paulista Jos\u00e9 Gomes da Silva, brilha no vale do Paraiba do Sul com Shiro Miyasaka e Geraldo Guimar\u00e3es; evolui no Sul com Jamil Feres, Jo\u00e3o Rui Jardim Freire e Francisco de Jesus Vernetti; na d\u00e9cada de 1960, rende tributo ao norte-americano Edgard Hartwig e curva-se diante do paulista Romeu Kiihl; e triunfa nos anos 1970 com Emidio Rizzo Bonato, Manoel Miranda, Francisco Terasawa, Johanna D\u00f6bereiner, Flavio Moscardi, Tuneo Sediyama et alllii&#8230;<br \/>\nPara ser completa, a lista precisaria conter muitos mais nomes. Apenas o time permanente de pesquisadores da soja mantido pela Embrapa congrega uma centena de agr\u00f4nomos, que trocam informa\u00e7\u00f5es e compartilham experimentos com entidades e empresas que trabalham pela propaga\u00e7\u00e3o da planta no Brasil.<br \/>\nDessa rede fazem parte o Instituto Agron\u00f4mico de Campinas; as faculdades de agronomia de Porto Alegre, Pelotas, Santa Maria, Curitiba, Piracicaba, Rio de Janeiro, Lavras e Vi\u00e7osa; o Ipagro, a Empasc, o Iapar, a Epamig e a Emgopa; e dezenas de esta\u00e7\u00f5es experimentais oficiais e\/ou campos particulares de melhoramento espalhados pelo Brasil com a cumplicidade de centenas de agricultores. Tudo isso sem contar institui\u00e7\u00f5es situadas nos Estados Unidos que ao longo da hist\u00f3ria colaboraram mais estreitamente com os t\u00e9cnicos brasileiros.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-13356\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag1.jpg\" alt=\"soja_pag1\" width=\"600\" height=\"397\" \/><\/a><br \/>\n<span class=\"intertit\">Metamorfose<\/span><br \/>\nA adapta\u00e7\u00e3o da soja ao Brasil baseou-se no melhoramento gen\u00e9tico de um material extremamente diversificado. Aqui se plantaram sementes origin\u00e1rias do Jap\u00e3o, da Europa e dos Estados Unidos.<br \/>\nA maior parte das variedades comerciais introduzidas no Brasil veio dos Estados Unidos, cujos t\u00e9cnicos haviam coletado material diretamente na China e em outros pontos da \u00c1sia \u2013 fato registrado no prefixo PI (Planta Introduzida) que se encontra na nomenclatura b\u00e1sica da soja norte-americana.<br \/>\nEm sua fant\u00e1stica metamorfose ocidental, a Glycine max cresceu em n\u00famero de cultivares, linhagens e variedades, recebendo por isso uma quantidade enorme de nomes pelos quais se tornou conhecida dos t\u00e9cnicos, comerciantes de sementes e agricultores.<br \/>\nEnquanto nos Estados Unidos, depois da Segunda Guerra Mundial, muitas variedades foram batizadas com o sobrenome de comandantes militares (Lee, Davis etc.), no Brasil criou-se o costume de homenagear o lugar onde a semente revelou sua import\u00e2ncia. Hoje no Brasil a soja possui centenas de &#8220;marcas regionais&#8221;.<br \/>\nParece fora de d\u00favida que a primeira variedade de soja conhecida no Brasil foi a Amarela ou Comum. Num trabalho intitulado &#8220;A Soja no Brasil&#8221;, que escreveu na d\u00e9cada de 1950 em parceria com Neme Abdo Neme e que n\u00e3o chegou a ser publicado em forma de livro, Jos\u00e9 Gomes da Silva anotou que a variedade Amarela ou Comum, muito cultivada pelos colonos ga\u00fachos, chegou a ser conhecida por &#8220;Rio Grande&#8221; em S\u00e3o Paulo na arrancada da Campanha da Soja, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950, quando a variedade mais difundida entre os agricultores paulistas era a Abura, &#8220;coletada h\u00e1 cerca de 20 anos, por t\u00e9cnicos do Instituto Agron\u00f4mico, entre lavradores japoneses do munic\u00edpio de Campinas&#8221;, segundo a pesquisa de Silva e Neme.<br \/>\nNa realidade, soube-se depois, a Abura foi doada ao IAC em meados da d\u00e9cada de 1930 pelo Consulado do Jap\u00e3o em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Pesquisa avan\u00e7a<\/span><br \/>\nTanto a Amarela\/Comum como a Abura eram consideradas boas produtoras de \u00f3leo para a \u00e9poca \u2013 com teores, respectivamente, de 18,3% e 19,37% \u2013, mas apresentavam alguns &#8220;defeitos&#8221;, escreveram Silva e Neme: acamavam com facilidade, &#8220;soltavam&#8221; as sementes (caracter\u00edstica das vagens conhecida tecnicamente por deisc\u00eancia) e eram suscet\u00edveis a nemat\u00f3ides.<br \/>\nParecida com a Abura, mas melhor do que ela, segundo os dois pesquisadores do IAC, era a 455, de porte ereto e menos prop\u00edcia a jogar longe os gr\u00e3os. Outras variedades coletadas nas col\u00f4nias japonesas do interior paulista foram as asi\u00e1ticas Otootan e Chosen, citadas como &#8220;boas forrageiras&#8221;, capazes de produzir em torno de 10 toneladas de massa verde por hectare, segundo ensaios de 1952\/53.<br \/>\nEm seu trabalho, baseado em dados do come\u00e7o da d\u00e9cada de 1950, Gomes da Silva e Neme admitem que, mesmo depois de realizar ensaios com cerca de 400 variedades de proced\u00eancia norte-americana, o pessoal do IAC ainda n\u00e3o tinha encontrado a soja &#8220;ideal para as nossas condi\u00e7\u00f5es&#8221;.<br \/>\nO que se buscava selecionar para cultivo em solo paulista eram principalmente plantas mais altas\/eretas e resistentes \u00e0 deisc\u00eancia (visando a colheita mec\u00e2nica, pois nessa \u00e9poca j\u00e1 operavam nas lavouras de gr\u00e3os algumas marcas de automotrizes importadas dos EUA); que n\u00e3o fossem suscet\u00edveis ao ataque de nemat\u00f3ides; que se mostrassem mais produtivas por \u00e1rea; e, finalmente, que apresentassem bons \u00edndices em dois aspectos essenciais \u2013 massa verde e teor de \u00f3leo.<br \/>\nDesse esfor\u00e7o objetivo de melhoramento gen\u00e9tico foram surgindo nomes que merecem registro como marcos da pr\u00e9-hist\u00f3ria da soja no Brasil. A nomenclatura das sementes testadas nos anos 1950 em diversos campos experimentais &#8220;cita&#8221; locais como Avar\u00e9, Ara\u00e7atuba, Alian\u00e7a, Morro Agudo, Pereira Barreto, Paran\u00e1 \u2013 quase todas, variedades selecionadas em munic\u00edpios paulistas onde estava presente o imigrante japon\u00eas chegado ao Brasil em 1908 com um punhado de gr\u00e3os de soja para cultivo rudimentar em hortas.<br \/>\nDessas variedades pioneiras, consideradas &#8220;r\u00fasticas&#8221;, a mais importante para o pessoal do IAC foi a Mogiana, coletada em 1947 na regi\u00e3o de Ribeir\u00e3o Preto. N\u00e3o fez grande carreira. No Sul, em 1960, os t\u00e9cnicos ga\u00fachos batizaram a variedade Pioneira (sele\u00e7\u00e3o do cruzamento Biloxi x Chosen). Tamb\u00e9m n\u00e3o foi longe, mas a grande aventura da transforma\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica da soja no Brasil estava come\u00e7ando.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Lideran\u00e7a t\u00e9cnica<\/span><br \/>\nEm todos os casos de sucesso das sementes desenvolvidas para as condi\u00e7\u00f5es brasileiras, a pesquisa realizada no Brasil contou com a retaguarda de cientistas de outros pa\u00edses, especialmente dos Estados Unidos. Henrique L\u00f6bbe, que na d\u00e9cada de 1920 testou cinco variedades asi\u00e1ticas (recebidas de um agr\u00f4nomo japon\u00eas que as trouxe da Manch\u00faria) e 59 variedades norte-americanas (adquiridas pessoalmente em viagem aos Estados Unidos) na esta\u00e7\u00e3o experimental do Minist\u00e9rio da Agricultura em S\u00e3o Sim\u00e3o (SP), manteve correspond\u00eancia com o agr\u00f4nomo William J. Morse, respons\u00e1vel pelo deslanche da lavoura de soja nos Estados Unidos na primeira metade do s\u00e9culo XX.<br \/>\nNum artigo publicado em 19 de fevereiro de 1928 em O Estado de S. Paulo, L\u00f6bbe afirma ter selecionado tr\u00eas muta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas, denominadas Jomichel, Julieta e Joalo, de ciclo vegetativo muito precoce (90 dias). Diz ainda ter obtido por cruzamento outra variedade, a Artofi, &#8220;muito produtiva, de tamanho grande e colora\u00e7\u00e3o original&#8221;.<br \/>\nDepois, nas d\u00e9cadas de 1930 e 1940, outros t\u00e9cnicos nativos ou estrangeiros contribu\u00edram para difundir a soja no Brasil. Os mais not\u00f3rios foram o polon\u00eas Czeslaw Biezanko (1895-1986), no Rio Grande do Sul, e o s\u00edrio naturalizado brasileiro Neme Abdo Neme (1908-1973), no estado de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nDe modo geral, entretanto, \u00e9 praticamente un\u00e2nime entre os t\u00e9cnicos que o nome-chave na hist\u00f3ria da soja no Brasil \u00e9 o do ribeir\u00e3opretano Jos\u00e9 Gomes da Silva (1925-1996).<br \/>\nEvidentemente beneficiado pelo trabalho de observa\u00e7\u00e3o, pesquisa e sele\u00e7\u00e3o dos t\u00e9cnicos mais antigos do Instituto Agron\u00f4mico de Campinas e de outras institui\u00e7\u00f5es, Gomes da Silva deu o pulo do gato quando, rec\u00e9m-formado em agronomia em 1946 em Piracicaba, passou dois anos fazendo mestrado em Iowa, nos Estados Unidos, de onde voltou, no final de 1948, disposto a promover aqui a exemplar integra\u00e7\u00e3o norte-americana entre lavoura, pesquisa, ind\u00fastria e governo.