{"id":16345,"date":"2014-08-05T13:26:22","date_gmt":"2014-08-05T16:26:22","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=16345"},"modified":"2014-08-05T13:26:22","modified_gmt":"2014-08-05T16:26:22","slug":"a-filarmonica-de-israel-e-bombardeios-sobre-gaza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/a-filarmonica-de-israel-e-bombardeios-sobre-gaza\/","title":{"rendered":"A Filarm\u00f4nica de Israel e Bombardeios sobre Gaza"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Enio Squeff<\/span><br \/>\nAs cordas da Filarm\u00f4nica de Israel j\u00e1 foram consideradas as melhores do mundo. O estatuto de Israel como pa\u00eds civilizado passava necessariamente pela grande m\u00fasica e n\u00e3o foram poucos os grandes regentes do mundo, entre eles o inesquec\u00edvel Arturo Toscanini \u2013 o maior entre os maiores da primeira metade do s\u00e9culo XX &#8211; que subiram ao p\u00f3dio da orquestra, tamb\u00e9m pela honra de a regerem. Dif\u00edcil prever o que tais m\u00fasicos diriam da ofensiva de Israel pela Faixa de Gaza num dos massacres mais assustadores de um pa\u00eds que nem por isso se julga menos civilizado.<br \/>\nUm deles, o argentino israelense Daniel Barenboim, igualmente um grande pianista e regente, j\u00e1 exp\u00f4s a sua inconformidade com o tratamento que Israel vem dispensando aos palestinos. Muitos israelenses o consideram um \u201ctraidor\u201d. Nem por isso, entretanto, apesar da pol\u00eamica, o governo de Israel julga que deva qualquer explica\u00e7\u00e3o \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o pelo que est\u00e1 fazendo.<br \/>\n<figure id=\"attachment_16346\" aria-describedby=\"caption-attachment-16346\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-16346\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Daniel-Barenboim-300x217.jpg\" alt=\"Maestro Daniel Barenboim\" width=\"300\" height=\"217\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16346\" class=\"wp-caption-text\">Maestro Daniel Barenboim<\/figcaption><\/figure><br \/>\nA alega\u00e7\u00e3o, como sempre, vai na rasteira da pol\u00edtica norte-americana da qual Israel \u00e9 caudat\u00e1ria: nada do que Israel faz, n\u00e3o se faz \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a das a\u00e7\u00f5es inauguradas no mundo como a doutrina \u201cmade in USA\u201d de combate ao terrorismo \u2013 seja o que for que se entenda por tal.<br \/>\nO comentarista internacional Emir Sader disse h\u00e1 dias na TV Brasil que era imposs\u00edvel tratar a media\u00e7\u00e3o do conflito da Faixa de Gaza, pelos Estados Unidos, como coisa realmente s\u00e9ria. De fato, o tempo que os EUA concedem a Israel para um cessar fogo, vem sendo contada menos pelos dias ou pelo horror provocado no mundo, do que pelo n\u00famero de \u00e1rabes mortos.<br \/>\nParece haver um consenso de que a razzia israelense tem de ser dura o suficiente para mostrar que os pogroms contra os \u00e1rabes s\u00e3o meticulosamente programados com o Imp\u00e9rio. O castigo tem que ser cruel e inesquec\u00edvel para que a afronta de qualquer resist\u00eancia dos palestinos nunca se repita.<br \/>\nUm massacre programado e prorrog\u00e1vel at\u00e9 o limite do genoc\u00eddio? Pode ser.<br \/>\nSob a alega\u00e7\u00e3o da extirpa\u00e7\u00e3o do terrorismo, os EUA mataram dezenas de milhares de iraquianos \u2013 que n\u00e3o tinha nada a ver com o chocante atentado \u00e0s Torres G\u00eameas. Valeu, no entanto, pelo exemplo. Nunca se ter\u00e1 qualquer justificativa para que o Hamas mate indiscriminadamente civis israelenses. Mas sua amea\u00e7a latente ser\u00e1 sempre uma justificativa para que Israel enterre qualquer veleidade de pa\u00eds civilizado.<br \/>\nE fa\u00e7a as vezes de pa\u00eds terrorista, por sua vez, \u201cpreventivamente\u201d digamos, matando milhares de palestinos da Faixa de Gaza. Que, se n\u00e3o t\u00eam nada a ver com o Hamas, quem sabe devam ser mortos por ostentarem os mesmos nomes de alguns deles, ou pior, a cor amorenado dos \u00e1rabes: \u201cSe n\u00e3o foste tu, foi teu pai\u201d: \u00e9 isto que o lobo diz ao cordeiro na f\u00e1bula de La Fontaine, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<br \/>\nH\u00e1 uma relut\u00e2ncia \u2013 deve-se reconhecer &#8211; normalmente inspirada no medo global aos Estados Unidos, em condenar a a\u00e7\u00e3o do Estado Hebreu. Aqui e ali, uma ou outra voz tenta uma desculpa. A de que Israel precisa se defender chega \u00e0s raias da imbecilidade: imaginem as pol\u00edcias do Rio, de S\u00e3o Paulo ou de Porto Alegre a bombardear favelas e vilas para livr\u00e1-las dos bandidos.