{"id":15600,"date":"2014-07-24T17:43:48","date_gmt":"2014-07-24T20:43:48","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=15600"},"modified":"2014-07-24T17:43:48","modified_gmt":"2014-07-24T20:43:48","slug":"borges-nao-gostava-de-futebol-nem-reclamava-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/borges-nao-gostava-de-futebol-nem-reclamava-da-ditadura\/","title":{"rendered":"Borges: n\u00e3o gostava de futebol nem reclamava da ditadura"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Enio Squeff<\/strong><br \/>\nApesar da satisfa\u00e7\u00e3o por sua obra &#8211; \u00e9 ela quem faz o artista respirar e justificar a pr\u00f3pria exist\u00eancia &#8211; Jorge Luis Borges deve ter experimentado n\u00e3o poucos momentos de ang\u00fastia com seu pa\u00eds, a Argentina.<br \/>\nSua vis\u00e3o pol\u00edtica, ele mesmo dizia, limitava-se \u00e0 \u00e9tica individual: reclamava dos peronistas que, quando Per\u00f3n assumiu como ditador, o perseguiram de todas as maneiras.<br \/>\nMas se omitiu quando do assass\u00ednio em massa de seus compatriotas por uma das piores ditaduras militares que se instalaram na Am\u00e9rica Latina nos \u00faltimos anos.<br \/>\nOs genocidas argentinos diziam-se, claramente, anti-peronistas e \u00e9 previs\u00edvel que isso os tornasse menos criminosos para Borges: v\u00e1rias vidas por uma reabilita\u00e7\u00e3o p\u00fablica, depois da execra\u00e7\u00e3o peronista &#8211; seria isso?<br \/>\nSe Borges continuou a ser admirado por muitos intelectuais, inclusive na Argentina, n\u00e3o se safou do ju\u00edzo de seus compatriotas: o que Borges reclamava dos argentinos &#8211; de serem individualistas e omissos perante a pr\u00f3pria comunidade &#8211; ele mesmo parece ter incorporado como um procedimento normal.<br \/>\nFugiu do presente como um nefelibata que sonha com as nuvens douradas de um passado glorioso e que criou um mundo paralelo, simplesmente genial, mas que nem por isso o livrou da acusa\u00e7\u00e3o de ter dado as costas a seus compatriotas.<br \/>\nFosse na Alemanha p\u00f3s guerra, talvez Borges n\u00e3o se livrasse de uma cita\u00e7\u00e3o em N\u00fcrenberg &#8211; o que, para seus admiradores, seria tamb\u00e9m uma trag\u00e9dia.<br \/>\nNum de seus in\u00fameros di\u00e1logos com v\u00e1rios intelectuais, Borges disse que tinha dificuldade de partilhar da opini\u00e3o de Schopenhauer, que n\u00e3o acreditava na hist\u00f3ria como um fim.<br \/>\nAchava que, mesmo que a hist\u00f3ria n\u00e3o interferisse na obra de arte e vice-versa, seria inadmiss\u00edvel que pudesse n\u00e3o ter algum sentido. Sob o ponto de vista \u00e9tico, por exemplo, ele defendia que ela, a hist\u00f3ria, haveria de ter uma resposta convincente.<br \/>\nFoi, exatamente na \u00e9tica individual, entretanto, que ele falhou. N\u00e3o se posicionou, clara e inequivocamente, contra o massacre perpetrado pelos militares argentinos.<br \/>\nE isso n\u00e3o lhe deve ter sido compensador, pelo menos ao saber que muitos, principalmente os parentes e conhecidos dos assassinados ( mais de trinta mil), passaram a abomin\u00e1-lo desde ent\u00e3o.<br \/>\nDigamos, com todo o exagero poss\u00edvel, &#8220;uma gl\u00f3ria feita de sangue&#8221;.<br \/>\nNo entanto, parecer imposs\u00edvel contar a hist\u00f3ria da literatura ocidental sem uma men\u00e7\u00e3o especial ao grande escritor argentino.<br \/>\n<span class=\"intertit\">LER E RESPIRAR<\/span><br \/>\nBorges deve ter conhecido o livro &#8220;Auto-de-F\u00e9&#8221; ( tradu\u00e7\u00e3o do &#8216;ga\u00facho&#8217; Herbert Caro) de Elias Canetti. \u00c9 uma obra que lhe diz respeito em boa parte.<br \/>\nConta a hist\u00f3ria de um bibli\u00f3filo encerrado em sua biblioteca que se mete, involuntariamente, em confus\u00f5es de todo o tipo e que, ao cabo de muitas aventuras que o aproximam de um Dom Quixote mais tr\u00e1gico do que sat\u00edrico, deixa-se queimar com seus mais de vinte mil livros.