{"id":16964,"date":"2014-08-20T20:23:22","date_gmt":"2014-08-20T23:23:22","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalja.com.br\/?p=16964"},"modified":"2014-08-20T20:23:22","modified_gmt":"2014-08-20T23:23:22","slug":"freio-de-ouro-a-formula-1-dos-cavalos-crioulos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/freio-de-ouro-a-formula-1-dos-cavalos-crioulos\/","title":{"rendered":"Freio de Ouro, a F\u00f3rmula 1 dos cavalos crioulos"},"content":{"rendered":"<p>Para muita gente, o evento mais marcante da Expointer \u00e9 o Freio de Ouro, competi\u00e7\u00e3o que re\u00fane no primeiro fim de semana da exposi\u00e7\u00e3o (este ano, os dias 30 e 31 de agosto, s\u00e1bado e domingo) os melhores cavalos e \u00e9guas da ra\u00e7a crioula, a favorita dos ga\u00fachos, presente na grande maioria das fazendas pobres ou ricas do Rio Grande do Sul.<br \/>\nFruto de uma \u201cpeneira\u201d anual pela qual passam mais de 1 500 animais (dos quais saem os 96 finalistas que se encontram em Esteio), o Freio de Ouro premia o animal que conseguir a maior pontua\u00e7\u00e3o em oito exames: morfologia, figura e andadura; volta sobre patas, freadas; aparte de gado; pechada; paleteada \u2013 esta, a mais espetacular, na qual dois cavaleiros prensam um novilho em disparada, fazendo-o retroceder.<br \/>\n\u00c9 nessa prova acompanhada ao vivo por milhares de pessoas, inclusive pela TV, que os fot\u00f3grafos se esbaldam.<br \/>\nAlgumas provas s\u00e3o mon\u00f3tonas, quase burocr\u00e1ticas. A andadura mais valiosa \u00e9 o trote (peso 8), que vale o dobro do galope (peso 4), o qual pontua mais do que o tranco (passo), que pesa apenas 3 pontos. Essa contagem de pontos faz sentido numa ra\u00e7a equina mais procurada para o servi\u00e7o cotidiano junto ao gado do que para passeios ou corridas.<br \/>\nO que pouca gente sabe \u00e9 que o regulamento do Freio de Ouro, com 144 artigos e centenas de par\u00e1grafos, manda eliminar da prova de andadura o cavalo marchador, &#8220;por n\u00e3o ser a marcha uma andadura pr\u00f3pria da ra\u00e7a crioula&#8221; (par\u00e1grafo \u00fanico do artigo 49). Os jurados n\u00e3o costumam perdoar: crioulo marchador n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 retirado da competi\u00e7\u00e3o como tem cassado o registro definitivo na Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC). Para os t\u00e9cnicos no assunto, o cavalo marchador \u00e9 defeituoso por trotar de patas trocadas, de tal forma que sua andadura rende menos no servi\u00e7o campeiro. Al\u00e9m disso, o animal marchador se atrapalha ao saltar um obst\u00e1culo, da\u00ed ser tradicionalmente descartado pelo Ex\u00e9rcito, um dos principais interessados na cria\u00e7\u00e3o de um cavalo de qualidade. Evidentemente, os criadores de mangalarga marchador discordam desses crit\u00e9rios.<br \/>\n<span class=\"intertit\">GINETES<\/span><br \/>\nO Freio do Ouro, ensaiado em provas r\u00fasticas no interior ga\u00facho no final dos anos 1970 e introduzido oficialmente em 1982 no parque da Expointer, criou um s\u00f3lido mercado de trabalho para profissionais da equinocultura \u2013 veterin\u00e1rios, zootecnistas, transportadores, guasqueiros, ferrageadores, treinadores e cavalari\u00e7os. Os mais cotados s\u00e3o os treinadores-ginetes, que preparam e montam os candidatos ao FO. Para eles, chegar \u00e0s finais j\u00e1 \u00e9 uma conquista. Uma vit\u00f3ria na grande prova pode triplicar o valor dos animais, enquanto os seus condutores ganham proje\u00e7\u00e3o como treinadores. Alguns t\u00eam torcida fiel nas arquibancadas.