{"id":13132,"date":"2005-08-22T13:09:01","date_gmt":"2005-08-22T16:09:01","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=135"},"modified":"2005-08-22T13:09:01","modified_gmt":"2005-08-22T16:09:01","slug":"a-reversao-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-reversao-da-historia\/","title":{"rendered":"A revers\u00e3o da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Maciel<br \/>\nO advento de um novo inverno em nossa civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 para lembrar a met\u00e1fora que usei em meu livro As Quatro Esta\u00e7\u00f5es \u2013 se apresenta como, no m\u00ednimo, desconcertante. Todos os avan\u00e7os que vivemos, por v\u00e1rias d\u00e9cadas, em termos de liberdade existencial, percep\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, aprofundamento da vida espiritual e, numa palavra, expans\u00e3o da consci\u00eancia, parecem abandonados como se simplesmente nunca tivessem acontecido. O progresso do esp\u00edrito parece ter estancado, num mundo sanguin\u00e1rio, dividido entre Bush e Bin Laden, no qual o \u00fanico instinto ativo para ser o da morte.<br \/>\nParou por que? Por que parou?<br \/>\nUma das id\u00e9ias mais interessantes surgidas na reflex\u00e3o de Jean Baudrillard sobre o nosso tempo \u00e9 a de que assistimos a uma revers\u00e3o da pr\u00f3pria Hist\u00f3ria que tendo imperceptivelmente ultrapassado o pr\u00f3prio fim inverte o seu sentido para o passado. Ele cita um texto de Elias Caneti, publicado em 1978, \u00e9poca em que se definiria a precipita\u00e7\u00e3o de nosso mundo no virtual.<br \/>\n A partir de um certo ponto, a Hist\u00f3ria n\u00e3o era mais real. Sem que se percebesse, toda a humanidade subitamente abandonou a realidade; tudo o que aconteceu desde ent\u00e3o supostamente n\u00e3o foi verdadeiro; mas n\u00f3s supostamente n\u00e3o percebemos. Nossa tarefa agora seria encontrar esse ponto e enquanto n\u00e3o o localizarmos, estaremos condenados a mergulhar em nossa destrui\u00e7\u00e3o presente.<br \/>\nA Hist\u00f3ria ocultou de n\u00f3s o seu fim e come\u00e7ou o caminho de volta, na dire\u00e7\u00e3o oposta. Por disso, o tempo n\u00e3o \u00e9 mais contado progressivamente, por adi\u00e7\u00e3o, a partir da origem mas por subtra\u00e7\u00e3o, a partir do fim. N\u00e3o temos mais o futuro a nossa frente mas uma dimens\u00e3o anor\u00e9xica na qual se estende uma realidade virtual. Nela, o simulacro precede o real, a informa\u00e7\u00e3o precede o acontecimento. Estamos imobilizados entre nossos f\u00f3sseis e nossos clones.<br \/>\nOu seja: estamos diante do desaparecimento da Hist\u00f3ria real, dominada por uma memoriza\u00e7\u00e3o fan\u00e1tica. Em vez de nascerem e morrerem, os seres surgem j\u00e1 como f\u00f3sseis virtuais. A Hist\u00f3ria teria sido infectada por um retrovirus e seu novo movimento privilegia a retaguarda. Isso explica, segundo Baudrillard, o fen\u00f4meno do desaparecimento das vanguardas e o ressurgimento de formas passadas e arcaicas, utopias retrospectivas que engendram uma Hist\u00f3ria espectral, feita de acontecimentos-fantasmas. Foi o advento da chamada era da mediocridade. De repente, algum dej\u00e1-vu qualquer ressurge como uma assombra\u00e7\u00e3o imprevista. Como isso foi poss\u00edvel? Ele n\u00e3o pertencia ao passado? S\u00f3 o retrovirus explica.