{"id":16909,"date":"2014-08-19T17:01:16","date_gmt":"2014-08-19T20:01:16","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=16909"},"modified":"2014-08-19T17:01:16","modified_gmt":"2014-08-19T20:01:16","slug":"tortura-nos-quarteis-o-caso-de-miriam-leitao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/tortura-nos-quarteis-o-caso-de-miriam-leitao\/","title":{"rendered":"Tortura nos quart\u00e9is:  o caso de Miriam Leit\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Por Luiz Cl\u00e1udio Cunha \/ Observat\u00f3rio da Imprensa \/ (19.08.2014) |<\/span><br \/>\n<span class=\"intermenos olho\">A mulher serena na frente do homem inquieto. A rep\u00f3rter experiente perante a autoridade calejada. A entrevistadora firme ante o ministro gelatinoso. A profissional de imprensa olho no olho com sua fonte. <\/span><br \/>\n<span class=\"intermenos olho\">Uma brasileira, presa e torturada na ditadura, frente a frente com o ministro da Defesa que hoje comanda o Ex\u00e9rcito que ontem, na ditadura, prendeu e torturou a mulher, a rep\u00f3rter, a jornalista, a brasileira que o questionava (leia abaixo o depoimento in\u00e9dito de M\u00edriam Leit\u00e3o sobre as torturas que sofreu).<\/span><br \/>\nEsse dram\u00e1tico confronto de 22 minutos brilhou na tela da TV numa noite de quinta-feira, no final de junho passado, quando a jornalista M\u00edriam Leit\u00e3o, 61 anos, fez para a GloboNews uma not\u00e1vel entrevista com o ministro da Defesa, Celso Amorim, 72 anos.<br \/>\nViu-se ent\u00e3o uma aula pr\u00e1tica do melhor jornalismo, confrontando a convic\u00e7\u00e3o com a d\u00favida, a energia com a tibieza, o categ\u00f3rico com o evasivo, a verdade com a mentira. A rep\u00f3rter se agigantando num di\u00e1logo em que o ministro se apequenava, acuado, hesitante, gaguejante.<br \/>\nM\u00edriam fez o que o resto da grande imprensa, acomodada e pregui\u00e7osa, n\u00e3o fez. Foi a Bras\u00edlia ouvir o chefe civil dos militares, apenas nove dias ap\u00f3s a entrega \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) de uma insossa, imprest\u00e1vel sindic\u00e2ncia de quatro meses realizada pelos tr\u00eas comandantes das For\u00e7as Armadas (FFAA).<br \/>\nDiante de quest\u00f5es objetivas com nomes, datas e locais de mortes e torturas apontadas pela CNV, os chefes da tropa responderam, num catatau de 455 p\u00e1ginas, que n\u00e3o registravam nenhum \u201cdesvio de finalidade\u201d em sete centros militares do Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica onde foram meticulosamente documentados casos de graves viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos pelo regime militar de 1964-1985.<br \/>\nOs oficiais-generais das tr\u00eas Armas simplesmente negaram a ocorr\u00eancia de abusos at\u00e9 mesmo nos sangrentos DOI-CODI da Rua Tutoia, em S\u00e3o Paulo, e da Rua Bar\u00e3o de Mesquita, no Rio de Janeiro, onde a CNV j\u00e1 constatou pelo menos 81 mortes por tortura.<br \/>\nOs comandantes esqueceram at\u00e9 dos 22 dias de supl\u00edcio no DOI-CODI paulistano a que sobreviveu em 1970 uma guerrilheira chamada Dilma Rousseff, hoje casualmente presidente da Rep\u00fablica e, como tal, comandante-suprema dos generais que omitem a crua verdade sobre a ditadura das FFAA (ver \u201cQuem mente? A presidente ou os generais?\u201c).<br \/>\nSemblante s\u00e9rio, como recomendava o tema e exigia o embate, a jornalista entrou de sola na entrevista:<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 Ministro, os militares disseram que n\u00e3o houve desvio de fun\u00e7\u00e3o, mas a resposta causou perplexidade&#8230;<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 [&#8230;] A CNV n\u00e3o perguntou se as pessoas foram torturadas. Ela focaliza muito na destina\u00e7\u00e3o dos im\u00f3veis. Com esta pergunta, a resposta tamb\u00e9m sinaliza uma resposta formal. N\u00e3o houve, n\u00e3o h\u00e1 registro formal de desvio de funcionalidade&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 A CNV fez as perguntas erradas?<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 Ela n\u00e3o fez as perguntas que ela n\u00e3o precisava fazer [&#8230;] As FFAA n\u00e3o negam, nem comentam. Elas n\u00e3o contestam. Elas simplesmente n\u00e3o entram [no assunto]. Se um estabelecimento, militar ou outro qualquer, \u00e9 usado para tortura, isso n\u00e3o \u00e9 um il\u00edcito administrativo. Isso \u00e9 um crime [&#8230;] Especificamente sobre as torturas, ela [CNV] n\u00e3o faz nenhuma pergunta, ela afirma. E as afirma\u00e7\u00f5es [da CNV] n\u00e3o s\u00e3o contestadas.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 Uma coisa \u00e9 o DOI-CODI prender. Outra coisa \u00e9 matar o preso.<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 Isso \u00e9 horr\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 um desvio de finalidade, \u00e9 um crime. [&#8230;] Se voc\u00ea disser que as respostas s\u00e3o formais, eu concordo. At\u00e9 acho que elas s\u00e3o formais. Elas n\u00e3o s\u00e3o mentirosas, nem descumprem formalmente o que foi perguntado. Elas decepcionam quem&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 &#8230; elas omitem a quest\u00e3o principal, ministro. As pessoas foram mortas dentro de instala\u00e7\u00f5es militares, foram torturadas, e n\u00e3o foi para isso que se criaram essas instala\u00e7\u00f5es. Elas existem para defender o Brasil, n\u00e3o para torturar e matar brasileiros.<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 N\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida. Tortura e morte \u00e9 errado em qualquer lugar. Eu acho isso e a sociedade brasileira acha isso&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 Mas os seus comandados n\u00e3o acham. Como ministro da Defesa, o sr. \u00e9 o comandante dos comandantes militares. O sr. n\u00e3o deveria lev\u00e1-los a tomar uma decis\u00e3o sobre isso? O que eles fizeram nessa sindic\u00e2ncia foi tergiversar sobre a quest\u00e3o fundamental que se pergunta&#8230;<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 N\u00f3s estamos completando uma transi\u00e7\u00e3o, a \u00faltima etapa da transi\u00e7\u00e3o \u00e9 o relat\u00f3rio da CNV. A CNV vai produzir um relat\u00f3rio final e todos ter\u00e3o que se posicionar diante dele. Quanto \u00e0s respostas em si \u00e0 CNV, elas atendem ao que foi perguntado formalmente. N\u00e3o houve nenhuma pergunta, tipo \u201co sr. confirma que houve tortura e morte?\u201d. At\u00e9 porque eu sei que a resposta a\u00ed seria: \u201cTodos os documentos da \u00e9poca [da ditadura] foram destru\u00eddos\u201d.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 \u00c9 o que eles dizem, ali\u00e1s.<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 N\u00e3o houve nenhum esfor\u00e7o, nenhuma pretens\u00e3o de negar os fatos&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 O jornalista Zuenir Ventura escreveu que, se [tortura e morte]n\u00e3o era desvio de fun\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o era norma. O que o sr. diz dessa conclus\u00e3o?<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 Acho que tortura e assassinato de uma pessoa indefesa \u00e9 algo indefens\u00e1vel. Se isso era norma expl\u00edcita, eu n\u00e3o&#8230; eu creio que n\u00e3o. Mas, impl\u00edcita, talvez fosse. Infelizmente, era um governo ditatorial. Ningu\u00e9m vai discutir isso. Voc\u00ea sabe muito bem: eu deixei meu cargo na Embrafilme porque autorizei a elabora\u00e7\u00e3o de um filme pago pela empresa em que a OBAN era o tema central.<br \/>\nAmorim, sempre diplomata, n\u00e3o esclareceu bem aos telespectadores esse epis\u00f3dio que o dignifica e est\u00e1 relacionado \u00e0 OBAN, a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, a repress\u00e3o unificada em S\u00e3o Paulo que antecedeu em 1969 o DOI-CODI criado no ano seguinte.