{"id":16119,"date":"2014-07-24T14:49:58","date_gmt":"2014-07-24T17:49:58","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=16119"},"modified":"2014-07-24T14:49:58","modified_gmt":"2014-07-24T17:49:58","slug":"semana-da-amamentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/semana-da-amamentacao\/","title":{"rendered":"Semana da amamenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A primeira grande campanha pr\u00f3-amamenta\u00e7\u00e3o no Brasil foi lan\u00e7ada pela artista Bibi Voguel ainda no final da d\u00e9cada de 1970. A ind\u00fastria de leites artificiais, protagonizada pela Nestl\u00e9, inicialmente com o famoso leite ninho, passou por cima da diva de toda e qualquer campanha ou pesquisa.<br \/>\nDe l\u00e1 para c\u00e1 lan\u00e7ou in\u00fameras marcas de leites artificiais, especializando-se inclusive no marketing apelativo de &#8220;semelhante ao leite materno&#8221;, que continua inimit\u00e1vel, j\u00e1 que horm\u00f4nios humanos e toda a singularidade da composi\u00e7\u00e3o do leite das mulheres, que muda conforme o crescimento do beb\u00ea, demanda e fun\u00e7\u00f5es relacionais, formam uma diversidade tal que nem mesmo uma mimetiza\u00e7\u00e3o seria poss\u00edvel.<br \/>\nAinda assim pelo menos duas gera\u00e7\u00f5es da massa de mulheres brasileiras retirou o suco de m\u00e3es das crian\u00e7as e o leite artificial acabou fazendo muito sucesso. Os \u00edndices de amamenta\u00e7\u00e3o ca\u00edram drasticamente no pa\u00eds, assim como elevaram-se os de desmame precoce at\u00e9 meados da d\u00e9cada de 1990, quando nova leva de mulheres voltou a questionar as fun\u00e7\u00f5es e a import\u00e2ncia da amamenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/WomanBreastfeedingSon640_0.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-16121 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/WomanBreastfeedingSon640_0.jpg\" alt=\"WomanBreastfeedingSon640_0\" width=\"640\" height=\"434\" \/><\/a><br \/>\nAt\u00e9 que chegamos ao famoso maio de 2011, quando come\u00e7aram os mama\u00e7os pelo pa\u00eds desmascarando os preconceitos em rela\u00e7\u00e3o ao ato de amamentar e como isso vem afetando o desempenho das m\u00e3es como nutrizes. Muitas mulheres n\u00e3o sabem conscientemente ainda, mas desmamam por sofrerem press\u00e3o social, psicol\u00f3gica e econ\u00f4mica. Muitas nem conseguem enfrentar a intimidade dos primeiros meses de amamenta\u00e7\u00e3o, sentindo-se excessivamente expostas e amedrontadas diante dessa capacidade fisiol\u00f3gica nata do corpo feminino.<br \/>\nO pr\u00f3prio feminismo deixou de lado a amamenta\u00e7\u00e3o como forma de poder, confundindo o tempo necess\u00e1rio \u00e0 fun\u00e7\u00e3o como um tempo n\u00e3o investido em coisas mais importantes, como cumprir regras de trabalho id\u00eanticas as dos homens, sem direitos ao direito de ter corpo de mulher, mas a nova gera\u00e7\u00e3o de balzaquianas n\u00e3o est\u00e1 deixando barato.<br \/>\nQuerem trabalhar e amamentar, n\u00e3o admitem persegui\u00e7\u00e3o ao prazer de amamentar. Foi assim que em maio de 2011, cerca de 80 nutrizes estiveram presentes numa manifesta\u00e7\u00e3o batizada como &#8220;mama\u00e7o&#8221; em uma galeria de exposi\u00e7\u00e3o do Ita\u00fa Cultural,\u00a0em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nO evento, um protesto pac\u00edfico, ocorreu poucos meses depois de uma m\u00e3e ter sido impedida de amamentar ali mesmo. Casualmente ela colocou a queixa numa rede de relacionamentos que vinha retirando fotos de mulheres amamentando em nome da moral e dos bons costumes.