<br \/>\nNos bastidores do crioulismo, fala-se que um treinador \u201ctop\u201d ganha pelo menos R$ 20 mil por m\u00eas para treinar a cavalhada mais promissora das cabanhas mais ricas. Al\u00e9m de receber honor\u00e1rios mensais para preparar os animais, os treinadores-ginetes t\u00eam direito a b\u00f4nus por trof\u00e9us conquistados. Mas, como os jogadores de futebol, eles n\u00e3o competem por muito tempo. No fundo, no fundo, a profiss\u00e3o de ginete-treinador \u00e9 do\u00edda e arriscada.<br \/>\nDentre a dezena de ginetes mais em evid\u00eancia no Freio de Ouro, um dos mais cotados \u00e9 Zeca Macedo, de 34 anos. Ganhador de v\u00e1rios trof\u00e9us do FO, ele mant\u00e9m um concorrido centro de treinamento em Rio Grande, com 30 cocheiras ocupadas a maior parte do ano. Para trein\u00e1-los, Macedo emprega uma dezena de ajudantes, mas somente ele monta os animais confiados a seu treinamento. A t\u00e9cnica de preparo dos animais \u00e9 muito pessoal, sem manual e cercada por certa m\u00edstica.<br \/>\nJ\u00e1 enquanto est\u00e3o competindo alguns ginetes se tornam criadores de cavalos e de gado, mas \u00e9 o adestramento de crioulos que lhes d\u00e1 mais renda. Para Guto Freire, 31 anos, com dez animais classificados para as finais deste ano, n\u00e3o tem sobrado tempo para exercer seu oficio de m\u00e9dico-veterin\u00e1rio. Ele passa o dia seu tempo no centro de treinamento que mant\u00e9m em Santo Antonio da Patrulha, a 80 quil\u00f4metros de Porto Alegre, de onde s\u00f3 sai para competir ou fazer uma visita t\u00e9cnica.<br \/>\n<span class=\"intertit\">O SERVI\u00c7AL DO CAMPO<\/span><br \/>\nO preparo de crioulos n\u00e3o dispensa os tradicionais domadores e envolve todo o pessoal que trabalha por sal\u00e1rio ou di\u00e1ria nos centros de treinamento, nos locais de prova e nas fazendas, onde o cavalo ainda \u00e9 o mais eficiente ve\u00edculo de servi\u00e7o com o gado.<br \/>\nUm passeio pelo recinto do Parque de Esteio confirma o quanto o trabalho campeiro gira em torno do cavalo. A ABCCC tem o maior n\u00famero de cocheiras, o maior n\u00famero de animais inscritos e as instala\u00e7\u00f5es mais bem preparadas para suas provas.<br \/>\nDurante a Expointer, com ou sem crise na pecu\u00e1ria, o restaurante da ra\u00e7a crioula mant\u00e9m um permanente clima de festa. E nas ruas do parque h\u00e1 in\u00fameros quiosques vendendo apetrechos de montaria fabricados por guasqueiros (artes\u00e3os de la\u00e7os, r\u00e9deas e afins) que trabalham boa parte do ano apenas para suprir a demanda associada \u00e0 Expointer e \u00e0 Semana Farroupilha.<br \/>\nPara gerir um rebanho de mil cabe\u00e7as de boi, \u00e9 preciso revezar pelo menos 25 equinos. No Rio Grande do Sul, h\u00e1 14 milh\u00f5es de bovinos. E 4 milh\u00f5es de ovinos. \u00c9 no campo, em servi\u00e7o, que se encontra o maior n\u00famero de cavalos crioulos. Eles somam pelo menos um milh\u00e3o de animais no Brasil ou cerca de 20% do rebanho equino nacional, estimado em 4,6 milh\u00f5es de cabe\u00e7as.<br \/>\nA poderosa ABCCC, fundada em 1932 em Pelotas, possui apenas 2 500 s\u00f3cios efetivos, mas tem registrados cerca de 250 mil cavalos (vivos) pertencentes a 20 mil propriet\u00e1rios.