<br \/>\nTodos concordam que \u00e9 um absurdo. Mas, no fundo, \u00e9 exatamente a mesma coisa. Ah, dizem alguns defensores de Israel \u2013 lamentavelmente, morreram algumas crian\u00e7as (em Gaza j\u00e1 s\u00e3o centenas): paci\u00eancia, que se vai fazer? Israel tem o direito de defender as suas.<br \/>\nMas a morte de crian\u00e7as n\u00e3o justifica a morte de outras. Ou justifica?<br \/>\nOutra tese \u2013 essa mais estapaf\u00fardia, confere \u00e0 ind\u00fastria b\u00e9lica a culpa pelo conflito. O Hamas, com seus foguetes busca-p\u00e9s, alimentaria parte da ind\u00fastria que, por sua vez, cumularia os israelenses de armas de destrui\u00e7\u00e3o em massa \u2013 mas tudo dentro da l\u00f3gica de que, quanto mais destrui\u00e7\u00e3o, melhor. Israel, com mais dinheiro, provindo principalmente dos EUA, levaria mais armas, as mais sofisticadas \u2013 quanto ao Hamas, com seus traques, ficaria patente que s\u00e3o todos celerados. Eles venceram, as elei\u00e7\u00f5es em Gaza, ao que se diz, legitimamente.<br \/>\nMesmo assim, n\u00e3o duvidariam um s\u00f3 instante de deixarem que seus filhos, mulheres, irm\u00e3os e irm\u00e3s morressem sob os bombardeios israelenses \u2013 ou seja, uma estultice. Mas assim como alguns rabinos de extrema direita insistem em que os palestinos gostam de expor seus parentes aos alvos das bombas de Israel, h\u00e1 quem retome as teses genocidas dos nazistas. E tudo para argumentar que Israel tem de ser destru\u00edda a qualquer pre\u00e7o.<br \/>\nN\u00e3o parece haver o que argumentar enquanto a ideia de civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o for prevalente. Uma coisa \u00e9 certa. Enquanto Estado, com a sua bela Filarm\u00f4nica, para ficar apenas na grande m\u00fasica, cabe a Israel cumprir as leis que a direita fascista de seus atuais dirigentes teima em ignorar e que tem a respald\u00e1-los justamente os Estados Unidos, um pa\u00eds que, por sua vez, bem que poderia mostrar que suas portentosas institui\u00e7\u00f5es culturais s\u00e3o \u00edndices de civilidade e n\u00e3o de mero marketing. Ou propaganda \u201cpara ingl\u00eas ver\u201d.<br \/>\nElias Canetti, judeu, um dos maiores escritores contempor\u00e2neos, parece ter entrevisto o que Israel e todos os pa\u00edses que se julgam acima da humanidade, podem fazer e fazem. E em nome, n\u00e3o da sua preserva\u00e7\u00e3o, mas da sanha de alguns de seus dirigentes. Em sua trilogia autobiogr\u00e1fica, conta Elias Canetti, de um judeu vienense que ele considerava acima de tudo um homem justo e bom. E que, ao saber que na primeira Guerra Mundial os avi\u00f5es come\u00e7aram a ser usados para bombardeios, teria exclamado: \u201c E as cidades, meu Deus, que ser\u00e1 das cidades?\u201d<br \/>\nOs Estados Unidos mostraram, em primeira m\u00e3o, o que o pior pesadelo n\u00e3o poderia engendrar, ao destru\u00edrem, sob bombas at\u00f4micas, as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Talvez n\u00e3o tivessem feito mais do que os nazistas e os ingleses fizeram, respectivamente, com Londres, Berlim, Dresden e Leipzig. Mas os israelenses n\u00e3o est\u00e3o fazendo menos, ao bombardearam criminosamente a Faixa de Gaza.<br \/>\n<em>Em tempo<\/em>: nunca o Brasil foi t\u00e3o digno quanto no epis\u00f3dio em que chamou seu embaixador de Israel ao Brasil. O governo de Israel que vocifere \u00e0 vontade pela afronta. Mas n\u00e3o contar\u00e1 com o Brasil na passividade vergonhosa do resto do mundo, com os atos criminosos perpetrados por sua c\u00fapula dirigente. \u00c9 uma boa nova, digna de um grande pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enio Squeff As cordas da Filarm\u00f4nica de Israel j\u00e1 foram consideradas as melhores do mundo. 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