{"id":13189,"date":"2006-02-26T15:57:39","date_gmt":"2006-02-26T18:57:39","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=205"},"modified":"2006-02-26T15:57:39","modified_gmt":"2006-02-26T18:57:39","slug":"o-gauderio-voltou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-gauderio-voltou\/","title":{"rendered":"O Gaud\u00e9rio Voltou"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/cultura\/ogauderio_voltou.jpg?0.06745038229976818\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"225\" \/><br \/>\n<strong><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Z\u00e9 Gomes, de volta ao Rio Grande: \u201cCoisa de elefante\u201d<\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A volta de Z\u00e9 Gomes ao Rio Grande do Sul ainda n\u00e3o mereceu uma nota em jornal. Ele voltou em sil\u00eancio e est\u00e1, desde outubro do ano passado, morando em Gua\u00edba, numa pequena casa que tem um salso chor\u00e3o na frente.<\/p>\n<p align=\"justify\">Retorna depois de 30 anos fora, com casa em S\u00e3o Paulo, mas viajando e tocando pelo Brasil todo. Aos 70 anos, \u00e9 um dos \u00faltimos remanescentes de uma gera\u00e7\u00e3o que revolucionou a m\u00fasica regional e lhe deu a gl\u00f3ria in\u00e9dita de ser ouvida no Olympia, em Paris, no long\u00ednquo ano de 1958, feito que nunca mais se repetiu.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cEstou voltando para casa\u201d, diz ele para explicar que n\u00e3o tem planos definidos. Pensa em compor, quer extrair uma s\u00edntese dessas viv\u00eancias das regi\u00f5es brasileiras e fronteiri\u00e7as. Est\u00e1 terminando um m\u00e9todo para rabeca, pensa em fazer oficinas que poderiam incluir at\u00e9 a constru\u00e7\u00e3o do instrumento. J\u00e1 tem uma bancada pronta.<\/p>\n<p align=\"justify\">A rabeca \u00e9 um instrumento muito antigo (ele toca numa constru\u00edda a partir de um modelo do ano 1.200). Muito antes da cordeona, foi a rabeca o instrumento que animava os bailes no Rio Grande primitivo. Hoje est\u00e1 esquecida e isso, em grande parte, \u00e9 o que explica o interesse de Z\u00e9 Gomes por ela.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enquanto o projeto n\u00e3o se define, ele vai trabalhando no que aparece. Recentemente gravou quatro m\u00fasicas para o filme \u201cO General e o Negrinho\u201d, de Tabajara Ruas. No filme ele toca rabeca num baile, tr\u00eas pe\u00e7as do folclore, recolhidas por Paix\u00e3o Cortes e uma milonga. Ele e Paix\u00e3o, antigos parceiros, j\u00e1 andaram se encontrando e conclu\u00edram que tem muito o que conversar. A ultima vez em que os dois fizeram planos juntos, h\u00e1 50 anos atr\u00e1s, a hist\u00f3ria foi parar em Paris. Como se ver\u00e1 nesta entrevista:Elmar Bones<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 do dia de S\u00e3o Jo\u00e3o?<\/strong><br \/>\n24 de junho, de 1935.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Musicalmente, nasceu quando?<\/strong><br \/>\nTinha uns quatro anos. Meu pai era bo\u00eamio, tocava violino, voltava de manh\u00e3 pra casa. Chegava em casa com uma serenata. Eu come\u00e7ava a ouvir ainda dormindo, n\u00e3o queria acordar, aquela m\u00fasica&#8230; Mas a\u00ed acorda \u00e9 apenas m\u00fasica. Era bonito. Meu pai ouvia muita m\u00fasica cl\u00e1ssica, cedo tinha no\u00e7\u00e3o da estrutura de uma orquestra.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Teu pai era m\u00fasico profissional?