{"id":15335,"date":"2014-07-19T19:20:09","date_gmt":"2014-07-19T22:20:09","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=15335"},"modified":"2014-07-19T19:20:09","modified_gmt":"2014-07-19T22:20:09","slug":"a-historia-completa-do-narcotraficante-mais-inocente-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-historia-completa-do-narcotraficante-mais-inocente-do-brasil\/","title":{"rendered":"Tr\u00e1fico: empres\u00e1rio leva 25 anos para provar inoc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Renan Antunes de Oliveira |<br \/>\n<\/span><br \/>\n<span class=\"capitular\">N<\/span><br \/>\n\u00e3o existe caso de erro judicial no Brasil igual ao do empres\u00e1rio carioca Jos\u00e9 Germano Neto, de 65 anos, dono de uma revenda BMW no Rio de Janeiro. O Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) acaba de absolv\u00ea-lo de um crime nunca cometido.<br \/>\nGermano foi perseguido pela pol\u00edcia como narcotraficante por 25 anos.<br \/>\nEle enfrentou seis processos. Puxou cadeia aqui, nos Estados Unidos e na Fran\u00e7a.<br \/>\nO ponto de partida da persegui\u00e7\u00e3o foi uma den\u00fancia fria feita por um alcaguete da pol\u00edcia carioca, em 1989.<br \/>\nO homem queria revanche porque o empres\u00e1rio o acusara do roubo de um Chevette de segunda m\u00e3o. Ele se vingou acusando Germano de chefiar o tr\u00e1fico no Morro do Vint\u00e9m.<br \/>\nCom base na den\u00fancia fria Germano foi preso e fichado como chef\u00e3o. A\u00ed come\u00e7ou aquele conhecido desfile de delegados e promotores divulgando suspeitas como fatos, fofocas como verdades.<br \/>\nTudo era reproduzido na imprensa, sem filtros. O linchamento de Germano n\u00e3o teve precedentes: o caso da Escola Base s\u00f3 aconteceria em 1994, cinco anos depois. Os jornais o moeram e jogaram na lama.<br \/>\nA ficha suja dele circulou entre policiais dos tr\u00eas pa\u00edses por mais de duas d\u00e9cadas. S\u00f3 aqui o processo teve 40 volumes, 30 adendos e 6 mil p\u00e1ginas.<br \/>\n<span class=\"intertit\">PERSEGUI\u00c7\u00c3O SEM FIM<\/span><br \/>\nA fama de narco lhe rendeu tr\u00eas processos no Brasil (1989, 1996 e 2002), dois na Fran\u00e7a (1994 e 2000) e um nos EUA (1998).<br \/>\nForam quatro anos de cadeia, um pouco em cada pa\u00eds. E um quarto de s\u00e9culo de idas e vindas a tribunais.<br \/>\nGermano foi investigado sem sucesso pelas pol\u00edcias Civil e Militar do Rio, pela Federal, DEA (ag\u00eancia antidrogas americana), Nacional Francesa e at\u00e9 pela CPI do Narcotr\u00e1fico.<br \/>\nA senten\u00e7a (leia neste link) do STJ que o absolveu foi divulgada apenas nos meios forenses e em juridiqu\u00eas.<br \/>\nO tr\u00e2nsito em julgado do processo aconteceu em junho \u2013 agora ele \u00e9 inocente de uma vez por todas. Os bens apreendidos e o passaporte j\u00e1 podem ser devolvidos ao dono. Jos\u00e9 Germano Neto est\u00e1 limpo outra vez.<br \/>\n<span class=\"intertit\">ENFRENTANDO A BMW<\/span><br \/>\nA absolvi\u00e7\u00e3o chegou aos 45 do segundo tempo: o empres\u00e1rio est\u00e1 com c\u00e2ncer e botando pontes de safena.<br \/>\nSe n\u00e3o morrer e se ganhar indeniza\u00e7\u00e3o de R$120 mi da multinacional BMW, talvez Germano ainda aproveite o lim\u00e3o que a vida lhe deu.