{"id":13207,"date":"2006-05-18T12:30:42","date_gmt":"2006-05-18T15:30:42","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=224"},"modified":"2006-05-18T12:30:42","modified_gmt":"2006-05-18T15:30:42","slug":"olhos-que-acompanham-o-bom-fim-ha-84-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/olhos-que-acompanham-o-bom-fim-ha-84-anos\/","title":{"rendered":"Olhos que acompanham o Bom Fim h\u00e1 84 anos"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span class=\"assina\">Helen Lopes<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"olho\">\u00c9 um apaixonado pelo Parque Farroupilha \u2013 na inaugura\u00e7\u00e3o, em 20 de setembro de 1935, ele estava l\u00e1. Trata-se de Jayme Lewgoy Lubianca, filho de duas fam\u00edlias judias pioneiras do Bom Fim. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"olho\">Convidado a falar de sua vida e a identifica\u00e7\u00e3o com o bairro, este engenheiro agr\u00f4nomo e compositor prefere lembrar do pai, o m\u00e9dico Jos\u00e9 Lubianca, famoso na regi\u00e3o \u2013 deu atendimento a mais de uma gera\u00e7\u00e3o de moradores do Bom Fim. <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"olho\">Nesta entrevista, nosso personagem conta esta e outras hist\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">Quando sua fam\u00edlia veio a Porto Alegre? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Meu pai ainda era pequeno. Minha av\u00f3 era austr\u00edaca e o meu av\u00f4 russo. Chegaram no Brasil por S\u00e3o Paulo, onde meu pai nasceu. Quando meu av\u00f4 registrou meu pai, ele n\u00e3o sabia falar bem portugu\u00eas. Com isso, o nome ficou Jos\u00e9 Faibes Lubianca, mas ele queria dizer Jos\u00e9 F\u00e1bio Lubianka, com k. Em Porto Alegre, meus av\u00f4s alugaram uma casa onde hoje \u00e9 a esquina da Riachuelo com a Borges de Medeiros.<\/p>\n<p align=\"justify\">A prefeitura estava abrindo a Borges e ofereceu, em troca da casa que iam derrubar, dois terrenos na Felipe Camar\u00e3o. Eles foram um dos primeiros moradores do bairro. Os terrenos eram enormes, 25 por 50 metros. Tinha um jardim, pomar e uma horta. Meu pai viveu a inf\u00e2ncia toda aqui, depois, estudou Medicina.<\/p>\n<p align=\"justify\">Enquanto cursava a faculdade, trabalhava no setor de seguran\u00e7a da prefeitura, o que corresponde \u00e0 pol\u00edcia. Durante a Revolu\u00e7\u00e3o de 1922, ingressou na Brigada Militar como soldado, os chamados provis\u00f3rios. Como estudava Medicina, foi promovido a capit\u00e3o. Neste ano, eu nasci. Meu pai estava em Passo Fundo e mandou buscar a fam\u00edlia. Minha m\u00e3e contava que eu chorei todo o trajeto at\u00e9 Passo Fundo, que era feito de trem em dois dias.<\/p>\n<p align=\"justify\">Quando a revolu\u00e7\u00e3o terminou, voltamos a Porto Alegre, ele terminou a faculdade e continuou servindo na pol\u00edcia. Foi designado para o Instituto de Identifica\u00e7\u00e3o onde se aposentou. L\u00e1 ele era especialista em datiloscopia. Ele tem um trabalho reconhecido no Brasil inteiro nessa \u00e1rea. Ministrava cursos, fazia pesquisa, desenvolveu t\u00e9cnicas de tomada de identifica\u00e7\u00e3o digital e, al\u00e9m disso, foi fundador da policia t\u00e9cnica do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ele e meu av\u00f4, juntamente com o meu outro av\u00f4 Lewgoy, foram fundadores do Israelita, do qual meu pai tamb\u00e9m foi presidente. Ele teve nove filhos, oito homens e uma mulher. Lembro que ele tinha um consult\u00f3rio particular na nossa casa e outro na Alberto Bins para atender tanto os que podiam quanto os que n\u00e3o podiam pagar. At\u00e9 hoje, algumas pessoas me atacam na rua para me abra\u00e7ar e me beijar em fun\u00e7\u00e3o dele, dos benef\u00edcios que ele fez. Ele atuou em todas esferas de participa\u00e7\u00e3o social. Mas esse lado dele na pol\u00edcia poucas pessoas conhecem bem.