<br \/>\nNo final da d\u00e9cada de 1940 j\u00e1 se sabia em S\u00e3o Paulo e no Rio Grande do Sul que a simples garantia de compra de uma ind\u00fastria, por mais estimulante que fosse, n\u00e3o era suficiente para manter os agricultores no cultivo regular da soja.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Swift<\/span><br \/>\nO esfor\u00e7o da inglesa Swift para fomentar a produ\u00e7\u00e3o de soja no interior paulista, entre 1945 e 1948, deu bons resultados mas n\u00e3o foi \u00e0 frente, talvez por falta de uma lideran\u00e7a t\u00e9cnica que promovesse a necess\u00e1ria articula\u00e7\u00e3o entre todas as pontas do processo produtivo, especialmente entre a lavoura e a pesquisa.<br \/>\nFoi esse o papel de Gomes da Silva. Com sua dedica\u00e7\u00e3o \u2013 t\u00e3o grande que lhe rendeu o apelido de Z\u00e9 Sojinha \u2013 ele mostrou que, ao apontar caminhos e buscar novas sa\u00eddas, o pesquisador cient\u00edfico possui tamb\u00e9m uma miss\u00e3o pol\u00edtica.<br \/>\nContratado como pesquisador do IAC, Jos\u00e9 Gomes da Silva pegou na unha o esfor\u00e7o da ind\u00fastria de \u00f3leos por uma mat\u00e9ria-prima mais rendosa e segura que algod\u00e3o, amendoim, mamona e girassol.<br \/>\nEmbora articulado com a ind\u00fastria, visava principalmente ao consumidor. Na conviv\u00eancia com os norte-americanos, havia adquirido a convic\u00e7\u00e3o de que a leguminosa chinesa estava predestinada a ter grande futuro no Brasil. Falava com frequ\u00eancia na m\u00edstica da soja.<br \/>\n\u201cDesde o in\u00edcio eu pensei na soja como alternativa proteica para sanar a defici\u00eancia nutricional das popula\u00e7\u00f5es pobres do Brasil, especialmente do Nordeste\u201d, disse ele a este rep\u00f3rter em janeiro de 1996, alguns dias antes de morrer de um ataque card\u00edaco.<br \/>\nDono da Fazenda Bagua\u00e7u, em Pirassununga, onde desenvolveu principalmente o plantio regular da cana-de-a\u00e7\u00facar, Z\u00e9 Sojinha cultivava id\u00e9ias que lhe valeram a imagem de &#8220;comunista&#8221;. Para isso contribuiu seu engajamento na luta pela democratiza\u00e7\u00e3o da posse da terra.<br \/>\nNo in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 ele fundou em Campinas, junto com Carlos Lorena, tamb\u00e9m agr\u00f4nomo, a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Reforma Agr\u00e1ria, que ficou na hist\u00f3ria como um dos primeiros focos de resist\u00eancia ideol\u00f3gica \u00e0 ditadura militar implantada em 1964.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 como negar que a Glycine max tripudiou cruelmente sobre o idealismo socialista de Z\u00e9 Sojinha. Ele acreditava sinceramente que a soja poderia fortalecer a renda das pequenas propriedades e servir como instrumento de redistribui\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria.<br \/>\nNa realidade, deu-se o inverso: cultivada em larga escala, como monocultura, a planta contribuiu especialmente para reduzir o n\u00famero de minif\u00fandios e ampliar a concentra\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria no Brasil.<br \/>\n<!--nextpage--><br \/>\n<span class=\"intertit\">Santa Rosa<\/span><br \/>\nNo IAC, tudo dava certo. Em pouco tempo o esfor\u00e7o de Z\u00e9 Sojinha transformou-se na Campanha da Soja, empreendimento oficial financiado pela iniciativa privada. As despesas da Se\u00e7\u00e3o de Leguminosas do IAC passaram a ser parcialmente custeadas por f\u00e1bricas de \u00f3leos vegetais que inauguraram em S\u00e3o Paulo o modelo de financiamento de pesquisa empregado alguns anos mais tarde pelo Instituto Privado de Fomento \u00e0 Soja (Instisoja), criado no Rio Grande do Sul por iniciativa da Sociedade An\u00f4nima Moinhos Rio-Grandenses(Samrig), do grupo Bunge.<br \/>\nNa primeira metade da d\u00e9cada de 1950 a Anderson Clayton financiou a perman\u00eancia por uma temporada em Campinas do agr\u00f4nomo Leonard F. Williams, respons\u00e1vel pela linhagem L-326, mais tarde &#8220;nacionalizada&#8221; com o nome de Santa Rosa, a primeira grande variedade comercial brasileira.<br \/>\nO nome nacional foi colocado pelo t\u00e9cnico agr\u00edcola Juarez Pinto Gutterres (Viam\u00e3o, 1932-), respons\u00e1vel por ensaios realizados a partir de 1958 no munic\u00edpio ga\u00facho de Santa Rosa, para onde fora enviado pela Secretaria da Agricultura como agente fitossanit\u00e1rio. Lan\u00e7ada em 1966 na I Festa Nacional da Soja, em Santa Rosa, foi essa a primeira semente obtida no Brasil como resultado do cruzamento de linhagens norte-americanas (D49-772 x La41-1219).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-13345\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag2.jpg\" alt=\"soja_pag2\" width=\"400\" height=\"541\" \/><\/a><br \/>\nPor longo per\u00edodo foi a mais cultivada em toda a regi\u00e3o meridional brasileira, do Rio Grande do Sul at\u00e9 S\u00e3o Paulo. Na mesma \u00e9poca fez carreira uma meia irm\u00e3 dela, a Industrial (Mogiana x La41-1219), tamb\u00e9m sa\u00edda das m\u00e3os de Gutterres.<br \/>\n&#8220;A Santa Rosa estava &#8216;perdida&#8217; na esta\u00e7\u00e3o experimental de J\u00falio Castilhos quando eu resolvi fazer uns ensaios para ajudar os colonos que s\u00f3 tinham a Amarela para plantar&#8221;, lembra Gutterres, formado em 1953 na Escola T\u00e9cnica Agr\u00edcola de Viam\u00e3o, nos arredores de Porto Alegre.<br \/>\nDurante seus primeiros anos como funcion\u00e1rio da Secretaria da Agricultura, ele havia trabalhado precisamente na chamada &#8220;esta\u00e7\u00e3o experimental da serra&#8221;, no munic\u00edpio de J\u00falio de Castilhos. Em Santa Rosa, onde acabou realizando a maior parte de sua carreira \u2013 a partir de 1961 como pesquisador do Ipagro, encorpado gra\u00e7as a um conv\u00eanio com o Instisoja \u2013, Gutterres criou duas variedades de soja, a Sulina (sele\u00e7\u00e3o da variedade Hampton) e a Miss\u00f5es (sele\u00e7\u00e3o de uma variedade r\u00fastica da zona colonial ga\u00facha), mas se notabilizou pelo aprimoramento da Santa Rosa.<br \/>\nEssa variedade ajudou o IAC a ganhar fama como o maior centro de refer\u00eancia t\u00e9cnico da soja no Brasil at\u00e9 que a Embrapa, criada em 1973, assumisse o comando da pesquisa agropecu\u00e1ria no pa\u00eds, na segunda metade da d\u00e9cada de 1970.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Na regi\u00e3o Mogiana<\/span><br \/>\nO mais importante auxiliar de Z\u00e9 Sojinha nos primeiros anos no IAC foi Shiro Miyasaka (Jap\u00e3o, 1924-). Ca\u00e7ula de uma fam\u00edlia de cinco irm\u00e3os origin\u00e1ria de Hokkaido, ele veio para o Brasil em 1932. O pai foi meeiro de lavoura de caf\u00e9 no oeste paulista antes de se tornar olericultor em Aruj\u00e1, perto da capital. Aos 14 anos, em 1938, Shiro mudou-se para S\u00e3o Paulo, onde arranjou emprego como entregador de ch\u00e1. Depois, trabalhando de dia numa f\u00e1brica de fog\u00f5es e estudando \u00e0 noite, concluiu o curso secund\u00e1rio.<br \/>\nReprovado no vestibular da Escola Polit\u00e9cnica de S\u00e3o Paulo, aos 24 anos conquistou uma vaga no curso de agronomia em Piracicaba. Formou-se em 1951, justamente quando a soja, em grande evolu\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, come\u00e7ava a prosperar no Hemisf\u00e9rio Sul. Na faculdade, n\u00e3o recebeu sen\u00e3o aulas te\u00f3ricas sobre a planta que, como imigrante, conhecia de quintal e de mesa.<br \/>\nEntre um convite para se tornar assistente do professor de gen\u00e9tica em Piracicaba e outro para trabalhar como pesquisador em Campinas, Shiro Miyasaka preferiu o contrato com o Agron\u00f4mico, onde, j\u00e1 em 1952, foi incumbido por Jos\u00e9 Gomes da Silva de iniciar um ensaio de hibrida\u00e7\u00e3o com mais de 50 variedades de soja.<br \/>\nFoi em suas m\u00e3os que come\u00e7ou o primeiro grande esfor\u00e7o nacional para selecionar variedades aptas \u00e0 mecaniza\u00e7\u00e3o e que respondessem positivamente ao interesse da ind\u00fastria por \u00f3leo.<br \/>\n&#8220;A soja existente no Estado de S\u00e3o Paulo era baixinha, de talo grosso, toda de variedades inadequadas para a colheita mecanizada&#8221;, lembra Shiro. Havia um agravante: quando se tornavam maduras, as vagens se abriam, lan\u00e7ando fora as sementes. Tanto que a principal recomenda\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica da \u00e9poca, quanto \u00e0 colheita da soja, era que as vagens fossem apanhadas quatro ou cinco semanas antes da matura\u00e7\u00e3o definitiva, para evitar a dispers\u00e3o dos gr\u00e3os.<br \/>\nEsse problema s\u00f3 foi resolvido depois de 1954, quando saiu comercialmente nos Estados Unidos a variedade Lee, produto de cruzamentos (CNS x S-100) iniciados na d\u00e9cada de 1940 no Mississippi pelo pesquisador norte-americano Edgard Hartwig (1913-1996). Era uma variedade de soja n\u00e3o-deiscente, isto \u00e9, as vagens, quando maduras, n\u00e3o se abriam para lan\u00e7ar longe os gr\u00e3os.