{"id":16862,"date":"2014-08-20T05:00:13","date_gmt":"2014-08-20T08:00:13","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=16862"},"modified":"2014-08-20T05:00:13","modified_gmt":"2014-08-20T08:00:13","slug":"imprensa-uma-historia-que-nao-foi-contada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/imprensa-uma-historia-que-nao-foi-contada\/","title":{"rendered":"Imprensa: &quot;Uma hist\u00f3ria que n\u00e3o foi contada&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Em seu <strong>Almanaque<\/strong> o jornalista H\u00e9lio Gama, ao mesmo tempo que faz semanalmente um apanhado qualitativo dos temas dominantes, est\u00e1 destilando parte de suas mem\u00f3rias, que guardam pelo menos 40 anos de viv\u00eancias pelos principais projetos da imprensa brasileira.<br \/>\nO trecho que segue \u00e9 parte de um cap\u00edtulo in\u00e9dito da hist\u00f3ria da imprensa do Rio Grande do Sul. Uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 &#8220;Hist\u00f3ria do Di\u00e1rio do Sul&#8221;, digamos.<br \/>\n<span class=\"intermenos\">MEMORIA DE JORNALISTA<\/span><br \/>\n<strong>Uma hist\u00f3ria que n\u00e3o foi contada (parte final)<\/strong><br \/>\n<span class=\"assina\">H\u00e9lio Gama<\/span><br \/>\n(&#8230;) Nessa \u00e9poca, comecei a fazer o projeto do novo jornal, que ainda n\u00e3o tinha nem nome. Mas o plano era de lan\u00e7ar o jornal em uma nova empresa da GZM, sem qualquer mudan\u00e7a ,na sua estrutura inclusive com a continuidadfe do caderno regional, a Gazeta Mercantil Sul, que vinha obtendo crescente resultado com publica\u00e7\u00f5es legais. Como o jornal, no conjunto, tinha um resultado muito positivo no Rio Grande do Sul, pensava, tamb\u00e9m, que isso poderia representar boa parte do investimento.<br \/>\nElaborei, ent\u00e3o, o projeto editorial do jornal que seria da \u201cfam\u00edlia\u201d da Gazeta Mercantil, mas diferente dela. Agregaria, \u00e9 claro, os princ\u00edpios b\u00e1sicos tais como independ\u00eancia, separa\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o do jornal do material noticioso, a obrigatoriedade de ouvir as partes nas reportagens controversas, postura muito definida a respeito de temas centrais, sendo um jornal liberal progressista, vamos dizer assim. Isso significava ter um editorial que fosse considerado importante para os leitores do jornal. Isso exigiu fazer o seguinte: o jornal nasceria como se j\u00e1 existisse por muitos anos tendo opini\u00f5es consolidadas (isso foi f\u00e1cil, com base no hist\u00f3rico das posi\u00e7\u00f5es do jornal-m\u00e3e).<br \/>\nTamb\u00e9m planejei algumas caracter\u00edsticas b\u00e1sicas, tais como o jornal ter seis edi\u00e7\u00f5es por semana, circulando no s\u00e1bado com a edi\u00e7\u00e3o de fim de semana. Sempre achei rid\u00edculo o h\u00e1bito de circular pela manh\u00e3 com a edi\u00e7\u00e3o de s\u00e1bado e as 14\/15 horas do mesmo dia colocar nas bancas a edi\u00e7\u00e3o de domingo (sem not\u00edcia de s\u00e1bado!). Al\u00e9m disso, existiam bons motivos de ordem econ\u00f4mica, j\u00e1 que a s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o aumentaria os custos de todos os setores.<br \/>\nO nome Di\u00e1rio do Sul nasceu com naturalidade, de tanto que conversei com Luiz Fernando Levy falando no jornal di\u00e1rio do sul. As restri\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o editorial da GZM ao novo projeto eram evidentes mas educadamente disfar\u00e7adas, da mesma forma como ocorrera quando apresentei a ideia de fazer o caderno regional. Rar\u00edssimas vezes apareceram oportunidades de conversar com os editores, em S\u00e3o Paulo, sobre o novo projeto. E quando foi decidido que ele seria feito, o raio de Zeus que me atingiu, e aos leitores da GZM, foi que, simultaneamente seria extinto o caderno regional.