{"id":16859,"date":"2014-08-19T00:15:07","date_gmt":"2014-08-19T03:15:07","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=16859"},"modified":"2014-08-19T00:15:07","modified_gmt":"2014-08-19T03:15:07","slug":"brasil-pode-dobrar-producao-sem-tocar-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/brasil-pode-dobrar-producao-sem-tocar-na-amazonia\/","title":{"rendered":"&quot;Brasil pode dobrar produ\u00e7\u00e3o sem tocar na Amaz\u00f4nia&quot;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Entrevista com Luiz Fernando Cirne Lima<\/strong><br \/>\n<span class=\"assina\">POR Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nDificilmente se encontra no Brasil de hoje uma autoridade t\u00e9cnica t\u00e3o qualificada quanto o ex-ministro Luiz Fernando Cirne Lima para falar sobre o cruzamento da agricultura de gr\u00e3os com a cria\u00e7\u00e3o de gado, um dos assuntos do momento no mundo dos neg\u00f3cios rurais.<br \/>\nAos 81 anos, ele j\u00e1 doou a fazenda em Dom Pedrito (RS) para os filhos, mas continua trabalhando como consultor e palestrante em zootecnia \u2013 sua maior especialidade, desenvolvida desde meados dos anos 1950 como livre docente da Faculdade de Agronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, primeiro cargo de uma carreira brilhante.<br \/>\nCom pouco mais de 30 anos, Cirne Lima foi o primeiro brasileiro a julgar bovinos de ra\u00e7a na Inglaterra, ber\u00e7o da gen\u00e9tica que deu impulso \u00e0 pecu\u00e1ria do sul da Am\u00e9rica.<br \/>\nEra presidente da poderosa Farsul em 1968 quando a Secretaria da Agricultura decidiu fazer a primeira Expointer em Esteio, abandonando o parque do Menino Deus, no centro de Porto Alegre, onde desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX se realizavam as exposi\u00e7\u00f5es da pecu\u00e1ria ga\u00facha.<br \/>\nComo ministro da Agricultura no per\u00edodo 1969\/1973, assinou a lei da funda\u00e7\u00e3o da Embrapa, um dos vetores do boom da soja no Brasil.<br \/>\nNeste depoimento, Cirne Lima fala n\u00e3o apenas da hist\u00f3ria da Expointer, mas do futuro do agroneg\u00f3cio brasileiro. \u201cPodemos dobrar nossa produ\u00e7\u00e3o sem tocar na Amaz\u00f4nia\u201d, diz ele, sintetizando a confian\u00e7a no desempenho dos agricultores brasileiros.<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u201cA EXPOINTER EST\u00c1 NUMA ENCRUZILHADA&#8221;<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">O senhor se lembra do in\u00edcio da Expointer? <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 A Expointer nasceu no fim da d\u00e9cada de 60, quando as exposi\u00e7\u00f5es estaduais do Rio Grande do Sul, que eram apenas feiras de gado, tornaram-se praticamente invi\u00e1veis diante das limita\u00e7\u00f5es do parque de exposi\u00e7\u00f5es do bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Havia ali quatro hectares da Secretaria da Agricultura. Era um parque muito bonito, muito bem conservado pelo governo do Estado. Os criadores faziam uma exposi\u00e7\u00e3o de bom n\u00edvel t\u00e9cnico em termos regionais, mas muito limitada em termos nacionais e diante dos pa\u00edses vizinhos, que historicamente nos forneciam reprodutores.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Como se deu a mudan\u00e7a?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 A mudan\u00e7a ocorre depois que o primeiro brasileiro \u00e9 convidado a julgar na Inglaterra e um grupo de criadores o acompanha para visitar a Royal Show&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Quem foi esse brasileiro?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 Eu.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Quantos criadores ga\u00fachos visitaram a exposi\u00e7\u00e3o inglesa?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 Uns 10 ou 12. Na volta ao Brasil, j\u00e1 havia um pensamento dominante: \u201cTemos de sair do parque do Menino Deus e procurar um outro local\u201d. O secret\u00e1rio da Agricultura era Luciano Machado, um bacharel em direito que havia sido um brilhante deputado federal. Ele era muito identificado com o setor agropecu\u00e1rio e acatou a mensagem trazida pelos visitantes da Royal Show. Isso significava uma mudan\u00e7a na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O que significa \u201cmudan\u00e7a na concep\u00e7\u00e3o\u201d?