<br \/>\nNos tempos atuais, a humanidade anda de marcha r\u00e9. Os sinais desse inesperado movimento, considerado simplesmente imposs\u00edvel ou absurdo pelo pensamento estratificado durante s\u00e9culos de especula\u00e7\u00e3o racionai, podem ser percebidos hoje pelo olhar atento. Essa invers\u00e3o \u00e9 apenas disfar\u00e7ada, mas n\u00e3o desmentida, pelo progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico, que n\u00e3o cessa de inventar novos brinquedos, muitos deles mort\u00edferos.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 de admirar, por exemplo, que a dial\u00e9tica da Hist\u00f3ria humana tenha sido substitu\u00edda por um estruturalismo petrificador, num movimento de recuo do pensamento, de acordo com a met\u00e1fora  de Sartre, da imagem din\u00e2mica do cinema para a fotografia parada. Ou que as perspectivas de uma nova organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social tenha sido abandonadas em favor de um neoliberalismo selvagem que, como contrapartida, precipitou nossa civiliza\u00e7\u00e3o num terrorismo fundamentalista. Ou que a \u00e9tica seja fundamentada na restaura\u00e7\u00e3o de valores iluministas, pr\u00e9-marxistas. Ou que a experi\u00eancia espiritual genu\u00edna tenha sido sepultada por igrejas e seitas igualmente fundamentalistas. Os sinais de invers\u00e3o da din\u00e2mica coletiva est\u00e3o por toda parte.<br \/>\nAssistimos, por toda parte, a um triunfo deprimente da caretice \u2013 ou seja, do formalismo sobre a espontaneidade, da apar\u00eancia sobre a ess\u00eancia, dos t\u00edtulos, comendas e medalhas sobre o m\u00e9rito leg\u00edtimo, da hipocrisia burguesa num \u00e1pice surpreendente sobre a vida natural e aut\u00eantica.  A revers\u00e3o da Hist\u00f3ria permitiu \u00e0s classes m\u00e9dias assegurar a sobreviv\u00eancia de seus deuses ao mesmo tempo que condena seus saud\u00e1veis dem\u00f4nios ao esquecimento.  Essas tarefas foram confiadas \u00e0s armas com que ainda conta, em especial, na m\u00eddia e na academia. Essas duas institui\u00e7\u00f5es alavancaram o processo de revers\u00e3o.<br \/>\nPrimeiro exemplo: a moral tradicional, baseada na hierarquia indiscut\u00edvel, na prepot\u00eancia e na submiss\u00e3o, na obedi\u00eancia e no conformismo \u2013 ou seja, numa palavra, na repress\u00e3o \u2013 teve de enfrentar a emerg\u00eancia de uma moral libert\u00e1ria que cresceu durante a maior parte do s\u00e9culo passado, de uma maneira aparentemente irresist\u00edvel.<br \/>\nCom ra\u00edzes na psican\u00e1lise de Freud, que desmascarou essa moral repressiva como origem da neurose, ou na subvers\u00e3o de valores de Nietzsche, que a denunciou como contr\u00e1ria aos interesses da pr\u00f3pria vida, a nova perspectiva moral ganhou uma enuncia\u00e7\u00e3o aguda no pensamento de Sartre, que viu claramente seu fundamento na liberdade.  O auge desse processo de manifesta\u00e7\u00e3o da nova moral libert\u00e1ria foi alcan\u00e7ado, na pr\u00e1tica, pelo movimento que se convencionou chamar de contracultura. Sua revers\u00e3o restaurou alguns dos mais renitentes preconceitos da moral tradicional.<br \/>\nMas a situa\u00e7\u00e3o atual, segundo Baudrillard, n\u00e3o \u00e9 simplesmente contradit\u00f3ria ou irracional \u2013 ela \u00e9 paradoxal. H\u00e1 uma ironia objetiva no processo recente: quanto mais os sistemas pol\u00edticos, sociais e econ\u00f4micos progridem mais geram a pr\u00f3pria descontru\u00e7\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o deflagra a revers\u00e3o autom\u00e1tica, pura e simples. Essa revers\u00e3o provocou euforia na cidadela da classe m\u00e9dia, o que enfatizou paradoxos simplesmente escandalosos. Com a revers\u00e3o da Hist\u00f3ria, o mais recente \u00e9 o mais remoto; o mais distante \u00e9 o mais avan\u00e7ado.