{"id":13215,"date":"2006-06-20T13:17:52","date_gmt":"2006-06-20T16:17:52","guid":{"rendered":"http:\/\/75.126.185.46\/~jornalja\/?p=233"},"modified":"2006-06-20T13:17:52","modified_gmt":"2006-06-20T16:17:52","slug":"pedras-nas-veias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/pedras-nas-veias\/","title":{"rendered":"Pedras nas veias"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\">\n<span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Courier New'\"><span style=\"font-size: xx-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif\"><strong><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/Cidade2\/med_noisaki.jpg?0.12208201001128505\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"212\" \/><\/strong><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-size: xx-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif\"><strong><span style=\"font-size: x-small\"><span style=\"color: #666666;font-size: xx-small\">Aos 25 anos, tribo de atuadores segue trabalhando sob o signo da contesta\u00e7\u00e3o<\/span><\/span><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p><strong>Naira Hofmeister<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">O sil\u00eancio que reinou no teatro ga\u00facho nos anos dif\u00edceis de ditadura militar foi rompido em 31 de mar\u00e7o de 1978, quando nasceu o \u00d3i N\u00f3is Aqui Traveiz, com a apresenta\u00e7\u00e3o dos espet\u00e1culos &#8220;A Divina Propor\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;A Felicidade N\u00e3o Esperneia, Patati, Patat\u00e1&#8221;, textos de J\u00falio Zanotta, dirigidos por Paulo Flores, num teatro alugado em Porto Alegre.<\/p>\n<p align=\"justify\">Essa voz seria a marca de um novo pensar e fazer teatro, como diziam os textos enviados aos jornais da Capital: &#8220;Pedra nas veias para n\u00e3o fazer concess\u00f5es ao esteticismo burgu\u00eas nem aos preg\u00f5es do teatro palavra. Pedras nas veias para ir um pouco mais adiante na cultura de resist\u00eancia. Para ousar opor-se&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">O grupo j\u00e1 nasceu sob o signo da contesta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m est\u00e9tica, e principalmente da fun\u00e7\u00e3o do teatro. &#8220;Sempre nos norteamos por uma pergunta que consideramos essencial para qualquer artista: a de saber para que serve a arte que se est\u00e1 produzindo&#8221;, explica T\u00e2nia Farias, atuadora da Tribo h\u00e1 dez anos, uma das integrantes mais antigas.<\/p>\n<p align=\"justify\">Apesar da assinatura de um diretor, as duas pe\u00e7as j\u00e1 eram o embri\u00e3o do que seria a principal marca do \u00d3i N\u00f3is: a cria\u00e7\u00e3o coletiva. Todos os espet\u00e1culos que se seguiram tiveram como princ\u00edpio maior a intera\u00e7\u00e3o entre todos os integrantes do grupo, desde a cria\u00e7\u00e3o dos textos at\u00e9 a dire\u00e7\u00e3o dos atores, passando pela produ\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo, constru\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio, trilha sonora e figurino.<\/p>\n<p align=\"justify\">A id\u00e9ia era inventar &#8220;uma nova forma de teatro, diferente do modelo burgu\u00eas que se fazia na \u00e9poca, muito atrelado ao governo autorit\u00e1rio&#8221;, lembra T\u00e2nia. Esse engajamento ideol\u00f3gico aliado \u00e0 postura contestat\u00f3ria serviu de base para que o grupo chegasse ao que chama de &#8220;Teatro de Viv\u00eancia&#8221;, isto \u00e9, a intera\u00e7\u00e3o dos atores com o p\u00fablico, que sente o espet\u00e1culo atrav\u00e9s do contato com os atuadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">Para isso, os artistas tocam na plat\u00e9ia, trocam olhares com o p\u00fablico, que quase sempre \u00e9 obrigado a se deslocar no espa\u00e7o c\u00eanico. A ambienta\u00e7\u00e3o das montagens do \u00d3i N\u00f3is tamb\u00e9m envolve trilha sonora ao vivo e aromas que mudam de acordo com a necessidade da cena. Nas palavras de T\u00e2nia, &#8220;al\u00e9m de falar o que estava engasgado com toda aquela repress\u00e3o, havia uma grande preocupa\u00e7\u00e3o com a maneira como ir\u00edamos falar&#8221;. Isso foi traduzido na forma de apresenta\u00e7\u00e3o, que necessariamente rompia com o modelo vigente na \u00e9poca, o do tradicional palco italiano, onde se cria &#8220;a quarta parede, invis\u00edvel entre o palco e o espectador&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Mas a defini\u00e7\u00e3o do tipo de teatro pretendido pelo grupo ainda gera discuss\u00e3o, n\u00e3o tem uma \u00fanica resposta. Segundo os 20 componentes da Tribo, nunca foi alcan\u00e7ada uma f\u00f3rmula definitiva. &#8220;Trabalhamos com a id\u00e9ia de permanecer descontentes com aquilo que estamos fazendo. \u00c9 preciso arriscar, n\u00e3o interessa se a cr\u00edtica n\u00e3o vai achar bom, nem se o p\u00fablico n\u00e3o vai gostar. O importante \u00e9 que temos vontade de experimentar aquilo naquele momento&#8221;, justifica T\u00e2nia.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">&#8220;Nossa utopia \u00e9 realizada a cada dia&#8221; <\/span><\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Localizado no bairro Navegantes, o grande QG da Tribo de Atuadores \u00d3i N\u00f3is Aqui Traveiz exp\u00f5e ao vivo e a cores os ideais da turma. Num enorme sal\u00e3o negro, pode se observar uma intensa movimenta\u00e7\u00e3o dos atuadores. Em um canto, algu\u00e9m modela um boneco gigante, noutro, um grupo costura o figurino a partir de pe\u00e7as j\u00e1 utilizadas em espet\u00e1culos anteriores.<\/p>\n<p align=\"justify\">Tem tamb\u00e9m os &#8220;amigos da Terreira&#8221;, que saem a colar cartazes das apresenta\u00e7\u00f5es do grupo pelos muros da cidade. A coletividade \u00e9 vivida t\u00e3o intensamente que chega a gerar mitos: &#8220;Algumas pessoas acham que a gente mora junto, que namoramos uns aos outros, mas isso faz parte do folclore&#8221;, brinca T\u00e2nia Farias, atuadora do grupo h\u00e1 uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p align=\"justify\">O fato \u00e9 que, mesmo n\u00e3o morando no espa\u00e7o da Terreira, o dinheiro para sustentar as apresenta\u00e7\u00f5es gratuitas, as oficinas, os semin\u00e1rios anuais e outras atividades desenvolvidas pelo grupo \u00e9 resultado do suor individual. &#8220;Aqui tem gar\u00e7om, professor, funcion\u00e1rio p\u00fablico&#8221;, revela a integrante da trupe, Carla Moura.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em 2005, a companhia foi reconhecida pelo governo, sendo escolhida pelo Projeto Petrobr\u00e1s Cultural. Desde ent\u00e3o, recebe patroc\u00ednio da estatal. A verba permitiu a amplia\u00e7\u00e3o dos projetos existentes e o surgimento de novos, como a primeira revista de teatro do Estado, a &#8220;Cavalo Louco&#8221;, lan\u00e7ada em abril.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;H\u00e1 muito tempo t\u00ednhamos a vontade de publicar as discuss\u00f5es dos semin\u00e1rios para levar essa informa\u00e7\u00e3o a todos os cantos do Brasil&#8221;, conta T\u00e2nia Farias. O lan\u00e7amento do projeto &#8220;\u00d3i N\u00f3is Aqui na Mem\u00f3ria&#8221; \u00e9 outro fruto do pr\u00eamio. O trabalho resgata a hist\u00f3ria do grupo atrav\u00e9s de um livro e um DVD, intitulados &#8220;Aos Que Vir\u00e3o Depois de N\u00f3s \u2013 Kassandra In Process&#8221;, que exibe o legado dos atuadores.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Utopia para o \u00d3i N\u00f3is \u00e9 diferente do que \u00e9 para as outras pessoas. De maneira geral, significa algo nunca realiz\u00e1vel. Para n\u00f3s, \u00e9 o desejo mais profundo, que colocamos em pr\u00e1tica todos os dias. Por isso que ela vem se concretizando. Nossa utopia \u00e9 a de um mundo melhor, com pessoas mais humanas, solid\u00e1rias, companheiras, e n\u00e3o de concorrentes. Abrimos a Terreira da Tribo h\u00e1 vinte e tantos anos, e isso \u00e9 a concretiza\u00e7\u00e3o maior dessa utopia&#8221;, conta uma entusiasmada T\u00e2nia Farias.