<br \/>\nEle n\u00e3o \u201cdeixou\u201d o cargo, ele foi exonerado em abril de 1982 da presid\u00eancia da Embrafilme, a estatal de cinema da ditadura, por press\u00e3o dos generais do governo Figueiredo, irritados com o temer\u00e1rio financiamento que a empresa concedeu ao cineasta Roberto Farias para produzir Pra Frente, Brasil.<br \/>\nEra um filme de 105 minutos, estrelado por Reginaldo Faria, Nat\u00e1lia do Valle e Ant\u00f4nio Fagundes retratando de forma contundente, pela primeira vez no cinema, os horrores da repress\u00e3o sem limites.<br \/>\nOs personagens eram calcados nos algozes da OBAN, no delegado do DOPS S\u00e9rgio Fleury e nos empres\u00e1rios que financiavam a tortura do regime. O ator Carlos Zara interpretou o s\u00e1dico \u201cDr. Barreto\u201d, o policial inspirado em Fleury, que havia torturado seu irm\u00e3o, Ricardo Zaratini, um dos presos pol\u00edticos trocados pelo embaixador americano Burke Elbrick em 1969.<br \/>\nO ator Paulo Porto encarnou o personagem inspirado no industrial Henning Boilesen que \u2013 como caixa da OBAN no meio empresarial e amigo do poderoso ministro Delfim Netto \u2013 foi executado por guerrilheiros em abril de 1971. Lan\u00e7ado em 1982, Pra Frente, Brasil ganhou cinco pr\u00eamios em festivais internacionais e, ap\u00f3s uma arrojada exibi\u00e7\u00e3o em Gramado, RS, conquistou o trof\u00e9u de melhor filme do festival de cinema mais importante do pa\u00eds. Em seguida, foi censurado e retirado das salas de exibi\u00e7\u00e3o. S\u00f3 voltou a ser mostrado no in\u00edcio de 1983, liberado sem cortes.<br \/>\nHoje comandante dos militares que no passado o expurgaram do servi\u00e7o p\u00fablico, Celso Amorim agora tem bons motivos para medir a diferen\u00e7a no calend\u00e1rio.<br \/>\nAmorim \u2013 O Brasil precisa das FFAA. E os militares de hoje n\u00e3o s\u00e3o os militares de ontem. N\u00f3s precisamos dialogar com estes militares de hoje. Eles tem que saber separar o que foi o passado e o que \u00e9 hoje. O 31 de mar\u00e7o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais comemorado&#8230;<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 Mas eles mesmos n\u00e3o fazem esta separa\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o admitem os erros do passado. At\u00e9 para preservar a institui\u00e7\u00e3o [das FFAA], eles n\u00e3o deveriam fazer esta separa\u00e7\u00e3o?<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 Voc\u00ea quer minha opini\u00e3o pessoal? Acho que devem [fazer a separa\u00e7\u00e3o]. Mas, isso n\u00e3o se faz com uma ordem. Isso \u00e9 uma mudan\u00e7a cultural. Porque, as ordens eles podem at\u00e9 obedecer. Isso \u00e9 uma mudan\u00e7a cultural que vem aos poucos. Essa ordem depende do di\u00e1logo. H\u00e1 outras concep\u00e7\u00f5es culturais das corpora\u00e7\u00f5es. Como isso se concilia, \u00e9 uma coisa complicada.<br \/>\nN\u00e3o vou entrar aqui numa discuss\u00e3o filos\u00f3fica sobre culpas coletivas, ou culpas intergeracionais. O tempo vai fazer com que isso ocorra. O primeiro passo \u00e9 eliminar as coisas oficiais, como as comemora\u00e7\u00f5es do 31 de mar\u00e7o. Nunca ouvi de nenhum militar, pelo menos comigo, nunca ouvi nenhum defender a tortura, sob nenhum aspecto. Nenhum veio aqui e disse: \u201cAh, mas naquele caso tivemos que fazer isso&#8230;\u201d. Nenhum. Nunca ouvi. Nem direta, nem indiretamente.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam\u2013 E nem condenaram, tamb\u00e9m&#8230;<\/span><br \/>\nAmorim fecha os olhos, suspira, e n\u00e3o diz nada. \u00c9 salvo pelo intervalo do programa de entrevista, aos 13\u201933\u2019\u2019. Na segunda parte, Amorim volta falando das coisas positivas que v\u00ea hoje na \u00e1rea militar.<br \/>\nAmorim \u2013 [&#8230;] Como a cria\u00e7\u00e3o do Estado Maior Conjunto das FFAA, subordinado diretamente ao Minist\u00e9rio da Defesa. Ou seja, o Ministro est\u00e1 na cadeia de comando, inclusive das opera\u00e7\u00f5es militares. E temos um secret\u00e1rio-geral civil, no mesmo n\u00edvel dos comandantes. Inclu\u00edmos disciplinas de direitos humanos em todas as escolas militares. Os livros [das escolas militares] devem ser aprovados pelo MEC e fazem parte do curr\u00edculo. Os col\u00e9gios militares s\u00e3o excelentes. Voc\u00ea poderia me perguntar: \u201cMas, o sr. n\u00e3o pode dar uma ordem?\u201d Posso, mas eu prefiro convencer. O convencimento tem mais durabilidade. Aprendi isso com a diplomacia. Acho que o convencimento \u00e9 melhor do que uma ordem estrita.<br \/>\n<span class=\"entreperg\">M\u00edriam \u2013 Em algum momento as FFAA v\u00e3o se deixar convencer a pedir desculpas ao Pa\u00eds pelos crimes cometidos na ditadura, para que eles n\u00e3o se repitam?<\/span><br \/>\nAmorim \u2013 Esta \u00e9 uma quest\u00e3o complicada. Eu n\u00e3o sei&#8230; Acho que&#8230; talvez, talvez. Eu esperaria&#8230; Acho que o grande input para isso seria o pr\u00f3prio relat\u00f3rio da CNV, o tratamento que ele vai ter e como ser\u00e1 recebido pela sociedade. Agora, voc\u00ea tem um conflito entre duas concep\u00e7\u00f5es.<br \/>\nUma, as FFAA de hoje pedindo desculpas pelo que n\u00e3o foi feito por elas? N\u00e3o sei&#8230; Eu, como ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, se formos pedir desculpas por tudo que tenha sido feito pelo Itamaraty, inclusive no tempo da ditadura, talvez fosse complicado para mim&#8230; Acho melhor ir mudando, mudando a pr\u00e1tica, e deixando aquilo que se deve ver e analisar para o Judici\u00e1rio, o Congresso, a sociedade&#8230; Mas, n\u00e3o sei&#8230; Talvez fosse bom para eles [os militares]. Eu acho&#8230;<br \/>\nGaguejando, vacilando, traindo suas d\u00favidas internas, Amorim revelou na GloboNews as incertezas existenciais que s\u00e3o antigas e comuns entre os sete homens que ocuparam o Minist\u00e9rio da Defesa desde sua cria\u00e7\u00e3o, em junho de 1999, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Nascida 14 anos ap\u00f3s a queda da ditadura, a pasta reproduzia a experi\u00eancia de na\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas nos padr\u00f5es democr\u00e1ticos.<br \/>\n\u00c9 a realiza\u00e7\u00e3o administrativa da constata\u00e7\u00e3o feita por um m\u00e9dico franc\u00eas do s\u00e9culo passado, Georges Clemenceau (1841-1929), o primeiro-ministro da Fran\u00e7a nos anos turbulentos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), que diagnosticou: \u201cA guerra \u00e9 uma coisa demasiadamente grave para ser confiada aos militares\u201d.<br \/>\nPara expurgar a arrog\u00e2ncia natural de 21 anos de regime de exce\u00e7\u00e3o no Brasil, onde a voz da caserna com frequ\u00eancia se confundia com os rugidos mais assustadores da caverna autorit\u00e1ria, um Minist\u00e9rio da Defesa ocupado por um civil tinha, como primeira vantagem, tirar o intocado status ministerial das For\u00e7as Armadas habituadas ao cachimbo torto da hegemonia sobre a Rep\u00fablica e do arb\u00edtrio sobre todos.<br \/>\n<span class=\"intertit\">GRITOS E SUSSURROS<\/span><br \/>\nRebaixando os ministros militares ao n\u00edvel de comandantes, sob o tac\u00e3o de um civil na Defesa, o pa\u00eds imaginava se vacinar contra recidivas no delicado processo da regenera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<br \/>\nO problema \u00e9 que, em vez de Ministro da Defesa do Estado, cada um dos ocupantes do posto assumiu o equivocado papel de ministro da defesa dos comandantes militares.<br \/>\nDesde o primeiro e mais fugaz, \u00c9lcio Alvarez, que durou meros sete meses no cargo, at\u00e9 o mais longevo, Nelson Jobim, que Lula legou a Dilma e sobreviveu no posto por longos 50 meses.