<br \/>\nAssim, apesar dos avan\u00e7os de Wilhelm Reich, Herbert Marcuse e Norman O. Brown, ou contra eles, a psican\u00e1lise acomodou-se em sua miss\u00e3o de promover a adapta\u00e7\u00e3o passiva e portanto o conformismo. A pretexto de contestar a depend\u00eancia de Sartre ao cogito cartesiano, o estruturalismo o declarou superado, numa manobra logo aben\u00e7oada pelas universidades. O Sistema cujo poder fora denunciado \u00e9, ent\u00e3o, consagrado como insuper\u00e1vel, uma estrutura inabal\u00e1vel. Com tal fundamento te\u00f3rico, as novas gera\u00e7\u00f5es s\u00e3o facilmente convencidas da verdade suprema do realismo c\u00ednico.<br \/>\nAo mesmo tempo, a m\u00eddia encarregou-se da dilui\u00e7\u00e3o da contracultura, apressando sua retra\u00e7\u00e3o. Substituiu-a, no esp\u00edrito das novas gera\u00e7\u00f5es, pelo culto ao aparecimento incessante de novas maravilhas do entretenimento, gra\u00e7as \u00e0 nova tecnologia digital. Um computador e um celular de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o s\u00e3o apresentados \u2013 e o que \u00e9 pior: acreditados \u2013 como suficientes para assegurar a felicidade final.<br \/>\nO estado de consci\u00eancia vigente foi refor\u00e7ado por meios mais sutis, subliminais. Assegurou-se, assim, nas novas gera\u00e7\u00f5es a auto-hipnose e o emparedamento mental que inibe a liberdade original da consci\u00eancia e tende a congel\u00e1-la, como diria Sartre, na rigidez do ser em-si.<br \/>\nO panorama atual provoca espanto. Como compreend\u00ea-lo?<br \/>\nBaudrillard sustenta que uma Hist\u00f3ria virtual, na qual a informa\u00e7\u00e3o substitui o acontecimento, est\u00e1 ocupando, hoje, o lugar da Hist\u00f3ria real, e que isso resulta em nossa falta de responsabilidade, tanto individual quanto coletiva. Assim, por exemplo, o apelo de Sartre pela liberdade e conseq\u00fcente responsabilidade, \u00e9 considerado, para todos os efeitos da revers\u00e3o, uma mera ilus\u00e3o do passado.<br \/>\nNo plano econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social, a revers\u00e3o foi ainda mais espetacular. O desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o triunfo do capitalismo selvagem, na nova encarna\u00e7\u00e3o neoliberal, serviu de pretexto para a desconsidera\u00e7\u00e3o do pensamento te\u00f3rico marxista. O objetivo, naturalmente, \u00e9 a supress\u00e3o radical da rica tradi\u00e7\u00e3o do pensamento cr\u00edtico, mais uma vez beneficiando a aceita\u00e7\u00e3o passiva e o conformismo.<br \/>\nO deus da classe m\u00e9dia, ao qual ela deve sua exist\u00eancia, o fundamento metaf\u00edsico do capitalismo, \u00e9 o dinheiro. Nos dias que vivemos,  experimenta sua promo\u00e7\u00e3o a uma esp\u00e9cie de deus, glorificado em prosa, verso e uma enxurrada incessante de tratados de economia, organiza\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e seus templos m\u00e1ximos que s\u00e3o os bancos. Esse fetiche abstrato, o vil metal, a culpa materializada da Humanidade, segundo Norman O. Brown, passa por obra de Deus ou da Natureza \u2013 e parece existir como o c\u00e9u e o mar, o Sol e a Lua, as montanhas e as \u00e1rvores existem. A mera exist\u00eancia do dinheiro, portanto, \u00e9 a verdadeira origem da aliena\u00e7\u00e3o, segundo Marx, da reifica\u00e7\u00e3o, segundo Lukacs, ou da serializa\u00e7\u00e3o, segundo Sartre.  