<br \/>\nA indeniza\u00e7\u00e3o \u00e9 muito poss\u00edvel. Germano processou a montadora na 5\u00aa Vara C\u00edvel do Rio porque a empresa cassou a concession\u00e1ria dele na Barra da Tijuca enquanto estava preso nos EUA, em 1998.<br \/>\nPara cass\u00e1-lo, a multi alegou que o nome sujo dele respingava na imagem da marca.<br \/>\nOs advogados da BMW, Tozzini, Freire, Teixeira e Silva, ilustraram sete p\u00e1ginas da defesa dela com reportagens sobre Germano como bandido.<br \/>\nO Germano agora com nome limpo pede a concession\u00e1ria de volta, mais lucros dos \u00faltimos 16 anos. O c\u00e1lculo dos milh\u00f5es foi feito por peritos legais. O caso est\u00e1 na 9\u00aa C\u00e2mara C\u00edvel do Rio, a passos de c\u00e1gado.<br \/>\n<span class=\"intertit\">MINHA APOSTA<\/span><br \/>\nEntrei no caso Germano quando era rep\u00f3rter do Estado de S.Paulo em Nova York, em 1998. O c\u00f4nsul brasileiro me ligou avisando da pris\u00e3o pela NYPD de &#8220;um carioca condenado na Fran\u00e7a por narcotr\u00e1fico&#8221;.<br \/>\nEra ele. Foi preso na happy hour de uma conven\u00e7\u00e3o da BMW.<br \/>\nFui conferir. A pol\u00edcia americana me disse que o prendeu para extradit\u00e1-lo \u00e0 Fran\u00e7a, para cumprir 12 anos de cadeia, conforme mandado da Interpol. L\u00e1, Germano fora condenado \u00e0 revelia.<br \/>\nEle passou semanas sendo interrogado pela DEA, no cadei\u00e3o federal de Manhattan. Num ponto qualquer, os americanos se desinteressaram dele.<br \/>\nO Brasil abriu m\u00e3o do direito de pedir primazia na extradi\u00e7\u00e3o. Ele foi ent\u00e3o para uma cadeia no Upstate NY aguardar transfer\u00eancia \u00e0 Fran\u00e7a.<br \/>\nMeses depois, consegui autoriza\u00e7\u00e3o para entrevist\u00e1-lo na pris\u00e3o. Ele n\u00e3o acreditava na nova acusa\u00e7\u00e3o de narco, ainda mais na Fran\u00e7a. Parecia atordoado. S\u00f3 repetia &#8220;sou inocente&#8221;.<br \/>\nEst\u00e1vamos na \u00e1rea comum de visitas aos presos. Eu olhei para a turma em volta e disse, como nos filmes: &#8220;Claro, aqui dentro todos s\u00e3o inocentes&#8221;.<br \/>\nMe perguntou: &#8220;Voc\u00ea acha que se eu fosse um traficante condenado n\u00e3o saberia? A\u00ed eu n\u00e3o viajaria para o Exterior. Viajei porque n\u00e3o sabia&#8221;.<br \/>\nPassei o trator nele: Voc\u00ea fumava? Cheirava? Comprava? Vendia? Germano negava tudo. Tentei ver a alma nos gestos, para a senten\u00e7a de rep\u00f3rter: bandido ou mocinho?<br \/>\nComo bandido, ele j\u00e1 tinha a fama feita. No Rio, figurou nas p\u00e1ginas policiais at\u00e9 o esgotamento.<br \/>\nComo mocinho, ainda n\u00e3o dava para acreditar nele. No texto, fiquei em cima do muro.<br \/>\nCom a pris\u00e3o nos Estados Unidos ele voltou \u00e0s manchetes por alguns dias. Minha entrevista rendeu meia p\u00e1gina no Estad\u00e3o.<br \/>\nEm 2000, Germano desistiu de se defender nos EUA e pediu para ser extraditado \u00e0 Fran\u00e7a. A DEA n\u00e3o viu nada importante nele e o deportou.<br \/>\n<span class=\"intertit\">SACANAGEM DIPLOM\u00c1TICA<\/span><br \/>\nMeses depois da entrevista no Upstate, reencontrei o c\u00f4nsul num regabofe. Ele me puxou para um canto e soprou: &#8220;Sabe o Germano? Fizeram uma sacanagem com ele&#8221;.