<br \/>\nNo Brasil o registro do crioulo s\u00f3 perde para o mangalarga e o mangalarga marchador, que somariam, cada um, cerca de 400 mil animais registrados, segundo estimativas mais ou menos confi\u00e1veis.<br \/>\nEm seguida v\u00eam o quarto-de-milha, o \u00e1rabe e o campolina.<br \/>\nUm cavalo\/\u00e9gua enobrecido(a) pelo registro na ABCCC e pelas medalhas em competi\u00e7\u00f5es pode valer at\u00e9 R$ 500 mil. Desde a cria\u00e7\u00e3o do Freio de Ouro, o crioulo se tornou um neg\u00f3cio, mais at\u00e9 do que um hobby de ricos propriet\u00e1rios de terras.<br \/>\nFoi um salto espetacular que, paradoxalmente, n\u00e3o atinge o interior remoto, onde um bom crioulo de servi\u00e7o, castrado e domado, pode ser comprado por R$ 1 000.<br \/>\nConsiderando que uma doma n\u00e3o sai por menos de R$ 500, pode-se concluir que um cavalo comum vale pouco mais que nada. Como nas can\u00e7\u00f5es, quem mais o valoriza \u00e9 seu pr\u00f3prio dono.<br \/>\n<span class=\"intertit\">RA\u00cdZES ARGENTINAS<\/span><br \/>\nA hist\u00f3ria do crioulo, como ra\u00e7a definida, \u00e9 pouco anterior \u00e0 ABCCC. Descendente dos cavalos trazidos da Europa pelos colonizadores espanh\u00f3is e portugueses, esse cavalo t\u00edpico das fazendas do Sul da Am\u00e9rica teve seu padr\u00e3o estabelecido nos anos 1920 pelo veterin\u00e1rio argentino Emilio Solanet (1887-1979), que foi buscar os bi\u00f3tipos iniciais nas manadas dos \u00edndios da prov\u00edncia de Chubut, junto aos Andes do sul da Argentina.<br \/>\nPara Solanet, que escrevia artigos em La Naci\u00f3n, o maior jornal de Buenos Aires, as principais qualidades do cavalo crioulo eram a rusticidade, a funcionalidade, a longevidade, a habilidade no trato com o gado, a docilidade e a intelig\u00eancia.<br \/>\nPara prov\u00e1-lo, ele teve uma ideia aparentemente maluca: mandou um cavaleiro chamado Aim\u00e9 Tschiffely (nativo da Su\u00ed\u00e7a) viajar de Buenos Aires a Nova York com dois crioulos, Gato e Mancha.<br \/>\nSe fueran. Por aqueles dias de abril de 1925, o \u00e1s do tango Carlos Gardel fazia sua primeira toun\u00e9e pela Europa. A viagem de 20 mil quil\u00f4metros por desertos e geleiras consumiu tr\u00eas anos e cinco meses. Como nas migra\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, era preciso parar para descansos que se prolongavam por causa do clima. De tempos em tempos a viagem era noticiada por La Naci\u00f3n.<br \/>\nA entrada triunfal do ga\u00facho em NY, montado no pingo Gato, a 20 de setembro de 1928, foi consagrada pelo Congresso argentino, que fixou a data como El Dia Nacional del Caballo \u2013 criollo, por supuesto.<br \/>\nPioneira li\u00e7\u00e3o de \u201cmarketing equino\u201d, a proeza argentina entrou para a hist\u00f3ria como um atestado de resist\u00eancia desses animais que durante d\u00e9cadas foram selecionados no Cone Sul por criadores an\u00f4nimos para manejar o gado, transportar cargas e deslocar ex\u00e9rcitos em lutas por territ\u00f3rios ou poder. Nos tempos de paz, quando o contrabando era livre, o vaiv\u00e9m de tropas facilitava o interc\u00e2mbio de cavalhadas. Assim se criou no Pampa o mito do centauro, metade homem, metade cavalo. Em cima, o ga\u00facho; em baixo, o crioulo. N\u00e3o por acaso o melhor pintor da simbiose homem-cavalo no Pampa foi o argentino Molina Campos (1891-1959), cuja obra foi largamente difundida em calend\u00e1rios rurais no Cone Sul.