Estes tr\u00eas conceitos descrevem, de diferentes \u00e2ngulos, o mesmo fen\u00f4meno m\u00f3rbido que caracteriza nossa vida em comum \u2013 o endeusamento do vil metal.<br \/>\nMas Baudrillard vai, hoje, mais longe. Ele considera termos como aliena\u00e7\u00e3o,. reifica\u00e7\u00e3o e serializa\u00e7\u00e3o, obsoletos demais para indicar o que acontece hoje \u2013 e  descreve nosso mundo em termos de excresc\u00eancia tecnol\u00f3gica, obscenidade e obesidade proliferantes e virtualidade desenfreada. Com um humor e um sarcasmo necess\u00e1rios \u00e0 filosofia de hoje, Baudrillard \u00e9 implac\u00e1vel. A nossa situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se encontra al\u00e9m da f\u00edsica e da metaf\u00edsica, \u00e9 totalmente pataf\u00edsica \u2013 uma par\u00f3dia que, segundo seu criador Alfred Jarry, \u00e9 \u201ca ci\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias\u201d.<br \/>\nA contesta\u00e7\u00e3o mais en\u00e9rgica, no s\u00e9culo passado, foi feita, al\u00e9m do marxismo e do existencialismo, por este outro dem\u00f4nio que assombrou a classe m\u00e9dia \u2013 a contracultura. Foi preciso exorciz\u00e1-lo de todas as maneiras. Ele acenava com uma libera\u00e7\u00e3o sexual natural, saud\u00e1vel, uma emancipa\u00e7\u00e3o das falsas necessidades materiais, uma liberta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. Retomava a inspira\u00e7\u00e3o anarquista no que ela tinha de mais positivo e mais f\u00e9rtil. Seus arroubos juvenis pareciam anunciar, de fato, uma nova era.<br \/>\nA revers\u00e3o se manifesta nesse ponto em que a amea\u00e7a da contracultura come\u00e7ava a parecer irresist\u00edvel. Foi o ponto de muta\u00e7\u00e3o para a degenera\u00e7\u00e3o presente. A mudan\u00e7a qualitativa inverte ent\u00e3o seus vetores, uma invers\u00e3o diab\u00f3lica. A liberdade sexual torna-se permissividade e obscenidade; as necessidades materiais s\u00e3o absolutizadas, numa distor\u00e7\u00e3o maligna que deifica o mercado capitalista; o crescimento espiritual regride para as formas petrificadas das igrejas tradicionais e das novas seitas. E por a\u00ed vai. A \u201cnova era\u201d caminha para tr\u00e1s.<br \/>\nTudo tem a ver com tudo, na paisagem sombria da revers\u00e3o. S\u00f3 \u00e9 preciso, em cada caso, encontrar o ponto em que a conex\u00e3o maligna se faz.<br \/>\nO recuo deliberado que estamos vivendo hoje apresenta suas justificativas e desculpas em nome da ci\u00eancia e da tecnologia e de seus progressos aparentemente maravilhosos. Os alertas de Heidegger s\u00e3o solenemente ignorados, como devaneios m\u00edsticos. A ci\u00eancia n\u00e3o pensa e a tecnologia \u00e9 o est\u00e1gio final do esquecimento do ser. A met\u00e1fora da primeira parte dos filmes sobre a Matrix, a que interessa, ilustra artisticamente esse abismo<br \/>\nBeaudrillard chama ao processo de \u201cAssassinato do Real\u201d; trata-se de um \u201cCrime Perfeito\u201d um exterm\u00ednio do qual nada resta, nenhum tra\u00e7o, \u201cnem mesmo um cad\u00e1ver\u201d. Neste ponto cego da revers\u00e3o da Hist\u00f3ria, nada mais \u00e9 verdadeiro ou falso, e tudo perambula indiferentemente entre a causa e o efeito, entre a origem e sua finalidade, uma muta\u00e7\u00e3o crucial de um estado cr\u00edtico para um estado catastr\u00f3fico.<br \/>\nHoje, toda reflex\u00e3o sobre a realidade \u00e9, no m\u00e1ximo, uma prec\u00e1ria hip\u00f3tese de trabalho, justificada apenas por tentar satisfazer nosso misterioso instinto especulativo \u2013 ou, no m\u00e1ximo, uma cria\u00e7\u00e3o de \u00edndole art\u00edstica, uma edifica\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria.<br \/>\nComo isso aconteceu?<br \/>\nO engenho da feiti\u00e7aria cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica acabou por criar essa tal de realidade virtual \u2013 e quando suas caracter\u00edsticas e sua pr\u00f3pria ess\u00eancia foram comparadas com as da suposta verdadeira realidade, as diferen\u00e7as efetivas n\u00e3o podiam mais ser detectadas. Eram t\u00e3o similares que se confundiam. Uma espantosa equa\u00e7\u00e3o entre o real e o virtual, foi inevit\u00e1vel.<br \/>\nA realidade na qual a Matrix, do filme, existe e opera \u00e9, em tudo, similar \u00e0 realidade virtual que ela cria. As categorias de tempo e espa\u00e7o, mat\u00e9ria e energia s\u00e3o rigorosamente as mesmas. N\u00e3o h\u00e1 \u201crealidade\u201d substancial em nenhum dos casos.<br \/>\nEis o que Baudrillard chama de Crime Perfeito.<br \/>\nQuando se fala em Hist\u00f3ria, n\u00e3o se trata da Hist\u00f3ria vivida no modo do ser para-si, no sentido de Sartre, mas a Hist\u00f3ria registrada no modo do em-si. Esta \u201cHist\u00f3ria\u201d, objeto de fil\u00f3sofos e historiadores, \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o mais ou menos arbitr\u00e1ria, largamente subjetiva \u2013 e, como tal, mais pr\u00f3xima da obra de arte do que da medi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Seu car\u00e1cter numinoso, sempre envolto em mist\u00e9rio, contudo, n\u00e3o impede que, \u00e0 sua maneira, tamb\u00e9m se apresente como um desvelamento do ser pois, como sustenta Heidegger, o pr\u00f3prio ser \u00e9 hist\u00f3rico, a aletheia \u00e9 tempo..<br \/>\nEntretanto, tal f\u00e1bula \u2013 a pretensa Hist\u00f3ria \u2013 , embora reveladora como os antigos mitos, n\u00e3o pode ser contemplada com uma cren\u00e7a factual, ing\u00eanua. A alegada \u201crevers\u00e3o da Hist\u00f3ria\u201d \u00e9 uma met\u00e1fora para um decl\u00ednio evidente que macula, hoje, o instante. Da mesma maneira, pode-se falar de um Assassinato do Real, ou de um Crime Perfeito, como uma met\u00e1fora relevante para a consci\u00eancia de nosso tempo. Baudrillard chega ao \u00e2mago da quest\u00e3o quando percebe que o Assassinato do Real significa, no fundo, o Assassinato da Ilus\u00e3o, o exterm\u00ednio dessa \u201cilus\u00e3o radical e objetiva do mundo\u201d.<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o descrita por Baudrillard, uma vis\u00e3o que muitos julgam pessimista, \u00e9 uma oportunidade para o despertar espiritual. Sua compreens\u00e3o simplesmente exige o desvanecimento dos v\u00e9us de Maya.<br \/>\nDiz Baudrillard:<br \/>\nAfinal de contas, pode ser que a humanidade, por interm\u00e9dio de uma compuls\u00e3o enigm\u00e1tica, esteja envolvida intimamente nesse processo catastr\u00f3fico e portanto esteja condenada a desaparecer. :Se for este o caso, seria muito melhor tratarmos nosso desaparecimento como uma forma de arte \u2013exercit\u00e1-lo, represent\u00e1-lo, criar uma arte do desaparecimento. \u00c9 melhor que a alternativa, que seria desaparecer sem deixar tra\u00e7os, sem sequer o espet\u00e1culo de nossa destrui\u00e7\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Maciel O advento de um novo inverno em nossa civiliza\u00e7\u00e3o \u2013 para lembrar a met\u00e1fora que usei em meu livro As Quatro Esta\u00e7\u00f5es \u2013 se apresenta como, no m\u00ednimo, desconcertante. 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