<br \/>\nO c\u00f4nsul me explicou: &#8220;A Pol\u00edcia Federal queria v\u00ea-lo na cadeia, mas n\u00e3o conseguia. Ent\u00e3o, foi feita uma arma\u00e7\u00e3o para entreg\u00e1-lo aos americanos&#8221;.<br \/>\nEle disse que a Interpol francesa expedira o mandado de pris\u00e3o por canais sigilosos. S\u00f3 a PF sabia. A\u00ed, ela passou ao NYPD dia, hor\u00e1rio, flight number e hotel dele, resultando numa pris\u00e3o f\u00e1cil pros tiras americanos.<br \/>\nO c\u00f4nsul me sugeriu investigar outra vertente da sacanagem. Ele achava que o convite da BMW para a conven\u00e7\u00e3o fora s\u00f3 para tir\u00e1-lo do Rio e assim cassar a concess\u00e3o dele (mais tarde, a multi negou envolvimento na trama).<br \/>\nA PF n\u00e3o informou Germano do mandado franc\u00eas porque o queria na cadeia, n\u00e3o importando onde. Ela usou o artif\u00edcio porque a Constitui\u00e7\u00e3o pro\u00edbe a extradi\u00e7\u00e3o de brasileiros.<br \/>\nA pr\u00f3pria condena\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a derivou de uma informa\u00e7\u00e3o errada dela, PF, aos franceses. Eles investigavam uma conex\u00e3o Rio-Paris, em 1994. A PF mandou a ficha de Germano como sendo o chef\u00e3o do Morro do Vint\u00e9m. Vapt vupt, o empres\u00e1rio foi condenado, sem saber que era r\u00e9u em Paris.<br \/>\nBem mais tarde Germano processou a PF, mas ela foi absolvida da mancada, considerada ossos do of\u00edcio.<br \/>\nGermano teria tido uma chance de voltar dos EUA para o Brasil sem ser extraditado para a Fran\u00e7a, se o Itamaraty tivesse pedido a repatria\u00e7\u00e3o dele, coisa que n\u00e3o fez.<br \/>\nConsultei o c\u00f4nsul: &#8220;N\u00f3s n\u00e3o pedimos porque o Governo n\u00e3o deixou. A gente n\u00e3o sabia o motivo. A PF dizia que ele era bandido. S\u00f3 agora o pessoal do Itamaraty est\u00e1 dizendo que ele \u00e9 inocente&#8221;.<br \/>\nCorri para o telefone. Liguei para meu chefe, Laerte Fernandes. Pedi para ele acionar nosso correspondente em Paris para checar o caso. A resposta foi gelada: &#8220;N\u00e3o vamos atr\u00e1s de cachorro morto&#8221;.<br \/>\nLiguei para a jornalista francesa Valerie di Chiappari, uma amiga de anos. Sem avisar o Estad\u00e3o, ofereci 200 d\u00f3lares para ela ir ao Tribunal de Paris descobrir alguma coisa.<br \/>\nVal n\u00e3o teve sorte. Informou apenas que Germano continuaria preso, aguardando julgamento. Pela lei local, quando um condenado \u00e0 revelia aparece, anula-se o anterior e abre-se um novo processo.<br \/>\nMandei uma nota para o Estad\u00e3o. Tomei mais um balde frio: &#8220;Renan, esquece o caso&#8221;. Desta vez a ordem veio de um assistente do diretor Pimenta&#8230;perdi o reembolso dos 200 d\u00f3lares.<br \/>\n<span class=\"intertit\">MALANDRAGEM POLICIAL<\/span><br \/>\nAinda fu\u00e7ando, liguei dos Estados Unidos para a Corregedoria da Pol\u00edcia Federal no Rio. Fiz uma longa entrevista com um delegado. Ele disse que a investiga\u00e7\u00e3o de Germano tivera problemas e que, em consequ\u00eancia, o respons\u00e1vel pelo caso fora afastado.<br \/>\nMandei uma mat\u00e9ria com o sinal de alerta bem grande: o empres\u00e1rio Jos\u00e9 Germano Neto pode ser inocente.