<br \/>\nMais do que encarnar o papel de comandante civil do governo sobre os escal\u00f5es militares, os ministros acabaram vestindo a farda de porta-vozes dos quart\u00e9is e seus chefes, tornando mais dif\u00edcil o pleno reconhecimento das diferen\u00e7as cruciais que existem entre os Ex\u00e9rcitos da ditadura e da democracia \u2013 e que nem os comandantes sabem separar, como reconheceu Amorim para M\u00edriam.<br \/>\nO atual ministro da Defesa, profissional do Itamaraty desde 1989, quando o pa\u00eds teve sua primeira elei\u00e7\u00e3o direta para presidente em tr\u00eas d\u00e9cadas, levou para o cargo as manhas da diplomacia, esquecido de que o tom acatado nos quart\u00e9is \u00e9 a ordem gritada e perempt\u00f3ria, n\u00e3o o sussurro do lerdo convencimento ciciado nas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas.<br \/>\nO que Amorim aprendeu com as luvas de pelica nos sal\u00f5es atapetados do Itamaraty n\u00e3o combina com os coturnos empoeirados dos campos de manobra dos generais. S\u00e3o \u00e1reas diferentes, s\u00e3o mundos separados.<br \/>\nO ministro da Defesa, com ingenuidade, confessou na GloboNews que \u00e9 um chefe que abdica de suas atribui\u00e7\u00f5es: em vez de mandar, como se faz e se espera na caserna, prefere convencer, como nem os diplomatas \u00e0s vezes conseguem.<br \/>\nMilitar, desde a academia, sabe que o of\u00edcio do soldado \u00e9 obedecer, assim como a miss\u00e3o do comandante \u00e9 comandar. O diplomata Amorim, com a muleta da \u201cdurabilidade\u201d, prefere convencer.<br \/>\nNas praias da Normandia, nas areias de El Alamein, nas colinas de Waterloo, nas alturas de Monte Castelo, no estreito das Term\u00f3pilas, no mar revolto de Midway, onde ecoaram algumas das batalhas \u00e9picas que todo oficial de Estado-Maior estuda nas aulas de t\u00e1tica e estrat\u00e9gia em combate na academia, os militares n\u00e3o esperavam ser convencidos para cumprir sua miss\u00e3o, para comandar e obedecer, para matar ou morrer.<br \/>\nSe fossem esperar pelo moroso convencimento proposto por Amorim, os generais teriam perdido a batalha, a guerra, a vida e, talvez, a honra.<br \/>\nO general franc\u00eas Charles De Gaulle (1890-1970), que n\u00e3o convencia mas sabia mandar, tinha esta \u00e1spera opini\u00e3o sobre os colegas de carreira de Amorim: \u201cDiplomatas s\u00e3o \u00fateis apenas sob bom tempo. Assim que chove eles se afogam em cada gota\u201d. O parlamentar ingl\u00eas Henry Wotton (1568-1639), embora embaixador, era ainda mais c\u00ednico: \u201cO diplomata \u00e9 um cavalheiro honesto enviado ao exterior para mentir pelo bem de seu pa\u00eds\u201d.<br \/>\n<span class=\"intertit\">AGENTE DA BORRASCA<\/span><br \/>\nComo o cavalheiro honesto que \u00e9, Amorim poderia dizer a verdade pelo bem do pa\u00eds come\u00e7ando por um \u00fanico pedido de desculpas, na condi\u00e7\u00e3o de ex-ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, por uma grave trucul\u00eancia cometida por seus polidos pares de diplomacia exatamente no tempo da ditadura: o Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Exterior (CIEx), o servi\u00e7o secreto criado dentro do Itamaraty, no primeiro governo da ditadura, o do general Castelo Branco.<br \/>\nFoi obra e engenho de um diplomata sempre \u00fatil e que sorvia cada gota da borrasca, Manoel Pio Correa J\u00fanior (1918-2013), um anticomunista ferrenho que se notabilizou pela ca\u00e7a aos comunistas na carreira diplom\u00e1tica e pelo combate aos \u201cvagabundos, b\u00eabados e pederastas\u201d que encontrou pelo caminho.<br \/>\nUma de suas v\u00edtimas mais not\u00e1veis foi o diplomata e compositor Vin\u00edcius de Moraes, cassado pelo AI-5. O poetinha brincava com os amigos: \u201cEi, eu sou o b\u00eabado, viu?\u201d.<br \/>\nCapit\u00e3o R\/2 da Cavalaria, o s\u00f3brio Pio Correa vestia sobre o terno de diplomata a capa de agente da CIA, servindo na esta\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro da ag\u00eancia de intelig\u00eancia norte-americana, conforme revelou o ex-agente Phillip Agee na p\u00e1gina 384 de seu livro de mem\u00f3rias, Por Dentro da Companhia (Edi\u00e7\u00e3o C\u00edrculo do Livro, 1976). Ali, para constrangimento de Amorim e qualquer cavalheiro honesto, o homem da CIA no Uruguai relatou, no di\u00e1rio de Montevid\u00e9u datado de 17 de junho de 1964, menos de tr\u00eas meses ap\u00f3s o golpe no Brasil:<br \/>\n[&#8230;] a base do Rio [da CIA] decidiu enviar mais dois de seus elementos para a embaixada do Brasil aqui \u2013 al\u00e9m do adido militar, coronel C\u00e2mara Sena. Um deles \u00e9 um funcion\u00e1rio de carreira de alto n\u00edvel do minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, Manoel Pio Correa, que vir\u00e1 como embaixador; o outro \u00e9 Lyle Fontoura, protegido de Pio Correa, que ser\u00e1 o novo primeiro-secret\u00e1rio. At\u00e9 o m\u00eas passado, Pio era embaixador do Brasil no M\u00e9xico, onde, de acordo com o curr\u00edculo enviado pela base [da CIA] do Rio, demonstrou muita efici\u00eancia nas tarefas operacionais para a base [da CIA] da Cidade do M\u00e9xico. Contudo, como o M\u00e9xico n\u00e3o reconheceu o novo governo militar do Brasil, Pio foi chamado de volta ao seu pa\u00eds e a base [da CIA] do Rio de Janeiro providenciou para que fosse nomeado para Montevid\u00e9u, que no momento \u00e9 o ponto em ebuli\u00e7\u00e3o da diplomacia brasileira.<br \/>\nAssim que chegarem os novos elementos do corpo diplom\u00e1tico, Holman [Ned. P., chefe da CIA em Montevid\u00e9u] entrar\u00e1 em contato com Pio, enquanto O\u2019Grady [Gerald, subchefe da CIA] se encarregar\u00e1 de entrevistar-se com Fontoura. De uma forma ou de outra, a base [da CIA] do Rio est\u00e1 decidida a elaborar opera\u00e7\u00f5es contra os exilados, e \u2013 ao que parece \u2013 Pio \u00e9 o homem indicado, pois tem perserveran\u00e7a suficiente para manter as press\u00f5es sobre o governo uruguaio.<br \/>\nCom a m\u00e3o pesada da CIA, Pio Correa foi premiado pelo governo Castelo Branco justamente com a embaixada em Montevid\u00e9u, onde se concentravam os inimigos que acompanharam Jo\u00e3o Goulart e Leonel Brizola ao ex\u00edlio. L\u00e1, o agente duplo da CIA Pio Correa, com o bra\u00e7o forte do adido militar, o coronel C\u00e2mara Senna, outro servi\u00e7al da ag\u00eancia americana, come\u00e7ou a montar o seu CIEx, formado inicialmente por uma rede de contatos que inclu\u00eda pol\u00edticos, militares, ju\u00edzes, delegados de pol\u00edcia, fazendeiros e comerciantes que fechavam o cerco sobre as atividades de Jango e Brizola no Uruguai.<br \/>\nA bem sucedida experi\u00eancia uruguaia o levou, como secret\u00e1rio executivo do chanceler Juracy Magalh\u00e3es, a redigir e assinar a portaria ultrassecreta que criou o CIEx no governo Castelo Branco. T\u00e3o secreta que nem constava da estrutura formal do pudico Itamaraty. A exist\u00eancia do CIEx s\u00f3 seria confirmada em 2007, exatamente quando Amorim era o chanceler do segundo governo Lula. A constrangedora revela\u00e7\u00e3o coube \u00e0 monumental s\u00e9rie de reportagens produzida pelo rep\u00f3rter Cl\u00e1udio Dantas Sequeira, do Correio Braziliense, revelando a a\u00e7\u00e3o repressiva da primeira ag\u00eancia criada sob o amparo do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI) e de seu criador, o general Golbery do Couto e Silva.<br \/>\nO rep\u00f3rter descobriu que, no in\u00edcio, o secreto CIEx foi camuflado como Assessoria de Documenta\u00e7\u00e3o de Pol\u00edtica Exterior, ou simplesmente ADOC, com verba secreta e subordinado \u00e0 Secretaria Geral de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Dos primeiros anos da ditadura at\u00e9 1975, funcionou dissimulado como seu criador na sala 410 do quarto andar do \u201cBolo de Noiva\u201d, o Anexo I do Pal\u00e1cio do Itamaraty, em Bras\u00edlia.