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 No parque de Porto Alegre n\u00e3o se podia fazer mais do que uma exposi\u00e7\u00e3o de animais. A Royal Show era uma feira de 55 hectares em que a pecu\u00e1ria ocupava apenas um segmento dessa enorme exposi\u00e7\u00e3o, no centro geogr\u00e1fico da Inglaterra, perto da cidade natal de Shakespeare. A maior parte da \u00e1rea era para exposi\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas agr\u00edcolas e demonstra\u00e7\u00e3o de tecnologias pecu\u00e1rias e agr\u00edcolas.<br \/>\nO secret\u00e1rio Luciano Machado e uma comiss\u00e3o de produtores, uns tr\u00eas ou quatro, entre eles Dorval Ribeiro e Lauro Macedo, come\u00e7aram a procurar um local e logo se fixaram numa propriedade da fam\u00edlia Kroeff, \u00a0em Esteio, junto \u00e0 BR-116, defronte \u00e0 refinaria Alberto Pasqualini, da Petrobras. Como era amigo da fam\u00edlia Kroeff, n\u00e3o participei da negocia\u00e7\u00e3o. Mas o parque de Esteio, com 141 hectares, \u00e9 fruto do trabalho de Luciano Machado e do veterin\u00e1rio-sanitarista Evelino Arteche, ent\u00e3o diretor de produ\u00e7\u00e3o animal da Secretaria da Agricultura.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">\u00c9 verdade que muita gente foi contra a transfer\u00eancia da feira de Porto Alegre para Esteio? <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; A realiza\u00e7\u00e3o da primeira Expointer foi muito pol\u00eamica porque algumas pessoas consideravam que a mudan\u00e7a fora precipitada. Naquela \u00e9poca se achava que Esteio era longe demais. Alguns criadores se negaram a expor seus animais. \u00c9 verdade que faltava concluir caminhos dentro do parque e havia pistas de exposi\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, mas desde a primeira vez se fez ali uma exposi\u00e7\u00e3o diferente, com muitas m\u00e1quinas e estandes de tecnologia agr\u00edcola. E o fato \u00e9 que a Expointer se transformou num grande sucesso, \u00e9 uma das maiores do mundo, sem d\u00favida a maior da Am\u00e9rica do Sul, em amplitude. Se existem hoje no mundo cinco grandes centros de neg\u00f3cios agr\u00edcolas, a Expointer \u00e9 uma delas. A Royal Show, que foi modelo, n\u00e3o se realiza mais no mesmo local por causa dos custos. Hoje na Inglaterra se realizam exposi\u00e7\u00f5es menores no interior.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">No momento o parque de Esteio est\u00e1 em crise existencial: ser ou n\u00e3o ser um grande recinto de exposi\u00e7\u00f5es&#8230;<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; Hoje o parque de Esteio precisa encontrar um modelo para administrar esse espa\u00e7o que, fora a Expointer, \u00e9 pouco utilizado ao longo do ano. A Expointer dura dois fins de semana. Os outros eventos do correr do ano n\u00e3o utilizam toda a potencialidade do parque, que se tornou um patrim\u00f4nio p\u00fablico pouco aproveitado.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Fala-se muito em parceria p\u00fablico-privada.<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 N\u00e3o tem outro caminho sen\u00e3o esse. Tem que se achar uma voca\u00e7\u00e3o a fim de dinamizar o parque. Hoje j\u00e1 existem umas tentativas. Muitas associa\u00e7\u00f5es de criadores t\u00eam sede ali durante o ano, mas isso \u00e9 pouco para o tamanho da \u00e1rea, a infraestrutura de energia el\u00e9trica e fornecimento de \u00e1gua.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">\u00c9 uma \u201ccidade\u201d que fica vazia a maior parte do ano. <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 Tem-se que achar um modelo de gest\u00e3o. A Associa\u00e7\u00e3o dos Criadores de Cavalos Crioulos est\u00e1 fazendo um projeto de ter l\u00e1 dentro uma pista coberta para utilizar mais vezes durante o ano. \u00c9 um desafio. At\u00e9 agora Esteio cumpriu largamente sua miss\u00e3o como difusor de tecnologia, mas est\u00e1 numa encruzilhada.