<br \/>\n<figure id=\"attachment_15632\" aria-describedby=\"caption-attachment-15632\" style=\"width: 217px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-15632\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/eliascanetti.jpg\" alt=\"Elias Canetti\" width=\"217\" height=\"325\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-15632\" class=\"wp-caption-text\">Elias Canetti<\/figcaption><\/figure><br \/>\nO t\u00edtulo portugu\u00eas &#8220;Auto-de-F\u00e9&#8221;, diz bem do livro. \u00c9 uma f\u00e1bula que, provavelmente, agradasse ao grande escritor.<br \/>\nMas vestiria a carapu\u00e7a? Talvez n\u00e3o, alegadamente pelo diferencial de n\u00e3o ser um leitor passivo, como Kien, o personagem sin\u00f3logo de Elias Canetti: Borges transformou sua obsess\u00e3o pelos livros numa criatividade em que cabe sempre a palavra &#8220;maravilhoso&#8221;. Criou hist\u00f3rias e poemas, baseado em livros. Sua fic\u00e7\u00e3o s\u00e3o ensaios sobre a fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFoi o mestre que encarnou a realidade de nosso mundo em que o ler \u00e9 uma outra forma de respirar. Borges descobriu uma caracter\u00edstica do nosso mundo, mais que de outros tempos, quem sabe.<br \/>\n<span class=\"intertit\">ARQUETIPOS DE LIVROS<\/span><br \/>\nS\u00e3o Jer\u00f4nimo, tido como o maior leitor de seu tempo, l\u00e1 pelos anos 300 D.C., n\u00e3o imaginaria jamais em se jactar por devorar livros. Borges n\u00e3o fez isso evidentemente. E n\u00e3o foi um Kien. Talvez se pensasse uma criatura de biblioteca &#8211; uma esp\u00e9cie de tra\u00e7a ou cupim pensante e, mais que tudo, um produtor de livros a partir de livros.<br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-15607 size-medium\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/s\u00e3o-jeronimo-21-300x263.jpg\" alt=\"s\u00e3o  jeronimo 2\" width=\"300\" height=\"263\" \/><br \/>\nBorges pensa como os livros e pelos livros, como os arqu\u00e9tipos de livros. E fez de sua obra uma b\u00edblia no sentido etimol\u00f3gico, onde os personagens s\u00e3o muitas vezes os livros dos livros, mas sempre tamb\u00e9m os seus personagens.<br \/>\nMesmo seus her\u00f3is m\u00edticos &#8211; ga\u00fachos analfabetos &#8211; s\u00e3o sempre refer\u00eancias liter\u00e1rias. H\u00e1 um ou mais livros a espreit\u00e1-los. S\u00e3o sempre referenciais dentro da literatura.<br \/>\nAproxim\u00e1-lo de Gustav Mahler, talvez s\u00f3 o desagradasse pela sua indiferen\u00e7a em face da hist\u00f3ria da m\u00fasica. Borges sempre apreciou tangos e milongas, mas confessava uma real ignor\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica mai\u00fascula &#8211; a que, afinal, tem a ver com grande cultura de que ele, Borges, foi um dos maiores protagonistas em nosso tempo.<br \/>\n<span class=\"intertit\">TRIBUTO OU CR\u00cdTICA<\/span><br \/>\nMahler, como Borges, tamb\u00e9m se notabilizou como um criador historicista: toda a sua cria\u00e7\u00e3o viceja em meio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o musical de seus antecessores. Foi um compositor que se expressou em torno da pr\u00f3pria m\u00fasica, da sua hist\u00f3ria. Suas refer\u00eancias, mesmo quando cantadas, com poemas, alguns de sua pr\u00f3pria autoria, n\u00e3o s\u00e3o fora do estrito campo da m\u00fasica.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Gustav-Mahler-2.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-15608 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Gustav-Mahler-2.jpg\" alt=\"Gustav Mahler 2\" width=\"302\" height=\"167\" \/><\/a><br \/>\nDif\u00edcil, entretanto, que como judeu ( Borges encontrava judeus na g\u00eanese do seu nome), Mahler se alienasse das trag\u00e9dias de seu tempo. E ele n\u00e3o se alienou: o referencial das quatro notas da quinta, em d\u00f3 menor de Beethoven, que ele acrescenta \u00e0 sua quinta s\u00e3o, \u00e9 certo, uma &#8220;hommage&#8221; a Beeethoven, como diz Leonard Bernstein &#8211; mas ele as usa menos como tributo do que como cr\u00edtica.