<br \/>\nDesmontado com a ditadura em 1985, o lugar hoje abriga a inofensiva Divis\u00e3o de Promo\u00e7\u00e3o do Audiovisual. Vasculhando 20 mil p\u00e1ginas de documentos com 8 mil informes escondidos nos arquivos do CIEx, o rep\u00f3rter Sequeira apurou que, dos 380 brasileiros mortos ou desaparecidos durante o regime, os nomes de 64 das v\u00edtimas estavam l\u00e1, nas pastas secretas de Pio Correa. Atuando em linha com os adidos militares das embaixadas, a tropa civil dos adidos do CIEx de Pio Correa foi decisiva na atua\u00e7\u00e3o do Brasil na Opera\u00e7\u00e3o Condor, o Mercosul da repress\u00e3o que ca\u00e7ava e matava sob o mando e desmando dos generais do Cone Sul do continente.<br \/>\n<span class=\"intertit\">PROPOSTA INDECENTE<\/span><br \/>\nComo chefe dos diplomatas, Amorim n\u00e3o lembrou de pedir desculpas pelo CIEx. Como chefe dos militares, Amorim chegou a pensar em um pedido de desculpas dos generais pelos 21 anos de ditadura.<br \/>\nFoi o que ele fez em 18 de fevereiro passado, em seu gabinete no Minist\u00e9rio da Defesa, em Bras\u00edlia, na audi\u00eancia que concedeu aos seis comiss\u00e1rios da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<br \/>\nO ministro se remexeu na cadeira, surpreso e incomodado com a entrega inesperada do requerimento da CNV, listando sete locais de tortura e morte administrados pelo Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica.<br \/>\nEle reagiu com uma proposta inusitada, que desconcertou os comiss\u00e1rios: ofereceu, em nome dos comandantes das FFAA, um pedido p\u00fablico de desculpas ao pa\u00eds pelos excessos cometidos em duas d\u00e9cadas de arb\u00edtrio. Em troca, Amorim pediu \u00e0 CNV garantias de que n\u00e3o haveria a temida revis\u00e3o da Lei de Anistia que a ditadura se autoconcedeu em 1979 no governo Figueiredo, para salvar a pele e a biografia dos torturadores at\u00e9 hoje impunes.<br \/>\nOs comiss\u00e1rios reagiram na hora, com a altivez devida, rejeitando a proposta indecente de Amorim. Ela apenas retrata a preocupa\u00e7\u00e3o crescente dos quart\u00e9is com uma prov\u00e1vel recomenda\u00e7\u00e3o de impacto no relat\u00f3rio final da CNV, a ser apresentado ao pa\u00eds em dezembro pr\u00f3ximo.<br \/>\n\u00c9 cada vez mais forte a tend\u00eancia na CNV para recomendar a revis\u00e3o da anistia da ditadura, diante das pesadas evid\u00eancias e contundentes provas documentais que se acumulam sobre abusos e viol\u00eancias cometidos pelo regime arbitr\u00e1rio de 1964.<br \/>\nAceitar os termos do Ministro da Defesa para o pedido de desculpas dos generais seria uma indesculp\u00e1vel barganha pol\u00edtica que fere o bom-senso e a \u00e9tica.<br \/>\nSeria coisa ainda pior, a transgress\u00e3o de um mandamento p\u00e9treo proclamado pelo mestre maior de Amorim e seus colegas de carreira: \u201cUm diplomata n\u00e3o serve a um regime e sim ao seu pa\u00eds\u201d, ensinou o diplomata Jos\u00e9 Maria da Silva Paranhos J\u00fanior, o Bar\u00e3o do Rio Branco (1845-1912), o chanceler que atravessou quatro governos da nascente Rep\u00fablica, no in\u00edcio do S\u00e9culo 20, e ampliou o Brasil redesenhando suas fronteiras.<br \/>\nOs generais de hoje devem pedir desculpas \u00e0 Na\u00e7\u00e3o pelos erros cometidos pelos generais de ontem como um imperativo \u00e9tico que demarca fronteiras morais e faz uma justa e sanit\u00e1ria separa\u00e7\u00e3o entre o Ex\u00e9rcito da democracia, a que eles servem, e o Ex\u00e9rcito da ditadura, que eles deveriam repudiar para preservar a honra e a imagem hist\u00f3rica da corpora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAmorim esqueceu de se desculpar na GloboNews pelo desonroso CIEx. N\u00e3o recordou da ideia de um pedido de desculpas dos generais ao pa\u00eds. E, distra\u00eddo, n\u00e3o lembrou da ficha da rep\u00f3rter que o entrevistava no seu gabinete.<br \/>\nO ministro da Defesa, at\u00e9 pela autoridade do cargo, conhece os detalhes da biografia de M\u00edriam Leit\u00e3o que o Brasil desconhece. Amorim esqueceu que era entrevistado por uma sobrevivente da ditadura e das torturas que os generais sob seu comando agora negam, como negaram as torturas no DOI-CODI onde padeceu a guerrilheira da VAR-Palmares Dilma Rousseff.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O \u201cDOUTOR\u201d E A JIBoIA<\/span><br \/>\nM\u00edriam n\u00e3o integrava a luta armada, como Dilma. Nos idos de 1972, aos 19 anos, M\u00edriam era uma militante da base estudantil do ent\u00e3o clandestino PCdoB, que tentava derrubar em Vit\u00f3ria (ES) a mesma ditadura que mantinha Dilma no c\u00e1rcere, em S\u00e3o Paulo (SP).<br \/>\n\u201cA gente apenas pichava muros, espalhava cartazes nos pontos de \u00f4nibus e nas cabines de orelh\u00f5es. Lembro que um dia pichei \u2018Viva a guerrilha do sul do Par\u00e1! Abaixo a ditadura!\u2019. Um idealismo de jovens que acreditavam naquilo, que sabiam que era preciso resistir a tudo aquilo, at\u00e9 mesmo com um simples panfleto\u201d, lembrou M\u00edriam.<br \/>\nMineira de Caratinga, filha de um pastor presbiteriano e de uma professora prim\u00e1ria, sexto filho do casal (depois de tr\u00eas mulheres e dois homens) numa fam\u00edlia de 12 irm\u00e3os, ela cursava o primeiro ano de Hist\u00f3ria quando conseguiu um emprego na reda\u00e7\u00e3o de uma r\u00e1dio de Vit\u00f3ria, o que mudaria sua carreira para sempre.<br \/>\nEstreava na profiss\u00e3o como rep\u00f3rter quando sentiu na carne o peso da repress\u00e3o, sequestrada e presa durante tr\u00eas meses, entre dezembro de 1972 e fevereiro de 1973, no quartel do 38\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria do Ex\u00e9rcito em Vila Velha, onde foram encarceradas e torturadas cerca de 40 pessoas \u2013 a maioria estudantes da Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo e um dos professores, o m\u00e9dico V\u00edtor Buaiz, que fundou o PT, elegeu-se prefeito de Vit\u00f3ria em 1989 e sagrou-se governador do Estado em 1994.<br \/>\nNa primeira parte do livro Brasil: Nunca Mais, dedicado a \u201cCastigo Cruel, Desumano e Degradante\u201d, o Cap\u00edtulo 2 fala sobre \u201cModos e instrumentos de tortura\u201d. Na p\u00e1gina 39 do trabalho, um resumo do projeto original em 12 volumes escrito por Ricardo Kotscho e Frei Betto, existem oito depoimentos de presos pol\u00edticos torturados sob a rubrica \u201cInsetos e Animais\u201d.<br \/>\nO quarto depoimento, registrado no livro n\u00ba 674, volume 3, p\u00e1ginas 782v-783 do projeto Brasil: Nunca Mais, \u00e9 a transcri\u00e7\u00e3o parcial do auto de qualifica\u00e7\u00e3o e interrogat\u00f3rio de uma jornalista, ent\u00e3o com 20 anos, chamada M\u00edriam de Almeida Leit\u00e3o Netto. Suas palavras:<br \/>\n[&#8230;] que, apesar de estar gr\u00e1vida na ocasi\u00e3o e disto ter ci\u00eancia os seus torturadores [&#8230;] ficou v\u00e1rios dias sem qualquer alimenta\u00e7\u00e3o;<br \/>\n[&#8230;] que as pessoas que procediam o interrogat\u00f3rios, soltavam c\u00e3es e cobras para cima da interrogada; [&#8230;]<br \/>\nNo livro de Kotscho e Betto havia outro depoimento, de um auxiliar de escrit\u00f3rio de 31 anos, Dalton Godinho Pires, que em 1973, no volume 5 do livro n\u00b0 75, p\u00e1gina 1224, revelou no seu interrogat\u00f3rio:<br \/>\n[&#8230;] havia tamb\u00e9m, em seu cub\u00edculo, a lhe fazer companhia, uma jiboia de nome M\u00edriam [&#8230;]<br \/>\nN\u00e3o era uma piada. Era uma jiboia mesmo, um exemplar da boa constrictor,a segunda maior cobra do Brasil (s\u00f3 menor que a sucuri), que mede em m\u00e9dia tr\u00eas metros de comprimento.<br \/>\nO autor deste artigo lembrou desses dados e entrou em contato com M\u00edriam Leit\u00e3o para esclarecer melhor sua dram\u00e1tica passagem pelo quartel do Ex\u00e9rcito na praia de Piratininga, no bairro Prainha de Vila Velha, 12 quil\u00f4metros ao sul da capital capixaba. M\u00edriam me contou:<br \/>\n\u201cFiquei presa ali, no 38\u00ba Batalh\u00e3o. Os torturadores vieram de fora e, depois, sumiram. Eles trouxeram a cobra. Eu lembro que chamavam o pior dos torturadores, o dono da cobra, de Dr. Pablo.