{"id":1641,"date":"2008-09-23T13:57:04","date_gmt":"2008-09-23T16:57:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=1641"},"modified":"2008-09-23T13:57:04","modified_gmt":"2008-09-23T16:57:04","slug":"despejo-dos-indios-guaranis-de-eldorado-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/despejo-dos-indios-guaranis-de-eldorado-do-sul\/","title":{"rendered":"Despejo dos \u00edndios guaranis de Eldorado do Sul"},"content":{"rendered":"<p><strong>&#8220;Minha fam\u00edlia est\u00e1 triste, as crian\u00e7as est\u00e3o tristes, a gente sente muita dor&#8221;<\/strong><br \/>\nA movimenta\u00e7\u00e3o e os murm\u00farios no audit\u00f3rio da Comiss\u00e3o de Cidadania e Direitos Humanos da Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio Grande do Sul cessaram, hoje pela manh\u00e3, quando come\u00e7ou a falar o cacique Santiago Franco, um t\u00edpico mbya-guarani: estatura pequena, apar\u00eancia fr\u00e1gil, voz indignada.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 muitos anos isso vem acontecendo, n\u00e3o s\u00f3 com a minha fam\u00edlia, com outras fam\u00edlias tamb\u00e9m&#8221;, afirmou Santiago, ao come\u00e7ar seu depoimento, um protesto emocionado, que silenciou totalmente o audit\u00f3rio.<br \/>\nEle estava se referindo ao despejo que sofreu do acampamento onde vivia com quatro fam\u00edlias guaranis, na beira da Estrada do Conde, em Eldorado do Sul, dia primeiro de julho, numa a\u00e7\u00e3o da Brigada Militar que cumpria uma ordem judicial de reintegra\u00e7\u00e3o de posse.<br \/>\nSantiago acabou preso (foto), enquanto os demais, incluindo mulheres e crian\u00e7as assustadas, viam seus barracos serem destru\u00eddos e eram levados embora.<br \/>\nLideran\u00e7as guaranis, representantes de entidades indigenistas e antrop\u00f3logos estavam juntos com Santiago na AL para protestar e cobrar provid\u00eancias.<br \/>\nPrincipalmente, a demarca\u00e7\u00e3o de terras que garanta um lugar para viver a essa comunidade que soma cerca de dois mil \u00edndios no Estado \u2013 j\u00e1 foram milhares \u2013 sem contar os guaranis que vivem nos pa\u00edses vizinhos.<br \/>\n<strong>Despejo gravado<\/strong><br \/>\nO despejo das fam\u00edlias guaranis foi gravado em v\u00eddeo pelo N\u00facleo de Antropologia das Sociedades Ind\u00edgenas Tradicionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (clique aqui para assistir).<br \/>\nA repercuss\u00e3o provocou a convoca\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia p\u00fablica na Comiss\u00e3o de Cidadania e Direitos Humanos, presidida pelo deputado Marquinhos Lang (DEM), mas n\u00e3o havia ningu\u00e9m representando a Brigada Militar.<br \/>\nPrimeiro a falar, Santiago reclamou que os mbya-guaranis- os guaranis do Sul do Brasil &#8211; est\u00e3o sem espa\u00e7o para viver. Eles pedem a demarca\u00e7\u00e3o de terras mas n\u00e3o obt\u00e9m resposta dos governos e da Funai.<br \/>\n&#8220;H\u00e1 muitos anos isso vem acontecendo, n\u00e3o s\u00f3 com a minha fam\u00edlia, com outras fam\u00edlias tamb\u00e9m, s\u00f3 que antes n\u00e3o foi divulgado, pra outras pessoas saberem o que acontece com o povo guarani. Todos que est\u00e3o aqui, s\u00e3o respons\u00e1veis pelo nosso povo, estado, munic\u00edpios&#8221;, disse ele, diante de representantes da Funai, Funasa, Governo do Estado, Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e Assembl\u00e9ia Legislativa.