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, ningu\u00e9m era profissional naquela \u00e9poca. Tocava com os amigos. Depois ele perdeu o movimento dos dedos num acidente, n\u00e3o tocou mais. Mas continuou naquele ambiente bo\u00eamio, participava de um grupo de teatro, chegava em casa para o caf\u00e9 da manh\u00e3. Iju\u00ed tinha uma vida musical muito intensa, havia muitas bandas, grupos seresteiros, de choro, orquestra de baile, muitos m\u00fasicos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Grupos de teatro tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nSim. Assisti a pe\u00e7as em que meu pai atuava. Lembro que fiquei furioso quando ele fez o papel de um covarde. Misturava a pe\u00e7a com a realidade. Ele se escondia atr\u00e1s de um arm\u00e1rio para n\u00e3o apanhar. Eram pe\u00e7as bem montadas, com belos cen\u00e1rios, luzes, m\u00fasica, core\u00f3grafos coisas de colo do alem\u00e3o. Tinha at\u00e9 f\u00e1brica de piano.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>O estudo da m\u00fasica come\u00e7ou quando?<\/strong><br \/>\nSa\u00ed de Iju\u00ed aos sete anos, fomos para S\u00e3o Luiz, um ano e meio depois, para Carazinho, onde havia o mesmo ambiente musical. Fui estudar piano com a professora Gladis Bassani Junqueira no Instituto Carlos Gomes. N\u00e3o tinha piano em casa. Estudava na casa da professora, meia hora todos os dias. Com onze anos fui para um col\u00e9gio lassalista. Na capela tinha um harm\u00f4nio. O diretor me deu licen\u00e7a para no recreio ficar tocando o harm\u00f4nio. N\u00e3o lia partituras, ficava improvisando. Improviso \u00e9 o meu neg\u00f3cio, sempre gostei.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>E a primeira vez no palco?<\/strong><br \/>\nAos nove anos, toquei uma pe\u00e7a de Schumann na festa de fim de ano da escola, pediram bis<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Estudou quantos anos de piano?<br \/>\n<\/strong>Cinco. Um dia estava indo para a aula, vi na pra\u00e7a um tocador de cavaquinho, tocando Waldir Azevedo. Fiquei ouvindo cheguei atrasado. Quando falei pra professora, ela disse: \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica\u201d. Parei de estudar com ela, despedi\u00a0 a professora. Passei a tocar num programa de r\u00e1dio, feito pelos alunos da escola. Cantava, tocava viol\u00e3o, fazia locu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Cantava?<\/strong><br \/>\nAos 14 anos, cantava na r\u00e1dio. O Maur\u00edcio Sobrinho, fundador da RBS, tinha um programa na r\u00e1dio de Passo Fundo. Era o tempo do r\u00e1dio. Ary Barroso fazia no Rio a \u201cHora do Pato\u201d, famoso programa de calouros. O Maur\u00edcio fez a \u201cHora do Bicho\u201d, ou algo assim. Eram poucos quil\u00f4metros, eu ia a Passo Fundo participar. Depois ele trouxe o programa tamb\u00e9m para Carazinho. Era feito no cinema e transmitido ao vivo pela r\u00e1dio local.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Era um concurso de calouros?<\/strong><br \/>\nSim, tinha pr\u00eamio. Eu ganhava sempre, era meu sal\u00e1rio, tipo R$ 50. Passava a semana muito bem, picol\u00e9, coca-cola, todi com misto quente na sorveteria Selda. Um dia ele me disse: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o pode concorrer mais, vai vir ao programa como convidado\u201d. Ent\u00e3o uma vez por m\u00eas ele me convidava.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Cantavas o qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nNaquela \u00e9poca o grande sucesso era o Vicente Celestino, com aquele vozeir\u00e3o de \u00f3pera. Eu n\u00e3o gostava daquilo, cantava m\u00fasicas do Pedro Celestino, irm\u00e3o do Vicente Celestino, quase desconhecido. Meu pai que era seresteiro tinha uns discos dele, eu aprendi. Eram umas serestas mineiras, lindas, n\u00e3o me lembro. Que voz que eu tinha. Parei de cantar porque come\u00e7aram a pedir, todo o lugar queriam que eu cantasse. Era f\u00e1cil cantar, passei a tocar violino percebi que podia cantar atrav\u00e9s dele. Me enchiam muito o saco. Hoje n\u00e3o canto porque n\u00e3o tenho mais dom\u00ednio da voz.