{"id":15801,"date":"2014-07-28T19:49:03","date_gmt":"2014-07-28T22:49:03","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=15801"},"modified":"2014-07-28T19:49:03","modified_gmt":"2014-07-28T22:49:03","slug":"ariano-suassuna-e-os-interpretes-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/ariano-suassuna-e-os-interpretes-do-brasil\/","title":{"rendered":"Ariano Suassuna e os int\u00e9rpretes do Brasil"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Enio Squeff<\/span><br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel que n\u00e3o exista um pa\u00eds com tantos int\u00e9rpretes quanto o Brasil. Talvez o tamanho do pa\u00eds justifique tantos esfor\u00e7os gen\u00e9ticos.<br \/>\nEuclides da Cunha do mais fundo da sua veia cr\u00edtica, admitia que &#8220;estamos condenados ao progresso&#8221;.<br \/>\nO nunca assaz louvado Ariano Suassuna, falecido na semana passada, partia do mesmo pressuposto. Apesar de seu vi\u00e9s tamb\u00e9m cr\u00edtico, ou, quem sabe, justamente por isso, n\u00e3o se cansava de louvar o Brasil. E de uma forma que talvez escandalizasse Euclides.<br \/>\nAriano contava causos, fazia cr\u00edticas que muitos consideravam xen\u00f3fobas, mas era impag\u00e1vel em suas famosas &#8220;aulas- espet\u00e1culos.&#8221;<br \/>\nEuclides da Cunha n\u00e3o gostava de ouvir anedotas.\u00a0 Para o\u00a0 genial autor de \u201cSert\u00f5es\u201d,\u00a0 o mundo e, particularmente, o Brasil suscitavam, certamente, um sentido de trag\u00e9dia, que a sua imorredoura mem\u00f3ria do massacre de Canudos n\u00e3o suportava.<br \/>\nSuassuna, pelo contr\u00e1rio, considerava tudo uma p\u00e2ndega. Gostava de provocar a plateia, em suas famosas aulas-espet\u00e1culo, com frases de efeito &#8211; um pouco como seus personagens Chic\u00f3 e Jo\u00e3o Grilo, de sua pe\u00e7a mais famosa, &#8220;O Auto da Compadecida&#8221;.<br \/>\nTudo lhe parecia motivo para o riso, inclusive a morte. Chamava-a de &#8220;Caetana&#8221; e dizia que, se dependesse dele, a tal de Caetana n\u00e3o o surpreenderia jamais. Do alto de seus 87 anos dizia e repetia que ela, a morte, a malfadada Caetana n\u00e3o era dada a pegar gente de muito riso e pouco siso.<br \/>\nSeus principais personagens, justamente, Jo\u00e3o Grilo e Chic\u00f3, ressuscitam por obra e gra\u00e7a de seu humor, do qual nem mesmo a Nossa Senhora da pe\u00e7a ficou indiferente.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/auto_da_compadecida_no_rio3.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-15808 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/auto_da_compadecida_no_rio3.jpg\" alt=\"auto_da_compadecida_no_rio3\" width=\"580\" height=\"387\" \/><\/a><br \/>\nNa pr\u00f3pria encena\u00e7\u00e3o, a Virgem anuncia que quem n\u00e3o gosta de rir \u00e9 o Demo. Ariano acreditava que enquanto risse &#8211; e fizesse rir -, ela n\u00e3o o surpreenderia. No caso, ou o dem\u00f4nio ou a morte.<br \/>\nNisso tudo, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo da pe\u00e7a, que evocava os &#8220;autos&#8221; medievais, Suassuna foi, sobretudo e paradoxalmente, um homem de alta erudi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm meio aos causos e piadas, principalmente com a americaniza\u00e7\u00e3o do Brasil &#8211; odiava anglicismos, motivos de suas chacotas mais ferinas &#8211; reivindicava seu direito\u00a0 \u00e0 cr\u00edtica por alentar tanto a sabedoria da cultura popular, quanto o acervo da alta cultura representada, ora pela tradi\u00e7\u00e3o portuguesa, ora pela alta cultura do Brasil.<br \/>\nAo criticar a mais &#8220;importante m\u00fasica&#8221; de\u00a0 um grupo de rock &#8211; de cuja letra, no seu rudimentarismo, ele se lembrava para gozar e provocar gargalhadas na plateia, ele se referia a um cr\u00edtico da &#8220;Folha&#8221; que achava o compositor do grupo &#8220;um g\u00eanio&#8221; (sic).