\u201d<br \/>\nDr. Pablo era o codinome de um dos mais truculentos oficiais do DOCI-CODI do II Ex\u00e9rcito, na Rua Bar\u00e3o de Mesquita, no bairro carioca da Tijuca: Paulo Malh\u00e3es, coronel do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE).<br \/>\nEm mar\u00e7o passado Malh\u00e3es deu um aterrador depoimento \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, numa sess\u00e3o no Rio com a presen\u00e7a da imprensa.<br \/>\nAli confessou ter arrancado as arcadas dent\u00e1rias e cortado os dedos de presos mortos sob tortura para n\u00e3o permitir a identifica\u00e7\u00e3o dos corpos desaparecidos. Um m\u00eas depois da confiss\u00e3o, Malh\u00e3es foi encontrado morto em seu s\u00edtio, na Baixada Fluminense, aparentemente v\u00edtima de infarto ap\u00f3s ter a casa invadida por tr\u00eas bandidos, que fugiram dali levando, entre outros artigos bizarros para um ladr\u00e3o, tr\u00eas pastas de documentos e o disco r\u00edgido de um dos dois computadores do coronel.<br \/>\nDois anos antes, em junho de 2012, Malh\u00e3es confirmou ser o dono da M\u00edriam, a cobra que deslizou pela cela da aterrorizada M\u00edriam no batalh\u00e3o do Ex\u00e9rcito em Vila Velha. O coronel do CIE contou aos rep\u00f3rteres de O Globo Chico Ot\u00e1vio, Juliana del Piva e Marcelo Rem\u00edgio que, na primeira metade da d\u00e9cada de 1970, levou cinco filhotes de jacar\u00e9 e uma jiboia para torturar os presos na carceragem do Pelot\u00e3o de Investiga\u00e7\u00f5es Criminais (PIC) do I Ex\u00e9rcito, na Bar\u00e3o de Mesquita, sede do DOI-CODI carioca, onde podem ter morrido 30 presos, segundo estimativas da CNV.<br \/>\nMalh\u00e3es tinha atuado na \u201cCasa Azul\u201d, o QG da repress\u00e3o \u00e0 guerrilha do Araguaia, instalado na antiga sede do DNER em Marab\u00e1, no sul do Par\u00e1. Ali, segundo levantamento da CNV, morreram 24 presos, 22 dos quais militantes do PCdoB, o mesmo partido pelo qual M\u00edriam pichava muros e espalhava panfletos em Vit\u00f3ria antes do encontro dram\u00e1tico com a M\u00edriam do Dr. Pablo.<br \/>\nO coronel contou aos rep\u00f3rteres de O Globo:<br \/>\n\u201cEu estava um dia \u00e0 beira de um rio, na regi\u00e3o do Araguaia, quando senti a terra tremer. Descobri que estava sentado em cima de um ninho com filhotes de jacar\u00e9. Consegui pegar cinco, que batizei de Pata,Peta,Pita,Pota eJo\u00e3ozinho. E ainda peguei uma jiboia de seis metros, que chamei de M\u00edriam. Trouxe todos para o DOI-CODI, no Rio. Os filhotes de jacar\u00e9 n\u00e3o mordiam. S\u00f3 faziam tec-tec com a boca&#8230;\u201d<br \/>\nO jornalista mineiro Dalton Godinho Pires, citado pelo Brasil: Nunca Mais, ficou quatro anos preso, mas gravou na pele e na mem\u00f3ria os 90 dias de terror no PIC da Bar\u00e3o de Mesquita, gra\u00e7as \u00e0 M\u00edriam.<br \/>\nLocalizado em 2012 pelo rep\u00f3rter Chico Ot\u00e1vio, Pires lhe contou:<br \/>\n\u201cEles chegaram com um isopor enorme, apagaram a luz e ligaram um som alt\u00edssimo. Percebi na hora que era uma cobra imensa, que eles chamavam de M\u00edriam. Felizmente, ela n\u00e3o quis nada comigo. Mas, irritada com a m\u00fasica, a cobra n\u00e3o parava de se mexer. O corpo dela, ao se deslocar, arranhou o meu. Cheguei a sangrar. Mas o maior trauma foi o cheiro que ela exalava, um fedor que custei a esquecer.\u201d<br \/>\n<span class=\"intertit\">VERSO E REVERSO<\/span><br \/>\nQuando leu esta reportagem dois anos atr\u00e1s, no jornal em que trabalha, M\u00edriam teve uma longa e privada crise de choro, ao cruzar na mem\u00f3ria de dor o relato de cobras e jacar\u00e9s da reparti\u00e7\u00e3o de terror do coronel Malh\u00e3es.<br \/>\n\u201cEra muita coincid\u00eancia. A ningu\u00e9m eu disse isso, nem aos meus filhos\u201d, confessou-me ela, sempre refrat\u00e1ria a discutir publicamente o seu drama pessoal. \u201cGuardo aqui a sensa\u00e7\u00e3o de que a minha dor eu mesmo curo. N\u00e3o \u00e9 dela que se trata. O que \u00e9 importante \u00e9 a dor do pa\u00eds e ela faz certas exig\u00eancias \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. Uma delas \u00e9 esse reconhecimento das For\u00e7as Armadas de que erraram\u201d.<br \/>\nCom a eleg\u00e2ncia exigida, M\u00edriam preservou os limites institucionais de sua entrevista com o Ministro da Defesa, sem jamais confundir sua hist\u00f3ria de vida com a vida do pa\u00eds, embora elas se cruzem e se confundam.<br \/>\nA consci\u00eancia de que tinha diante de si uma sobrevivente da ditadura deve explicar o desempenho nervoso de Amorim na entrevista, ao tentar defender o que ele sabia, de corpo presente, n\u00e3o ser verdade.<br \/>\nAos 61 anos, m\u00e3e de dois filhos, ambos jornalistas (Vladimir, rep\u00f3rter da Rede Globo em Bras\u00edlia, e Matheus, rep\u00f3rter da Folha de S.Paulo na sede do jornal), e av\u00f3 de quatro netos, M\u00edriam \u00e9 hoje uma das mais importantes profissionais da imprensa brasileira.<br \/>\nAcumula 24 pr\u00eamios de jornalismo, a terceira maior cole\u00e7\u00e3o de trof\u00e9us no ranking nacional do site Jornalistas &amp; Cia, logo atr\u00e1s dos campeon\u00edssimos Jos\u00e9 Hamilton Ribeiro, o mais premiado rep\u00f3rter brasileiro de todos os tempos, e Eliane Brum.<br \/>\nEm 2005, M\u00edriam tornou-se a primeira jornalista brasileira a receber o Pr\u00eamio Maria Moors Cabot, patrocinado pela prestigiosa Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia (EUA), uma das mais importantes do mundo. Em 2012, M\u00edriam produziu para a GloboNews um programa especial de 50 minutos, A hist\u00f3ria inacabada, com um devastador relato sobre o sequestro, tortura e morte do ex-deputado Rubens Paiva. O trabalho lhe deu o Pr\u00eamio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, concedido pelo Sindicato dos Jornalistas de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nExiste uma maneira simples para definir a qualidade do jornalismo e a ess\u00eancia da conduta profissional de M\u00edriam Leit\u00e3o. Veja e reveja os dois programas que ela conduziu com brilho e coragem para a GloboNews. Aquele sobre a hist\u00f3ria inacabada do desaparecido Rubens Paiva, este sobre o desempenho do irresoluto Celso Amorim. O ex-deputado e o atual ministro s\u00e3o, por raz\u00f5es opostas, o verso e o reverso de um mesmo pa\u00eds, ainda atolado no medo end\u00eamico e no cinismo contagioso que rebaixa o debate sobre nosso passado recente.<br \/>\nAs perguntas de M\u00edriam e as respostas de Amorim provam, na telinha da GloboNews, que ainda existem jib\u00f3ias que se enroscam na mentira e jacar\u00e9s que tentam atemorizar a verdade. O did\u00e1tico enfrentamento na TV entre a rep\u00f3rter e o ministro deixou claro, para os que querem ver, quem enfrenta a jiboia e quem instiga os jacar\u00e9s.<br \/>\n<span class=\"intertit\"><strong>O inferno das duas M\u00edriam: a jornalista e a jiboia<\/strong><\/span><br \/>\nTr\u00eas anos atr\u00e1s, sem contar nada ao marido e aos filhos, M\u00edriam Leit\u00e3o fez uma furtiva viagem de volta ao passado e ao inferno de sua juventude.<br \/>\nSaiu do Rio de Janeiro e uma hora depois desembarcou em Vit\u00f3ria. Pegou um carro, atravessou a Terceira Ponte, que liga a capital \u00e0 cidade de Vila Velha, do outro lado da ba\u00eda, e seguiu em dire\u00e7\u00e3o a um dos principais pontos tur\u00edsticos do Estado: o morro da Penha, uma eleva\u00e7\u00e3o de 150 metros de onde se admira uma bela paisagem. No alto est\u00e1 o velho Convento da Penha, com uma hist\u00f3ria de 454 anos. Ao p\u00e9 do morro est\u00e1 outro monumento: o Forte de Piratininga, ali plantado em meados do s\u00e9culo 16.