<br \/>\nSurpresa: o delegado-fonte processou o Estad\u00e3o dizendo que n\u00e3o tinha falado comigo. N\u00e3o era uma d\u00favida sobre um ponto ou outro do texto. Era uma negativa total. Como seu eu tivesse pirado e inventado a conversa com ele. A\u00ed, pediu grana de indeniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nJuntei o papo do c\u00f4nsul e a a\u00e7\u00e3o do delegado para come\u00e7ar a suspeitar fortemente &#8230; da inoc\u00eancia de Germano.<br \/>\nRaciocinei: se um delegado PF faz uma pilantragem dessas, o bandido deve ser o mocinho da hist\u00f3ria.<br \/>\nEm 2001, fui posto pra rua do Estad\u00e3o. Voltei pro Brasil e fui trabalhar na Gazeta do Povo, de Curitiba.<br \/>\nNo final de 2002, recebo um telefonema no jornal. Uma voz rouca, grave, arfante: &#8220;Aqui \u00e9 o Jos\u00e9 Germano&#8221;. Ele me contou que tinha sido absolvido e deportado da Fran\u00e7a.<br \/>\nEstava no Rio. E, surpresa, prestes a ser preso de novo pela PF.<br \/>\nPor qu\u00ea? &#8220;Por causa da primeira condena\u00e7\u00e3o na Fran\u00e7a.&#8221;<br \/>\nCom frieza, respondi que o caso dele n\u00e3o interessaria ao meu jornal. Ele me lembrou, com delicadeza: &#8220;S\u00f3 liguei porque voc\u00ea pediu para te avisar quando sa\u00edsse da cadeia&#8221;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O PRIMEIRO DELEGADO<\/span><br \/>\nFast forward para o final de 2004. Sa\u00ed da Gazeta. Ganhei uma passagem e 24 horas de hotel gr\u00e1tis no Rio, pra cerim\u00f4nia do Pr\u00eamio Esso.<br \/>\nDo aeroporto, fui primeiro para o escrit\u00f3rio dos advogados de Germano. Eles me vieram com o papo de pol\u00edcia incompetente perseguindo seu cliente inocente, arruinando o neg\u00f3cio com a BMW. Queriam me mostrar uma sala cheia de documentos.<br \/>\nDesconfiei deles. Pedi para procurarem na papelada apenas o nome do primeiro delegado a prend\u00ea-lo, em 1989. &#8220;Foi o doutor J\u00falio Mulatinho, da Pol\u00edcia Civil do Rio&#8221;, lembrou Germano, mesmo 15 anos depois.<br \/>\nEncerrei a reuni\u00e3o. R\u00e1pidos telefonemas, achei o doutor Mulatinho. Era o titular da delegacia de Maric\u00e1. Peguei um t\u00e1xi e levei uns recortes de jornal para o papo com ele.<br \/>\nO homem mal viu a primeira foto, virou a cara e fez tsk tsk tsk: &#8220;Ah, este coitado (Germano). N\u00e3o \u00e9 bandido. Foi caguetado por um vagabundo&#8221;.<br \/>\nPedi uma prova: &#8220;Posso n\u00e3o ter provas da inoc\u00eancia, mas duvido que encontrem da culpa&#8221;.<br \/>\nO delegado me contou que o prendeu &#8220;por uma den\u00fancia fria&#8221;. Para ele, Germano estava limpo. &#8220;Quando a PF assumiu o processo, eu tentei avisar o pessoal dela, mas ningu\u00e9m se importou.&#8221;<br \/>\nEstaria o delegado no bolso de Germano? Como ele lembrava de tudo, 15 anos depois? &#8220;Deu tanta not\u00edcia na \u00e9poca que foi imposs\u00edvel esquecer.&#8221;<br \/>\n<span class=\"intertit\">PERDAS<\/span><br \/>\nBalan\u00e7o do caso entre 1989 e 2004: Germano passou quatro anos na cadeia. A BMW lhe cassou o neg\u00f3cio. Prenderam a mulher dele, a leiloeira oficial Zalfa Nassar, acusada pela PF de cumplicidade. Ela perdeu o cargo e abortou na cadeia. Eles se mudaram de um ap\u00ea de luxo na Barra para o sub\u00farbio de Campo Grande \u2013 uma condena\u00e7\u00e3o dentro da condena\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA persegui\u00e7\u00e3o j\u00e1 era do tipo ovo ou galinha: na Fran\u00e7a, acusado de ser traficante no Rio, no Rio, acusado de traficante na Fran\u00e7a.