{"id":13174,"date":"2005-12-28T15:31:24","date_gmt":"2005-12-28T18:31:24","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=190"},"modified":"2005-12-28T15:31:24","modified_gmt":"2005-12-28T18:31:24","slug":"darcy-azambuja-o-aquarelista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/darcy-azambuja-o-aquarelista\/","title":{"rendered":"Darcy Azambuja, o aquarelista"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/atualizacao_feriados\/darcy_media.jpg?0.48136739317900023\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"238\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Darcy Azambuja ganha obra sobre sua vida<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O professor Jos\u00e9 Clemente Pozenato, que \u00e9 autor de &#8220;O Quatrilho&#8221; entre outras hist\u00f3rias, apresenta o pref\u00e1cio de Darcy Azambuja \u2013 Contos Escolhidos (188p.), organizado pelo jornalista Geraldo Hasse e lan\u00e7ado pela J\u00c1 Editores na Feira do Livro. A publica\u00e7\u00e3o vem numa caixa com dois volumes (R$ 30). No primeiro Darcy Azambuja \u2013 Vida e Obra (128p.), perfil biogr\u00e1fico escrito por Hasse, que aborda a trajet\u00f3ria de contista, jurista e homem p\u00fablico. O trabalho \u00e9 patrocinado pela Copesul, via Lei Rouanet.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 sua Hist\u00f3ria da Literatura no Rio Grande do Sul (1956), Guilhermino Cesar definiu j\u00e1, com justeza, o lugar nela ocupado por Darcy Azambuja. Seu livro de contos de estr\u00e9ia, No Galp\u00e3o (1925), marca ao mesmo tempo o in\u00edcio da prosa modernista rio-grandense e, nela, a continuidade da literatura regionalista que vinha do s\u00e9culo anterior.Esses dois aspectos dos contos de Darcy Azambuja \u2013 o modernista e o regionalista \u2013 ir\u00e3o marcar os passos seguintes da literatura do Rio Grande do Sul. \u00c9 o que salienta Regina Zilberman em A literatura no Rio Grande do Sul (1982). Segundo ela, com o rejuvenescimento da linguagem, mais a mudan\u00e7a de foco, do passado m\u00edtico e distante para um mundo mais pr\u00f3ximo e real, \u201cNo Galp\u00e3o d\u00e1 as pistas para um eventual percurso da prosa regionalista\u201d. Passos que ser\u00e3o dados depois por Cyro Martins e pela gera\u00e7\u00e3o do romance social.N\u00e3o \u00e9 pouco para um in\u00edcio de carreira liter\u00e1ria. Mais ainda se levarmos em conta que quem sinalizava os novos caminhos era um contista precoce, mal chegado aos 24 anos de idade. crescente-se, para assinalar o impacto com que a obra foi recebida, que ela foi contemplada com o pr\u00eamio anual da Academia Brasileira de Letras. Mesmo a Academia sendo, naquele ponto da hist\u00f3ria, alvo dos ataques iconoclastas do modernismo, \u00e9 ineg\u00e1vel que um pr\u00eamio por ela conferido tinha seu peso e sua import\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\">Darcy Azambuja n\u00e3o foi o \u00fanico caso de estr\u00e9ia precoce, cercada de aplauso geral, nesses anos do modernismo. Pode ser lembrado o nome de Raquel de Queiroz, que publicou O quinze (1930) tendo apenas 20 anos de idade. Ou ainda Clarice Lispector, que surpreendeu a cr\u00edtica aos 19 anos, com Perto do cora\u00e7\u00e3o selvagem (1944). Estas, no entanto, prosseguiram com uma ampla produ\u00e7\u00e3o, fazendo efetivamente carreira liter\u00e1ria. Darcy Azambuja, ao contr\u00e1rio, preferiu fazer carreira no Direito e no magist\u00e9rio. A publica\u00e7\u00e3o posterior de Romance antigo (1940) e de Coxilhas (1957), com que encerrou sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, n\u00e3o caracteriza uma carreira dedicada \u00e0 literatura. A rigor, as duas \u00faltimas obras, mesmo mantendo bom n\u00edvel de qualidade narrativa, n\u00e3o acrescentam elementos novos aos exibidos na obra de estr\u00e9ia.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o cabe indagar, a n\u00e3o ser para obter respostas no plano das suposi\u00e7\u00f5es, dos motivos de Darcy Azambuja n\u00e3o ter prosseguido na trilha por ele mesmo aberta. O que faz sentido \u00e9 examinar a import\u00e2ncia de seu legado, n\u00e3o apenas para a literatura rio-grandense, mas tamb\u00e9m para a literatura brasileira. Sua contribui\u00e7\u00e3o para a literatura modernista do Rio Grande do Sul est\u00e1 bem caracterizada no trabalho, antes citado, de Regina Zilberman. Quero avan\u00e7ar na hip\u00f3tese de haver ele dado tamb\u00e9m uma importante contribui\u00e7\u00e3o para a literatura brasileira do per\u00edodo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nessa perspectiva, parece-me que a principal novidade trazida por Darcy Azambuja, especialmente