<br \/>\nFoi o estopim para surgir um evento organizado com apoio do pr\u00f3prio Ita\u00fa Cultural. As belas fotos de mulheres amamentando estamparam as capas dos sites de jornais da capital e como era de se esperar, a cobertura ficou no b\u00e1sico sobre o evento; n\u00famero de presentes, que cada site calculou de um jeito, uma ou outra palavra de manifestantes e s\u00f3.<br \/>\nUma pena que nenhum rep\u00f3rter de plant\u00e3o se perguntou: mas como \u00e9 mesmo esse neg\u00f3cio de preconceito contra os peitos das mulheres que amamentam? Eu tenho isso? O colega ao lado tem? De onde nasceu isso? Nham nham, teria aqui na reda\u00e7\u00e3o umas boas fontes para responderem essas quest\u00f5es?<br \/>\n<a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/breastfeeding-24469.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-16131\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/breastfeeding-24469-300x230.jpg\" alt=\"breastfeeding-24469\" width=\"300\" height=\"230\" \/><\/a><br \/>\nN\u00e3o deu tempo nem para pensar, zarparam os rep\u00f3rteres para cobrir o \u00f3bvio. Os colunistas sa\u00edram correndo atr\u00e1s comendo poeira da not\u00edcia mal coberta. Alguns, politicamente corretos, defendem o movimento, embora insistam em separar peito com leite de sexualidade.<br \/>\nOutros literalmente talharam o leite das colunas, como Jo\u00e3o Pereira Coutinho, da Folha de S\u00e3o Paulo, ao comparar direito de amamentar com direito de se masturbar, tomar banho ou fazer sexo\u00a0em p\u00fablico. Coitado\u00a0do rapaz, ficou assustado com as belas madonas, entrou fundo no buraco do que n\u00e3o teve e eureka: peito e sexo, algo a ver! Mas o qu\u00ea exatamente? Fez uma salada russa do seu quase insight.<br \/>\nAs militantes enraiveceram-se, a coluna do mo\u00e7o nunca foi t\u00e3o visitada na vida, mas algumas delas, inconformadas com as compara\u00e7\u00f5es bizarras na coluna do Jo\u00e3o, enfiaram os p\u00e9s pelos peitos e insistiram na premissa de que peito amamentando n\u00e3o tem nada a ver com sexualidade.<br \/>\nUma pena, enquanto n\u00e3o enfiamos o dedo na ferida, ela n\u00e3o cura e a milit\u00e2ncia deveria saber que peito amamentando n\u00e3o perde sua fun\u00e7\u00e3o sexualizada, que o olhar dos homens para um par de peitos femininos, com ou sem beb\u00ea mamando, \u00e9 um olhar sexualizado e pode ser confuso, mas t\u00e3o confuso para um homem &#8212; embora n\u00e3o seja para todos \u2013 ver um peito feminino exposto, sendo sugado, que ele desate a pensar, sentir, falar ou escrever besteirol infantilizado, mesmo quando tem uma boa forma\u00e7\u00e3o, uma boa educa\u00e7\u00e3o, como parece ser o caso do jovem colunista.<br \/>\nPeitos de mulher sempre tirar\u00e3o homens do s\u00e9rio levando-os para sonhos on\u00edricos de tempos inconscientes. Mais do que isso, e quando entramos nas sombras, um par de peitos amamentando pode causar problemas na vida de muitos casais, impedindo o breve retorno\u00a0da vida sexual ou literalmente levando o sujeito a permanecer sexualmente descomprometido com a -santa- m\u00e3e dos seus filhos.<br \/>\nAconteceu com Elvis Presley, por exemplo, e acontece todos os dias, tudo porque peito \u00e9 sexualidade, peito mexe com a sexualidade de homens e mulheres e peito \u00e9, para a sorte desses beb\u00eas que mamam, a primeira grande li\u00e7\u00e3o de sexualidade feliz, plenamente satisfat\u00f3ria.