<br \/>\n\u00c9 aud\u00edvel que fez da hist\u00f3ria o tema para a sua m\u00fasica e que, ao se referir a Beethoven, o tr\u00e1gico sobressai no que se sucede \u00e0s quatro notas conhecidas: o drama que p\u00f5e em xeque a pr\u00f3pria m\u00fasica, como que esplende na impossibilidade do prosseguimento da hist\u00f3ria, j\u00e1 que, em Beethoven, a m\u00fasica \u00e9 um protesto com plena resson\u00e2ncia na hist\u00f3ria, enquanto que, em Mahler \u00e9 uma dolorosa interroga\u00e7\u00e3o que tende a n\u00e3o admitir respostas.<br \/>\nSe fizesse o mesmo, Borges talvez tivesse de se endere\u00e7ar compulsoriamente \u00e0 tr\u00e1gica contemporaneidade de seu pa\u00eds nos \u00faltimos anos. Mas teria de reavaliar tamb\u00e9m sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria e pensar as feridas ocasionadas pelo peronismo &#8211; para ele um per\u00edodo recheado de vulgaridades que o atingiram justamente por seu intelectualismo, seu onipresente respeito \u00e0 cultura, \u00e0 grande cultura.<br \/>\nAssim, o que em Mahler \u00e9 a previs\u00e3o da hecatombe, inclusive o nazismo &#8211; um processo cultural que desembocaria necessariamente na rejei\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o em forma de progresso, em Borges se faz como um afastamento parcial do presente. N\u00e3o houve nada do que ele n\u00e3o quis ver, mas que aconteceu.<br \/>\n<span class=\"intertit\">DOM QUIXOTE<\/span><br \/>\n\u00c9 tudo, na verdade, muito paradoxal. Se tivesse atentado para o historicismo que marca a cultura ocidental, sua admira\u00e7\u00e3o por Cervantes e especialmente por seu Dom Quixote, seria um caminho, quem sabe, que o levaria a superar as feridas da persegui\u00e7\u00e3o que sofreu sob o peronismo. E a sua radical rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o pol\u00edtica, da forma que assumiu na Argentina nos \u00faltimos anos.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cervantes-3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-15609 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Cervantes-3.jpg\" alt=\"Cervantes 3\" width=\"240\" height=\"180\" \/><\/a><br \/>\nN\u00e3o se pode esquecer que seu admirado Dom Quixote sofre o diabo, mas persiste em seu ideal maluco e santo, de esperar muito dos homens apesar de tudo. Borges n\u00e3o o fez e n\u00e3o o fez conscientemente, ali\u00e1s. S\u00e3o numerosos seus argumentos em favor da valentia individual do ga\u00facho, estribado na sua cultura, na sua tradi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nFica a pergunta se n\u00e3o era, afinal, o mesmo povo ao qual ele n\u00e3o voltou seus olhos mortos; e que contemporaneamente n\u00e3o mereceram dele sen\u00e3o um profundo desprezo &#8211; justamente por sua aproxima\u00e7\u00e3o com o peronismo. \u00c9 a eles que Borges reserva sua indiferen\u00e7a, enquanto os trata como meras express\u00f5es da vulgaridade manobrada.<br \/>\nPode, enfim, ser apressada a conclus\u00e3o de que se explicam duas de sua ojerizas. A primeira, pela m\u00fasica de Astor Piazzola. Borges nunca entendeu a sua m\u00fasica &#8211; se \u00e9 que alguma vez entendeu dos tangos mais que as letras. E condenou explicitamente o futebol. Para ele era a express\u00e3o da vulgaridade do povo. Fica a outra quest\u00e3o, se alguma vez se inquiriu sobre qualquer coisa que, afinal, seus olhos nunca viram. E que seu intelecto genial jamais abarcaria, justamente por n\u00e3o constar dos livros, de seus amados livros.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Enio Squeff Apesar da satisfa\u00e7\u00e3o por sua obra &#8211; \u00e9 ela quem faz o artista respirar e justificar a pr\u00f3pria exist\u00eancia &#8211; Jorge Luis Borges deve ter experimentado n\u00e3o poucos momentos de ang\u00fastia com seu pa\u00eds, a Argentina. 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