<br \/>\nFruto do acaso, como costuma acontecer com as grandes descobertas, a Lee foi fundamental para a intensifica\u00e7\u00e3o da colheita mec\u00e2nica da soja nos Estados Unidos e no mundo. At\u00e9 ent\u00e3o, no Brasil, ainda estava por estabelecer-se a tecnologia de grandes lavouras.<br \/>\nAs trilhadeiras estacion\u00e1rias ou automotrizes eram usadas por uma minoria. A colheita era muito complicada, j\u00e1 que envolvia opera\u00e7\u00f5es manuais como a bate\u00e7\u00e3o das vagens e a secagem dos gr\u00e3os colhidos ainda verdes.<br \/>\nIncumbido de fazer a Campanha da Soja na chamada regi\u00e3o mogiana, especialmente nos munic\u00edpios de Orl\u00e2ndia, S\u00e3o Joaquim da Barra, Ituverava, Miguel\u00f3polis e Gua\u00edra, Shiro Miyasaka encontrou excelentes parceiros de campo como os irm\u00e3os Hirofume e Massamori Kage em Gua\u00edra, Takaiuki Maeda em Ituverava e v\u00e1rios membros da fam\u00edlia Junqueira, em Orl\u00e2ndia.<br \/>\nNessa \u00faltima cidade fora fundada em 1952 a Companhia Mogiana de \u00d3leos Vegetais (Comove), inicialmente voltada para o algod\u00e3o, depois para o arroz e, por \u00faltimo, para a soja.<br \/>\nHavia muita gente interessada e disposta a ajudar nas pesquisas. Em Jaguari\u00fana, perto de Campinas, a Campanha da Soja contou com o respaldo dos japoneses que cultivavam arroz para fabricar saqu\u00ea na Fazenda Monte d&#8217;Este. Igualmente abertos eram os agricultores holandeses da Holambra, tamb\u00e9m em Jaguari\u00fana.<br \/>\nEles ajudaram o pessoal do IAC a testar m\u00e1quinas de colheita importadas da Europa. Em Mat\u00e3o, perto de Araraquara, estabelecera-se um n\u00facleo de pesquisa amparado pela Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller, que nessa \u00e9poca financiava a Revolu\u00e7\u00e3o Verde comandada pelo geneticista Norman Borlaug (1914-2009), ganhador do Pr\u00eamio Nobel da Paz de 1970 pelos melhoramentos obtidos principalmente com o trigo.<br \/>\nA base ianque de Mat\u00e3o, que usava o laborat\u00f3rio de solos do IAC para analisar amostras colhidas em v\u00e1rios pontos do cerrado paulista, dava \u00eanfase especial ao emprego de calc\u00e1rio e de adubos fosfatados como corretivos da acidez do solo.<br \/>\nEssa pesquisa foi compartilhada pelo agr\u00f4nomo Euripedes Malavolta (Araraquara, 1926-Piracicaba, 2008), professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, de Piracicaba (SP). A soja e outras leguminosas faziam parte do pacote de experimentos, mas \u00e0quela altura da hist\u00f3ria ningu\u00e9m descobrira que a Glycine max carregava em suas pr\u00f3prias ra\u00edzes o segredo da fixa\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio nos solos.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Vanguarda Campinas-Pelotas<\/span><br \/>\nFora de S\u00e3o Paulo, o mais consistente trabalho de pesquisa era realizado no Rio Grande do Sul, onde j\u00e1 havia uma base de informa\u00e7\u00f5es apuradas em meia d\u00fazia de esta\u00e7\u00f5es experimentais \u2013 umas do Estado, outras da Uni\u00e3o.<br \/>\nDesde 1948, por exemplo, a Secretaria da Agricultura mantinha em Veran\u00f3polis, na chamada esta\u00e7\u00e3o experimental das col\u00f4nias (de imigrantes), alguns ensaios de comportamento de variedades sob diferentes espa\u00e7amentos e volumes de aduba\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm 1951, o agr\u00f4nomo Francisco de Jesus Vernetti (Pelotas, 1925-) foi colocado \u00e0 frente das pesquisas com soja no Instituto Agron\u00f4mico do Sul (IAS), \u00f3rg\u00e3o do Minist\u00e9rio da Agricultura sediado em Pelotas, munic\u00edpio com tradi\u00e7\u00e3o vanguardista equivalente \u00e0 do paulista Campinas na \u00e1rea agr\u00edcola. No in\u00edcio, Vernetti se preocupou em testar variedades que pudessem ser cultivadas em cons\u00f3rcio com o milho nas ro\u00e7as dos produtores minifundi\u00e1rios do noroeste ga\u00facho e do oeste catarinense.<br \/>\nEm seus ensaios, experimentava material gen\u00e9tico dispon\u00edvel em centros de pesquisa existentes no Brasil, principalmente Campinas, J\u00falio de Castilhos e Veran\u00f3polis. Tamb\u00e9m testava sementes recebidas diretamente dos Estados Unidos, onde fez mestrado (em Purdue). A partir de 1957, come\u00e7ou a frequentar reuni\u00f5es t\u00e9cnicas sobre soja, promovidas pela Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul em conv\u00eanio com o Instisoja. No final da d\u00e9cada de 1950, j\u00e1 tinha iniciado a forma\u00e7\u00e3o da equipe que mais tarde faria funcionar a rede de pesquisa federal na regi\u00e3o Sul, com campos experimentais em Pelotas, Passo Fundo, Ca\u00e7ador (depois Chapec\u00f3), Ponta Grossa e Maring\u00e1.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Santa Maria<\/span><br \/>\nA d\u00e9cada de 1950, cheia de inova\u00e7\u00f5es para os brasileiros, ainda n\u00e3o havia acabado quando o pessoal do IAC come\u00e7ou a fazer ensaios sob baixas temperaturas na esta\u00e7\u00e3o experimental de Pindamonhangaba, no vale do Para\u00edba, regi\u00e3o tradicionalmente produtora de arroz irrigado em v\u00e1rzeas de aluvi\u00e3o.<br \/>\nTestada pelo agr\u00f4nomo Geraldo Guimar\u00e3es (Conchas, 1924-) no inverno de 1958, uma variedade forrageira coletada em Minas Gerais, de origem desconhecida, revelou comportamento absolutamente diferente: crescia normalmente naqueles dias curtos, fugindo ao padr\u00e3o da soja, planta que vegeta em dias longos e floresce quando detecta que as noites come\u00e7am a se tornar mais longas do que os dias.<br \/>\n&#8220;Variedade pouco sens\u00edvel ao fotoper\u00edodo&#8221;, registrou friamente o pesquisador Shiro Miyasaka, sem imaginar que aquela planta taluda, de sementes pretas, abriria o caminho \u00e0 tropicaliza\u00e7\u00e3o da soja.<br \/>\nBem que Miyasaka tentou lhe dar um nome significativo: Karutoby, alimento verde, em tupi-guarani. O nome que ficou foi outro, j\u00e1 usado anteriormente em Minas: Santa Maria. Pesquisas realizadas mais tarde n\u00e3o chegaram a uma conclus\u00e3o sobre suas origens. No m\u00e1ximo, descobriu-se semelhan\u00e7a com sementes de proced\u00eancia filipina introduzidas nos Estados Unidos.<br \/>\nA partir do comportamento da Karutoby-Santa Maria, os melhoristas confirmavam que era mesmo poss\u00edvel selecionar sementes adapt\u00e1veis a quaisquer latitudes. Ent\u00e3o, aproveitando a rede de pesquisa montada informalmente no pa\u00eds, intensificaram-se entre os t\u00e9cnicos os teste de novas variedades. Come\u00e7ou assim a prepara\u00e7\u00e3o para o futuro avan\u00e7o sobre o cerrado inculto dos estados do Centro-Oeste.<br \/>\nJ\u00e1 havia ent\u00e3o a intui\u00e7\u00e3o de que a leguminosa poderia dar certo no cerrado, mas ningu\u00e9m vislumbrara ainda a explos\u00e3o que viria nos anos seguintes. Pelo contr\u00e1rio, o solo dos cerrados, rico em alum\u00ednio, tinha a fama de ser t\u00f3xico demais para as plantas.<br \/>\nNa verdade, tateava-se no escuro. A pr\u00f3pria hist\u00f3ria da Karotoby-Santa Maria parecia uma brincadeira da Natureza com os t\u00e9cnicos, que atiravam num alvo e acertavam em outro. Shiro Miyasaka reconheceu que um dos objetivos do experimento de Pindamonhangaba era testar a produ\u00e7\u00e3o de uma forrageira de inverno para o rebanho de gado leiteiro do vale do Para\u00edba&#8230;<br \/>\nNaquele momento, em S\u00e3o Paulo, a soja era muito falada e pouco plantada. A rigor, apenas no Rio Grande do Sul ela podia ser considerada uma lavoura comercial, gra\u00e7as \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o e \u00e0 demanda da ind\u00fastria de \u00f3leo, ambas iniciadas um pouco antes da Segunda Guerra Mundial e incrementadas nos anos 1950.<br \/>\n<!--nextpage--><br \/>\n<span class=\"intertit\">A reboque dos produtores<\/span><br \/>\nO agr\u00f4nomo Jamil Feres (Bag\u00e9, 1930-), que dirigiu a esta\u00e7\u00e3o experimental de Veran\u00f3polis de 1961 a 1971, estabeleceu o ano de 1963 como &#8220;o verdadeiro marco&#8221; da evolu\u00e7\u00e3o da pesquisa da soja no Rio Grande do Sul.<br \/>\nSegundo ele, al\u00e9m do trabalho do Instisoja, pesou naquele instante a decis\u00e3o do governo federal de destinar recursos para o plantio de trigo. Entretanto, Feres recorda que, pelo menos em seu estado, os pesquisadores tinham ent\u00e3o pouco respaldo das institui\u00e7\u00f5es onde trabalhavam. &#8220;Tudo dependia essencialmente do esfor\u00e7o individual de cada um&#8221;, diz ele.<br \/>\nContratado em 1964 para trabalhar em Passo Fundo, Em\u00eddio Rizzo Bonato (Marau, 1942-), formado em agronomia em Pelotas, lembra que nessa \u00e9poca, no Rio Grande do Sul, os pesquisadores andavam a reboque dos produtores, que lhes cobravam resultados. Abertos \u00e0 mecaniza\u00e7\u00e3o das lavouras, os sojicultores eram naturalmente receptivos \u00e0s inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<br \/>\nFoi a demanda do campo que, em meados da d\u00e9cada de 1960, for\u00e7ou a implanta\u00e7\u00e3o de um programa federal de melhoramento por hibrida\u00e7\u00e3o. O foco principal das pesquisas, coordenadas pelo Ipeas (novo nome do velho IAS), era o maior rendimento das colheitas, mas se buscavam tamb\u00e9m novas informa\u00e7\u00f5es sobre aduba\u00e7\u00e3o, espa\u00e7amento, controle das chamadas ervas daninhas e combate a pragas e doen\u00e7as.