para o regionalismo modernista, foi a de ter criado, ou lan\u00e7ado, uma est\u00e9tica da paisagem. \u00c9 o que pretendo salientar quando o denomino, no t\u00edtulo destas p\u00e1ginas, um aquarelista.A paisagem, como se entende atualmente, n\u00e3o \u00e9 apenas um recorte do espa\u00e7o f\u00edsico, dotado de alguma peculiaridade est\u00e9tica. Somente se constitui a paisagem quando no meio do espa\u00e7o f\u00edsico fica marcada a presen\u00e7a humana. Mesmo a contempla\u00e7\u00e3o do que se poderia chamar de \u201cespa\u00e7o selvagem\u201d se faz pelo olho est\u00e9tico do homem, seja ele pintor ou artista da palavra. Nos contos de Darcy Azambuja, a presen\u00e7a humana ganha extrema for\u00e7a, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que \u00e9 o espa\u00e7o f\u00edsico da paisagem o foco do olhar do narrador, o qual se transp\u00f5e para o olhar do leitor.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tome-se, como exemplo colhido ao acaso, o in\u00edcio do conto Beira de estrada:\u201cTodos os viandantes que passavam naquela comprida estrada do Cerro Negro, perdida em muitas l\u00e9guas pela campanha, conhecem a casa do velho Chico Pedro. Fica no topo de um dos coxilh\u00f5es que, naquele planalto, levantam em ondula\u00e7\u00f5es fortes o ch\u00e3o do campo, como imensas pedras redondas cobertas por um tapete verde. De longe se avista a casa, branquejando, sempre alegre e clara, entre as repolhadas figueiras e as copas de laranjeiras que vingam para o fundo, no quintal.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Isto \u00e9, o jovem autor n\u00e3o economiza nos detalhes da paisagem: \u00e9 a comprida estrada, \u00e9 a casa no topo do coxilh\u00e3o que parece uma pedra redonda coberta por um tapete verde, s\u00e3o as repolhadas figueiras, s\u00e3o as copas das laranjeiras. No meio de tudo, a casa branca, sempre alegre. E o aquarelista prossegue mostrando o que se v\u00ea de um lado e de outro lado: cerquinha de sarrafos, latada de madressilvas, tapume da horta, fonte de \u00e1gua. Depois de extensa ambienta\u00e7\u00e3o na paisagem, passa ele aos h\u00e1bitos dos moradores, inseridos dentro dela para, s\u00f3 ent\u00e3o, entrar na narrativa propriamente dita: um viandante chega contando que num combate nas redondezas morrera um certo Jo\u00e3o Torto, que vinha a ser filho do velho morador da casa branca no topo da coxilha. E o final do conto d\u00e1-se, outra vez, com o foco na paisagem. No lugar de centrar a aten\u00e7\u00e3o no sofrimento do velho e de sua mulher, o narrador conta a ru\u00edna do espa\u00e7o habitado pelos dois: at\u00e9 as madressilvas, por falta de cuidado, foram murchando e morrendo. Os escombros da paisagem s\u00e3o dados como sinal dos escombros da vida das personagens.<\/p>\n<p align=\"justify\">Essa aten\u00e7\u00e3o concedida, de forma privilegiada, ao espa\u00e7o habitado pelas personagens vai estar presente, alguns anos depois, no romance escolhido pela cr\u00edtica para ser marco do romance modernista brasileiro. \u00c9 ele A bagaceira (1928), de Jos\u00e9 Am\u00e9rico de Almeida. O pitoresco das cenas quase sempre se sobrep\u00f5e, nele, ao aprofundamento no drama das personagens. Sem for\u00e7ar uma rela\u00e7\u00e3o direta entre os dois autores, \u00e9 poss\u00edvel supor que o reconhecimento dado pela Academia aos contos do autor ga\u00facho tenha servido como refer\u00eancia para o autor nordestino.<\/p>\n<p align=\"justify\">N\u00e3o se pode tamb\u00e9m deixar de notar que, tanto em No galp\u00e3o como em A bagaceira, a paisagem n\u00e3o \u00e9 mostrada do modo direto com que faria um escritor realista ou naturalista. H\u00e1 um evidente intuito de \u201cpoetiza\u00e7\u00e3o\u201d de cunho pict\u00f3rico, que de certo modo deixou marcas na prosa narrativa de toda a gera\u00e7\u00e3o de 1930. Podem ser aventadas diferentes hip\u00f3teses para a consolida\u00e7\u00e3o desse gosto liter\u00e1rio. Mas a que me parece mais consistente \u00e9 a de que a vis\u00e3o \u201cpoetizada\u201d do campo tem rela\u00e7\u00e3o com o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que se acelera a partir dos anos 20.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Darcy Azambuja ganha obra sobre sua vida O professor Jos\u00e9 Clemente Pozenato, que \u00e9 autor de &#8220;O Quatrilho&#8221; entre outras hist\u00f3rias, apresenta o pref\u00e1cio de Darcy Azambuja \u2013 Contos Escolhidos (188p.), organizado pelo jornalista Geraldo Hasse e lan\u00e7ado pela J\u00c1 Editores na Feira do Livro. A publica\u00e7\u00e3o vem numa caixa com dois volumes (R$ 30). 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