<br \/>\nM\u00edriam n\u00e3o fazia um repentino programa de turista. Era uma dorida viagem interior ao cen\u00e1rio dos piores momentos que a jornalista passou em sua vida. \u201cQuando o pa\u00eds come\u00e7ou a discutir a cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade, por volta de 2011, decidi voltar l\u00e1. Eu quis fazer minha viagem pessoal, um retorno particular \u00e0 minha hist\u00f3ria\u201d, explica M\u00edriam, no emocionado desabafo que faz pela primeira vez, quatro d\u00e9cadas ap\u00f3s o inferno que amargou naquele cen\u00e1rio hoje encantador.<br \/>\nDesde o final da Primeira Guerra Mundial, o forte l\u00e1 embaixo abriga um batalh\u00e3o de infantaria subordinado ao Comando Militar do Leste (antigo I Ex\u00e9rcito), no Rio de Janeiro. A constru\u00e7\u00e3o mais antiga, redonda, \u00e9 o pr\u00e9dio hist\u00f3rico da Fortaleza S\u00e3o Francisco Xavier de Piratininga, reformado no s\u00e9culo 17. Foi ali que a M\u00edriam quase adolescente de 1972, uma menina gr\u00e1vida de 19 anos, desceu ao submundo da repress\u00e3o desatinada que marcava o auge da viol\u00eancia do governo mais truculento da ditadura, o do general Em\u00edlio Garrastaz\u00fa M\u00e9dici.<br \/>\nNo in\u00edcio do s\u00e9culo 20, a unidade ainda se chamava 3\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores. Em setembro de 1972, tr\u00eas meses antes da pris\u00e3o ali de M\u00edriam Leit\u00e3o, o lugar mudou de nome, passando a chamar-se 38\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria. Entre os 707 processos pol\u00edticos vasculhados no Superior Tribunal Militar pelo projeto Brasil: Nunca Mais, seis deles procedem do \u00fanico quartel do Ex\u00e9rcito baseado em solo capixaba, oriundos do belo forte de Vila Velha. Neles, constam 46 den\u00fancias de torturas consumadas no antigo 3\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores. Outros 13 casos de torturas envolvem o atual 38\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria. Todos se referem ao ano de 1972. Um deles \u00e9 o de M\u00edriam.<br \/>\nFoi l\u00e1 que M\u00edriam enfrentou a dana\u00e7\u00e3o de um nome que resumia como ningu\u00e9m a trucul\u00eancia do regime: o coronel Paulo Malh\u00e3es, o temido \u201cDr. Pablo\u201d do DOI-CODI da Rua Bar\u00e3o de Mesquita. Ao ver na TV o velho torturador de 76 anos depondo para a Comiss\u00e3o da Verdade, cinco meses atr\u00e1s, M\u00edriam chegou a duvidar que fosse o mesmo e fogoso oficial de 34 anos e cabeleira negra e farta que comandou seu interrogat\u00f3rio. Mas ela recorda bem que os outros militares o chamavam de \u201cDr. Pablo\u201d, o codinome que Malh\u00e3es usava no DOI-CODI. Existe outra forte coincid\u00eancia a confirmar a identidade do doutor com o coronel. Malh\u00e3es veio do Rio trazendo um acess\u00f3rio de tortura que o tornou inconfund\u00edvel na mitologia da repress\u00e3o, pelo inusitado da escolha: uma cobra.<br \/>\nNa verdade, uma jiboia que Malh\u00e3es trouxe do Araguaia e casualmente apelidou de M\u00edriam. Talvez para assustar ainda mais suas v\u00edtimas, o coronel dizia que a cobra media seis metros de comprimento. Um evidente exagero do \u201cDr. Pablo\u201d, pois nem M\u00edriam lembra de uma cobra t\u00e3o grande. Jiboia dessa dimens\u00e3o, com 6 metros e 120 kg de peso, s\u00f3 foi vista anos atr\u00e1s no Camboja. Uma jiboia amaz\u00f4nica como M\u00edriam \u00e9 mais modesta, varia entre 2 e 3 metros e tem 50 kg de peso, ainda assim com tamanho suficiente para intimidar qualquer um.<br \/>\nDurante horas de um dia assustador a jiboia do \u201cDr. Pablo\u201d foi a solit\u00e1ria companhia na sala onde M\u00edriam Leit\u00e3o esteve trancafiada no quartel. Quando voltou \u00e0 vida, libertada tr\u00eas meses depois, a jovem franzina que s\u00f3 pesava 50 kg tinha perdido 11 kg no cativeiro, onde chegou com um m\u00eas de gravidez.<br \/>\nPara a visita agora a esse passado de terror, M\u00edriam contou com a ajuda do ex-governador Paulo Hartung, que conhecia o comandante de 2011 da guarni\u00e7\u00e3o e facilitou o acesso da ex-presa. \u201cFui sozinha, n\u00e3o queria ningu\u00e9m junto comigo. Era uma jornada s\u00f3 minha. Entrei e n\u00e3o precisei que ningu\u00e9m me mostrasse o caminho. Era esquisito, n\u00e3o tenho bom senso de orienta\u00e7\u00e3o, mas eu conhecia aquele quartel como a palma da minha m\u00e3o. Percebi algumas reformas, paredes que n\u00e3o existem mais, escadas que mudaram de lugar, salas que foram modificadas.<br \/>\nN\u00e3o me permitiram ir a alguns lugares, mas o essencial estava na minha mem\u00f3ria\u201d, conta M\u00edriam, hoje, com o tremor na voz que trai os dem\u00f4nios que assombraram aquele lugar. Ela posou para fotos junto \u00e0 porta da cela onde ficou um tempo, tiradas pelo motorista que a acompanhava. E conseguiu voltar \u00e0 sala grande onde passou a madrugada de horror com sua hom\u00f4nima jiboia. \u201cO lugar agora \u00e9 um anfiteatro, mas eu fui direto ao ponto onde me mantiveram de p\u00e9, nua, durante horas, antes e durante o tempo em que fiquei com a cobra. \u00c9 uma imagem que n\u00e3o sai da minha cabe\u00e7a. Ali eu fiz essa foto\u201d, explica, abrindo pela primeira vez seu arquivo pessoal.<br \/>\nM\u00edriam, em meio a tanto sofrimento, lembra de um paradoxo que vivia na \u00e9poca: \u201cMinha cela ficava na fortaleza. Quando eu sa\u00eda de l\u00e1 \u00e0 noite e era levada para outro local de tortura, eu a contornava e passava pela escadaria. Sa\u00eda desse belo pr\u00e9dio circular, \u00e0s margens da ba\u00eda \u2013 e que hoje, por ironia, o Ex\u00e9rcito aluga para festas \u2013, e era levada para a parte nova do quartel onde funcionavam algumas se\u00e7\u00f5es administrativas do quartel.<br \/>\nOlhava aquele lugar lindo, lindo at\u00e9 hoje, o convento l\u00e1 em cima, e pensava o quanto nada daquilo fazia sentido. Era uma beleza que contrastava com a viol\u00eancia daquele lugar. Eu n\u00e3o conseguia entender isso. N\u00e3o entendia naquela \u00e9poca, n\u00e3o entendo at\u00e9 hoje\u201d, diz M\u00edriam, a voz embargada pela emo\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. Pela primeira vez, M\u00edriam Leit\u00e3o conta aqui como viveu, e sobreviveu, naquele lugar:<br \/>\n<span class=\"intertit\">DEPOIMENTO DE M\u00cdRIAM LEIT\u00c3O<\/span><br \/>\n\u201cEu sozinha e nua. Eu e a cobra. Eu e o medo\u201d<br \/>\nEu morava numa favela de Vit\u00f3ria, o Morro da Fonte Grande. Num domingo, 3 de dezembro de 1972, eu e meu companheiro na \u00e9poca, Marcelo Netto, estudante de Medicina, acordamos cedo para ir \u00e0 praia do Canto, pr\u00f3xima ao centro da capital.<br \/>\nAcordei para ir \u00e0 praia e acabei presa na Prainha. \u00c9 o bairro que abriga o Forte de Piratininga, essa constru\u00e7\u00e3o bonita do s\u00e9culo 17. Ali est\u00e1 instalado o quartel do 38\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria do Ex\u00e9rcito, do outro lado da ba\u00eda.<br \/>\nEu tinha dado quatro plant\u00f5es seguidos na reda\u00e7\u00e3o da r\u00e1dio Esp\u00edrito Santo e j\u00e1 tinha quase um ano de profiss\u00e3o. Eu vestia uma camisa branca larga, de homem, sobre o biquini vermelho. Caminhando pela Rua Sete em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia, algu\u00e9m gritou de repente:<br \/>\n\u2013 Ei, Marcelo?<br \/>\nNos viramos e vimos dois homens correndo em nossa dire\u00e7\u00e3o com armas. Eu reconheci um rosto que vira em frente \u00e0 Pol\u00edcia Federal. Meu \u00f4nibus sempre passava em frente \u00e0 sede da PF e eu tentava guardar os rostos.<br \/>\n\u2013 \u00c9 a Pol\u00edcia Federal \u2013 avisei ao Marcelo<br \/>\nEm instantes est\u00e1vamos cercados. Apareceram mais homens, mais um carro. Voltei a perguntar:<br \/>\n\u2013 O que est\u00e1 acontecendo?