<br \/>\nAo lado de Bonato, nas esta\u00e7\u00f5es experimentais do Sul, j\u00e1 trabalhava uma numerosa equipe que apresentaria os primeiros resultados concretos no final dos anos 1960, quando foi lan\u00e7ada a cultivar Campos Gerais (Arksoy x Ogden), de ciclo curto (108 dias), indicada para a rota\u00e7\u00e3o com o trigo no Paran\u00e1. Em 1971, como resultado do mesmo trabalho, saiu uma cultivar para Santa Catarina, a IA-3 Delta (Ogden x CNS), de ciclo longo (155 dias). Em 1972, surgiram as duas primeiras para o Rio Grande do Sul: IAS-1(Jackson x D49-2491) e IAS-2[Hill x (Roanoke x Ogden)].<br \/>\n<span class=\"intertit\">Rainha do Cerrado<\/span><br \/>\nA Universidade Federal de Vi\u00e7osa entrou no jogo em 1963, quando montou um projeto de pesquisa de adapta\u00e7\u00e3o da soja ao cerrado, com base num acordo tecnol\u00f3gico com a Purdue University, dos Estados Unidos. Situada numa regi\u00e3o pouco prop\u00edcia \u00e0 agricultura mecanizada, perto de Belo Horizonte, a UFV arranjou com agricultores do Tri\u00e2ngulo Mineiro uma \u00e1rea de 100 hectares no munic\u00edpio de Capin\u00f3polis.<br \/>\nAli implantou um centro de experimenta\u00e7\u00e3o, pesquisa e extens\u00e3o, com resultados pr\u00e1ticos j\u00e1 em 1969, ano do lan\u00e7amento das variedades Mineira e da Vi\u00e7oja. Ambas s\u00e3o irm\u00e3s (por parte da variedade Improved Pelican, introduzida no Brasil em 1951 por Jos\u00e9 Gomes da Silva) e prov\u00eam de sementes selecionadas de cruzamentos feitos nos Estados Unidos. A Mineira \u00e9 parente da Santa Rosa, divisor de \u00e1guas no Brasil. A Vi\u00e7oja aparenta-se com a Lee, considerada uma esp\u00e9cie de marco divis\u00f3rio da hist\u00f3ria mundial da soja.<br \/>\nAmpliada depois com variedades identificadas com o prefixo UFV, a genealogia mineira da soja produziu dezenas de sementes pr\u00f3prias para o Centro-Oeste. Foi de Vi\u00e7osa que saiu a maior parte das sementes usadas pelo &#8220;rei da soja&#8221; Olacyr de Moraes na Fazenda Itamarati, no Mato Grosso do Sul. A maior estrela origin\u00e1ria de Minas, por\u00e9m, foi a Cristalina, testada em solo pr\u00f3ximo de Bras\u00edlia. Lan\u00e7ada comercialmente em 1981, tem a marca de seu criador, o agr\u00f4nomo Francisco Terasawa (Ponta Grossa, 1939).<br \/>\nFormado em Curitiba em 1963, Terasawa trabalhou no departamento de pesquisa agropecu\u00e1ria do Minist\u00e9rio da Agricultura, em Londrina, at\u00e9 1972, quando, ao trocar o servi\u00e7o p\u00fablico pela iniciativa privada, fundou a FT Pesquisas e Sementes. Nesse ano comprou em Douradina (MS) sementes resultantes da primeira multiplica\u00e7\u00e3o da variedade UFV-1. Semeou-as em seu s\u00edtio em Londrina e selecionou seis plantas que se destacaram do conjunto.<br \/>\nDenominou-as M-2, M-3, M-4, M-5, M-6 e M-7, promovendo a seguir cruzamentos com variedades norte-americanas. Da cruza da M-4 com a Davis nasceu enfim a FT-Cristalina, testada na Fazenda Vereda, aberta em 1972 em Cristalina pelo fazendeiro paulista Luiz Souza Lima (Mococa, 1915), um dos pioneiros da soja no cerrado goiano.<br \/>\nDa mesma \u00e9poca e de linhagens semelhantes s\u00e3o as variedades Tropical e Doko, esta uma homenagem a Toshio Doko, presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Entidades Empresariais do Jap\u00e3o, entusiasta do plantio da soja no noroeste de Minas Gerais. Lan\u00e7adas pela Embrapa, as duas s\u00e3o frutos de cruzamentos (Hill x PI 240664, de origem filipina) iniciados na d\u00e9cada de 1960 em Campinas e conclu\u00eddos em Londrina.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Polariza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica<\/span><br \/>\nEssas sementes h\u00edbridas pr\u00f3prias para o cerrado brasileiro estabeleceram novos par\u00e2metros de rendimento agr\u00edcola. T\u00e9cnicos que trabalhavam para o IAC no cerrado do nordeste paulista contam que, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960, por exemplo, quando a variedade mais cultivada em Orl\u00e2ndia era a americana Pelican (que entrara em S\u00e3o Paulo em 1951 pelas m\u00e3os de Jos\u00e9 Gomes da Silva), dava-se como &#8220;papudo&#8221; um produtor de sementes que afirmasse colher &#8220;70 sacas por alqueire&#8221;, isto \u00e9, cerca de 1800 quilos por hectare (o rendimento nacional m\u00e9dio foi de 1100 kg\/ha em 1962).<br \/>\nEm seguida, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970, quando a variedade Santa Rosa &#8220;voltou&#8221; triunfante ao solo paulista, o patamar dos campos de sementes da Alta Mogiana mudou significativamente, tanto que passou a considerar-se &#8220;atrasado&#8221; quem n\u00e3o conseguisse pelo menos &#8220;80 sacas por alqueire&#8221;, cerca de 2000 kg\/ha (em 1972 o rendimento nacional m\u00e9dio foi de 1690 kg\/ha).<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-13347\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag3.jpg\" alt=\"soja_pag3\" width=\"600\" height=\"580\" \/><\/a><br \/>\nCom as variedades h\u00edbridas modernas adequadas ao cerrado, os campos de melhoramento de sementes dobraram o rendimento. Enquanto a m\u00e9dia brasileira chegou a 2500 kg\/ha na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, as lavouras do Centro-Oeste brasileiro produzem rotineiramente m\u00e9dias acima de 3000 kg\/ha. Em 2002, pela primeira vez na hist\u00f3ria, o rendimento m\u00e9dio de soja no Brasil (2,6 t\/ha) foi superior ao rendimento m\u00e9dio dos Estados Unidos.<br \/>\nCom o sucesso dos mineiros no cerrado, definiram-se tr\u00eas frentes de melhoramento da Glycine max no Brasil: a de Vi\u00e7osa, a de Campinas e a dos pesquisadores do Minist\u00e9rio da Agricultura, distribu\u00eddos principalmente no eixo Londrina-Maring\u00e1-Ponta Grossa-Curitiba-Ca\u00e7ador-Joa\u00e7aba-Passo Fundo-Cruz Alta-Pelotas.<br \/>\nAinda que a maioria dos agr\u00f4nomos fosse imbu\u00edda do esp\u00edrito cooperativo que move os cientistas, havia uma dificuldade para o interc\u00e2mbio de dados: a estrutura burocr\u00e1tica de \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos situados em regi\u00f5es distintas, uns subordinados \u00e0 Uni\u00e3o e outros a estados, cada um com sua hist\u00f3ria particular e interesses espec\u00edficos.<br \/>\nAl\u00e9m disso, reinavam &#8220;climas&#8221; diferentes entre as institui\u00e7\u00f5es e suas respectivas regi\u00f5es. Por a\u00ed se compreende o papel de &#8220;tertius&#8221; desempenhado por Vi\u00e7osa: al\u00e9m de distante geograficamente, o pessoal mineiro entrou tardiamente num jogo polarizado pelo IAC em Campinas e o Ipeas em Pelotas.<br \/>\nComo &#8220;capitais do interior&#8221; dos estados de S\u00e3o Paulo e do Rio Grande do Sul, Campinas e Pelotas possu\u00edam afinidades culturais, mas entre paulistas e ga\u00fachos pairava a sombra de desaven\u00e7as pol\u00edticas nascidas em 1930, quando Get\u00falio Vargas comandou o golpe que destituiu o presidente Washington Lu\u00eds. De alguma forma, tais rivalidades ajudavam a manter certa dist\u00e2ncia entre institui\u00e7\u00f5es que, no fundo, tinham o mesmo objetivo: enriquecer a agricultura do Brasil.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Sem fronteiras<\/span><br \/>\nEm 1965, quando se tornou o chefe da Se\u00e7\u00e3o de Leguminosas do IAC, Shiro Miyasaka arranjou um pioneiro financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico (BNDE) para intensificar as pesquisas do cultivo da soja no Brasil. Foi um contrato duradouro e frut\u00edfero.<br \/>\nO BNDE come\u00e7ou ali um esfor\u00e7o que o levaria a fazer diversos investimentos na agricultura e na agroind\u00fastria, nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980. Shiro Miyasaka revelou-se um bom executivo de pesquisa, tanto que nos anos 1970 foi para o Rio de Janeiro assessorar a dire\u00e7\u00e3o do BNDE (que havia criado uma ag\u00eancia de financiamento batizada com o nome de Finep) no desenvolvimento de projetos agropecu\u00e1rios e de produ\u00e7\u00e3o de fertilizantes no Centro-Oeste.<br \/>\nQuanto \u00e0 soja, o financiamento do BNDE fez o IAC dar um salto. Miyasaka mandou construir estufas novas, comprou duas camionetas e refor\u00e7ou a equipe t\u00e9cnica com a contrata\u00e7\u00e3o de uma nova safra de agr\u00f4nomos. Entre os escolhidos estava Romeu Afonso de Souza Kiihl (Caconde, 1942-), filho de um alfaiate, rec\u00e9m-formado em Piracicaba com o patroc\u00ednio da Associa\u00e7\u00e3o Cacondense Pr\u00f3-Bolsa de Estudo.