<br \/>\n&#8220;Perdemos nossa terra, nossa mata, nossos rios onde a gente pescava, nossa vida era uma festa, mas hoje vivemos dentro das cidades, na beira das estradas, esperando uma solu\u00e7\u00e3o da Funai, um pedacinho de terra, para plantarmos nossas frutas, milho, batata-doce, para termos sa\u00fade&#8221;, disse Santiago.<br \/>\n<strong>Trucul\u00eancia e preconceito<\/strong><br \/>\nEle reclamou tamb\u00e9m da trucul\u00eancia da pol\u00edcia e da discrimina\u00e7\u00e3o que sofrem da sociedade.<br \/>\n&#8220;Infelizmente a pol\u00edcia tem chegando na aldeia, estamos passando (sofrendo) preconceito, as pessoas chegam e falam que \u00edndio n\u00e3o tem cultura, que lugar de \u00edndio \u00e9 no mato. Minha fam\u00edlia est\u00e1 triste, as crian\u00e7as est\u00e3o tristes, a gente sente muita dor. Est\u00e3o destruindo a nossa vida, n\u00e3o temos mais condi\u00e7\u00f5es de vender nosso artesanato, a gente sente medo&#8221;.<br \/>\nDesde que foram expulsos de Eldorado do Sul, Santiago e sua comunidade foram distribu\u00eddos, provisoriamente, em acampamentos de Porto Alegre e redondezas.<br \/>\nA a\u00e7\u00e3o da Brigada Militar decorreu de uma liminar concedida pela ju\u00edza de Eldorado do Sul, Luciane Di Domenico, numa a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse da Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Fepagro).<br \/>\nA Funda\u00e7\u00e3o alegou que os \u00edndios estariam invadindo sua \u00e1rea de pesquisas.<br \/>\n<strong>Beira da estrada<\/strong><br \/>\nNa verdade, os \u00edndios ocupavam apenas a beira da estrada, sem ultrapassar a cerca da \u00e1rea de pesquisas, garantem indigenistas e antrop\u00f3logos. Al\u00e9m disso, a a\u00e7\u00e3o fazia refer\u00eancia a \u00edndios da etnia kaingang, que teriam invadido a \u00e1rea em outra \u00e9poca, e n\u00e3o os guaranis<br \/>\nPor fim, constitucionalmente as quest\u00f5es ind\u00edgenas s\u00e3o de jurisdi\u00e7\u00e3o federal e a Funai deveria ter sido chamada antes de qualquer atitude contra os guaranis, alertou o representante do \u00f3rg\u00e3o, Jo\u00e3o Maur\u00edcio Farias.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o tinha n\u00facleo da Funai em Porto Alegre ainda (est\u00e1 sendo instalado), se tivesse isso n\u00e3o teria acontecido, aquele ato arbitr\u00e1rio da Brigada Militar e da ju\u00edza que n\u00e3o reconheceu que essa \u00e9 uma quest\u00e3o federal&#8221;, criticou Farias.<br \/>\n&#8220;\u00c9 lament\u00e1vel, porque a jurisdi\u00e7\u00e3o \u00e9 bem clara, a jurisdi\u00e7\u00e3o (nas quest\u00f5es ind\u00edgenas) \u00e9 exclusivamente federal&#8221;, completou o representante da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Sa\u00fade (Funasa), \u00f3rg\u00e3o que presta o atendimento de sa\u00fade nas aldeias ind\u00edgenas.<br \/>\nO representante do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, procurador R\u00f4mulo de Oliveira, do N\u00facleo de Minorias \u00c9tnicas, informou que foi aberto inqu\u00e9rito civil p\u00fablico para apurar o caso.<br \/>\n&#8220;Na medida em que os ind\u00edgenas estavam numa \u00e1rea de dom\u00ednio p\u00fablico (a estrada), isso nos deixa perplexos&#8221;, disse.<br \/>\n<strong>Terras sem mato e sem rio<\/strong><br \/>\nOutra lideran\u00e7a guarani, Maur\u00edcio da Silva Gon\u00e7alves, reclamou que as terras destinadas aos \u00edndios, quando s\u00e3o demarcadas, n\u00e3o s\u00e3o apropriadas para sua subsist\u00eancia.<br \/>\n&#8220;Nos d\u00e3o \u00e1reas de campo, onde n\u00e3o existe mato para fazermos artesanato, n\u00e3o existe rio; \u00e9 terra para criar gado, mas guarani n\u00e3o sabe criar gado, as terras que a gente tem n\u00e3o s\u00e3o adequadas para viver a nossa cultura&#8221;.