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong><span style=\"color: #cc3300\">\u00d3i N\u00f3is Aqui, ali e acol\u00e1<\/span><\/strong><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Courier New'\"><span style=\"font-size: xx-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif\"><strong><span style=\"font-size: x-small\"> <\/span><\/strong><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-size: 12pt;font-family: 'Courier New'\"><span style=\"font-size: xx-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif\"><strong><span style=\"font-size: x-small\"><span style=\"font-size: xx-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/ktml2\/images\/uploads\/Cidade2\/med_noisaki2.jpg?0.34244103120736863\" border=\"0\" alt=\"\" hspace=\"0\" width=\"300\" height=\"212\" \/><\/span><\/span><\/span><\/strong><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-size: xx-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif\"><strong><span style=\"font-size: x-small\"><span style=\"font-size: xx-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif\"><span style=\"font-family: Arial;font-size: x-small\"><span style=\"font-family: Times New Roman,Times,serif;color: #666666;font-size: xx-small\"><strong>Tribo faz quest\u00e3o de popularizar o teatro com espet\u00e1culos de rua<\/strong><\/span><\/span><\/span><\/span><\/span><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\">Mesmo depois da implanta\u00e7\u00e3o de um di\u00e1logo inovador na forma de apresenta\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo, a Tribo n\u00e3o se deu por satisfeita. &#8220;Sentimos a necessidade de tomar as ruas, pois a maior parte do p\u00fablico n\u00e3o vai \u00e0 sala de teatro, est\u00e1 exclu\u00eddo do ritual&#8221;, observa a atuadora T\u00e2nia Farias. A iniciativa foi fundamental para que o \u00d3i N\u00f3is atingisse seu principal objetivo: popularizar a arte.<\/p>\n<p align=\"justify\">Um ter\u00e7o das mais de trinta pe\u00e7as apresentadas ao longo dos 25 anos do grupo teve como cen\u00e1rio a rua. No in\u00edcio, as interven\u00e7\u00f5es refletiam mobiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do momento, como a censura, a greve geral, as diretas e, mais recentemente, o descontentamento com a classe de pol\u00edticos. Nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2004, por exemplo, os artistas fizeram um manifesto pelo voto nulo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Integrar o teatro \u00e0s ruas n\u00e3o foi tarefa f\u00e1cil. Primeiro porque n\u00e3o h\u00e1 uma dramaturgia espec\u00edfica para o g\u00eanero, que, segundo T\u00e2nia, acabou tamb\u00e9m se constituindo atrav\u00e9s da atua\u00e7\u00e3o de grupos similares espalhados pelos Brasil.<\/p>\n<p align=\"justify\">&#8220;Se analisarmos a trajet\u00f3ria do teatro de rua do \u00d3i N\u00f3is, vamos encontrar alguns espet\u00e1culos sem texto algum, outros que utilizavam a linguagem do clown \u2013 que eram basicamente de m\u00fasica \u2013, os que trabalhavam com bonecos, e at\u00e9 os que eram puro texto do Brecht&#8221;, enumera T\u00e2nia Farias. A repress\u00e3o foi outro empecilho. Em determinadas ocasi\u00f5es, houve at\u00e9 a pris\u00e3o de alguns atuadores. &#8220;A pol\u00edcia destru\u00eda os bonecos, o que impedia uma segunda exibi\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p align=\"justify\">Com o tempo, a necessidade de sistematizar o trabalho nas ruas levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos itinerantes, que iniciaram em 1988, atrav\u00e9s do projeto &#8220;Caminho para Teatro Popular&#8221;. O trabalho segue at\u00e9 hoje. Paralelamente, a partir dos anos 2000, a Terreira se transformou em Escola de Teatro Popular, desenvolvendo oficinas de teatro na periferia da cidade. &#8220;\u00c9 uma verdadeira faculdade de forma\u00e7\u00e3o, pois oferecemos disciplinas como hist\u00f3ria do pensamento pol\u00edtico, trajet\u00f3ria do teatro brasileiro, al\u00e9m de aulas de interpreta\u00e7\u00e3o corporal e vocal&#8221;, descreve Pedro De Camillis, que integra o grupo h\u00e1 tr\u00eas anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 25 anos, tribo de atuadores segue trabalhando sob o signo da contesta\u00e7\u00e3o Naira Hofmeister O sil\u00eancio que reinou no teatro ga\u00facho nos anos dif\u00edceis de ditadura militar foi rompido em 31 de mar\u00e7o de 1978, quando nasceu o \u00d3i N\u00f3is Aqui Traveiz, com a apresenta\u00e7\u00e3o dos espet\u00e1culos &#8220;A Divina Propor\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;A Felicidade N\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-13215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-3r9","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}