<br \/>\nMesmo que Germano quisesse retomar sua vida, ela continuaria parada na 8\u00aa Vara Criminal do Rio de Janeiro por mais10 anos. Estava com seus bens congelados, sem passaporte, obrigado a viver no eixo casa-advogado-casa.<br \/>\n<span class=\"intertit\">POL\u00cdCIA BANDIDA<\/span><br \/>\nEm 2005, no Jornal J\u00e1, re-re-reinvestiguei o caso. Contratei um frila no Rio para ir \u00e0 PF checar as acusa\u00e7\u00f5es contra ele. Era o estudante Breno Costa, depois top rep\u00f3rter na Folha de S.Paulo.<br \/>\nBreno chega ao processo, mas \u00e9 detido pelo delegado do caso. Ele amea\u00e7a mandar o rep\u00f3rter para um cadei\u00e3o carioca.<br \/>\nTelefonemas fren\u00e9ticos. Mobilizado o sindicato do Rio. O presidente Aziz Filho liga, me d\u00e1 uma dura por mandar um estagi\u00e1rio, resgata Breno ileso.<br \/>\nO rep\u00f3rter ficou sem a mat\u00e9ria, mas eu reforcei minha d\u00favida: a PF n\u00e3o tinha nada para provar a acusa\u00e7\u00e3o contra Germano. Quando policial tem, solta em off. Quando n\u00e3o tem, acusa: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 amigo do bandido?&#8221;<br \/>\nNeste est\u00e1gio, boquirrotiei: contei para Milton Coelho da Gra\u00e7a, do Observat\u00f3rio de Imprensa, que estava preparando uma hist\u00f3ria sensacional.<br \/>\n<span class=\"intertit\">NA TOCA DO LE\u00c3O<\/span><br \/>\nPara escrev\u00ea-la, voei para o Rio, numa manh\u00e3 de domingo. Fui de surpresa \u00e0 casa de Jos\u00e9 Germano. Ele e Zalfa estavam na varanda. Liam jornais. Pareciam calmos e confort\u00e1veis na rotina morna do casamento sem filhos.<br \/>\nSa\u00edmos para almo\u00e7ar numa churrascaria vagabunda. O papo rolou sobre colesterol e pontes de safena. Ele estava pesando 120 quilos. Eu idem, ent\u00e3o tive intimidade suficiente para apelid\u00e1-lo de Gordo.<br \/>\nPassamos a tarde com Faust\u00e3o e futebol. Ele roncou na poltrona. Zalfa remexia nas pilhas de volumes dos processos. Furunguei na papelada.<br \/>\nAos poucos, a mulher come\u00e7ou a tagarelar. Contou dos dias presa em 1989: &#8220;Para me soltar, queriam que eu incriminasse o Z\u00e9.&#8221;<br \/>\nZalfa perdeu o cargo de leiloeira, mas fez uma limonada: foi estudar. Deu tempo para formar-se em Direito e advogar para o marido.<br \/>\nFingindo orgulho, ela mostra sua foto na capa do Extra sob o t\u00edtulo &#8220;Linda, rica e procurada&#8221;. Dobra o papel amarelado e ironiza: &#8220;J\u00e1 n\u00e3o me procuram, n\u00e3o sou mais rica e esta foto tem 15 anos&#8221;.<br \/>\nNum momento de fraqueza ela confidencia sobre o aborto do beb\u00ea que os dois queriam, durante os interrogat\u00f3rios da PF. N\u00e3o houve viol\u00eancia f\u00edsica, ela acha que foi pelo estresse da coisa. Zalfa agora chora. Bem baixinho, para n\u00e3o acordar o Gordo.<br \/>\nSeguro a m\u00e3o dela alguns segundos, num gesto de conforto. Ela recolhe a sua, seca os olhos com meu len\u00e7o: &#8220;Ele n\u00e3o gosta que eu fale mais nisso&#8221;, diz, apontando com a cabe\u00e7a para o dorminhoco. &#8220;O Z\u00e9 acha que faz mal pra gente lembrar coisas ruins.&#8221;<br \/>\nAnoitece. Mais TV, entramos no Fant\u00e1stico. Eu j\u00e1 estava quadrado de tanto sof\u00e1. Tentava sacar a rotina da casa. Notei que os telefones n\u00e3o tocaram uma \u00fanica vez.