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Apesar da crise existencial do parque, a Expointer continua batendo recordes todos os anos.<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; A Expointer \u00e9 muito representativa do momento que vive o agroneg\u00f3cio como um todo. A exposi\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas agr\u00edcolas de Esteio \u00e9 um verdadeiro \u201csal\u00e3o do autom\u00f3vel\u201d da maquinaria agr\u00edcola do Brasil. Ainda que tenhamos em N\u00e3o-Me-Toque uma exposi\u00e7\u00e3o excepcional de tecnologia e de m\u00e1quinas agr\u00edcolas, a Expointer \u00e9 a grande feira brasileira de lan\u00e7amentos de m\u00e1quinas, novos modelos etc.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O fato de estar dentro da Grande Porto Alegre \u00e9 uma vantagem?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA\u00a0\u00a0\u2013 Historicamente, para o ent\u00e3o chamado setor produtivo, a Expointer tinha um objetivo subliminar \u2013 servir como um ponto de encontro cidade-campo. Em 1970, a popula\u00e7\u00e3o brasileira estava distribu\u00edda meio a meio no campo e nas cidades, mas n\u00e3o havia uma integra\u00e7\u00e3o, principalmente no aspecto psicol\u00f3gico. O citadino enxergava o rural como um elemento menos qualificado, menos educado etc.<br \/>\n<span class=\"intertit\">JUNTO COM A EXPOINTER, OCORREU A ASCENS\u00c3O DA SOJA<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">O senhor acha que houve uma integra\u00e7\u00e3o cidade-campo?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 O objetivo subliminar foi alcan\u00e7ado. No in\u00edcio a Expointer era visitada apenas pelas popula\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas de Esteio. Em seguida ela passou a ser visitada pela popula\u00e7\u00e3o de todo o Rio Grande. Hoje v\u00eam \u00f4nibus de regi\u00f5es long\u00ednquas que viajam 500 quil\u00f4metros para passar um dia no parque de Esteio. Num s\u00e1bado ou domingo de sol entram na Expointer 150 mil pessoas. A Expointer contribuiu para uma melhor compreens\u00e3o entre esses dois segmentos sociais. Hoje a popula\u00e7\u00e3o que trabalha na terra \u00e9 altamente minorit\u00e1ria, mas a\u00a0 aproxima\u00e7\u00e3o se fez de maneira mais f\u00e1cil e, sentimentalmente, mais favor\u00e1vel, mais simp\u00e1tica. Hoje se pode dizer que o citadino brasileiro \u00e9 simp\u00e1tico ao homem rural. No m\u00e1ximo \u00e9 indiferente, mas antagonismo ou antipatia&#8230;n\u00e3o vejo mais. H\u00e1 50 anos n\u00e3o era bem assim. A pr\u00f3pria literatura tratava o homem rural pejorativamente.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Por coincid\u00eancia, no in\u00edcio do parque de Esteio, a soja ensaiava sua expans\u00e3o no Rio Grande do Sul.<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 No in\u00edcio dos anos 1950, quando me formei agr\u00f4nomo, a soja era uma mera curiosidade para os estudantes. Naquela \u00e9poca a popula\u00e7\u00e3o consumia gordura animal. Havia um pouco de \u00f3leos vegetais \u2013 o linho incentivado pela ind\u00fastria Renner e um pouco de girassol na regi\u00e3o de S\u00e3o Borja e Itaqui, no oeste ga\u00facho. A substitui\u00e7\u00e3o da gordura animal pelos \u00f3leos vegetais provocou uma revolu\u00e7\u00e3o na suinocultura, que derivou para o porco-carne. Em 1970, a soja mal alcan\u00e7ava uma produ\u00e7\u00e3o anual de um milh\u00e3o e meio de toneladas, a maior parte no Rio Grande do Sul, mas j\u00e1 come\u00e7ava a se tornar uma lavoura industrial que se expandiria do sul do Brasil at\u00e9 o extremo norte. Ali\u00e1s, dentro dessa revolu\u00e7\u00e3o temos de colocar como geradora de tecnologia a Embrapa, fundada em 25 de abril de 1973.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Este ano a produ\u00e7\u00e3o de soja chegou a quase 90 milh\u00f5es de toneladas. Qual pode ser o teto para a expans\u00e3o dessa lavoura?