<br \/>\nIncumbido logo de cara de uma grave miss\u00e3o \u2013 aprofundar os estudos sobre variedades &#8220;pouco sens\u00edveis ao fotoper\u00edodo&#8221; \u2013, Kiihl foi colocado em contato com Geraldo Guimar\u00e3es, o agr\u00f4nomo que trabalhara com a variedade Santa Maria na esta\u00e7\u00e3o experimental de Pindamonhangaba, no vale do rio Para\u00edba. N\u00e3o havia mais grandes ensaios com soja por ali, at\u00e9 mesmo porque a esta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha objetivos agr\u00edcolas &#8212; fora criada em 1952 pela Secretaria de Obras para ajudar nos estudos sobre o caprichoso regime das \u00e1guas do rio Para\u00edba.<br \/>\nOutra tarefa foi viajar ao Sul para coletar sementes. Nessa miss\u00e3o Kiihl conheceu Juarez Gutterres, o melhorista da variedade Santa Rosa. Na mesma \u00e9poca, em 1966, conheceu Edgard Hartwig, o descobridor da Lee, a variedade indeiscente \u2013 que n\u00e3o abria a vagem. Tudo parecia convergir para o cerrado.<br \/>\nEm viagem ao n\u00facleo de pesquisa de Mat\u00e3o como consultor da Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller, Hartwig disp\u00f4s-se a acolher Kiihl como mestrando em Leland, no Mississippi. No final de 1966, depois de passar no exame de sele\u00e7\u00e3o da primeira turma de dez bolsistas brasileiros de agronomia financiados pelo governo americano em sua Alian\u00e7a para o Progresso dos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, l\u00e1 se foi Kiihl estudar com o mais importante melhorista de soja surgido nos Estados Unidos depois da Segunda Guerra. &#8220;Foi um privil\u00e9gio&#8221;, afirma Kiihl, que ficou dois anos l\u00e1. A bolsa era de apenas US$ 150 por m\u00eas.<br \/>\nCasado e sem filhos, Hartwig &#8220;adotou&#8221; Kiihl, a quem ajudava sobretudo nos s\u00e1bados pela manh\u00e3, fora do expediente administrativo normal. Orientou o brasileiro especialmente na pesquisa de cruzamentos que ajudariam o Brasil a encontrar variedades adapt\u00e1veis a v\u00e1rias latitudes, do paralelo 30 (Rio Grande do Sul) ao paralelo 4 (Maranh\u00e3o).<br \/>\nCurador do banco de germoplasma do Sul dos Estados Unidos, baseado na Delta Branch Experimental Station, em Stoneville, no Mississippi, Hartwig ajudou tamb\u00e9m outros brasileiros. Seu &#8220;protecionismo&#8221; ao Brasil n\u00e3o era bem visto por agricultores que financiavam as pesquisas.<br \/>\nO agr\u00f4nomo Otavio Tisselli Filho (Campinas, 1948-1998), ex-diretor do IAC, cujo trabalho de mestrado levou adiante os estudos de Romeu Kiihl \u2013 foi Tisselli quem denominou &#8220;per\u00edodo juvenil longo&#8221; o que Kiihl chamava de &#8220;florescimento tardio em dias curtos&#8221; \u2013, lembrou certa vez que muitos agricultores norte-americanos questionavam objetivamente a presen\u00e7a de tantos agr\u00f4nomos brasileiros nos Estados Unidos.<br \/>\nAchavam que a ajuda dos cientistas ianques poderia contribuir para estabelecer futuros concorrentes em outros pa\u00edses. Hartwig n\u00e3o ligava para as press\u00f5es e abria suas anota\u00e7\u00f5es aos brasileiros. Convicto de que a ci\u00eancia n\u00e3o tinha fronteiras, acreditava na expans\u00e3o da soja para modernizar a agricultura no mundo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Historinhas do sert\u00e3o<\/span><br \/>\nQuando voltou dos Estados Unidos em 1968, Romeu Kiihl incorporou-se novamente ao IAC, onde continuou o trabalho de sele\u00e7\u00e3o de variedades &#8220;para todo o Brasil&#8221;. Espont\u00e2neo ou institucionalizado, o interc\u00e2mbio dos t\u00e9cnicos brasileiros, no Brasil e nos Estados Unidos, levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, em agosto de 1971, da Comiss\u00e3o Nacional da Soja do Minist\u00e9rio da Agricultura, da qual o ga\u00facho Francisco de Jesus Vernetti foi o coordenador por v\u00e1rios anos.<br \/>\nDessa comiss\u00e3o, respons\u00e1vel pelo lan\u00e7amento das variedades da s\u00e9rie BR \u2013 das mais antigas, a BR-1 e a BR-4 continuariam sendo recomendadas no final do s\u00e9culo XX \u2013, participavam os pesquisadores do Ipeas, t\u00e9cnicos de secretarias estaduais da Agricultura (incluindo-se o IAC) e tamb\u00e9m professores de faculdades de agronomia. Isso, sem contar o pessoal norte-americano de uma miss\u00e3o t\u00e9cnica voltada para o treinamento e a capacita\u00e7\u00e3o dos brasileiros.<br \/>\nSediada em Porto Alegre, junto ao Ipagro, onde tinha como interlocutor oficial o microbiologista do solo Jo\u00e3o Rui Jardim Freire (Rio de Janeiro, 1920), a miss\u00e3o ianque era chefiada por Roger Benson, especialista em fertilidade dos solos; os demais eram Gleen Davis (plantas daninhas), Harry C. Minor (fitotecnia), S. G. Turnipseed (entomologia) e Paul S. Lehman.<br \/>\nA multiplica\u00e7\u00e3o das sementes era feita em lavouras de produtores-modelo sempre dispostos a colaborar com a vanguarda t\u00e9cnica. Romeu Kiihl, b\u00fassola sempre apontando para o Centro-Oeste\/Norte-Nordeste do Brasil, conta uma historinha t\u00edpica dessa coaliz\u00e3o entre pesquisadores e produtores:<br \/>\n&#8211; Em 1972 pedi ao Massamori Kage que plantasse uma linha de sementes IAC-73\/2736 ao lado de sua lavoura de soja na Fazenda Vera Cruz, em Gua\u00edra, no cerrado de S\u00e3o Paulo. Ele plantou \u2013 ao lado da variedade Hardee.<br \/>\nEra um experimento banal, mas deu resultado. Tempos depois ele me enviou um p\u00e9 de soja que se destacara dos outros. Era uma muta\u00e7\u00e3o mais alta. Pois bem, esse p\u00e9 de soja \u00e9 o pai de algumas variedades boas para o Norte\/Nordeste do Brasil: BR-10 Teresina, BR-11 Caraj\u00e1s, BR-33 Serid\u00f3&#8230;<br \/>\nEmidio Bonato, outro s\u00f3cio militante do clube da soja, concluiu que sem essa integra\u00e7\u00e3o da pesquisa com a lavoura n\u00e3o teria sido poss\u00edvel adaptar em t\u00e3o pouco tempo variedades do Hemisf\u00e9rio Norte para o Hemisf\u00e9rio Sul. Hoje h\u00e1 tantas variedades dispon\u00edveis \u2013 por regi\u00e3o, com varia\u00e7\u00f5es de ciclo vegetativo (curto, m\u00e9dio ou longo) e resist\u00eancia a doen\u00e7as \u2013 que os pesquisadores acham gra\u00e7a do tempo em que os agricultores n\u00e3o contavam com muita coisa al\u00e9m da Santa Rosa.<br \/>\nE cada variedade tem sua historinha particular, com os pais, local de casamento e padrinho. Veja-se o perfil de uma variedade testada no ano agr\u00edcola 1973\/74, no sert\u00e3o do Cariri, no munic\u00edpio de Sap\u00e9, na Para\u00edba, por um t\u00e9cnico da Sanbra, a pedido de Romeu Kiihl, que lhe deu sementes de IAC-73\/2736. Experimento banal: os gr\u00e3os foram plantados ao lado de uma lavoura da variedade Bragg.<br \/>\nNo meio daquele bloco despretensioso veio uma planta-destaque. Kiihl recruzou as sementes dessa planta por tr\u00eas vezes com a Bragg, depois mais uma com Bragg e outra com Santa Rosa. Resultado: BR-27 Cariri, uma das cultivadas no Maranh\u00e3o.<br \/>\n<!--nextpage--><br \/>\n<span class=\"intertit\">Londrina, capital t\u00e9cnica<\/span><br \/>\nA pesquisa da soja j\u00e1 tinha alcan\u00e7ado indiscut\u00edvel grau de maturidade quando, em 1973, foi criada a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa). A nova institui\u00e7\u00e3o demorou a sair do papel, pois desencadeou uma luta pol\u00edtica nos bastidores dos \u00f3rg\u00e3os cient\u00edficos comandados pelo Departamento Nacional de Pesquisa Agropecu\u00e1ria, do Minist\u00e9rio da Agricultura.<br \/>\nBoa parte do impasse adveio da cria\u00e7\u00e3o no mesmo momento, com recursos do Instituto Brasileiro do Caf\u00e9 (IBC), do Instituto Agron\u00f4mico do Paran\u00e1 (Iapar), com sede em Londrina, onde, como desdobramento do Ipeas, j\u00e1 funcionava o Ipeame, origin\u00e1rio da subcomiss\u00e3o t\u00e9cnica meridional do trigo criada na d\u00e9cada de 1960.<br \/>\nEm Campinas, o IAC ficou longe da disputa. Pelotas, Passo Fundo, Cruz Alta, Ponta Grossa n\u00e3o chegavam a se declarar candidatas mas, no fundo, todas queriam ser a capital t\u00e9cnica da soja. Mais do que distante, a escola de Vi\u00e7osa ficou neutra na hist\u00f3ria. Naquele exato momento, o agr\u00f4nomo mineiro Allyson Paulinelli (Bambu\u00ed, 1936), formado na faculdade rival de Lavras, foi escolhido o ministro da Agricultura do governo do general Ernesto Geisel (1974-1979).<br \/>\nNa virada de 1973 para 1974, rec\u00e9m-contratado pelo Iapar, o agr\u00f4nomo Jos\u00e9 Tadashi Yorinori (Londrina, 1943) embarcou no norte do Paran\u00e1 numa velha camioneta rumo ao centro de Minas. Miss\u00e3o: buscar em Vi\u00e7osa sementes para iniciar a cole\u00e7\u00e3o de soja do Iapar.<br \/>\nEstava tudo combinado por telefone e of\u00edcios, mas \u00e0 \u00faltima hora Yorinori foi avisado de que a dire\u00e7\u00e3o da escola decidira n\u00e3o colaborar. De m\u00e3os vazias em Vi\u00e7osa, na volta para Londrina, ele passou em Campinas, reuniu o material gen\u00e9tico necess\u00e1rio no Instituto Agron\u00f4mico e, de quebra, ganhou a ades\u00e3o de Romeu Kiihl, que decidiu se transferir para o Iapar.