<br \/>\nA milit\u00e2ncia pode e deve promover mama\u00e7os, mas que seja de cabe\u00e7a feita, sem falsos moralismos de que esse nobre gesto \u00e9 assexuado como uma pintura bem comportada. Amamentar tem cheiro, cor, prazer de ambos os lados, muita satisfa\u00e7\u00e3o em esvaziar e ser esvaziada, parece muito com um ato sexual sim, \u00e9 sexualidade prim\u00e1ria, fundamental, de base e quem n\u00e3o viveu ou n\u00e3o processou esse\u00a0<em>grounding\u00a0<\/em>da sexualidade humana de algum jeito, sofre, se confunde, n\u00e3o consegue ver, ouvir ou conviver com a amamenta\u00e7\u00e3o de forma espont\u00e2nea. Nas mulheres um dos sintomas, triste sintoma, \u00e9 n\u00e3o conseguir amamentar.<br \/>\nMuitas fobias e transtornos relacionados \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o, ao desmame e at\u00e9 mesmo um eventual prolongamento da licen\u00e7a-maternidade, que no Brasil \u00e9 escandalosamente curta justamente porque n\u00e3o leva em conta as necessidades de aleitamento do beb\u00ea, podem ser resolvidos com um melhor entendimento da sexualidade via amamenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO conhecimento sobre o gesto ancestral que possibilitou a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana n\u00e3o se encerra no fisiol\u00f3gico. Somos seres culturais, padecemos e temos prazeres intensos via cultura e nosso caldo ps\u00edquico, ainda que rico e esclarecedor, continua sentado no cantinho do castigo moral. \u00c9 preciso alongar o olhar sobre os bastidores internos do tema, afinal entre a vis\u00e3o equivocada de que amamentar \u00e9 apenas candura assexuada e o nojinho sarc\u00e1stico de quem n\u00e3o desfrutou das bases da sexualidade humana, tem ch\u00e3o a ser percorrido.<br \/>\nO rapaz que escreveu a coluna na Folha n\u00e3o mamou prazerosamente por meses a fio na pr\u00f3pria m\u00e3e, sequer deleitou-se no corpo nu da m\u00e3e; posso afirmar isso sem conhec\u00ea-lo, sem que ele tenha mencionado e me arrisco a afirmar porque um homem que mamou prolongadamente em sua m\u00e3e ou que teve livre acesso ao corpo nu da m\u00e3e, ainda que n\u00e3o tenha mamado, n\u00e3o fica t\u00e3o confuso diante da sexualidade emanada da amamenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO homem que p\u00f4de desfrutar de um pele-a-pele com a m\u00e3e conhece bem o corpo de uma mulher, sabe que aquele mesmo par de peitos tem m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es e v\u00ea com naturalidade a fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a mais fisiol\u00f3gica dos seios femininos, sem que isso o cinda, sem separar o peito que amamenta do peito que d\u00e1 prazer sexual. Sem n\u00f3ias, sem pervers\u00f5es.<br \/>\nDesde esse maio de 2011, mama\u00e7os em comemora\u00e7\u00e3o ao direito de amamentar tornaram-se comuns a cada tentativa de repress\u00e3o ao ato. Na semana mundial de amamenta\u00e7\u00e3o comemora-se o direito de amamentar, redes de mulheres divulgam os benef\u00edcios do leite humano, desconstroem mitos sobre leite fraco, pouco leite, demonstram como m\u00e3es adotivas podem aleitar pelo m\u00e9todo da translacta\u00e7\u00e3o e re\u00fanem-se em pra\u00e7as e parques com suas crian\u00e7as de peito.<br \/>\nEm Porto Alegre, a comemora\u00e7\u00e3o esse ano \u00e9 no Parque Moinhos de Vento a partir das 10h da manh\u00e3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira grande campanha pr\u00f3-amamenta\u00e7\u00e3o no Brasil foi lan\u00e7ada pela artista Bibi Voguel ainda no final da d\u00e9cada de 1970. 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