{"id":12913,"date":"2014-01-20T15:34:22","date_gmt":"2014-01-20T18:34:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=12913"},"modified":"2014-01-20T15:34:22","modified_gmt":"2014-01-20T18:34:22","slug":"arte-e-feminismo-no-margs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/arte-e-feminismo-no-margs\/","title":{"rendered":"Arte e feminismo no MARGS"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 23 de mar\u00e7o o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) abrigar\u00e1 a primeira exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva de Ana Norogrando: obras 1968-2013. A mostra, que tem a curadoria do diretor do museu, Gaud\u00eancio Fidelis, re\u00fane uma produ\u00e7\u00e3o ecl\u00e9tica: pintura, escultura, instala\u00e7\u00f5es e videoinstala\u00e7\u00f5es.<br \/>\nNela se destaca o car\u00e1ter feminista que a artista imprime ao seu trabalho, fruto de sua intui\u00e7\u00e3o, inquieta\u00e7\u00e3o, de um grande embasamento te\u00f3rico, que forma um conjunto de obras de grande qualidade est\u00e9tica e, principalmente, ousadia.<br \/>\nNatural de Cachoeira do Sul, Ana Norogrando viveu 30 anos em Santa Maria, onde desenvolveu sua trajet\u00f3ria art\u00edstica e acad\u00eamica. Seu curr\u00edculo impressiona pela solidez e aplica\u00e7\u00e3o dos conhecimentos adquiridos em v\u00e1rias \u00e1reas: desenho, pintura, tecelagem, litografia, xilogravura, escultura, fotografia, v\u00eddeo, design, pesquisas com luz e movimento.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Tradi\u00e7\u00e3o<\/span><br \/>\nE embora seu trabalho n\u00e3o deixe de denotar engajamento pol\u00edtico e social, o feminismo de Ana n\u00e3o vem propriamente de uma milit\u00e2ncia que, se h\u00e1, est\u00e1 nas suas obras. Estas a designam como uma artista contempor\u00e2nea sem, contudo, perder o v\u00ednculo com a tradi\u00e7\u00e3o, sobretudo aquela ligada ao trabalho e a cultura italiana que herdou de seus pais, agricultores.<br \/>\nNesta exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva \u2013 que como tal imp\u00f5e uma cronologia do seu percurso enquanto artista \u2013 consta inclusive o quadro \u201cModelo negra\u201d, \u00f3leo sobre tela, feito em 1968, quando, ainda em Cachoeira do Sul, frequentava o curso intensivo de Pintura II, ministrado por Ado Malagoli.<br \/>\nEla aproveitaria a d\u00e9cada de 1970 para aprimorar seus estudos e viajar pela Europa para conhecer museus e cole\u00e7\u00f5es de arte.<br \/>\nSua grande guinada profissional foi nos anos 1980, quando come\u00e7ou a trabalhar com fibra met\u00e1lica.<br \/>\nH\u00e1 nisso uma alus\u00e3o a persona, ao temperamento feminino: \u201cesse material, aparentemente, quando submetido, de longe, ao olhar, \u00e9 suave. No entanto, \u00e9 forte, r\u00edgido, resistente, adjetivos que tamb\u00e9m definem as qualidades da mulher\u201d, salientou Ana Norogrando.<br \/>\n\u00c9 desse per\u00edodo varias obras desta exposi\u00e7\u00e3o, como, por exemplo: \u201cTramas e tens\u00f5es\u201d, de 1986, e \u201cPeneiras\u201d, de 1987. Esses trabalhos, cuja inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 o artesanato milenar com fins utilit\u00e1rios, ganham atrav\u00e9s de sua interven\u00e7\u00e3o e do material empregado (tela met\u00e1lica galvanizada, fios de cobre, barra de ferro), um di\u00e1logo com o mundo industrial.<br \/>\nMas foi atrav\u00e9s de \u201cVul-cr\u00e1rio\u201d, de 1993 \u2013 uma escultura cuja forma lembra uma vagina \u2013 que Ana Norogrando produziu o seu trabalho mais pol\u00eamico, cuja visualiza\u00e7\u00e3o provoca no p\u00fablico um voyeurismo sensual. Contudo, esta obra \u2013 constitu\u00edda de fibra met\u00e1lica galvanizada, barra de ferro, massa pl\u00e1stica e tinta acr\u00edlica, e que faz parte do acervo do MARGS \u2013 \u00e9 puro onirismo, flerte com o surrealismo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">Prazer ou nascimento<\/span><br \/>\nE mesmo nestes rinc\u00f5es passa longe do conceito baudelairiano de \u201c\u00e9pater le bourgeois\u201d (chocar, escandalizar o burgu\u00eas). H\u00e1 outras pe\u00e7as cujas formas lembram a genit\u00e1lia feminina e pelos pubianos e que, dependendo da imagina\u00e7\u00e3o, assumem ares de portal rumo ao prazer ou nascimento. Ou seja, convidativas e sem dentes que ameacem o falo imagin\u00e1rio de algum machista imprudente. Ana, uma mulher alta e elegante, n\u00e3o \u00e9 uma feminista \u201cenrag\u00e9e\u201d.