<br \/>\nPerguntei: &#8220;U\u00e9, os comparsas de voc\u00eas n\u00e3o ligam mais? Cad\u00ea o resto da quadrilha? Quanto tempo voc\u00eas v\u00e3o disfar\u00e7ar?&#8221; Conclus\u00e3o: &#8220;N\u00e3o sabia que vida de traficante aposentado era t\u00e3o calma&#8221;.<br \/>\nEles receberam como piada, numa boa. Me convidaram para dormir na casa, porque era longe do meu hotel e &#8220;perigoso sair \u00e0 noite&#8221;. No dia seguinte, tomamos caf\u00e9 juntos e eles me largaram no aeroporto.<br \/>\nMais alguns meses se passaram. Voltei ao Rio. Zalfa me liga querendo processar o governo franc\u00eas na Corte Europeia de Direitos Humanos para pedir indeniza\u00e7\u00e3o pela cana puxada em Paris.<br \/>\nPergunta minha opini\u00e3o. Achei bobagem. Mas, foi a\u00ed que tive a ideia: se a investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o andava no Brasil, poderia tentar via Fran\u00e7a.<br \/>\n<span class=\"intertit\">EXPEDI\u00c7\u00c3O PARISIENSE<\/span><br \/>\nFomos \u00e0 ag\u00eancia de viagens deles. Comprei uma passagem para Paris. Eu paguei cash, preocupado com a possibilidade de a PF ainda estar na cola dele e me acusar de tomar dinheiro de \u201ctraficantes\u201d.<br \/>\nDesci em Paris e fui direto para a sede da Policia Nacional Francesa.<br \/>\nMe encostei no balc\u00e3o e pedi para falar com o chefe da narc\u00f3ticos. Dois guardas me levaram \u00e0 sala do capit\u00e3o Marc Geny. Pelo papo, percebi que ele achava que eu vinha fazer alguma den\u00fancia.<br \/>\nMostrei uma reportagem antiga assinada no Estad\u00e3o. Geny conferiu o nome com meu passaporte. Pareceu frustrado, depois relaxou. Jogou-se para tr\u00e1s na cadeira, dispensou os guardinhas e me ofereceu caf\u00e9.<br \/>\nEu retruquei oferecendo off the record. O capit\u00e3o disse que n\u00e3o trabalhou no processo, mas sabia dele: &#8220;Tudo o que eu posso dizer \u00e9 que foi um caso kafkiano. Usamos uma informa\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia brasileira para conden\u00e1-lo, sem nunca ter apreendido drogas com ele&#8221;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">REP\u00d3RTER OU C\u00daMPLICE?<\/span><br \/>\nDepois do papo, voltei de Paris com a certeza da inoc\u00eancia de Germano.<br \/>\nClaro, aquele tipo de certeza de jornalista: sempre recheada de d\u00favidas. No fundo, eu procurava provar que ele era o bandido que diziam.<br \/>\nEu j\u00e1 tinha tentando entrevistar o alcaguete que fez a primeira den\u00fancia, sem sucesso. Era um ex-cabo da PM carioca. S\u00f3 achei o nome e a caguetada nos autos do processo. Ele morreu em 1997.<br \/>\nRe-re-entrevistei o Gordo. Fizemos o balan\u00e7o de quantas vezes ele foi investigado sobre o mesmo assunto. N\u00e3o dava para lembrar. S\u00f3 a PF continuava na cola dele, disposta a provar o improv\u00e1vel.<br \/>\nSeria ele t\u00e3o esperto a ponto de conseguir enganar todo mundo o tempo todo? E eu teria cruzado a barreira de rep\u00f3rter a c\u00famplice de bandido?<br \/>\nCansado, voltei as baterias contra Germano. Pedi para me confessar tudo. Ofereci a ele uma chance de reden\u00e7\u00e3o: garanti que n\u00e3o publicaria nada se ele me dissesse a verdade.