<br \/>\nEnfim, no in\u00edcio de 1986, t\u00ednhamos um projeto de jornal e inclusive, com base na ideia de que, segundo a experi\u00eancia internacional, os jornais passam a dar resultado positivo no quinto exerc\u00edcio, coordenei a elabora\u00e7\u00e3o de um detalhado or\u00e7amento de cinco anos, apontando, ent\u00e3o, o valor total que a GZM teria de injetar em sua subsidi\u00e1ria at\u00e9 que o retorno fosse poss\u00edvel. Diante das dificuldades da GZM para investir, agravada pela surda oposi\u00e7\u00e3o de setores da empresa em dividir recursos que j\u00e1 n\u00e3o eram substanciais, a ideia era a de conseguir tamb\u00e9m s\u00f3cios locais.<br \/>\nTudo estava praticamente pronto para o lan\u00e7amento, quando, no come\u00e7o de maio, o desembargador Hermann Homem de Carvalho Roenick, s\u00edndico da massa falida me chamou e largou uma bomba: o empres\u00e1rio Renato Ribeiro, um milion\u00e1rio brocker do setor de commodities tinha adquirido tudo, inclusive as d\u00edvidas! Ou seja, o homem agora era Ribeiro que, semanas antes, tinha ficado furioso com algumas mat\u00e9rias da Zero Hora que sugeriam que ele acrescentava elementos estranhos nos sacos de soja que eram exportados. Consta que um grande amigo dele teria dito que ele evitaria tais ataques se tivesse o seu pr\u00f3prio sistema de comunica\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO projeto do Di\u00e1rio do Sul tremeu nas bases. O Plano \u201cA\u201d foi por terra. Ent\u00e3o, o Plano \u201cB\u201d foi o de tentar fazer uma associa\u00e7\u00e3o com Renato Ribeiro. O encontro, organizado por Luiz Fernando Cirne Lima, amigo comum dos dois, foi na mans\u00e3o estilo E o Vento Levou, do empres\u00e1rio, na Avenida Carlos Gomes, em Porto Alegre. Participei, ent\u00e3o, da reuni\u00e3o de Luiz Fernando Levy com Ribeiro, mediada por Cirne Lima. Foi um dos piores encontros da minha vida. Com praticamente dez anos de Gazeta Mercantil nunca tinha visto Luiz Fernando ter m\u00e1 participa\u00e7\u00e3o em reuni\u00f5es. Ele esteve irreconhec\u00edvel diante da postura naturalmente agressiva e autorit\u00e1ria de Ribeiro.<br \/>\nEle recha\u00e7ou a possibilidade de qualquer acordo, mas abriu a porta para assimilar o grupo de jornalistas que estava j\u00e1 formado para, ent\u00e3o, fazer o Correio do Povo. Quando sa\u00edmos da reuni\u00e3o, desanimado, Luiz Fernando comentou: \u201cfoi a pior pessoa que conheci na minha vida\u201d. Nasceu ent\u00e3o o Plano \u201cC\u201d. Luiz Fernando falou com Cirne Lima, este falou com Renato e Renato me chamou para uma reuni\u00e3o em seu escrit\u00f3rio.<br \/>\nSua sala era simples, e o visitante ficava sentado ao lado de um visor onde apareciam as cota\u00e7\u00f5es das commodities. Renato conversava com o visitante de olho nos pre\u00e7os e, de vez em quando dava uma ordem para comprar ou vender para um de seus assessores. Conversamos um pouco, ele perguntou se estaria disposto a reiniciar o Correio do Povo e ent\u00e3o quis conhecer minha equipe de dire\u00e7\u00e3o do projeto Di\u00e1rio. E fomos jantar com ele no Rock\u2019s um pequeno restaurante prestigiado pela suposta qualidade de seus fil\u00e9s.<br \/>\nApresentei as pessoas e cada um exp\u00f4s o tipo de trabalho que realizava. Ficou interessado no trabalho na parte industrial da Caldas Junior, inclusive com o estreitamento da rotativa para um standard moderno. Ele era r\u00e1pido. No dia seguinte ele fez o convite para ser Diretor de Reda\u00e7\u00e3o do Correio do Povo, extensivo \u00e0 equipe que planejava o Di\u00e1rio, falei pelo telefone com Luiz Fernando, chorei um pouco, n\u00e3o sei se ele chorou tamb\u00e9m, liguei para o Renato e fui l\u00e1 ter uma conversa de orienta\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do que imaginava, ele disse que queria o jornal standard, que as letras tinham que ser grandes para facilitar a leitura das pessoas mais idosas, falou sobre a import\u00e2ncia da cobertura sobre agropecu\u00e1ria e mais algumas coisas. E disse para que j\u00e1 fosse para l\u00e1 e fizesse o planejamento do novo Correio, inclusive uma proposta de projeto gr\u00e1fico.