<br \/>\nDepois de brincar com a indig\u00eancia da letra e da m\u00fasica do rock, ele perguntava: se o autor, como dizia o cr\u00edtico da &#8220;Folha&#8221;, era realmente genial, que express\u00e3o usaria, ent\u00e3o, para definir Beethoven?<br \/>\nNisso tudo, Suassuna n\u00e3o era bem visto por certos jornalistas, normalmente mais representativos da &#8220;Caetana&#8221;, com seu mau-humor, sempre mais para a morte do que para a vida.<br \/>\nPor isso, ele jamais constava dos lembretes oficialescos dos jornais hegem\u00f4nicos. N\u00e3o podia ser bem visto pelo mundo neoliberal &#8211; aquele que dizia serem irrelevantes quaisquer laivos nacionalistas, j\u00e1 que o &#8220;consenso de Washington&#8221; estribava-se inclusive no fim da hist\u00f3ria.<br \/>\nPovos, l\u00ednguas e cultura, identidades, enfim, todas se fariam t\u00e1bula rasa diante do mundo globalizado sob a \u00e9gide da l\u00edngua inglesa.<br \/>\nEm sua cruzada anti-globalista Ariano Suassuna provocava preferencialmente o mundo acad\u00eamico, que ele julgava alienado e ao qual contrapunha, a\u00ed sim, a sua imensa erudi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEra capaz de recitar, de cor, tanto a longa trova de um cantador nordestino, quanto p\u00e1ginas e p\u00e1ginas de um serm\u00e3o do padre Vieira, ao qual, n\u00e3o raro, acrescentava poemas de Cam\u00f5es, ou as mais intrigantes e engra\u00e7adas cenas do &#8220;Dom Quixote&#8221; de Cervantes. Tudo literalmente.<br \/>\nNo fundo, foi um quixotesco na express\u00e3o da palavra: n\u00e3o o constrangia que o chamassem de &#8220;velho palha\u00e7o&#8221; que efetivamente ele era &#8211; mas s\u00f3 que\u00a0 um palha\u00e7o cl\u00e1ssico, talvez mais que tudo um &#8220;Clown&#8221; ,aquele personagem do circo tradicional, que fingia n\u00e3o ter habilidade alguma, mas que conseguia se equilibrar magnificamente numa corda bamba, disfar\u00e7ando sua uma capacidade, maior que todos os acrobatas do picadeiro. Ou que, muitas vezes, levava os espectadores \u00e0s l\u00e1grimas, ao come\u00e7ar a tartamudear um instrumento qualquer para, de repente, toc\u00e1-lo como um virtuose, que se escondia no mau jeito.<br \/>\nTalvez seja essa a defini\u00e7\u00e3o mais condigna de Ariana Suassuna. Foi um clown da Cultura brasileira.<br \/>\nAo contr\u00e1rio de seu conterr\u00e2neo Gilberto Freyre, que tamb\u00e9m descreveu as origens do Brasil pelo lado positivo, ou de outros que buscaram a g\u00eanese do pa\u00eds naquilo que ele tinha de mais profundo &#8211; como S\u00e9rgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro e o pr\u00f3prio Euclides da Cunha &#8211; Ariano Suassuna encarnou o homem do \u00a0interior brasileiro \u00a0&#8211; mas que fingia ser um bronco, para se mostrar logo em seguida, um dos homens mais cultos do Brasil. Fala-se da alta cultura &#8211; aquela representada tamb\u00e9m pelos entreguistas, que ele invectivou nas suas cr\u00edticas. E que naturalmente, nunca o perdoar\u00e3o.<br \/>\n<figure id=\"attachment_15809\" aria-describedby=\"caption-attachment-15809\" style=\"width: 594px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/gilberto-freyre.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-15809 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/gilberto-freyre.jpg\" alt=\"gilberto freyre\" width=\"594\" height=\"441\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-15809\" class=\"wp-caption-text\">Gilberto Freyre<\/figcaption><\/figure><br \/>\nMais um santo da cultura brasileira de todos os tempos, sem, por\u00e9m, o sentido do tr\u00e1gico; ou talvez com este senso, mas transmudado em humor, um dos mais finos e excelsos, algo que o faz um leg\u00edtimo herdeiro tamb\u00e9m de Cervantes, que ele conheceu como poucos no Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Enio Squeff \u00c9 poss\u00edvel que n\u00e3o exista um pa\u00eds com tantos int\u00e9rpretes quanto o Brasil. 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