<br \/>\nPara os registros: &#8220;N\u00e3o quero comprometer minha carreira defendendo um bandido&#8221;.<br \/>\nNada o demoveu de jurar que era inocente.<br \/>\n<span class=\"intertit\">CA\u00c7ADO<\/span><br \/>\nEm 2007, eu andava frilando no moribundo Jornal do Brasil. Pude contar toda hist\u00f3ria de Germano at\u00e9 ali, desta vez j\u00e1 cravando a inoc\u00eancia dele. O editor M\u00e1rio Marona caprichou na capa: &#8220;O homem que foi ca\u00e7ado por 18 anos&#8221;.<br \/>\nDespejei tudo em duas p\u00e1ginas internas. A repercuss\u00e3o foi zero.\u00a0Mesmo assim, Germano tirou c\u00f3pias e distribuiu para os amigos. Era sua declara\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia na imprensa que tanto o castigara.<br \/>\nSa\u00ed do JB e voltei para Porto Alegre. O tempo voou. Germano teve c\u00e2ncer. Tremeu nas bases. Come\u00e7ou a me ligar, depressivo. Queria processar tudo e todos para provar sua alegada inoc\u00eancia.<br \/>\nEle bolou at\u00e9 um protesto: sentar na frente do Cristo Redentor com uma placa de &#8220;inocente&#8221; no pesco\u00e7o. Seria o \u00fanico jeito de contar sua hist\u00f3ria para o mundo. Ri da ideia: &#8220;Al\u00e9m de bandido, v\u00e3o te chamar de louco&#8221;.<br \/>\n<span class=\"intertit\">N\u00c3O DEU NO FANT\u00c1STICO<\/span><br \/>\nA\u00ed, para dar uma for\u00e7a ao doente, cometi uma ingenuidade indesculp\u00e1vel. Sugeri para ele contar seu caso kafkiano no Fant\u00e1stico (o pessoal mais velho deve lembrar de quando este programa tinha Ibope).<br \/>\nSeriam 10 minutos de al\u00edvio na telinha, depois de 18 anos tomando chumbo. Ele ligou se oferecendo. N\u00e3o quiseram.<br \/>\nMinha besteira foi deixar de ser pro e mandar um e-mail para o rep\u00f3rter Eduardo Faustini. Ele conhecia o caso. Eu s\u00f3 sugeri que desse uma nova olhada. Dei os telefones de Germano e dos advogados daquela sala cheia de documentos.<br \/>\nFaustini ficou com um p\u00e9 atr\u00e1s. Nunca procurou Germano. E come\u00e7ou a me interrogar. S\u00f3 ent\u00e3o percebi o \u00f3bvio: se algum jornalista me ligasse com essa hist\u00f3ria eu tamb\u00e9m pensaria como ele deve ter pensado: &#8220;Compraram este cara para limpar a barra de um traficante.\u201d<br \/>\nPior fez Germano: ele esperou horas por Larry Rother no escrit\u00f3rio do New York Times. N\u00e3o foi recebido. Deixou recortes de jornais e um pat\u00e9tico pedido de ter sua hist\u00f3ria de injusti\u00e7a brasileira contada mundo afora.<br \/>\n<span class=\"intertit\">VIRADA<\/span><br \/>\nEm 2010, Germano foi absolvido pela 8\u00aa Vara Criminal do Rio.\u00a0Absolvido, sob o estrondoso sil\u00eancio da m\u00eddia. Nenhuma linha, nenhuma notinha, nada de nada.<br \/>\nO juiz se convenceu da inoc\u00eancia quando interrogou seu principal acusador, o delegado da Pol\u00edcia Federal Luiz D\u00f3rea. Obteve dele a resposta que mudou o jogo, lan\u00e7ada nos autos: &#8220;Nunca (em 18 anos) houve qualquer depoimento, ou qualquer flagrante, ou qualquer apreens\u00e3o de drogas que o implicasse com o tr\u00e1fico&#8221;.<br \/>\nA\u00ed o delegado PF Aldeir Gon\u00e7alves sepulta de vez a acusa\u00e7\u00e3o. Explica ao juiz que para processar Germano em sua volta ao Brasil &#8220;tudo que (a pol\u00edcia) tem contra (ele) \u00e9 apenas a senten\u00e7a francesa&#8221;.