<br \/>\nEles nos algemaram e empurraram o Marcelo para o cambur\u00e3o. Era uma camionete Veraneio, sem identifica\u00e7\u00e3o. Eu tive uma rea\u00e7\u00e3o curiosa: antes que me empurrassem sentei no ch\u00e3o da cal\u00e7ada e comecei a gritar, a berrar como louca, queria chamar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas na rua. Mas ainda era cedo, manh\u00e3 de domingo, havia pouca gente circulando.<br \/>\nAchava que quanto mais gente visse aquela cena, mais chances eu teria de sair viva. Como eu berrava, me puxaram pelos cabelos, me agarraram para me colocar no carro. Eu, ainda com aquela coisa de Justi\u00e7a na cabe\u00e7a, reclamei:<br \/>\n\u2013 Mo\u00e7o, cad\u00ea a ordem de pris\u00e3o?<br \/>\nO homem botou a metralhadora no meu peito e respondeu com outra pergunta:<br \/>\n\u2013 Esta serve?<br \/>\nAs algemas eram diferentes, eram de pl\u00e1stico, e estavam muito apertadas, do\u00edam no pulso. Viajamos sem capuz, eu e Marcelo, em dire\u00e7\u00e3o a Vila Velha, onde fica o quartel do Ex\u00e9rcito. Eu ainda achava que n\u00e3o era nada comigo, que o alvo era o Marcelo.<br \/>\nEle estava no quarto ano de Medicina e tinha acabado de liderar a \u00fanica greve de estudantes do pa\u00eds daquele ano, que trancou por dois dias as aulas na universidade de Vit\u00f3ria e paralisou os trabalhos no Hospital de Cl\u00ednicas. Achei que estava presa s\u00f3 porque estava indo \u00e0 praia com o Marcelo.<br \/>\nA Veraneio entrou no p\u00e1tio do quartel, o batalh\u00e3o de infantaria. Nos levaram por um corredor e nos separaram. Marcelo foi viver seu inferno, que durou 13 meses, e eu o meu.<br \/>\nSobre mim jogaram c\u00e3es pastores babando de raiva. Eles ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: \u201cTerrorista, terrorista!\u201d. Pareciam treinados para ficar mais bravos quando eram incitados pela palavra maldita. De repente, os soldados que me cercavam come\u00e7aram a cantar aquela m\u00fasica do Ataulfo Alves: \u201cAm\u00e9lia n\u00e3o tinha a menor vaidade\/ Am\u00e9lia \u00e9 que era mulher de verdade\u201d.<br \/>\nS\u00f3 ent\u00e3o percebi que minha pris\u00e3o n\u00e3o era um engano. \u201cAm\u00e9lia\u201d era o codinome que o meu chefe de ala no PCdoB tinha escolhido pra mim: \u201cVoc\u00ea, a partir de agora, vai se chamar Am\u00e9lia\u201d. Quis reagir na hora, afinal n\u00e3o tenho nada de Am\u00e9lia, mas n\u00e3o quis discordar logo na primeira reuni\u00e3o com o dirigente&#8221;.<br \/>\nO comandante do batalh\u00e3o era o coronel Sequeira [tenente-coronel Geraldo C\u00e2ndido Sequeira, que exerceu o comando do 38\u00ba BI entre 10 de mar\u00e7o de 1971 a 13 de mar\u00e7o de 1973], que fingia que mandava, mas n\u00e3o via nada do que acontecia por l\u00e1. O homem que de fato mandava naquele lugar, naquele tempo, era o capit\u00e3o Guilherme, o \u00fanico nome que se conhecia dele.<br \/>\nEle era o chefe do S-2, o setor de intelig\u00eancia do batalh\u00e3o. Todos os interrogat\u00f3rios e torturas estavam sob a coordena\u00e7\u00e3o dele. Ele pessoalmente nada fazia, mas a ele tudo era comunicado. Nesse primeiro dia me deu um bofet\u00e3o s\u00f3 porque eu o encarei.<br \/>\n\u2013 Nunca mais me olhe assim! \u2013 avisou.<br \/>\nFui levada para uma grande sala vazia, sem m\u00f3veis, com as janelas cobertas por um pl\u00e1stico preto. Com a luz acesa na sala, vi um pequeno palco elevado, onde me colocaram de p\u00e9 e me mandaram n\u00e3o recostar na parede.<br \/>\nChegaram tr\u00eas homens \u00e0 paisana, um com muito cabelo, preto e liso, um outro ruivo e um descendente de japon\u00eas. Mandaram eu tirar a roupa. Uma pe\u00e7a a cada cinco minutos. Tirei o chinelo. O de cabelo preto me bateu:<br \/>\n\u2013 A roupa! Tire toda a roupa.<br \/>\nFui tirando, constrangida, cada pe\u00e7a. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns 10 soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as m\u00e3os. O homem de cabelo preto falou:<br \/>\n\u2013 Posso dizer a todos eles para irem pra cima de voc\u00ea, menina. E aqui n\u00e3o tem volta. Quando come\u00e7amos, vamos at\u00e9 o fim.<br \/>\nOs soldados ficaram me olhando e os tr\u00eas homens \u00e0 paisana gritavam, amea\u00e7ando me atacar, um clima de estupro iminente. O tempo nessas horas \u00e9 relativo, n\u00e3o sei quanto tempo durou essa primeira amea\u00e7a. Viriam outras.<br \/>\nEles sa\u00edram e o homem de cabelo preto, que algu\u00e9m chamou de Dr. Pablo, voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no ch\u00e3o da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, sa\u00edram e me deixaram ali, sozinha com a cobra.<br \/>\nEu n\u00e3o conseguia ver nada, estava tudo escuro, mas sabia que a cobra estava l\u00e1. A \u00fanica coisa que lembrei naquele momento de pavor \u00e9 que cobra \u00e9 atra\u00edda pelo movimento.<br \/>\nEnt\u00e3o, fiquei est\u00e1tica, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um ver\u00e3o quente em Vit\u00f3ria, mas eu tremia toda. N\u00e3o era de frio. Era um tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor volta.<br \/>\nTinha medo da cobra que n\u00e3o via, mas que era minha \u00fanica companhia naquela sala sinistra. A escurid\u00e3o, o longo tempo de espera, ficar de p\u00e9 sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo do\u00eda.<br \/>\nN\u00e3o sei quanto tempo durou esta agonia. Foram horas. Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o de dia ou noite na sala escurecida pelo pl\u00e1stico preto. E eu ali, sozinha, nua. S\u00f3 eu e a cobra. Eu e o medo. O medo era ainda maior porque n\u00e3o via nada, mas sabia que a cobra estava ali, por perto.<br \/>\nN\u00e3o sabia se estava se movendo, se estava parada. Eu n\u00e3o ouvia nada, n\u00e3o via nada. N\u00e3o era poss\u00edvel nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Ex\u00e9rcito brasileiro. Lembro que quando aqueles tr\u00eas homens voltaram, davam gargalhadas, riam da situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEu pensava que era s\u00f3 sadismo. N\u00e3o sabia que na tortura brasileira havia uma cobra, uma jiboia usada para aterrorizar e que al\u00e9m de tudo tinha o apelido de M\u00edriam. Nem sei se era a mesma. Se era, talvez fosse esse o motivo de tanto riso. M\u00edriam e M\u00edriam, juntas na mesma sala. Essa era a gra\u00e7a, imagino.<br \/>\nDr. Pablo voltou, depois, com os outros dois, e me encheu de perguntas. As de sempre: o que eu fazia, quem conhecia. Me davam tapas, chutes, puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabe\u00e7a na parede. Eu sangrava na nuca, o sangue molhou meu cabelo.<br \/>\nNingu\u00e9m tratou de minha ferida , n\u00e3o me deram nenhum alimento naquele dia, exceto um copo de suco de laranja que, com a forte bofetada do capit\u00e3o Guilherme, eu deixei cair no ch\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o recebi um \u00fanico telefonema, n\u00e3o vi nenhum advogado, ningu\u00e9m sabia o que tinha acontecido comigo, eu n\u00e3o sabia se as pessoas tinham ideia do meu desaparecimento. S\u00f3 tr\u00eas dias ap\u00f3s minha pris\u00e3o \u00e9 que meu pai recebeu, em Caratinga, um telefonema an\u00f4nimo de uma mulher dizendo que eu tinha sido presa.<br \/>\nEle procurou muito e s\u00f3 conseguiu me localizar no fim daquele dezembro. Havia outros presos no quartel, mas s\u00f3 ao final de tr\u00eas semanas fui colocada na cela com a outras presas: Angela, Badora, Beth, Magdalena, estudantes, como eu.<br \/>\nFiquei 48 horas sem comer. Eu entrei no quartel com 50 kg de peso, sa\u00ed tr\u00eas meses depois pesando 39 kg. Eu cheguei l\u00e1 com um m\u00eas de gravidez, e tinha enormes chances de perder meu beb\u00ea.<br \/>\nFoi o que m\u00e9dico me disse, quando sa\u00ed de l\u00e1, com quatro meses de gesta\u00e7\u00e3o. Eu estava deprimida, mal alimentada, tensa, assustada, an\u00eamica, com car\u00eancia aguda de vitamina D por falta de sol. Nada que uma mulher deve ser para proteger seu beb\u00ea na barriga. Se meu filho sobrevivesse, teria sequelas, me disse o m\u00e9dico.