<br \/>\nPor causa da incerteza e das mudan\u00e7as, que se arrastavam em meio a um processo de barganhas regionais, houve entre 1973 e 1975 um hiato na pesquisa agr\u00edcola brasileira. O impasse acabou em 1976, quando, enfim, Londrina foi confirmada como sede do Centro Nacional de Pesquisa de Soja. Instalado inicialmente na sede do Iapar (que abdicou da pesquisa da soja, concentrando-se em outras culturas, especialmente o trigo), o CNPSo passou a coordenar o trabalho desenvolvido em v\u00e1rias regi\u00f5es por diversos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos federais, estaduais e privados.<br \/>\nO primeiro chefe foi o ga\u00facho Francisco de Jesus Vernetti, substitu\u00eddo por outro ga\u00facho, Em\u00eddio Bonato, que ficou dez anos no cargo. Quando deixaram Londrina, os dois continuaram trabalhando com soja em bases regionais da Embrapa: Vernetti em Pelotas, Bonato em Passo Fundo.<br \/>\nOs resumos informativos do CNPSo, em quatro volumes, publicados em 1977, foram um primeiro esfor\u00e7o de organizar o acervo de pesquisa existente at\u00e9 ent\u00e3o em torno da Glycine max. Em paralelo, o IAC promoveu uma maratona nacional para produzir o livro &#8220;A Soja no Brasil&#8221;, coordenado por Shiro Miyasaka e Julio Cesar Medina. Com mais 1 mil p\u00e1ginas, publicado em 1981 sob patroc\u00ednio da Funda\u00e7\u00e3o Cargill, esse trabalho condensa praticamente tudo o que a ci\u00eancia brasileira sabia sobre a soja at\u00e9 a entrada da d\u00e9cada de 1980.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag4.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-13351\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag4.jpg\" alt=\"soja_pag4\" width=\"593\" height=\"410\" \/><\/a><br \/>\nEscrita por centenas de m\u00e3os, \u201cA Soja no Brasil\u201d cumpriu um papel curativo, ajudando a apaziguar os conflitos regionalistas surgidos na d\u00e9cada de 1970. As dissid\u00eancias remanescentes foram enterradas nos anos seguintes pela pr\u00f3pria carreira brilhante da soja.<br \/>\nMesmo depois de podada pelo processo de desmontagem da m\u00e1quina estatal desencadeado a partir do fugaz governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992), a Embrapa continuou a manipular recursos equivalentes a 1% do Produto Interno Bruto do Brasil, liderando os esfor\u00e7os para criar um novo modelo de pesquisa em parceria com a iniciativa privada.<br \/>\nUm dos exemplos mais promissores nesse campo foi a Funda\u00e7\u00e3o MT, criada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990 em Rondon\u00f3polis, a &#8220;capital da soja&#8221; no Brasil Central. Vinculada \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores de Sementes do Mato Grosso, da qual faz parte Blairo Maggi (o segundo &#8220;rei da soja&#8221;), a Funda\u00e7\u00e3o MT cresceu sob a dire\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica de uma nova safra de agr\u00f4nomos, a come\u00e7ar por Dario Minoru Hiromoto (Mar\u00edlia, 1963).<br \/>\n<span class=\"intertit\">Pr\u00eamio Nobel<\/span><br \/>\nQuatro d\u00e9cadas depois do in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o efetiva da Embrapa, pode-se dizer que geneticamente j\u00e1 n\u00e3o tem mais utilidade, a n\u00e3o ser como curiosidade hist\u00f3rica e reserva eventual de germoplasma, a soja que deu a arrancada na moderna aventura agr\u00edcola brasileira. Cruzadas e recruzadas, as variedades primitivas transmutaram-se em gr\u00e3os especializad\u00edssimos, com maior produtividade e diferentes respostas a especificidades regionais, clim\u00e1ticas, ed\u00e1ficas e biol\u00f3gicas.<br \/>\nEm setembro de 1996 em palestra a agricultores e t\u00e9cnicos em Capin\u00f3polis, no cerrado mineiro, o agr\u00f4nomo Tuneo Sediyama garantiu que a produtividade da soja no Brasil Central aumentaria da faixa de 2200 kg\/ha para mais de 3000 kg\/ha. Estava certo.<br \/>\nNaquele final do s\u00e9culo XX, o esfor\u00e7o de pesquisa voltava-se sobretudo para o desenvolvimento de variedades mais resistentes a doen\u00e7as e pragas \u201ccriadas\u201d por anos de monocultura e excessivo emprego de venenos agr\u00edcolas.<br \/>\nAs piores eram o cancro da haste (que causou preju\u00edzos de US$ 500 milh\u00f5es aos agricultores brasileiros no per\u00edodo 1989\/96, segundo estimativas do CNPSo) e o nemat\u00f3ide de cisto (preju\u00edzos de US$ 150 milh\u00f5es, idem). O estado mais castigado era o Rio Grande do Sul.<br \/>\nNo final dos anos 1990, os pesquisadores come\u00e7aram a enfrentar o problema da ferrugem da soja, causada por um fungo antes s\u00f3 encontrado na \u00c1sia. Na Embrapa de Londrina, foi criada uma for\u00e7a-tarefa voltada para o estudo e o combate da ferrugem asi\u00e1tica. Entretanto, nem s\u00f3 da gen\u00e9tica vivia a pesquisa em torno da soja.<br \/>\nAl\u00e9m de ter ela pr\u00f3pria evolu\u00eddo, a soja provocou mudan\u00e7as profundas no comportamento dos pesquisadores e at\u00e9 em sua vis\u00e3o da ci\u00eancia, cada vez menos segmentada e mais aberta a uma vis\u00e3o global.<br \/>\nPor ter arrancado com a m\u00e1xima tecnologia dispon\u00edvel, a soja abriu caminho para o melhoramento de outras culturas, especialmente o trigo, o feij\u00e3o e o milho. E se por um lado desfez a lenda da inaptid\u00e3o agr\u00edcola dos cerrados, por outro ajudou a dar nova dimens\u00e3o \u00e0 bioqu\u00edmica dos solos.<br \/>\nJ\u00e1 no in\u00edcio das atividades do grupo de Z\u00e9 Sojinha no Instituto Agron\u00f4mico, por volta de 1950, havia t\u00e9cnicos que pesquisavam o uso de inoculantes na cultura da soja. As descobertas em torno da fixa\u00e7\u00e3o de nitrog\u00eanio por microorganismos do solo fizeram da tcheca Johanna D\u00f6bereiner (1924-2000), contratada pela Embrapa de Serop\u00e9dica (RJ), uma das maiores estrelas da pesquisa agropecu\u00e1ria do Brasil.<br \/>\nMonta \u00e0 escala do US$ bilh\u00e3o a economia de fertilizantes trazida pela sele\u00e7\u00e3o de riz\u00f3bios feita pela equipe de D\u00f6bereiner para a cultura da soja (e da cana-de-a\u00e7\u00facar).<br \/>\nIndependentemente do fato de ter contribu\u00eddo para a redu\u00e7\u00e3o dos custos de produ\u00e7\u00e3o da soja, esse trabalho \u00e9 t\u00e3o importante para a ci\u00eancia em geral que em 1996 D\u00f6bereiner foi indicada por cientistas do Brasil e de outros pa\u00edses para receber o Pr\u00eamio Nobel de Qu\u00edmica.<br \/>\nSeu trabalho silencioso deu novo status \u00e0 pesquisa sobre aspectos n\u00e3o vinculados aos chamados insumos modernos (sementes, adubos, venenos agr\u00edcolas e m\u00e1quinas), naturalmente privilegiados pela influ\u00eancia norte-americana sobre a agropecu\u00e1ria brasileira.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Controle biol\u00f3gico<\/span><br \/>\nO manejo biol\u00f3gico de pragas agr\u00edcolas cresceu no Brasil gra\u00e7as ao emprego do baculov\u00edrus no combate \u00e0 lagarta da soja, de acordo com a t\u00e9cnica desenvolvida a partir de 1983 em Londrina pelo agr\u00f4nomo paulista Flavio Moscardi (Luc\u00e9lia, 1949).<br \/>\nNo final do s\u00e9culo XX o baculov\u00edrus era usado em cerca de 10% da \u00e1rea da lavoura brasileira de soja, que consumia U$S 2 bilh\u00f5es anuais em produtos qu\u00edmicos apenas para controlar a lagarta e o percevejo.<br \/>\nN\u00e3o admira que o equipamento mais usado na lavoura da soja seja o pulverizador, implemento que apresenta uma enorme variedade de modelos &#8212; desde o simples costal fabricado pioneiramente em Pompe\u00eda (SP) no final dos anos 1940 pelo imigrante Shunji Nishimura at\u00e9 os gigantes autopropelidos que concorrem com os avi\u00f5es agr\u00edcolas.<br \/>\nNa primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, os gastos com agroqu\u00edmicos representavam cerca de 50% dos custos de produ\u00e7\u00e3o da soja, cujo cultivo come\u00e7a com uma pulveriza\u00e7\u00e3o de herbicida-dessecante e termina com uma aplica\u00e7\u00e3o de inseticida-protetor de sementes.<br \/>\nO uso de m\u00e9todos naturais de controle de pragas e doen\u00e7as n\u00e3o se intensificou apenas como forma de baratear os custos de produ\u00e7\u00e3o da soja, mas como resposta a consumidores revoltados com o abuso na utiliza\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos na lavoura.<br \/>\nTamb\u00e9m fruto de trabalho t\u00e9cnico realizado no CNPSo pela pesquisadora Beatriz Correa Ferreira (Encruzilhada do Sul, 1949), come\u00e7ou a ser empregada a vespinha no combate ao percevejo da soja.<br \/>\nTanto em valores quanto em volumes, o controle biol\u00f3gico de pragas representava uma fra\u00e7\u00e3o m\u00ednima do mercado brasileiro de agroqu\u00edmicos, estimado em torno de US$ 8 bilh\u00f5es em 2010. Por\u00e9m, em todas as principais lavouras \u2013 de gr\u00e3os, folhas, frutas, fibras e ra\u00edzes \u2013 havia pelo menos uma linha de produtos biol\u00f3gicos \u00e0 venda ou uma pesquisa em andamento.