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">E a sua atua\u00e7\u00e3o profissional?<strong><br \/>\n<\/strong><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Entrei no Instituto de Identifica\u00e7\u00e3o como aspirante, ao inv\u00e9s de sal\u00e1rio, recebia passagens de bonde. Fui promovido e fiquei l\u00e1 12 anos, trabalhando com impress\u00f5es digitais l\u00e1 e depois no Instituto de Per\u00edcias T\u00e9cnicas. Paralelamente, fazia a faculdade de Agronomia. Quando me formei, pensei em ficar l\u00e1, mas meu irm\u00e3o j\u00e1 trabalhava nisso, meu pai tamb\u00e9m. Iam pensar que era s\u00f3 para os familiares!<\/p>\n<p align=\"justify\">Passei meio ano ainda no Instituto e fui convidado por um professor para trabalhar na Secretaria da Agricultura. Fiz concurso e trabalhei primeiro no setor de Defesa Sanit\u00e1ria Vegetal. Depois, um colega, que fez concurso comigo, me convidou para desenvolver um estudo de olivicultura no Estado. Fizemos um simp\u00f3sio de olivicultura, viajamos para o Chile e at\u00e9 nos aproximamos de uma variedade que poderia ser plantada no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p align=\"justify\">A\u00ed, toquei a minha vida como engenheiro agr\u00f4nomo. Eu j\u00e1 estava h\u00e1 10 anos aposentado, quando me convidaram para trabalhar no departamento de piscicultura da Secretaria. Meus colegas me convenceram. A\u00ed eu voltei. Fiquei l\u00e1 mais uns cinco anos. Depois entreguei as chuteiras. Fiquei em fun\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, dos netos, primos&#8230;<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">E sua rela\u00e7\u00e3o com a Reden\u00e7\u00e3o? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Fui guri de parque, assistindo \u00e0s coisas que aconteciam. Usei muito o parque, principalmente com os meus filhos, era praticamente nosso quintal. Eu, minha mulher e os meus filhos sempre sa\u00edamos para l\u00e1. Na minha vida, o Parque da Reden\u00e7\u00e3o representou o p\u00e1tio e o jardim. \u00c9 claro que mudou muito, principalmente, na \u00e1rea de habita\u00e7\u00e3o. Isso aqui era um campo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu vi arrumarem o solo para instalar o parque. L\u00e1 por 1935, eles aterraram tudo com lixo. Foram um ou dois anos com um cheiro horr\u00edvel. Depois, em cima, colocaram saibro. E, ainda, mais uma camada de uns tr\u00eas metros de arei\u00e3o e molhavam constantemente. A fermenta\u00e7\u00e3o foi diminuindo, o cheiro passou e eles passaram os tratores para compactar. Foi assim que fizeram o parque. Acho que era o monumento mais lindo do pa\u00eds naquela \u00e9poca. Feito para a inaugura\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">O senhor nunca saiu do bairro? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Sa\u00ed muito pouco tempo, 90% da minha vida eu morei no Bom Fim. Cheguei a morar no final da Jacinto Gomes, perto da pol\u00edcia, um meio ano. Voltei e morei na Ramiro Barcelos, depois na Fernandes Vieira. Os filhos chegavam e o apartamento ficava pequeno. Quando estava na Fernandes Vieira, visitei esse apartamento, de novo na Jacinto.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">Em que momento a m\u00fasica entrou na sua vida? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Sempre gostei de m\u00fasica. Meus pais tocavam piano. Meu pai tamb\u00e9m tocava violino. Isso foi impregnando. Quando guri, ouvia muito a r\u00e1dio Nacional, ficava at\u00e9 \u00e0s 3h da madrugada. Fui crescendo e comecei a sair com amigos nos lugares onde tinha m\u00fasica ou gente tocando viol\u00e3o. O pessoal fala que eu fundei o Conjunto Baldauf porque onde tinha amigo meu tocando eu estava junto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Eu gostava era de cantar, n\u00e3o era muito dos instrumentos. \u00c0s vezes, acompanhava o ritmo com um chocalho ou tambor. Vai daqui, vai dali, conheci um grande compositor, num ver\u00e3o em Bel\u00e9m Novo \u2013 a minha fam\u00edlia tinha uma casa de veraneio l\u00e1 \u2013 que tinha feito a m\u00fasica da Rua da Praia. E convidei ele para fazer uma m\u00fasica, que eu faria a letra. Passaram v\u00e1rios anos e nada. Desisti e comecei a compor. Lembrei das coisas bonitas de Porto Alegre, principalmente, do p\u00f4r-do-sol e dos lampi\u00f5es da Rua da Praia.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">Como a m\u00fasica \u201cPorto dos Casais\u201d tornou-se conhecida? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Quem lan\u00e7ou essa m\u00fasica foi S\u00edlvio Caldas. Ele esteve em Porto Alegre para um anivers\u00e1rio da r\u00e1dio Ga\u00facha e algu\u00e9m cantou para ele a minha m\u00fasica. Ele gostou, mas queria que eu cantasse. Da\u00ed, 6h da manh\u00e3, telefona meu primo dizendo que o Silvio Caldas queria me conhecer. \u201cEle pediu para tu ir l\u00e1 no City Hotel ao meio-dia\u201d. N\u00e3o acreditei: \u201cMas tu t\u00e1 louco rapaz, b\u00eabado j\u00e1 essa hora?\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Meu primo insistiu tanto que acreditei. Fui l\u00e1 e falei com o Silvio Caldas. Ele gostou da m\u00fasica e pediu para eu ir \u00e0s 18h30 na Ga\u00facha, que ele estaria ensaiando e queria lan\u00e7ar a m\u00fasica. Quando estava cantando, me lembro que ele pegou um chap\u00e9u, que estava pendurado num cabide, enterrou na cabe\u00e7a e disse: \u201cTa louco! Que m\u00fasica maravilhosa \u00e9 essa! Na mesma noite, ele lan\u00e7ou a m\u00fasica.<\/p>\n<p align=\"justify\">Depois, ele escreveu uma carta pedindo autoriza\u00e7\u00e3o para gravar. Porto dos Casais foi interpretada ainda por Elis Regina e Simonal. Tamb\u00e9m compus \u201cQuatro Esta\u00e7\u00f5es\u201d e \u201cNasce uma Can\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\"><span class=\"entreperg\">E sua rela\u00e7\u00e3o com o rio? <\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Fui s\u00f3cio do Gr\u00eamio Esportivo Masson, fundado pelo Leopoldo Geyir, que adorava barco \u00e0 vela. Tinha um barquinho e eu navegava por tudo. A beleza do rio era empolgante. No ver\u00e3o, sa\u00eda de barco bem cedo e voltava no p\u00f4r-do-sol. Uma coisa linda. Voc\u00ea vai chegando na cidade e v\u00ea o sol batendo nas constru\u00e7\u00f5es, nas igrejas, no Porto. Era fant\u00e1stico! Uma das vistas mais lindas de Porto Alegre \u00e9 no rio.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em um desses passeios, eu me empolguei e decidi o motivo da m\u00fasica: Porto Alegre. Como gostava muito de hist\u00f3ria, lembrei que o nome da cidade era Porto dos Casais. J\u00e1 tinha o nome da minha m\u00fasica. Da\u00ed, primeiro fiz a letra. Depois de uma noite na praia da Alegria (em Gua\u00edba), acordei de uma bebedeira daquelas com a m\u00fasica em cima da letra. Despertei com a m\u00fasica na cabe\u00e7a. A minha grande m\u00e1goa \u00e9 n\u00e3o ter estudado m\u00fasica. Estudei muito pouco no IPA, deveria ter sido mais, j\u00e1 que eu gosto tanto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Helen Lopes \u00c9 um apaixonado pelo Parque Farroupilha \u2013 na inaugura\u00e7\u00e3o, em 20 de setembro de 1935, ele estava l\u00e1. Trata-se de Jayme Lewgoy Lubianca, filho de duas fam\u00edlias judias pioneiras do Bom Fim. 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