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>E o viol\u00e3o come\u00e7ou, quando?<\/strong><br \/>\nAos 13 anos. Tinha um cara, o Finha que ia l\u00e1 em casa, gostava de tocar para n\u00f3s, era parceiro do meu pai. Um dia n\u00e3o deixei levar o viol\u00e3o. Queria aprender a tocar uma valsa que ele tocava: \u201cSaudades do Rio Grande\u201d, era do pai dele, o Levino da Concei\u00e7\u00e3o. Perguntei a ele: \u201cEm quanto tempo eu toco?\u201d \u201cEm um ano voc\u00ea toca\u201d. Comprei m\u00e9todos, j\u00e1 tinha a base te\u00f3rica, em tr\u00eas meses estava tocando a valsa.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Esse Finha foi famoso&#8230;<\/strong><br \/>\nEra uma inje\u00e7\u00e3o de entusiasmo a m\u00fasica dele. Nascido em Iju\u00ed, ele se criara no Rio de Janeiro. Voltou para o Rio Grande com 17 anos. Tinha vinte e poucos quando o conheci. Era filho do lend\u00e1rio Levino da Concei\u00e7\u00e3o, o primeiro a gravar um disco de viol\u00e3o no Brasil. N\u00e3o tinha quem tocasse como esse Finha, sem arestas. Mas n\u00e3o vivia de m\u00fasica. Era mec\u00e2nico de autom\u00f3vel e jogador de futebol.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>E o violino teve estudo formal?<br \/>\n<\/strong>O violino resguardei, nunca coloquei em estudo, passei s\u00f3 a tocar&#8230; aquela sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 voc\u00ea que faz, que est\u00e1 descendo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Houve um per\u00edodo de bailes?<\/strong><br \/>\nDesde os 14 anos tocava em bailes em Carazinho, violino, com o conjunto do maestro Jacques. Tocava tamb\u00e9m numa \u201ct\u00edpica\u201d, naquela \u00e9poca tinham as t\u00edpicas, com bandoneon, baixo, piano, que tocavam tangos nos bailes. Tocava por esse Rio Grande afora.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>E Porto Alegre?<\/strong><br \/>\nCheguei em Porto Alegre em 1952, me liguei ao grupo que estava fundando o movinento tradicionalista. Meu pai me apresentou para o Thierry Castro e ele me levou para o CTG 35 na noite em que o Paix\u00e3o Cortes estava se retirando de l\u00e1 para fundar os Tropeiros da Tradi\u00e7\u00e3o. Sa\u00ed com ele, entrei para os Tropeiros, com o Thierry, Z\u00e9 da Gaita&#8230; Paix\u00e3o declamava e dan\u00e7ava. Percorr\u00edamos o interior. A\u00ed foi criado o programa Grande Rodeio Curinga, na R\u00e1dio Farroupilha. Nessa \u00e9poca eu tocava tamb\u00e9m com Primo e seu Conjunto, o acordeonista era o Neneco (Fernando Schirmer Miranda, j\u00e1 falecido), que foi, pra mim, um dos maiores gaiteiros do mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Confira a entrevista completa no Jornal J\u00e1 Porto Alegre que est\u00e1 nas bancas<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Z\u00e9 Gomes, de volta ao Rio Grande: \u201cCoisa de elefante\u201d A volta de Z\u00e9 Gomes ao Rio Grande do Sul ainda n\u00e3o mereceu uma nota em jornal. Ele voltou em sil\u00eancio e est\u00e1, desde outubro do ano passado, morando em Gua\u00edba, numa pequena casa que tem um salso chor\u00e3o na frente. Retorna depois de 30 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-13189","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":13189,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-3qJ","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13189","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13189"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13189\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13189"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13189"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13189"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}