<br \/>\nJo\u00e3o Maur\u00edcio Farias, da Funai, reconheceu a demora nas demarca\u00e7\u00f5es. Mas pediu mais apoio do governo do Estado, que produziu cortes lineares de verbas, atingindo os poucos recursos estaduais para a subsist\u00eancia ind\u00edgena.<br \/>\nEle pediu tamb\u00e9m \u00e0 representante do senador Paulo Paim (PT), Vera Triumpho, presente na audi\u00eancia, que o parlamentar ajude em Bras\u00edlia na destina\u00e7\u00e3o de mais recursos para o or\u00e7amento da Funai.<br \/>\nFoi informado, ainda, durante a apresenta\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo do despejo, que a procuradoria da Funai estuda processar o Estado do Rio Grande do Sul por danos morais aos \u00edndios.<br \/>\n<strong>Estudo antropol\u00f3gico<\/strong><br \/>\nLuiz Fagundes, do N\u00facleo de Antropologia das Sociedades Ind\u00edgenas Tradicionais da Ufrgs citou um estudo do arque\u00f3logo S\u00e9rgio Leite, que apontou a exist\u00eancia de um s\u00edtio arqueol\u00f3gico ind\u00edgena na \u00e1rea da Fepagro de onde os \u00edndios foram despejados. &#8220;Meus antepassados moraram ali&#8221;, garantiu Santiago.<br \/>\nO \u00fanico momento de descontra\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia foi quando o deputado Marquinhos Lang, provocado pela interven\u00e7\u00e3o do antrop\u00f3logo, pediu aos \u00edndios que traduzissem os nomes de v\u00e1rios rios das redondezas de Porto Alegre, todos de origem guarani.<br \/>\n<em>Gua\u00edba \u2013 uma fruta vermelha, formato em ponta de flecha.<br \/>\nTaquari \u2013 taquara, \u00e1gua da taquara<br \/>\nCa\u00ed \u2013 um macaco<br \/>\nJacu\u00ed \u2013 um p\u00e1ssaro<\/em><br \/>\nO vice-presidente do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi\/Brasil), Roberto Liebgott, afirmou que o espa\u00e7o para viver dos guaranis \u00e9 cada vez menor.<br \/>\n&#8220;A perda de terras tem sido di\u00e1ria, antes eles podiam se alojar em beira de mato, na beira dos rios, agora s\u00f3 restam as beiras de estradas, vivem de cestas b\u00e1sicas porque n\u00e3o podem plantar nada&#8221;, denunciou.<br \/>\nE completou, sintetizando a indigna\u00e7\u00e3o geral: &#8220;H\u00e1 recursos para salvar bancos, para a grande produ\u00e7\u00e3o, para os fazendeiros, mas alguns reais para os ind\u00edgenas n\u00e3o tem&#8221;.<br \/>\n<em><strong>Por Ulisses Nen\u00ea, EcoAg\u00eancia<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Minha fam\u00edlia est\u00e1 triste, as crian\u00e7as est\u00e3o tristes, a gente sente muita dor&#8221; A movimenta\u00e7\u00e3o e os murm\u00farios no audit\u00f3rio da Comiss\u00e3o de Cidadania e Direitos Humanos da Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio Grande do Sul cessaram, hoje pela manh\u00e3, quando come\u00e7ou a falar o cacique Santiago Franco, um t\u00edpico mbya-guarani: estatura pequena, apar\u00eancia fr\u00e1gil, voz [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[372,402],"class_list":["post-1641","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-direitos-humanos","tag-indios"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-qt","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1641","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1641"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1641\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1641"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1641"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1641"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}