<br \/>\nNo in\u00edcio dos anos 1950, a m\u00edstica do crioulo argentino pairava sobre a fronteira, tanto que o rec\u00e9m-formado veterin\u00e1rio Fl\u00e1vio Bastos Tellechea foi passar um tempo no interior da Argentina, para estudar in loco. Seu objetivo primordial era aprimorar o gado da Fazenda Paineiras, heran\u00e7a do pai, Jo\u00e3o Francisco Tellechea, um dos fundadores da Ipiranga, a primeira refinaria nacional de petr\u00f3leo, criada em 1937. Somente no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 ele e o irm\u00e3o Roberto Bastos Tellechea (diretor da Ipiranga) enveredaram para a cria\u00e7\u00e3o de crioulos. J\u00e1 encontraram ent\u00e3o na pr\u00f3pria Paineiras boas matrizes que seriam do tempo do primeiro Tellechea, um basco chamado Domingos, que se estabeleceu em Uruguaiana em 1865, no come\u00e7o da guerra do Brasil com o Paraguai.<br \/>\nNo in\u00edcio, os irm\u00e3os BT cruzaram crioulos ga\u00fachos, argentinos e uruguaios. Como criador, cavaleiro e juiz de exposi\u00e7\u00f5es equinas, Fl\u00e1vio concluiu que os melhores cavalos para os servi\u00e7os campeiros eram aqueles de bons aprumos dianteiros, pesco\u00e7o mais leve e quartos profundos &#8212; combina\u00e7\u00e3o nem sempre encontrada em crioulos importados da Argentina e do Uruguai, onde os criadores davam mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 morfologia do que \u00e0 funcionalidade.<br \/>\n<span class=\"intertit\">UMA LENDA CHAMADA HORNERO<\/span><br \/>\nEm meados dos anos 1970, em busca de sangue novo, os cabe\u00e7as do crioulismo ga\u00facho come\u00e7aram a comprar garanh\u00f5es de La Invernada, est\u00e2ncia chilena que viera expor em Esteio, num raro movimento de integra\u00e7\u00e3o em plena efervesc\u00eancia das ditaduras militares do Cone Sul. Foi quando os Tellechea compraram o chileno Hornero, marco de uma revolu\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica que chegou a despertar o interesse do general de cavalaria Jo\u00e3o Figueiredo, presidente da Rep\u00fablica (1979-1985), durante uma visita dele a Jaguar\u00e3o, ber\u00e7o das provas que formatariam o Freio de Ouro.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 como negar que, em pouco mais de 30 anos, o FO transformou a cria\u00e7\u00e3o do crioulo num dos ramos mais florescentes da pecu\u00e1ria ga\u00facha. Antigamente, na economia das fazendas, o cavalo ocupava o \u00faltimo lugar, perdendo para os ovinos, que garantiam o custeio, e os bovinos, que traziam os lucros. \u201cHoje em dia, em muitas fazendas, o cavalo \u00e9 o maior neg\u00f3cio, o gado segue em segundo e os ovinos est\u00e3o sumindo na poeira\u201d, diz o veterin\u00e1rio Wilson Aguiar, com mais de 30 anos trabalhando na ABCCC.<br \/>\n<figure id=\"attachment_16962\" aria-describedby=\"caption-attachment-16962\" style=\"width: 251px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Tordiloho-Hornero.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-16962 size-full\" src=\"https:\/\/jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Tordiloho-Hornero.jpg\" alt=\"Tordilho Hornero \/ Foto Divulga\u00e7\u00e3o \" width=\"251\" height=\"188\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-16962\" class=\"wp-caption-text\">Tordilho Hornero \/ Foto Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><br \/>\nNo in\u00edcio, quando o \u00fanico patrocinador do FO era a Ipiranga, os pr\u00f3prios irm\u00e3os Flavio e Roberto Tellechea participavam das provas pioneiras; hoje, sobram patroc\u00ednios e at\u00e9 as 12 provas seletivas regionais s\u00e3o transmitidas pelo Canal Rural, a partir de fevereiro. Os comentaristas de TV conhecem o esporte, que reproduz em raias demarcadas os trabalhos elementares \u2013 e brutais \u2013 com o gado.