<br \/>\nAntiga reda\u00e7\u00e3o do Correio do Povo, na \u00e9poca em que era l\u00edder<br \/>\nEnt\u00e3o, no dia seguinte, j\u00e1 como diretor, entramos todos no templo sagrado do jornalismo ga\u00facho, a reda\u00e7\u00e3o do Correio do Povo. As luzes estavam apagadas e o ambiente era naturalmente escuro, quase sombrio. Mas quando as luzes foram acesas foi uma alegria. Os profissionais percorriam a reda\u00e7\u00e3o para reconhecer as mesas. \u201cAqui era a mesa do M\u00e1rio Quintana\u201d, gritou um. \u201cAqui sentava o Gastal\u201d,disse outro (Gastal era o excelente cr\u00edtico de cinema do Correio, com o pseud\u00f4nimo de Calvino). Durante o dia, Renato pediu para encaminhar ao antigo gerente de pessoal do Correio os nomes da minha equipe, com as respectivas fun\u00e7\u00f5es. Nesse meio tempo boquiabertos, assistimos uma cena ins\u00f3lita: a mulher do novo propriet\u00e1rio da empresa, com uma vassoura, balde de \u00e1gua e pano, varrendo e tirando o p\u00f3 da antiga sala de Breno Caldas.<br \/>\nPensei comigo: \u201cser\u00e1 que Renato vai querer ficar na reda\u00e7\u00e3o\u201d? E tamb\u00e9m n\u00e3o me sa\u00eda da cabe\u00e7a uma frase dita por Renato durante o jantar: \u201ctenho horror de comunista, mulher liberada e homossexual\u201d. Lembro que pensei: \u201cIh, acho que teremos problemas\u201d. E enquanto a sra. Ribeiro varria e o pessoal do projeto gr\u00e1fico e os editores se reuniam numa sala sem janela e abafada, com uma grande mesa, recebi outra informa\u00e7\u00e3o: o Correio do Povo mantinha uma lista negra de jornalistas que, por v\u00e1rias raz\u00f5es n\u00e3o podiam voltar a trabalhar nos ve\u00edculos da empresa. Com essa not\u00edcia, conclui que minha administra\u00e7\u00e3o seria uma esp\u00e9cie de cometa na hist\u00f3ria do Correio do Povo, inclusive sem registro.<br \/>\nNo dia seguinte, Renato me ligou cedo e disse que v\u00e1rios profissionais do meu time constavam da lista negra, que, por sinal, ele tinha decidido que continuaria em vigor. Disse-lhe, ent\u00e3o, que isso alterava nosso acerto inicial pois prejudicaria um grupo de profissionais de alta qualidade e que n\u00e3o poderia continuar naquela fun\u00e7\u00e3o. Ele me disse que imaginava isso, e assim terminou o contrato n\u00e3o assinado, nos despedimos educadamente e deixei a diretoria de reda\u00e7\u00e3o do tradicional Correio do Povo. Comuniquei com tristeza os fatos aos meus colegas e regressamos para a Gazeta.<br \/>\nContei ao Luiz Fernando, pelo telefone, tudo o que tinha acontecido. Alguns garantem que fiz um pedido para ele retomar o projeto do Di\u00e1rio. Mas n\u00e3o foi assim. Quando terminei o relato, ele disse: \u201cVamos fazer esse jornal. Venha amanh\u00e3 a S\u00e3o Paulo para a gente acertar isso\u201d. Foi o que fiz, levando a tiracolo todos os planos e o or\u00e7amento. Quando regressei estava autorizado a colocar em pr\u00e1tica o Plano \u201cD\u201d. E foi o que fiz. No dia 4 de novembro de 1986 come\u00e7ou a circular o Di\u00e1rio do Sul. Um dia desses vou contar essa hist\u00f3ria sobre o jornal que, numa homenagem da C\u00e2mara de Vereadores de Porto Alegre, foi definido pelo orador, o grande radialista e vereador Lauro Hagemann, como \u201cum jornal feito com amor\u201d.<br \/>\n<em>(Transcri\u00e7\u00e3o autorizada)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu Almanaque o jornalista H\u00e9lio Gama, ao mesmo tempo que faz semanalmente um apanhado qualitativo dos temas dominantes, est\u00e1 destilando parte de suas mem\u00f3rias, que guardam pelo menos 40 anos de viv\u00eancias pelos principais projetos da imprensa brasileira. 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