<br \/>\n<span class=\"intertit\">A aposentadoria do arado<\/span><br \/>\nAo mesmo tempo em que intensificou o uso do arsenal tecnol\u00f3gico da agricultura moderna \u2013 adubos, agroqu\u00edmicos, sementes selecionadas, m\u00e1quinas e diversos sistemas de manejo \u2013, a soja desencadeou uma virada para o emprego de novos m\u00e9todos, hoje identificados como parte da agricultura dita sustent\u00e1vel.<br \/>\nAo romper os limites da pequena propriedade e ocupar lavouras mais amplas, a sojicultura levou ao m\u00e1ximo a utiliza\u00e7\u00e3o dos instrumentos agr\u00edcolas de preparo e cultivo do solo. Provocou o aperfei\u00e7oamento do arado, gerando grades, subsoladores e escarificadores.<br \/>\nHouve um momento, na d\u00e9cada de 1970, em que a lavoura-modelo era aquela em que, antes do plantio, o solo ficava absolutamente exposto, sem vegeta\u00e7\u00e3o ou torr\u00f5es.<br \/>\nO uso predat\u00f3rio do solo por essa agricultura de vanguarda gerou uma onda cr\u00edtica que progrediu apesar de navegar contra os interesses imediatos da ind\u00fastria de m\u00e1quinas e implementos.<br \/>\nEssencial no enxugamento dos solos gelados dos pa\u00edses europeus, de onde foi importado pelo Brasil no s\u00e9culo XIX como o s\u00edmbolo da agricultura moderna, o arado come\u00e7ou a ser dispensado como um instrumento nefasto, respons\u00e1vel pela deprecia\u00e7\u00e3o do principal patrim\u00f4nio do produtor \u2013 a terra.<br \/>\nAs perdas de solo verificadas em virtude do sistema convencional de preparo da terra abriram caminho para inova\u00e7\u00f5es que levaram ao outro extremo \u2013 o desenvolvimento da t\u00e9cnica do plantio direto. Se antes a recomenda\u00e7\u00e3o era para revolver ao m\u00e1ximo a terra, passou a vigorar o contr\u00e1rio: quanto menos mexer, melhor.<br \/>\nO plantio direto (&#8220;no-tillage&#8221;) foi desenvolvido nos estados norte-americanos da Carolina do Norte, Mississippi e Ohio nos anos 1960. No Brasil iniciou-se em 1972 com o t\u00e9cnico Milton Ramos em Ponta Grossa. Em Palmeira, nas vizinhan\u00e7as de Ponta Grossa, registraram-se as experi\u00eancias pioneiras do agricultor Non\u00f4 Pereira.<br \/>\nNesse mesmo ano o produtor Herbert Bartz importou m\u00e1quina de plantio direto dos Estados Unidos para sua fazenda em Rol\u00e2ndia, onde a multinacional Zeneca (ex-Imperial Chemical Industries\/ICI) montara uma experi\u00eancia-piloto para testar o uso de herbicidas (dessecantes vegetais, segundo a nova terminologia qu\u00edmica) no controle de invasoras (novo nome das antigas plantas daninhas).<br \/>\nA mudan\u00e7a para o plantio direto foi lenta nos anos 1970 e 1980, mas tomou impulso \u00e0 medida em que ficavam claras as perdas de solos medidas pelos t\u00e9cnicos. No ano agr\u00edcola 1976\/77, em latossolo roxo distr\u00f3fico com 7% de declive, no Rio Grande do Sul, constatou-se que lavoura de soja cultivada pelo sistema de plantio convencional no ver\u00e3o \u2013 quando h\u00e1 chuvas torrenciais \u2013 tiveram perda de 9,9 toneladas de terra por hectare, contra 2,7 t\/ha em lavoura de soja formada sobre a palha do trigo, tamb\u00e9m pelo sistema convencional.<br \/>\nQuando o trigo foi cultivado pelo sistema convencional e a soja pelo m\u00e9todo de cultivo reduzido, a perda caiu para 1,24 t\/ha. Quando houve o cultivo m\u00ednimo de ambos, perda de 0,24 t\/ha. Com plantio direto, a perda caiu para 0,10 t\/ha. Ou, seja, a eros\u00e3o chega a praticamente zero com o plantio direto, que se imp\u00f4s inicialmente mais como forma de defesa patrimonial do que como sistema de produ\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom base em diversos testes, o agr\u00f4nomo Arcangelo Mondardo, do Iapar, pode escrever no livr\u00e3o &#8220;A Soja no Brasil&#8221; (Campinas, 1981): &#8220;Segundo o ponto de visita do controle de eros\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do solo, deve-se optar por sistemas de preparo que induzam \u00e0s seguintes condi\u00e7\u00f5es:<br \/>\na) incorpora\u00e7\u00e3o dos res\u00edduos culturais, ou sua perman\u00eancia na superf\u00edcie do solo<br \/>\nb) redu\u00e7\u00e3o das opera\u00e7\u00f5es de preparo ao m\u00ednimo necess\u00e1rio para dar condic\u00f5es ao plantio e \u00e0 germina\u00e7\u00e3o das sementes<br \/>\nc) preserva\u00e7\u00e3o da estrutura e agregados do solo, evitando preparos com solo muito \u00famido ou seco<br \/>\nd) rompimento da compacta\u00e7\u00e3o<br \/>\ne) uniformiza\u00e7\u00e3o da \u00e1rea.\u201d<br \/>\n<!--nextpage--><br \/>\n<span class=\"intertit\">Plantio direto e herbicidas<\/span><br \/>\nNa d\u00e9cada de 1990, agr\u00f4nomos e produtores come\u00e7aram a superar rapidamente as defesas contra o sistema de plantio direto. &#8220;N\u00e3o podemos mais perder solos&#8221;, sintetizava o ga\u00facho Jos\u00e9 Ruedell (Santo Cristo, 1950), agr\u00f4nomo da Funda\u00e7\u00e3o de Pesquisa e Produtividade da Fecotrigo, em Cruz Alta, onde colocava em pr\u00e1tica as id\u00e9ias pregadas por Jos\u00e9 Lutzenberger, o l\u00edder ambiental mais conhecido do Brasil.<br \/>\nEm algumas regi\u00f5es do norte do Rio Grande do Sul, com terras arenosas em declive, as enxurradas de ver\u00e3o chegaram a carregar 130 toneladas de terra rec\u00e9m-cultivada, al\u00e9m de sementes e adubos. Segundo Ruedell, a produ\u00e7\u00e3o de apenas quatro toneladas de cobertura morta reduz a praticamente zero a eros\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a manuten\u00e7\u00e3o de uma camada de cobertura vegetal diminui a evapora\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, contribuindo para manter no solo uma reserva de umidade \u00fatil para o desenvolvimento das planta\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAs descobertas sobre o plantio direto t\u00eam n\u00e3o apenas fundo ecol\u00f3gico, mas base econ\u00f4mica. Al\u00e9m de reduzir em 40% o uso de sementes, esse sistema abate em 40% o n\u00famero de horas trabalhadas com trator.<br \/>\nSegundo a Funda\u00e7\u00e3o ABC, de Ponta Grossa, em 10 anos o plantio direto conseguiu uma redu\u00e7\u00e3o de 28% no custo fixo da produ\u00e7\u00e3o de soja. Entretanto, por implicar numa redu\u00e7\u00e3o do uso de adubos, o receitu\u00e1rio t\u00e9cnico oficial demorou para incorporar totalmente as recomenda\u00e7\u00f5es do plantio direto.<br \/>\nJ\u00e1 presente na quase totalidade das lavouras brasileiras de soja, o plantio direto \u00e9 o alvo de diversas pesquisas conduzidas por t\u00e9cnicos aliados a produtores e fabricantes de implementos agr\u00edcolas. Em 1978 a Embrapa criou um setor de mecaniza\u00e7\u00e3o visando desenvolver semeadeiras pr\u00f3prias para o plantio direto em parceria com agricultores e ind\u00fastrias de m\u00e1quinas.<br \/>\nAt\u00e9 ent\u00e3o, antes do cultivo de soja em campos de trigo, era pr\u00e1tica comum a queima da palhada. &#8220;O pessoal chegava a fazer sete gradea\u00e7\u00f5es para acabar com os torr\u00f5es e completar o preparo do solo para o plantio&#8221;, lembra Jos\u00e9 Denardin, do Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, de Passo Fundo.<br \/>\nPara coibir essa pr\u00e1tica, os t\u00e9cnicos da Emater gaucha conseguiram que o Banco do Brasil retardasse a concess\u00e3o de financiamentos aos agricultores adeptos das queimadas. A campanha &#8220;Quem queima, se queima&#8221; foi um marco da conscientiza\u00e7\u00e3o em torno da conserva\u00e7\u00e3o do solo no norte do Rio Grande do Sul.<br \/>\nO maquin\u00e1rio antes usado no preparo do solo foi adaptado para funcionar na semeadura direta. F\u00e1bricas que trabalhavam com implementos de preparo do solo perderam terreno ou se converteram em f\u00e1bricas de semeadeiras.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag5.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-13353\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/soja_pag5.jpg\" alt=\"soja_pag5\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/a><br \/>\nO plantio direto assumiu ares indiscutivelmente vitoriosos em meados da d\u00e9cada de 1990. Ainda assim, alguns t\u00e9cnicos se preocupavam porque, se reduziu a eros\u00e3o, a nova t\u00e9cnica de plantio intensificou o uso de herbicidas.<br \/>\nVerdadeiros substitutos do arado, os chamados dessecantes vegetais registraram uma explos\u00e3o de consumo, sob a lideran\u00e7a do Roundup, fabricado pela norte-americana Monsanto, que transformou esse herbicida \u00e0 base de glifosato em vetor da transgenia, a grande novidade da agricultura surgida na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XX.<br \/>\nN\u00e3o por acaso, a soja foi o cavalo de batalha usado pela ind\u00fastria para viabilizar as sementes transg\u00eanicas. Um cavalo malhado, criado nos Estados Unidos e treinado na Argentina.