<br \/>\nEspet\u00e1culo rural levado ao p\u00fablico predominantemente urbano (e indisfar\u00e7avelmente saudoso da vida campeira) de Esteio, o FO n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica competi\u00e7\u00e3o dos cavalos crioulos. A ABCCC mant\u00e9m hoje uma m\u00e9dia de 400 eventos por ano pelo interior. As provas de tiro de la\u00e7o mobilizam cerca de 10 mil la\u00e7adores por ano. O Crioula\u00e7o, cuja final se realiza em janeiro, lota o parque de exposi\u00e7\u00f5es de Esteio. Desde 1971 disputa-se a marcha de resist\u00eancia, na qual os animais precisam percorrer 750 quil\u00f4metros em 15 dias \u2013 uma r\u00e9plica das tropeadas de outrora. Os cavalos crioulos tamb\u00e9m est\u00e3o sendo levados a disputar provas de enduro e de r\u00e9deas, que envolvem outras ra\u00e7as, principalmente o quarto-de-milha. Al\u00e9m disso, nas comunidades rurais do interior, onde pouco se liga para a genealogia dos animais, persistem ainda as corridas de cancha reta, costume campeiro que ignora a decad\u00eancia dos j\u00f3queis clubes, dominados pelo puro-sangue ingl\u00eas e sustentados por apostas.<br \/>\nPor tr\u00e1s de tantas disputas, agita-se um grande mercado de compra e venda de potros, potrancas, matrizes e reprodutores. Ao longo do ano, as cabanhas mais ricas competem na organiza\u00e7\u00e3o de eventos. S\u00e3o festas para quem tem dinheiro \u2013 ou, pelo menos, disp\u00f5e de cr\u00e9dito para pagar suas compras em at\u00e9 50 parcelas. Atualmente, as transa\u00e7\u00f5es em hastas p\u00fablicas envolvendo crioulos giram pelo menos R$ 100 milh\u00f5es por ano, dez vezes mais do que h\u00e1 dez anos. Nos leil\u00f5es da Expointer, o crioulo gira 70% do dinheiro aplicado na compra de animais em geral. Uma potranca de boa filia\u00e7\u00e3o n\u00e3o sai por menos de R$ 30 mil nas noitadas das cabanhas mais prestigiosas. A cobertura de um ganhador do Freio de Ouro custa tanto quanto uma moto. Como um garanh\u00e3o pode cobrir 100 \u00e9guas por ano, a conquista do FO d\u00e1 ao propriet\u00e1rio e ao criador do campe\u00e3o um largo horizonte para trotear tranquilo na senda da fortuna.<br \/>\nO crioulismo est\u00e1 recheado de criadores emergentes, que entram no neg\u00f3cio para aplicar dinheiro amealhado em atividades urbanas \u2013 como, ali\u00e1s, aconteceu com os Tellechea,.que aplicaram na pecu\u00e1ria parte do que ganhavam com o refino de petr\u00f3leo e a venda de gasolina nos postos Ipiranga. Uma das cabanhas mais em evid\u00eancia \u00e9 a La Passi\u00f3n, sociedade entre Chico Bastos Tellechea e Jayme Monjardim, diretor de cinema e TV.<br \/>\nEm meio \u00e0 espiral festiva do crioulismo, a Cabanha Paineiras continua viva em Uruguaiana. Desde a morte de Flavio Bastos Tellechea, em 1990, a empresa \u00e9 gerida por mulheres. No come\u00e7o, ficou sob controle de Lila, a vi\u00fava. Hoje est\u00e1 nas m\u00e3os da primog\u00eanita Maria da Gl\u00f3ria Tellechea Cairoli, que cuida da \u201cporteira afora\u201d, e da ca\u00e7ula Mariana Franco Tellechea, veterin\u00e1ria respons\u00e1vel pela \u201cporteira adentro\u201d.