<br \/>\nGaud\u00eancio Fid\u00e9lis, num dos textos que escreveu no livro hom\u00f4nimo ao da exposi\u00e7\u00e3o, faz uma analogia entre \u201cVul-cr\u00e1rio\u201d e alguns trabalhos da americana Georgia O\u2019Keeffe (1887-1986): \u201cuma das precursoras de uma abordagem feminista nas artes visuais no contexto americano, tendo realizado pinturas biom\u00f3rficas abstratas em que a forma do \u00f3rg\u00e3o sexual feminino \u2018aflora\u2019 literalmente atrav\u00e9s de imagens de flores voluptuosamente pintadas em grandes formatos\u201d.<br \/>\nAs refer\u00eancias n\u00e3o param por a\u00ed. Se \u201cVul-cr\u00e1rio\u201d remete as flores de O\u2019Keeffe, e suas vulvas, a instala\u00e7\u00e3o \u201cTerra\u201d lembra o trabalho de outro artista norte-americano, Robert Smithson (1938-1973), um dos expoentes da Land Art, famoso por seu \u201cBroken circle\u201d, espiral de terra localizada em Emmen, Holanda, realizada em 1971.<br \/>\nAna, em sua instala\u00e7\u00e3o, coletou 33 tipos de terra entre Porto Alegre e Santa Maria, inserindo discos de arados danificados encontrados no interior do estado. Trata-se de uma clara homenagem ao \u00e1rduo e sofrido (33, idade de Cristo) labor dos camponeses ga\u00fachos e sua religiosa f\u00e9 na reden\u00e7\u00e3o pelo trabalho.<br \/>\nTamb\u00e9m \u00e9 interessante a escultura \u201cKlein, Desomenagem\u201d, de 2013, constru\u00edda a partir de um manequim, \u00e1gua, anilina e tecido artesanal de seda e algod\u00e3o. Nela h\u00e1 uma forte alus\u00e3o ao monocromatismo do artista pl\u00e1stico franc\u00eas Yves Klein (1928-1962), e sua obsess\u00e3o pelo azul, levando-o a criar o YKB (Yves Klein Blue). Esse trabalho n\u00e3o deixa de ser um convite ao p\u00fablico a checar, na Funda\u00e7\u00e3o Iber\u00ea Camargo, algumas obras de Klein que integram a Exposi\u00e7\u00e3o Zero.<br \/>\nJ\u00e1 a videoinstala\u00e7\u00e3o \u201cInterl\u00fadio\u201d, gravada em 2012, mostra imagens dos pores do sol a partir da Ilha dos Marinheiros, Porto Alegre, casa-atelier de Ana Norogrando. Essa incurs\u00e3o de Ana no audiovisual n\u00e3o se circunscreve somente a v\u00eddeo-arte. Ela realizou trabalhos que se inserem no g\u00eanero document\u00e1rio, mostrando a natureza e a pobreza das popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas, assim como a necessidade de preserva\u00e7\u00e3o ambiental do Delta do Jacu\u00ed. Isso a levou fazer um trabalho socioeducativo, incluindo oficinas, junto a estas pessoas que s\u00e3o, tamb\u00e9m, seus vizinhos.<br \/>\nEm seu conjunto, percebe-se que a obra de Ana Norogrando est\u00e1 bem sintonizada com a arte contempor\u00e2nea. Suas influ\u00eancias t\u00eam um toque brasileiro, antropof\u00e1gico, t\u00e3o bem representado pela sua escultura \u201cO canibal\u201d, de 2000, que simboliza nossa forma de apreens\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o das coisas. Tudo isso torna a visita ao MARGS um \u00f3timo programa para quem estiver ou passar pela capital ga\u00facha durante este ver\u00e3o.<br \/>\n[notice]Ana Norogrando: obras 1968-2013<br \/>\nMARGS (Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega)<br \/>\nDe ter\u00e7a a domingo, das 10h \u00e0s 19h.<br \/>\nAt\u00e9 23 de mar\u00e7o[\/notice]<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 23 de mar\u00e7o o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) abrigar\u00e1 a primeira exposi\u00e7\u00e3o retrospectiva de Ana Norogrando: obras 1968-2013. A mostra, que tem a curadoria do diretor do museu, Gaud\u00eancio Fidelis, re\u00fane uma produ\u00e7\u00e3o ecl\u00e9tica: pintura, escultura, instala\u00e7\u00f5es e videoinstala\u00e7\u00f5es. 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