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; Eu tenho dito que a soja est\u00e1 constituindo para o Brasil o mesmo que o milho foi para os Estados Unidos, mas a lavoura de soja n\u00e3o deve ser encarada isoladamente. Hoje \u00e9 importante consider\u00e1-la ao lado do milho e do algod\u00e3o como parte da integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria, que \u00e9 a coisa mais importante hoje no agroneg\u00f3cio brasileiro.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Por que a integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria \u00e9 t\u00e3o importante?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; N\u00f3s temos um rebanho bovino estimado em 190 milh\u00f5es de cabe\u00e7a e que utiliza uma \u00e1rea de 190 milh\u00f5es de hectares, mas nossa pecu\u00e1ria n\u00e3o precisa dessa \u00e1rea toda. Talvez com a metade disso podemos manter nosso rebanho de forma produtiva. Naturalmente, a \u00e1rea dispensada pela pecu\u00e1ria poder\u00e1 ser usada pela agricultura, que est\u00e1 concentrada em 72 milh\u00f5es de hectares \u2013 55 milh\u00f5es de hectares de culturas anuais e 17 milh\u00f5es de hectares de culturas permanentes. Os quase 90 milh\u00f5es de toneladas de soja saem dessa \u00e1rea de lavouras anuais. Fora isso, ainda falta incorporar ao processo produtivo 70 milh\u00f5es de hectares n\u00e3o utilizados nem para pastos nem para lavouras. S\u00e3o \u00e1reas espalhadas por todo o pa\u00eds e com problemas de uso, como encostas etc., mas parte disso pode virar produtiva. Hoje o incremento da produ\u00e7\u00e3o de soja, milho e algod\u00e3o est\u00e1 ocorrendo em \u00e1reas de pastagens degradadas. Dos 190 milh\u00f5es de hectares de pastagens, 30 milh\u00f5es s\u00e3o degradadas. A implanta\u00e7\u00e3o de lavouras \u00e9 barata, basta usar fertilizantes. \u00c9 assim que podemos dobrar a produ\u00e7\u00e3o do nosso agroneg\u00f3cio.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Sem tocar na Amaz\u00f4nia?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 Na Amaz\u00f4nia tem 400 milh\u00f5es de hectares que n\u00e3o precisam ser tocados. A ideia do desmatamento zero n\u00e3o \u00e9 un\u00e2nime no meio rural, mas tende a se tornar dominante.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Mas na Amaz\u00f4nia temos uma pecu\u00e1ria implantada com incentivos fiscais do governo&#8230;<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 O que aconteceu na Amaz\u00f4nia nos anos 60 e 70 tem que ser pensado de acordo com o pensamento de Ortega Y Gasset \u2013 \u201co homem e sua circunst\u00e2ncia\u201d. Naquele tempo, havia uma campanha para transformar a Amaz\u00f4nia em territ\u00f3rio internacional, patrim\u00f4nio da humanidade&#8230; A rea\u00e7\u00e3o brasileira foi grande, nasceu o projeto militar de estabelecer uma m\u00ednima ocupa\u00e7\u00e3o humana da regi\u00e3o e uma s\u00e9rie de outras coisas, inclusive o Projeto Radam, que descobriu campos de avia\u00e7\u00e3o clandestinos etc. Nessa esteira foi feito um desmatamento irregular, nocivo e lament\u00e1vel. A pecu\u00e1ria na Amaz\u00f4nia foi implantada de forma desordenada, mas do ponto de vista de pol\u00edtica p\u00fablica era imposs\u00edvel fazer diferente.<br \/>\n<figure id=\"attachment_16850\" aria-describedby=\"caption-attachment-16850\" style=\"width: 454px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/expointer-2013-julgando-devon-3-cr\u00e9dito-divulga\u00e7\u00e3o-ABCD.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-16850\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/expointer-2013-julgando-devon-3-cr\u00e9dito-divulga\u00e7\u00e3o-ABCD-300x199.jpg\" alt=\"Cirne Lima no parque de exposi\u00e7\u00f5es \/ Foto Divulga\u00e7\u00e3o ABCD\" width=\"454\" height=\"301\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16850\" class=\"wp-caption-text\">Cirne Lima no parque de exposi\u00e7\u00f5es \/ Foto Divulga\u00e7\u00e3o ABCD<\/figcaption><\/figure><br \/>\n<span class=\"entreperg\">No cerrado a ocupa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola tamb\u00e9m foi feita de maneira predat\u00f3ria. <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; Na floresta amaz\u00f4nica houve abusos e os solos foram degradados porque os projetos eram menos tecnificados. No cerrado, os solos foram melhorados pela agricultura. A integra\u00e7\u00e3o gado-soja \u00e9 tremendamente importante. A soja faz uma rota\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O senhor considera positiva a entrada da soja em \u00e1reas de arroz do Rio Grande do Sul?