{"id":15748,"date":"2014-07-27T16:48:45","date_gmt":"2014-07-27T19:48:45","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=15748"},"modified":"2014-07-27T16:48:45","modified_gmt":"2014-07-27T19:48:45","slug":"bukowski-ode-a-um-velho-safado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/bukowski-ode-a-um-velho-safado\/","title":{"rendered":"Bukowski, ode a um velho safado"},"content":{"rendered":"<p>Por Francisco Ribeiro<br \/>\nA pe\u00e7a \u201cBukowski: hist\u00f3rias da vida subterr\u00e2nea,\u201d de Roberto de Oliveira \u2013 em cartaz no Teatro de Arena de Porto Alegre \u2013 faz um interessante recorte liter\u00e1rio da obra do escritor norte-americano Charles Bukowski (1920-1994. Foto abaixo). Composta de trechos de v\u00e1rios livros \u2013 como \u201cCartas na rua\u201d e \u201cMulheres\u201d \u2013 a pe\u00e7a narra uma trajet\u00f3ria de vida feita de err\u00e2ncias, porres, muitas paix\u00f5es, alguns amores e, claro, de alguma poesia.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Bukowski-3.png\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-15754\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Bukowski-3.png\" alt=\"Bukowski 3\" width=\"278\" height=\"181\" \/><\/a><br \/>\nFeio, velho, tarado e b\u00eabado o dia inteiro. Assim, Charles Bukowski, ou seu alterego, Henry Chinaski, descreveu-se para as gera\u00e7\u00f5es de leitores que \u2013 principalmente a partir da d\u00e9cada de 70 do s\u00e9culo passado \u2013 passaram a acompanhar sua obra que, em boa parte, se confunde com a pr\u00f3pria vida do autor, por mais que se queira separar entre o que \u00e9 realidade e fic\u00e7\u00e3o.<br \/>\nS\u00e3o temas recorrentes em seus escritos: alcoolismo, ang\u00fastias, misantropia, corridas de cavalo, desespero, e sexo, muito sexo. Enfim, as aventuras, o absurdo e a loucura do cotidiano de pessoas ordin\u00e1rias. O estilo narrativo de Bukowski \u00e9 direto, cru, mas n\u00e3o \u00e9 desprovido de humor, j\u00e1 que era um expert em zombar da pr\u00f3pria desgra\u00e7a. Percebe-se nele a profundidade da vis\u00e3o sobre a vida de algu\u00e9m sem ilus\u00f5es e que n\u00e3o faz concess\u00f5es.<br \/>\nOliveira, na adapta\u00e7\u00e3o que fez para a pe\u00e7a, soube, com o apoio de sua trupe do Dep\u00f3sito de Teatro, resguardar os tra\u00e7os essenciais da obra de Bukowski. E, enquanto ator, tamb\u00e9m tem o physique du r\u00f4le adequado para representar um velho safado ou, eufemismo er\u00f3tico, sacana. As atrizes t\u00eam os atributos corporais necess\u00e1rios e a compet\u00eancia de interpreta\u00e7\u00e3o para criar o clima quase pornogr\u00e1fico que permeia toda a pe\u00e7a. O gestual \u00e9 obsceno, a linguagem vulgar, mantendo-se fidelidade ao universo de Bukowski, que era um homem sem papas na l\u00edngua.<br \/>\nO cen\u00e1rio criado para o pequeno palco \u2013 mais o apoio da m\u00fasica de Tom Waits \u2013 materializa a ideia que se tem dos in\u00fameros muquifos habitados por Bukowski em sua fase mais delirante e criativa. N\u00e3o faltam garrafas vazias, uma velha m\u00e1quina de escrever, e a geladeira, pi\u00e8ce de resistance, repleta de cervejas, algumas consumidas in loco.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/bukowski-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-15750 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/bukowski-1.jpg\" alt=\"bukowski 1\" width=\"750\" height=\"500\" \/><\/a><br \/>\nDestaque para a enorme cama que invade o espa\u00e7o da plateia, local de amores, revela\u00e7\u00f5es \u00edntimas, e destampat\u00f3rio de frustra\u00e7\u00f5es de personagens autodestrutivos, decadentes, sempre pr\u00e9-dispostos ao v\u00f4mito e ao suic\u00eddio. Assim, n\u00e3o h\u00e1 bebida suficiente para apagar as dolorosas lembran\u00e7as que carregam. Traumas como os de Bukowski em rela\u00e7\u00e3o ao pai, um homem brutal que o espancava, e que ele, por sua vez, p\u00f4s\u00a0a nocaute na adolesc\u00eancia.<br \/>\nBukowski morreu h\u00e1 20 anos, mas o seu p\u00fablico, como o que vem lotando as depend\u00eancias do Teatro de Arena, continua ser predominantemente jovem. Muitas garotas. Algumas, com certeza, t\u00eam na cabeceira o livro que dedicou a elas, \u201cMulheres\u201d. E talvez sonhem em encontrar na fria capital ga\u00facha um senhor que satisfa\u00e7a os seus desejos e alimente suas almas com poesia ou outras narrativas s\u00f3rdidas. H\u00e1 candidatos.<br \/>\nNo t\u00famulo de Charles Bukowski, na Calif\u00f3rnia, l\u00ea-se o epit\u00e1fio: \u201cDon\u2019t try\u201d (\u201cnem tente\u201d). Conselho s\u00e1bio de um ser ca\u00f3tico e corajoso, e que soube retirar de suas entranhas o conte\u00fado para suas hist\u00f3rias. \u00a0Bukowski e seu sonho inconcluso de, ao fazer 80 anos, transar com uma teenager. Morreu alguns meses antes de completar 74 anos. Faltou pouco.<br \/>\nBukowski: hist\u00f3rias da vida subterr\u00e2nea<br \/>\nTeatro de Arena: Alto do Viaduto Ot\u00e1vio Rocha (Centro Hist\u00f3rico)<br \/>\nAt\u00e9 17 de agosto de 2014: de sexta \u00e0 domingo, sempre \u00e0s 20h.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Francisco Ribeiro A pe\u00e7a \u201cBukowski: hist\u00f3rias da vida subterr\u00e2nea,\u201d de Roberto de Oliveira \u2013 em cartaz no Teatro de Arena de Porto Alegre \u2013 faz um interessante recorte liter\u00e1rio da obra do escritor norte-americano Charles Bukowski (1920-1994. Foto abaixo). 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