<br \/>\n\u2013 A m\u00e1 not\u00edcia eu j\u00e1 sei, doutor, vou procurar logo um m\u00e9dico que me diga o que fazer para aumentar as chances do meu filho.<br \/>\nMas isso foi ao sair. L\u00e1 dentro achei que n\u00e3o havia chance alguma para n\u00f3s. Eu era levada de uma sala para outra, numa \u00e1rea administrativa do quartel, onde passava por outras sess\u00f5es de perguntas, sempre as mesmas, tudo aos gritos, para manter o clima de terror, de intimida\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNa noite seguinte, atravessei a madrugada com uma sess\u00e3o de interrogat\u00f3rio pesado, o Dr. Pablo e os outros dois berrando, me amea\u00e7ando de estupro, dizendo que iam me matar. Um dia achei que iria morrer.<br \/>\nEntraram no meio da noite na cela do forte para onde eu fui levada ap\u00f3s esses dois dias. Falaram que seria o \u00faltimo passeio e me levaram para um lugar escuro, no p\u00e1tio do quartel, para simular um fuzilamento.<br \/>\nVi minha sombra refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de c\u00e3es e fuzis, e pensei: \u201cEu sou muito nova para morrer. Quero viver\u201d.<br \/>\nUm dia, um outro militar, que n\u00e3o era nenhum daqueles tr\u00eas, botou um rev\u00f3lver na minha cabe\u00e7a e falou: \u201cEu posso te matar\u201d. E for\u00e7ou aquele cano frio na minha testa. Me deu um sentimento enorme de solid\u00e3o, de abandono. Eu me senti absolutamente s\u00f3 no mundo. Pela falta de not\u00edcias, imaginava que o Marcelo estava morto. Entendi que iria morrer tamb\u00e9m e que ningu\u00e9m saberia da minha morte, pensei. Mas n\u00e3o quis demonstrar medo.<br \/>\nLembro que o homem do rev\u00f3lver tinha olhos azuis. Olhei nos seus olhos e respondi: \u201cSim, voc\u00ea pode pode me matar\u201d. E repeti, falando ainda mais alto, com ar de desafio: \u201cSim, voc\u00ea pode!\u201d<br \/>\nUm dos interrogat\u00f3rios foi feito na sala do capit\u00e3o Guilherme, o S-2 que mandava em todos ali. Era noite, ele n\u00e3o estava, e me interrogaram na sala dele. Lembro dela porque havia na parede um quadro com a imagem do Duque de Caxias. Estava ainda com o biqu\u00edni e a camisa, era a \u00fanica roupa que eu tinha, que me protegia. Nessa noite, na sala, de novo fui desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando, me bolinando, brincando comigo.<br \/>\nUm deles me obrigou a deitar com ele no sof\u00e1. N\u00e3o chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro, divertindo-se com tudo aquilo.<br \/>\nEu estava com um m\u00eas de gravidez, e disse isso a eles. N\u00e3o adiantou. Ignoraram a revela\u00e7\u00e3o e minha condi\u00e7\u00e3o de gr\u00e1vida n\u00e3o aliviou minha condi\u00e7\u00e3o l\u00e1 dentro. Minha cabe\u00e7a do\u00eda, com a pancada na parede, e o sangue coagulado na nuca incomodava.<br \/>\nEu n\u00e3o podia me lavar, n\u00e3o tinha nem roupa para trocar. Quando pensava em descansar e dormir um pouco, \u00e0 noite, o lugar onde estava de repente era invadido, aos gritos, com um bando de pastores alem\u00e3es latindo na minha cara. N\u00e3o mordiam, mas pareciam que iam me estra\u00e7alhar, se escapassem da coleira.<br \/>\nE, para enfurecer ainda mais os c\u00e3es, os soldados gritavam a palavra que enlouquecia a cachorrada: \u201cTerrorista, terrorista!&#8230;\u201d<br \/>\nAs primeiras tr\u00eas semanas que passei l\u00e1 foram terr\u00edveis. S\u00f3 melhorou quando o Dr. Pablo e seus dois companheiros foram embora. Entendi ent\u00e3o que eles n\u00e3o pertenciam ao quartel de Vila Velha. Tinham vindo do Rio, \u00e9 o que chegaram a conversar entre eles, em papos casuais: \u201cE a\u00ed, quando voltarmos ao Rio, o que a gente vai fazer l\u00e1&#8230;\u201d Isso fazia sentido, porque o quartel de Vila Velha integra o Comando do I Ex\u00e9rcito, hoje Comando do Leste, que tem o QG no Rio de Janeiro.<br \/>\nQuando o trio voltou para o Rio, a situa\u00e7\u00e3o ficou menos ruim. Eles j\u00e1 n\u00e3o tinham mais nada para perguntar. Me tiraram da cela da fortaleza e me levaram para a cela coletiva. Foi melhor. Na cela do forte n\u00e3o havia janelas, a porta era inteiri\u00e7a e minhas companhias eram apenas as baratas. Fiz uma foto minha, agora em 2011, ao lado da porta.<br \/>\nAt\u00e9 que chegou o dia de assinar a confiss\u00e3o, para dar in\u00edcio ao IPM, o inqu\u00e9rito policial-militar que acontecia l\u00e1 mesmo, dentro do quartel. Me levaram para a sala do capit\u00e3o Guilherme, o S-2, e levei um susto. L\u00e1 estava o Marcelo, que eu pensava estar morto.<br \/>\nOs militares sa\u00edram da sala e nos deixaram sozinhos. Quando eu fui falar alguma coisa, o Marcelo me fez um sinal para ficar calada. Ele levantou, foi at\u00e9 a parede e levantou o quadro do Duque de Caxias. Estava cheio de fios e microfones l\u00e1 atr\u00e1s. Era tudo grampo.<br \/>\nDepois disso, o Marcelo foi levado para o Regimento Sampaio, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e l\u00e1 ficou nove meses numa solit\u00e1ria. Sem banho de sol, sem nada para ler, sem ningu\u00e9m para conversar. Foi colocado l\u00e1 para enlouquecer. Nove longos e solit\u00e1rios meses&#8230; N\u00f3s, todos os presos, e os que j\u00e1 estavam soltos nos encontramos mais ou menos em junho na 2\u00aa Auditoria da Aeron\u00e1utica, para o que eles chamam de sum\u00e1rio de culpa, o \u00fanico momento em que o r\u00e9u fala.<br \/>\nEu com uma barriga de sete meses de gravidez. O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e picha\u00e7\u00f5es. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indeniza\u00e7\u00e3o, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confian\u00e7a de que meus netos n\u00e3o viver\u00e3o o que eu vivi. \u00c9 preciso reconhecer o erro para n\u00e3o repeti-lo. As For\u00e7as Armadas nunca reconheceram o que fizeram.<br \/>\nNunca mais vi o capit\u00e3o Guilherme, o S-2 que comandou tudo aquilo. Uma vez ele apareceu no Superior Tribunal Militar como assessor de um ministro. Marcelo foi expulso do curso de Medicina, ap\u00f3s a pris\u00e3o, e virou jornalista. Fomos para Bras\u00edlia em 1977.<br \/>\nPor ironia do destino, Marcelo s\u00f3 conseguiu vaga de rep\u00f3rter para cobrir os tribunais. E l\u00e1 no STM, um dia, ele reviu o capit\u00e3o Guilherme. Depois disso, n\u00e3o soubemos mais dele. Nem sei se o S-2 ainda est\u00e1 vivo.<br \/>\nO que eu sei \u00e9 que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer.<br \/>\nSei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha hist\u00f3ria importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros.<br \/>\nSobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saud\u00e1vel, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho ca\u00e7ula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles s\u00e3o o meu maior patrim\u00f4nio.<br \/>\nMinha vingan\u00e7a foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das For\u00e7as Armadas. N\u00e3o cultivo nenhum \u00f3dio. N\u00e3o sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria seguran\u00e7a no futuro democr\u00e1tico do pa\u00eds. [Depoimento a Luiz Cl\u00e1udio Cunha]<\/p>\n<hr \/>\n<p><em>Luiz Cl\u00e1udio Cunha \u00e9 jornalista, autor de Opera\u00e7\u00e3o Condor \u2013 O Sequestro dos Uruguaios: uma reportagem dos tempos da ditadura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Luiz Cl\u00e1udio Cunha \/ Observat\u00f3rio da Imprensa \/ (19.08.2014) | A mulher serena na frente do homem inquieto. A rep\u00f3rter experiente perante a autoridade calejada. A entrevistadora firme ante o ministro gelatinoso. A profissional de imprensa olho no olho com sua fonte. 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