<br \/>\nO assunto das \u201csementes geneticamente modificadas\u201d apareceu na imprensa brasileira em 1997, quando agricultores gauchos come\u00e7aram a buscar na Argentina grandes quantidades de sementes RR \u2013 Roundup Ready. Como contrabando \u00e9 crime, a Pol\u00edcia Federal abriu diversos inqu\u00e9ritos no interior do Rio Grande do Sul, mas o cultivo dessas sementes imp\u00f4s-se em poucos anos, tornando impratic\u00e1vel conter o que se configurou como uma avalanche.<br \/>\nAlertas de ecologistas sobre riscos \u00e0 sa\u00fade humana e ao meio ambiente foram paulatinamente ignorados por todos os envolvidos na hist\u00f3ria. No in\u00edcio do governo Lula (2002-2010), o Minist\u00e9rio da Agricultura simulou resistir \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da novidade no cen\u00e1rio rural brasileiro, mas acabou cedendo \u00e0 press\u00e3o dos agricultores, que alegavam n\u00e3o dispor sequer de sementes convencionais para plantar. Com o tempo, a maioria dos t\u00e9cnicos da Embrapa mostrou-se favor\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 soja transg\u00eanica, mas ao milho e ao algod\u00e3o geneticamente modificados.<br \/>\nQuieta no in\u00edcio da pol\u00eamica, a Monsanto abriu o jogo \u00e0 medida que ganhava a batalha da legaliza\u00e7\u00e3o de suas sementes: queria royalties sobre seu invento. Not\u00edcias esparsas sobre processos judiciais d\u00e3o conta de que os agricultores resistem ao pagamento de royalties sobre o uso das sementes transg\u00eanicas.<br \/>\nEm menos de uma d\u00e9cada, entretanto, os transg\u00eanicos modificaram o mercado de insumos da agricultura brasileira, onde a maioria das empresas de sementes foi absorvida pelas ind\u00fastrias qu\u00edmicas.<br \/>\nO caso mais not\u00f3rio foi o da pr\u00f3pria Monsanto, que comprou no Brasil a Agroceres, a Dekalb e a Agroeste; e, na Europa, absorveu a veterana holandesa De Ruiter, produtora de sementes de legumes. \u00c9 uma hist\u00f3ria de desfecho imprevis\u00edvel, pois as sementes transg\u00eanicas continuam sendo alvo de ataques dos ambientalistas, que visam especialmente a soja.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Lei da biosseguran\u00e7a<\/span><br \/>\nComo parte do contexto criado pela transgenia, foi aprovada em mar\u00e7o de 2005 a Lei de Biosseguran\u00e7a no Brasil. Ap\u00f3s quase uma d\u00e9cada de pol\u00eamica, n\u00e3o se tinha not\u00edcia de que algum consumidor tivesse morrido ou ficado com alguma sequela por ingerir algum produto \u00e0 base de soja resistente ao herbicida glifosato. No entanto, as evid\u00eancias sobre os impactos ambientais eram crescentes.<br \/>\nEm sua terceira viagem a Porto Alegre, entre os dias 20 e 22 de novembro de 2005, o f\u00edsico te\u00f3rico e ativista ecol\u00f3gico Fritjof Capra trouxe consigo um artigo sobre os impactos ambientais da soja transg\u00eanica. O texto era assinado por Miguel Altieri, um dos principais incentivadores da agroecologia no mundo, e Walter Pengue, pesquisador da Universidade de Buenos Aires.<br \/>\nEm seu estudo, Altieri e Pengue acusavam a soja RR de operar na Am\u00e9rica Latina como \u201cuma m\u00e1quina de fome, desmatamento e devasta\u00e7\u00e3o socioambiental\u201d. Segundo esses autores, o aumento de nitrog\u00eanio e f\u00f3sforo em diversas bacias hidrogr\u00e1ficas da Am\u00e9rica Latina estaria relacionado com a expans\u00e3o da sojicultura moderna.<br \/>\nEmbora os adeptos do plantio direto argumentem que o glifosato n\u00e3o tem efeito residual sobre o solo, foram constatados ind\u00edcios de que o avan\u00e7o da soja transg\u00eanica enfraquece o poder fertilizante dos riz\u00f3bios, o que poderia exigir investimentos em adubos nitrogenados, aumentando o custo da lavoura e os impactos ambientais.<br \/>\nA redu\u00e7\u00e3o da diversidade vegetal, devida \u00e0 expans\u00e3o das monoculturas, tem historicamente levado a grandes infesta\u00e7\u00f5es de insetos e epidemias de doen\u00e7as.<br \/>\nOs insetos e os pat\u00f3genos encontram terreno f\u00e9rtil nestas \u00e1reas homog\u00eaneas devido \u00e0 inexist\u00eancia de controle natural. Isto leva a um aumento do uso de pesticidas, que ap\u00f3s algum tempo perdem a efic\u00e1cia devido ao surgimento de resist\u00eancias. Quando um \u00fanico herbicida \u00e9 usado repetidamente em uma lavoura, as chances de aparecerem plantas resistentes a este herbicida aumentam significativamente.<br \/>\nAo contr\u00e1rio da cren\u00e7a inicial, o glifosato n\u00e3o mata todas as chamadas ervas daninhas. V\u00e1rias plantas s\u00e3o resistentes \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es, exigindo doses extras para a limpeza das lavouras. \u00c9 o caso da trapoeraba (Commelina benghalensis ) e da corda-de-viola (Ipomea spp).<br \/>\nEm trabalhos de campo pesquisadores brasileiros descobriram que tamb\u00e9m h\u00e1 resist\u00eancia da poaia-branca (Richardia brasiliensis), erva-de-santa-luzia (Euphorbia pilulifera), erva-de-touro (Tridax procumbens), capim branco (Chloris dandiana) e a erva-quente (Borreria latifolia). O azev\u00e9m (Lolium multiflorum), muito usado como forragem de inverno no Sul, resiste at\u00e9 mesmo a doses superiores a 10 litros por hectare.<br \/>\nO maior controle ambiental imp\u00f4s uma evolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica que transformou os agrot\u00f3xicos em subst\u00e2ncias menos agressivas ao meio ambiente e para a sa\u00fade humana. De qualquer forma, reduzir o uso de agroqu\u00edmicos continua sendo um alvo dos t\u00e9cnicos, crescentemente sens\u00edveis ao uso de m\u00e9todos naturais, n\u00e3o s\u00f3 para atender \u00e1 demanda dos consumidores por alimentos mais saud\u00e1veis, mas visando tamb\u00e9m reduzir custos operacionais.<br \/>\nO uso de calc\u00e1rio, por exemplo, pode ser substitu\u00eddo pela produ\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria org\u00e2nica, fruto da integra\u00e7\u00e3o de diversas culturas, inclusive a pecu\u00e1ria. &#8220;Sojicultor isolado n\u00e3o existe mais&#8221;, afirma Jos\u00e9 Ruedell, convencido de que, junto com o plantio convencional, vai desaparecer tamb\u00e9m o maior mal trazido pela lavoura da soja: a monocultura. De fato, foi na regi\u00e3o de Cruz Alta que se difundiu a t\u00e9cnica da integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria-silvicultura, pregada inicialmente por t\u00e9cnicos da Embrapa da Amaz\u00f4nia.<br \/>\n<!--nextpage--><br \/>\n<span class=\"intertit\">&#8220;Alimento de pobre&#8221;<\/span><br \/>\nA esse elenco de inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas deve-se somar o progresso feito na \u00e1rea aliment\u00edcia. Na d\u00e9cada de 1990 come\u00e7aram a cair as barreiras socioculturais colocadas nas d\u00e9cadas anteriores contra o uso da soja na alimenta\u00e7\u00e3o dos brasileiros, que desenvolveram o preconceito segundo o qual a leguminosa chinesa nunca seria mais do que uma merenda insossa para escolares pobres ou suplemento para trabalhadores subnutridos.<br \/>\nO Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), de Campinas, nascido do IAC na d\u00e9cada de 1960, esmerou-se no esfor\u00e7o para viabilizar subprodutos do gr\u00e3o. Teve sucesso t\u00e9cnico, mas comercial n\u00e3o. Uma das vanguardas da pesquisa da soja transferiu-se para a Universidade Federal de Vi\u00e7osa, que tenta levar ao extremo o modelo de pesquisa financiada diretamente pela ind\u00fastria.<br \/>\nSubsidiado pela Nestl\u00e9, o professor Maur\u00edlio Moreira (1952) anunciou em meados da d\u00e9cada de 1990 ter chegado a uma variedade de soja &#8220;sem sabor&#8221;, isto \u00e9, isenta do gosto provocado pela oxida\u00e7\u00e3o do \u00e1cido linol\u00eanico.<br \/>\nComo as conquistas gen\u00e9ticas obtidas em determinada \u00e1rea n\u00e3o t\u00eam o mesmo efeito em outras regi\u00f5es, cada centro de pesquisa precisa percorrer o mesmo caminho do pesquisador pioneiro para chegar aos mesmos resultados \u2013 os quais ser\u00e3o v\u00e1lidos apenas numa localidade ou regi\u00e3o.<br \/>\nEm Londrina, no final do s\u00e9culo XX, a dire\u00e7\u00e3o da Embrapa encarregou tr\u00eas pesquisadores \u2013 Mercedes Carr\u00e3o-Panizzi, Jos\u00e9 Marcos Mandarino e Jos\u00e9 Renato Bordignon \u2013 de aprofundar os estudos sobre a soja como alimento e rem\u00e9dio. A tend\u00eancia era aproximar-se da corrente ultramoderna de pesquisadores que em outros pa\u00edses investigava o poder medicinal da soja.<br \/>\nA rica composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica da Glycine max a coloca como instrumento fundamental na preven\u00e7\u00e3o de alguns males contempor\u00e2neos como o c\u00e2ncer de mama, a hipertens\u00e3o arterial e o excesso de colesterol no sangue. Por isso, entre outras coisas, continua praticamente sem limites o horizonte da investiga\u00e7\u00e3o sobre a soja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse At\u00e9 50 anos atr\u00e1s, a cana-de-a\u00e7\u00facar, a laranjeira e o cafeeiro eram os principais exemplos da f\u00e1cil adapta\u00e7\u00e3o de vegetais ex\u00f3ticos ao clima e aos solos do Brasil. 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