<br \/>\nPara se manter na lideran\u00e7a do mercado, a Paineiras promove tr\u00eas leil\u00f5es por ano para colocar a maior parte de sua produ\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m vendida avulsamente, para criadores mais chegados \u00e0 fam\u00edlia. H\u00e1 sete anos, numa noitada cujas vendas ultrapassaram R$ 3 milh\u00f5es, a Paineiras vendeu por R$ 675 mil a campe\u00e3 BT Doriana, 16 anos, uma das \u00faltimas filhas de Hornero, imprimiu seu DNA em 70% dos ganhadores do Freio de Ouro.<br \/>\nUma das hist\u00f3rias mais incr\u00edveis do Freio de Ouro \u00e9 que Hornero, um lindo tordilho, foi desclassificado na prova de morfologia por apresentar um sobreosso na canela &#8212; na \u00e9poca, considerado defeito fisiol\u00f3gico. N\u00e3o para os Bastos Tellechea, que colocaram no animal sua marca BT. Morto em 1997, Hornero deixou mais de 1,3 mil filhos no Brasil, tornando-se a lenda recontada por todos os que viram nascer o Freio de Ouro. N\u00e3o \u00e9 de estranhar, portanto, que os cavalos crioulos sejam cantados em prosa e verso pelos chamados cantores nativistas, que dominam os shows das agrofestas sulinas.<br \/>\nJoca Martins tem dois CDs cujo tema central \u00e9 o cavalo crioulo. Com letras de Rodrigo Bauer, ele canta rancheiras, milongas, chacareras e chamam\u00e9s enaltecendo cabanhas, cavalos, est\u00e2ncias e ginetes. Os versos t\u00eam rimas bizarras e suas met\u00e1foras lembram os sambas-enredo do carnaval carioca. Em Rodopio de S\u00e3o Pedro, can\u00e7\u00e3o em homenagem ao tordilho ganhador do Freio de Ouro 2008, a dupla Bauer-Martins descreve as principais aptid\u00f5es exigidas dos animais:<br \/>\n\u201c\u00c9 o Rodopio de S\u00e3o Pedro, tordilho alma de touro;<br \/>\nPingo que sabe o segredo pra ganhar o freio de ouro;<br \/>\nFun\u00e7\u00e3o e morfologia, ra\u00e7a, coragem e \u2018brio\u2019;<br \/>\nA noite parece o dia quando chega o rodopio&#8230;<br \/>\nAparta, pecha e esbarra, galopa, trota e tranqueia;<br \/>\nQuem busca o freio com garra, n\u00e3o teme a volta feia;<br \/>\nCorre o bovino sobrando, retoma e n\u00e3o vira o fio;<br \/>\nLevanta terra girando, que afinal \u00e9 um rodopio&#8230;\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para muita gente, o evento mais marcante da Expointer \u00e9 o Freio de Ouro, competi\u00e7\u00e3o que re\u00fane no primeiro fim de semana da exposi\u00e7\u00e3o (este ano, os dias 30 e 31 de agosto, s\u00e1bado e domingo) os melhores cavalos e \u00e9guas da ra\u00e7a crioula, a favorita dos ga\u00fachos, presente na grande maioria das fazendas pobres [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[1864,1511,1865],"class_list":["post-16964","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-x-categorias-velhas","tag-cavalo-crioulo","tag-expointer","tag-freio-de-ouro"],"aioseo_notices":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbQjBd-4pC","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16964","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16964"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16964\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16964"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16964"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/arquivo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16964"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}