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; Eu como agr\u00f4nomo n\u00e3o tenho vergonha de dizer que ainda n\u00e3o sei plantar soja. Na minha fazenda, que j\u00e1 passei para os filhos, produzimos 40 a 50 sacas de soja por hectare em terras de coxilha. Em terras baixas ainda n\u00e3o temos a tecnologia adequada, mas a Embrapa de Pelotas est\u00e1 mergulhada nisso. A gente precisa escolher a variedade certa, plantar na \u00e9poca correta, corrigir o solo&#8230; H\u00e1 pouco fui dar uma palestra para agricultores em Santa Rosa, o ber\u00e7o da soja no Brasil. Na conversa depois do almo\u00e7o, perguntei qual a expectativa deles para o rendimento da soja. Um produtor disse que um agr\u00f4nomo que\u00a0 produza menos de 70 sacas por hectare baixa a cabe\u00e7a pra n\u00e3o passar vergonha. Esse mesmo produtor disse que a meta em Santa Rosa \u00e9 chegar a 100 sacas por hectare ou, seja, 6 mil quilos.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Isso \u00e9 o dobro da m\u00e9dia regional. <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; No oeste do Mato Grosso, onde chove muito bem, est\u00e3o colhendo 60 sacas por hectare, o que \u00e9 mais do que se produz em Illinois e Iowa. Mas n\u00e3o podemos esquecer que os Estados Unidos produzem 330 milh\u00f5es de toneladas de milho. Ou, seja, s\u00f3 de milho produzem quase o dobro do que o Brasil produz de gr\u00e3os. E um ter\u00e7o do milho americano \u00e9 usado para fazer etanol. Enfim, o Brasil se consolida como a segunda maior produ\u00e7\u00e3o do mundo e tem \u00e1reas a incorporar ao processo produtivo. Todo isso sem tocar no bioma amaz\u00f4nico.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O Brasil n\u00e3o se tornou por demais dependente da soja?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 De 180 milh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os que produzimos, 90 milh\u00f5es s\u00e3o de soja. Sim, mais de 50% do valor \u00e9 soja. Mas n\u00e3o vejo riscos. A mesma coisa acontece nos EUA, com o milho. A China, nosso grande mercado para soja, tem optado por produzir mais milho do que soja. Todos os programas de governo da China seguem anunciando compras de 10, 20, 30 milh\u00f5es de toneladas por ano de soja. Os chineses n\u00e3o querem ficar dependentes dos EUA em milho. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, acho que o Brasil tem 10 a 20 anos de tranquilidade. Se voc\u00ea considerar que todo ano 30 milh\u00f5es de chineses entram no mercado consumidor, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a soja brasileira vai continuar sendo comprada.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O Brasil vai continuar avan\u00e7ando na exporta\u00e7\u00e3o de carne? <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 O Brasil \u00e9 o maior exportador do mundo. Vende para 130 pa\u00edses. Conquistamos mercado vendendo carne barata mas estamos nos preparando para exportar carne mais cara. Em 1970 o rebanho brasileiro era de 80\/90 milh\u00f5es de cabe\u00e7as. Chegamos a 190 milh\u00f5es de cabe\u00e7as gra\u00e7as a tr\u00eas elementos. Primeiro, a capacidade desbravadora do criador brasileiro. Segundo, os capins do g\u00eanero brachiaria tremendamente adaptados a quase todas as latitudes brasileiras. Terceiro, a ra\u00e7a bovina nelore, que se adaptou ao clima brasileiro e cruzou bem com todas as ra\u00e7as existentes no Brasil. O gado p\u00e9 duro do Brasil Central ao norte, cruzado com o nelore, em duas gera\u00e7\u00f5es passou a produzir carne de boa qualidade.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Nesse contexto, qual o papel da pecu\u00e1ria do Sul?