{"id":13133,"date":"2005-08-31T13:11:08","date_gmt":"2005-08-31T16:11:08","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=136"},"modified":"2005-08-31T13:11:08","modified_gmt":"2005-08-31T16:11:08","slug":"chico-buarque-mensalao-nao-da-samba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/chico-buarque-mensalao-nao-da-samba\/","title":{"rendered":"Chico Buarque : mensal\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 samba"},"content":{"rendered":"<p>Na chegada em Passo Fundo, durante a Jornada Liter\u00e1ria na semana passada, o compositor e escritor Chico Buarque de Holanda deu uma entrevista coletiva.  Falou que est\u00e1 compondo novamente, nada diretamente pol\u00edtico, est\u00e1 pensando em \u201calgo mais atemporal\u201d, j\u00e1 tem quatro ou cinco can\u00e7\u00f5es, mas ainda n\u00e3o sabe o que vai ser. \u201cVoc\u00ea quer que eu fa\u00e7a um samb\u00e3o do mensal\u00e3o, \u00e9 isso? Pelo amor de Deus, n\u00e3o d\u00e1\u201d. Essa foi a rea\u00e7\u00e3o de Chico Buarque quando um rep\u00f3rter  perguntou se a crise pol\u00edtica atual vai influenciar o novo disco que ele est\u00e1 gestando.<br \/>\nRevelou, mais uma vez, o temor de que a can\u00e7\u00e3o popular, como ele sabe fazer, seja um g\u00eanero musical do s\u00e9culo passado, como foi  a \u00f3pera foi no s\u00e9culo XIX. Talvez ele n\u00e3o tenha mais o \u201c\u00e9lan juvenil que a m\u00fasica requer\u201d.<br \/>\nOs escritores presentes ao evento torceram o nariz, provavelmente consideram Chico um intruso na literatura. Os mais agressivos creditaram o pr\u00eamio a uma atitude marqueteira dos organizadores, pois Chico sempre d\u00e1 m\u00eddia. O poeta Ivan Junqueira, presidente da Academia Brasileira de Letras, quando soube que a aglomera\u00e7\u00e3o no audit\u00f3rio era uma entrevista do Chico Buarque comentou: \u201cEnt\u00e3o, deixa eu passar ao largo\u201d.<br \/>\nCom as mulheres (grande maioria no evento) foi diferente. Chico foi alvo de ruidosa tietagem de av\u00f3s, m\u00e3es e filhas, de menos de 15 aos 60 e poucos. Paciente, deu aut\u00f3grafos, recebeu beijos e abra\u00e7os e posou para fotografias com as f\u00e3s. \u201cEssa foto \u00e9 para ela\u201d, explicava a av\u00f3 com a netinha no colo. \u201cAi, acho que vou chorar\u201d, dizia a mocinha beijando o cart\u00e3o com o aut\u00f3grafo.<br \/>\nA entrevista foi fraca. Era como se os rep\u00f3rteres, mais de vinte, estivessem constrangidos diante daquela figura pequena, desamparada na ampla mesa, segurando o microfone, disposta a responder perguntas. Mas o velho Chico n\u00e3o decepcionou.<br \/>\nM\u00fasica popular est\u00e1 sem espa\u00e7o, sendo sufocada?<br \/>\nChico &#8211; N\u00e3o vejo assim. Talvez exista um bloqueio na grande m\u00eddia, na tev\u00ea principalmente, que tende a uma certa homogeneiza\u00e7\u00e3o, mas as manifesta\u00e7\u00f5es existem em todos os Estados, todas as regi\u00f5es. Talvez a tev\u00ea seja hoje menos aberta do que j\u00e1 foi. O r\u00e1dio&#8230;eu quando comecei a me interessar por m\u00fasica ouvia tudo no r\u00e1dio, n\u00e3o s\u00f3 m\u00fasica brasileira, todo o tipo de m\u00fasica popular, americana, latina, francesa, italiana. Talvez hoje a difus\u00e3o seja mais dif\u00edcil, mas as manifesta\u00e7\u00f5es existem.