<br \/>\nDa absolvi\u00e7\u00e3o na 8\u00aa Vara o caso subiu para o TRF4 (Tribunal Regional Federal) por recurso do MPF, mas j\u00e1 sem muita margem para mudan\u00e7a.<br \/>\nNo TRF foi confirmada a absolvi\u00e7\u00e3o das acusa\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico e forma\u00e7\u00e3o de quadrilha. Mas, o MPF ainda queria salvar a cara e insistia que os bens de Germano seriam fruto de enriquecimento il\u00edcito. O MPF ent\u00e3o recorreu ao STJ tentando esta condena\u00e7\u00e3o indireta como traficante.<br \/>\nGermano provou que tinha riqueza l\u00edcita de ber\u00e7o. O av\u00f4 foi um industrial judeu pioneiro da metalurgia. Ele herdou do pai v\u00e1rios im\u00f3veis no sub\u00farbio.<br \/>\nA Receita Federal demoliu a acusa\u00e7\u00e3o, anexando uma certid\u00e3o nos autos. S\u00f3 ent\u00e3o o MPF capitulou, mandando um of\u00edcio ao STJ desistindo das acusa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO caso caiu no buraco negro, \u00e0 espera da senten\u00e7a do STJ. Foram mais tr\u00eas anos parado, at\u00e9 outubro de 2013.<br \/>\nGermano ainda n\u00e3o podia comemorar porque um ministro poderia derrubar o pedido de desist\u00eancia do MPF e ele mesmo mandar reinvestigar tudo. A\u00ed a roda continuaria: STJ-MPF-TRF4- 8\u00aa Vara-PF-Rio-Paris, tudo de novo.<br \/>\nEm junho, o caso foi para os arquivos, desta vez para sempre.<br \/>\n<span class=\"intertit\">BIOGRAFIA MANCHADA<\/span><br \/>\nCom o caso encerrado, liguei para o Gordo pela \u00faltima vez.<br \/>\n\u2013 E a\u00ed Germano, como v\u00e3o teus dois processos ?<br \/>\n\u2013 Perdi o da BMW em primeira inst\u00e2ncia, mas na segunda vou vencer.<br \/>\nEle parecia empolgado com a derrota.<br \/>\n\u2013 E o do narcotr\u00e1fico ?<br \/>\n\u2013 Ganhei (sua voz n\u00e3o tinha nenhuma emo\u00e7\u00e3o).<br \/>\nPedi licen\u00e7a para publicar sua saga de 25 anos.<br \/>\n\u2013 Deixe pra l\u00e1, estarei sujo para sempre.<br \/>\nEle parecia amargurado na vit\u00f3ria.<br \/>\nO motivo da amargura \u00e9 a tecnicalidade da senten\u00e7a. Ela n\u00e3o diz \u201cabsolvido\u201d. O STJ o absolveu porque o MPF desistiu de persegui-lo.<br \/>\nOs promotores n\u00e3o disseram &#8220;inocente&#8221;. Ou &#8220;demos uma mancada&#8221;. Ele n\u00e3o levou sequer um pedido de desculpas.<br \/>\nNuma frase ? Foi inocentado porque n\u00e3o provaram que era bandido.<br \/>\nAssim, o volumoso, complicado e demorad\u00e9simo processo Uni\u00e3o x Jos\u00e9 Germano Neto acabou com um suspiro.<br \/>\nAgora ele vai tocar sua vida, parada desde os 40 anos. Aos 65, n\u00e3o ter\u00e1 mais energia, nem tempo, para processar o governo por indeniza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a mancha nunca vai apagar: muita gente ainda vai achar que ele \u00e9 um narcotraficante esperto que conseguiu enganar a todos o tempo todo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Renan Antunes de Oliveira | N \u00e3o existe caso de erro judicial no Brasil igual ao do empres\u00e1rio carioca Jos\u00e9 Germano Neto, de 65 anos, dono de uma revenda BMW no Rio de Janeiro. O Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) acaba de absolv\u00ea-lo de um crime nunca cometido. 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