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 O Rio Grande do Sul \u00e9 uma regi\u00e3o subtemperada dentro de um pa\u00eds tropical e se especializou em produzir uma carne diferenciada. Trabalhar sob extremos clim\u00e1ticos oferece dificuldades, mas o produtor ga\u00facho tem conseguido desenvolver coisas pr\u00f3prias como o trigo, a ma\u00e7\u00e3, carnes, latic\u00ednios e a integra\u00e7\u00e3o lavoura-pecu\u00e1ria, que come\u00e7ou no Rio Grande e virou um modelo para todo o Brasil. A experi\u00eancia do Rio Grande do Sul mostra o quanto \u00e9 importante a diversidade gen\u00e9tica para produzir carne de boa qualidade. Veja o que aconteceu com as galinhas. Nos avi\u00e1rios industriais n\u00e3o se cria mais uma ra\u00e7a definida e, sim, o resultado de cruzamentos gen\u00e9ticos altamente sofisticados. Hoje voc\u00ea importa ovos de av\u00f3s dos elementos produtivos. Nesses cruzamentos entram ra\u00e7as como a nossa carij\u00f3, nome nacional de uma ra\u00e7a inglesa chamado Plymouth Rock Barrach. A carij\u00f3 tem alguns gens que fazem parte de um segredo comercial da avicultura. Quando a Embrapa foi fundada, um frango comia 4,5 quilos de ra\u00e7\u00e3o para engordar um quilo. Hoje tem frango que come 1,1 kg para engordar um quilo. O progresso que houve nisso \u00e9 uma coisa extraordin\u00e1ria. Nas ra\u00e7as bovinas \u00e9 a mesma coisa.<br \/>\n<span class=\"intertit\">PELA PRIMEIRA VEZ O ANGUS VENDEU MAIS S\u00caMEN DO QUE O NELORE<\/span><br \/>\n<span class=\"entreperg\">Mas como se explica o recente sucesso comercial da ra\u00e7a angus?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; A explica\u00e7\u00e3o para o sucesso da ra\u00e7a aberdeen angus est\u00e1 no esfor\u00e7o brasileiro para deixar de vender carne barata e vender carne mais cara. No ano passado pela primeira vez no Brasil o angus passou o nelore em venda de s\u00eamen. \u00c9 quase inacredit\u00e1vel. H\u00e1 dez anos atr\u00e1s ningu\u00e9m seria capaz de imaginar isso. As ra\u00e7as angus, devon e hereford predominam nos cruzamentos que buscam carne mais macia. Mas, das ra\u00e7as inglesas, o angus \u00e9 especializado em produ\u00e7\u00e3o de carne de alta qualidade. Ele n\u00e3o tem o tamanho do hereford, a conforma\u00e7\u00e3o perfeita do shortorn, n\u00e3o tem a velocidade de crescimento do charol\u00eas. Mas a qualidade de carca\u00e7a \u00e9 o apan\u00e1gio do angus, que levou 100 anos para chegar nisso.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">H\u00e1 quem diga que \u00e9 mais um fen\u00f4meno de marketing. <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; Os pioneiros do angus pareciam vision\u00e1rios h\u00e1 50 ou 60 anos, quando eu comecei minha vida profissional. Eles diziam que um dia o angus teria qualidade de carne e ia vender bem. Hoje j\u00e1 existem pre\u00e7os diferenciados para essas carca\u00e7as \u2013 cruza angus, cruza devon, cruza hereford.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">O que aconteceu no Brasil com aquela beleza \u2013 o shortHorn? <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; \u00c9 o mais perfeito, na conforma\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 pouco r\u00fastico, acumula muita gordura, n\u00e3o tem a fertilidade dos outros&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">E por que o charol\u00eas saiu de moda? <\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; O charol\u00eas tem velocidade de crescimento e peso vivo. N\u00e3o acumula gordura. Sua carne seca n\u00e3o d\u00e1 bom assado de grelha ou de fritura. A carne de charol\u00eas \u00e9 boa pra ca\u00e7arola, especialidade da cozinha francesa.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">Mas o charol\u00eas esteve na moda no Rio Grande do Sul&#8230;<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA &#8211; Houve um momento em que o charol\u00eas vendia mais do que o angus para cruzar com o nelore. Na d\u00e9cada de 70, sem d\u00favida. Naquela ocasi\u00e3o se queria carne e tamanho. Hoje se quer qualidade de carne para vender por pre\u00e7o melhor. O charol\u00eas est\u00e1 esquecido, mas vamos matar tudo que \u00e9 gado branco? Nada disso, \u00e9 uma gen\u00e9tica para dar tamanho que, amanh\u00e3 ou depois, pode ser \u00fatil.