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o ao governo?<br \/>\nChico &#8211;  Bem, eu j\u00e1 disse, estou decepcionado. N\u00e3o creio que o meu sentimento seja mais importante do que o sentimento de outras pessoas. Gosto do Lula, votei nele, mas n\u00e3o estou contente, a elei\u00e7\u00e3o dele foi importante para a democracia&#8230; estou triste, mas isso \u00e9 t\u00e3o importante quanto a alegria raivosa dos que nunca gostaram do Lula.<br \/>\nE o novo disco?<br \/>\nChico &#8211; Estou querendo fazer m\u00fasica. Tenho feito isso, descansar da m\u00fasica escrevendo e descansar da literatura fazendo m\u00fasica.<br \/>\nComo foi escrever Budapeste?<br \/>\nChico &#8211; O livro me custou dois anos de trabalho. Escrevia todos os dias, rasgando, jogando fora. Jogar fora tamb\u00e9m \u00e9 escrever, \u00e9 melhor, as vezes, do que escrever propriamente. Enfim, escapar de armadilhas, definir o tom, importante n\u00e3o perder o tom, comer, dormir, sonhar com o livro. Mas n\u00e3o havia disciplina, havia uma obsess\u00e3o. N\u00e3o teve sacrif\u00edcio n\u00e3o. N\u00e3o tenho grande prazer em escrever, gosto mais de ler.<br \/>\nDiferen\u00e7a entre escrever e fazer m\u00fasica?<br \/>\nChico &#8211; Quando comecei escrever o Estorvo (NR: seu primeiro livro) j\u00e1 estava h\u00e1 um tempo sem escrever m\u00fasica. Precisava criar, comecei a pensar ser\u00e1 que terei o que dizer mais com a m\u00fasica, de repente teria que encontrar outro instrumento. Talvez a m\u00fasica dependa mais de um certo el\u00e1n juvenil&#8230;A literatura requer mais reflex\u00e3o, menos arroubo. Talvez, ent\u00e3o, inconscientemente, eu comecei a preparar a cama para trabalhar at\u00e9 mais tarde. Isso acontece com muitos compositores de m\u00fasica, de repente esgota e n\u00e3o conseguem criar mais.<br \/>\nO p\u00fablico&#8230;<br \/>\nChico &#8211; Talvez a m\u00fasica popular seja uma forma do s\u00e9culo vinte, talvez a m\u00fasica do s\u00e9culo  vinte e um seja outra coisa que n\u00e3o essa que eu sei fazer.<br \/>\nQuais s\u00e3o as suas leituras, seus autores?<br \/>\nChico &#8211; Quem leio? Leio os contempor\u00e2neos. Tem escritor que n\u00e3o l\u00ea os contempor\u00e2neos, depois se queixa que n\u00e3o \u00e9 lido, se nem ele, que \u00e9 escritor,  l\u00ea os que est\u00e3o escrevendo, quem vai ler? Gosto de ler, leio o que aparece. N\u00e3o tenho muitas amizades no meio, Rubem Fonseca, Ver\u00edssimo, uns seis ou sete. J\u00e1 tive mais amigos entre os literatos, mas depois que comecei a escrever perdi alguns.<br \/>\nA crise pol\u00edtica inspira?<br \/>\nChico &#8211; Voc\u00ea quer saber se vou escrever sobre o mensal\u00e3o, o samb\u00e3o do mensal\u00e3o&#8230;Pelo amor de Deus. N\u00e3o, estou at\u00e9 meio parado, porque fiz uma opera\u00e7\u00e3o no dedo, n\u00e3o estou conseguindo  tocar viol\u00e3o. As quatro ou cinco letras que escrevi foram anteriores a essa crise, de qualquer modo n\u00e3o creio que o momento pol\u00edtico seja inspirador, estou pensando em algo mais atemporal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na chegada em Passo Fundo, durante a Jornada Liter\u00e1ria na semana passada, o compositor e escritor Chico Buarque de Holanda deu uma entrevista coletiva. 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