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">\u00c9 verdade que a vaca charolesa tem maior dificuldade para parir?<\/span><br \/>\nCIRNE LIMA \u2013 Sim, por causa do tamanho dos filhotes, por isso \u00e9 preciso selecionar animais de cabe\u00e7a pequena para n\u00e3o dar problema de parto. No Mato Grosso do norte, aquelas cria\u00e7\u00f5es de 10 mil vacas no pasto&#8230;Imagine ter de atender vaca, puxar bezerro. Imposs\u00edvel. Aqui no Rio Grande do Sul, numa fazenda de 30 vacas, o propriet\u00e1rio vai l\u00e1 e puxa o bezerro, mas l\u00e1 em cima morrem a vaca e a cria, n\u00e3o \u00e9? Como zootecnista, digo que o charol\u00eas tem que ser conservado porque pode ser necess\u00e1rio. Porque d\u00e9cadas atr\u00e1s o angus estava numa situa\u00e7\u00e3o muito pior do que o charol\u00eas hoje. Muito pior. O angus parecia um deleite de meia d\u00fazia de fazendeiros ricos que criavam aqueles animais apostando que um dia haveria remunera\u00e7\u00e3o por qualidade de carne. E houve.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">LEMBRETE HIST\u00d3RICO <\/span><br \/>\n<strong>LF Cirne Lima<\/strong><br \/>\n\u201cA pecu\u00e1ria brasileira come\u00e7a em 1532 com a introdu\u00e7\u00e3o por Martim Afonso de Souza das primeiras cabe\u00e7as de gado trazidas de Portugal para a capitania de S\u00e3o Vicente, de onde \u00c1lvaro Nunez Cabeza de Vaca difunde o gado para o interior do continente. No Rio Grande do Sul a pecu\u00e1ria come\u00e7a com os jesu\u00edtas em 1632. Os padres Crist\u00f3v\u00e3o Jacques e Pedro Mendon\u00e7a atravessam gado vicentino da Argentina para as Miss\u00f5es. A pecu\u00e1ria se expande gra\u00e7as \u00e0s boas condi\u00e7\u00f5es mesol\u00f3gicas da metade sul do Rio Grande do Sul e se espalha por esse territ\u00f3rio que vai at\u00e9 as margens do Prata, hoje o Uruguai. As lutas fronteiri\u00e7as tinham por objetivo o gado, que era o alimento para as tropas. Da\u00ed a no\u00e7\u00e3o de que muitos dos nossos guerreiros eram ladr\u00f5es de gado. Na verdade o gado era o grande produto econ\u00f4mico da regi\u00e3o. E os cavalos eram armas de guerra, m\u00e1quinas vivas. Cavalos e gado s\u00e3o os m\u00f3veis da Expointer.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Luiz Fernando Cirne Lima POR Geraldo Hasse Dificilmente se encontra no Brasil de hoje uma autoridade t\u00e9cnica t\u00e3o qualificada quanto o ex-ministro Luiz Fernando Cirne Lima para falar sobre o cruzamento da agricultura de gr\u00e3os com a cria\u00e7\u00e3o de gado, um dos assuntos do momento no mundo dos neg\u00f3cios rurais. Aos 81 anos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":16951,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[320,1511,1856],"class_list":["post-16859","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-agronegocio","tag-expointer","tag-luiz-fernando-cirne-lima"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":1280,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/o-menino-que-se-tornou-brizola\/","url_meta":{"origin":16859,"position":0},"title":"O Menino que se Tornou Brizola","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"28 de julho de 2008","format":false,"excerpt":"Autor: Cleber Dioni A vida de Leonel Brizola, com \u00eanfase para os primeiros anos em Porto Alegre, at\u00e9 o ex\u00edlio no Uruguai e a volta, quinze anos depois. \u00a0\"...\u00c9ramos todos jovens e nos identific\u00e1vamos com aquela massa an\u00f4nima a percorrer as ruas de Porto Alegre, gritando 'Get\u00falio', 'Get\u00falio' e empunhando\u2026","rel":"","context":"Em &quot;Livros&quot;","block_context":{"text":"Livros","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/category\/livros\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2008\/07\/brizola.gif?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-4nV","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16859"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16859\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}